Semana duzentos e trinta e quatro

 

 

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Restinga, de Miguel del Castillo

“Restinga” traz dez contos e uma novela que aparecem dentro de um projeto literário forte e novo, em histórias que alternam entre a delicadeza, a solidão e as relações de amor e amizade. É um testamento afetivo que reforça o poder da literatura no contínuo embate com a história. Ao fim do livro, a novela ” Laguna” amplia e aprofunda os temas do autor, numa vertiginosa narrativa sobre a paixão, as viagens, os laços que nos unem e a fragilidade das nossas amarras.

A Casa Assombrada, de Jonh Boyne (Tradução Henrique de Breia e Szolnoky)
Antes da morte do pai, a jovem Eliza levava uma vida privilegiada. Determinada a deixar as lembranças tristes para trás e reconstruir sua história em outro lugar, ela vê a oportunidade perfeita em um anúncio de governanta, que busca alguém para cuidar das crianças de um casarão no leste da Inglaterra. Mas ela nunca poderia suspeitar o que a aguardava nesse novo trabalho. Há uma presença maligna à espreita da casa, e Eliza se vê em uma guerra de nervos contra esse adversário desconhecido, invisível (e talvez imaginário).

Portfolio Penguin

Reinventando o Capistalismo de Estado, de Aldo Musacchio e Sergio G. Lazzarini (Tradução de Afonso Celso da Cunha Serra)
A onda de liberalização que varreu os mercados nas décadas de 1980 e 1990 afetou as maneiras como os governos gerenciam as suas economias. Dentro desse contexto, o livro de Aldo Musacchio e Sergio G. Lazzarini analisa a ascensão de uma nova espécie de capitalismo de Estado, em que os governos interagem com os investidores privados e, muitas vezes, usam sua influência para auxiliar setores ou empresas de olho em dividendos políticos. Entre os exemplos estudados estão o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Petrobras e a Vale.

Companhia das Letrinhas

O Escuro, Lemony Snicket (Tradução de Érico Assis e ilustrações de Jon Klassen)
Luca tem medo do escuro, mas o escuro não tem medo dele. Os dois vivem na mesma casa, mas o escuro quase não sai do porão. Até que, uma noite, ele resolve sair. Vai ao quarto de Luca e o convida para descer até o cômodo mais sombrio da casa. E é lá que o menino percebe que até para o seu maior temor existe uma solução.

Neste livro, Lemony Snicket fala com sensibilidade sobre o mais comum dos medos e mostra que enfrentá-lo pode ser menos difícil do que parece.

 

 

Pólvoras

Por Paulo Scott

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Em que ano e para qual geração recente o século XX se tornará por completo um século antigo e incompreensível? Um século de comportamentos e lógicas não mais compatíveis? Difícil dizer. Por certo não será minha geração que sentirá esse descompasso; por certo o olhar divisor desse eventual quadro de ciclos, e o desfazimento da simetria entre os seus vagões, não será o meu. Ainda assim, tenho lidado com a sensação crescente de que já não conversam na mesma linguagem, no mesmo desassossego, o século que me formou e este século no qual me encontro.

Durante o ano de dois mil e catorze, manifestação alguma me deixou mais entregue à noção de estar (definitivamente embarcado) em história que vem se encarregando de me fazer esquecer as tatilidades do século XX, do que a declaração de uma tradutora francesa, em debate ocorrido em São Paulo, dizendo ter certeza que, em pouquíssimos anos, por causa dos esforços e interações diárias e adesões dos melhores tradutores e especialistas em linguísticas espalhados pelo mundo interagindo com essa ferramenta, o Google Tradutor seria capaz de traduzir um romance brasileiro para o francês, para o inglês, com um grau impressionante de proficiência.

O choque se renovou quando alguém da plateia, dizendo-se pesquisador universitário (desculpem, mas não consigo me lembrar em que grau) envolvido em processos de acompanhamento e contribuição à mencionada ferramenta do Google, disse que a formulação da tradutora francesa estava longe de ser absurda, antes pelo contrário.

Na condição de integrante da mesa por ser autor brasileiro traduzido do português para outras três línguas, nada além, desconectei por completo as chaves e fiações que poderiam me levar a outra intervenção naquele debate, a dizer algo que estivesse à altura, não que estivesse à grande altura, do que falei minutos atrás, quando contei da minha experiência com os tradutores dos meus textos e também quando informei a respeito de encontros ocorridos em eventos literários nos quais dois tradutores submetem suas traduções feitas a partir de um texto específico e, sob o arbitramento de um terceiro tradutor, procuram chegar, ali diante de todos, ao que seria uma boa tradução, e — tentando achar meu esforço para traduzir um poema em inglês, era um do Dylan Thomas, para a língua da minha pátria e sem saber que, meses depois, o Google Tradutor lançaria um olhar, um olho, para ficar dentro do meu celular, que se corretamente apontado para um texto em língua estrangeira mastigaria a língua estrangeira, regurgitando a familiaridade da língua da minha pátria num estalar de dedos — fiquei acompanhando a conversa, aquela boa conversa, sem tentar acrescer mais nada.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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O oceano e o dedal: meu problema com as biografias no cinema

Por Ana Maria Bahiana

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Cena de Jimi: All Is By My Side.

Nesta época do ano, aqui como aí (e pelo mundo afora), os multiplexes se enchem de um tipo muito específico de filme. Aqui nas internas ele é conhecido como “Oscar bait”: isca de Oscar. É aquele filme muito bem feito (mas jamais ousado ou irreverente), com excelente qualidade de produção e bons atores, em geral em papéis opostos à sua imagem pública (um ator conhecido pela comédia num papel dramático, uma atriz muito bonita vivendo uma personagem despojada ou feia) e/ou com sérios problemas físicos.

Tudo isso é tão previsível que já deixou de me incomodar. Como votante de um desses prêmios grandões, eu procuro estar absolutamente consciente das “iscas”. Para compensar, procuro os filmes que são o oposto dessa fórmula, numa tentativa de contrabalançar as escolhas de quem morde o anzol (às vezes consigo…). E às vezes até voto numa “isca”, não por seu sabor formulaico, mas porque ali dentro tem, de verdade, um grande filme.

O meu grande problema não é nem essa repetição de elementos manjados: é o fato de que grande parte dessas “iscas” são biografias.

Lembram aquela conversa toda, aqui mesmo, sobre a extrema dificuldade de adaptar um livro para o cinema, pelo puro fato de que é como colocar um oceano num dedal? Com biografias é ainda mais complicado.

Vidas são longas narrativas, complexas, repletas de nuances, atalhos e contradições, e os 90-120 minutos de um filme exigem clareza, simplicidade, estrutura. Mesmo quando leio uma boa biografia, sempre me vejo com mais perguntas do que respostas, eternamente me perguntando se os fatos são o suficiente para compreender o mistério de uma trajetória pelo planeta Terra. E isso é num livro, com o tempo e a pausa que a leitura proporciona. Como, então, empacotar esse mistério no curto tempo de tela?

Por isso tantas cinebios andam em círculos, reduzem, compactam e, em última análise, distorcem narrativas ricas, complicadas. E lá vem os cinco personagens em um só. E lá vem as frases de efeito. E as montagens… ah, não vou nem falar das montagens…

Eu compreendo que tudo isso é essencial para a compressão da narrativa de uma vida num filme. Eu é que sempre espero uma solução mais elegante.

Existem, por exemplo, as biografias imaginárias. Todd Haynes tornou-se quase um especialista nelas, com Velvet Goldmine (David Bowie + Lou Reed nos anos 1970, à clef) e I’m Not There (Bob Dylan por qualquer outro nome ainda é Bob Dylan). Pode-se argumentar que a Marie Antoinette de Sofia Coppola pode estar nesta lista — a trágica rainha da França como uma adolescente entediada do século 21. E o delicioso Grande Hotel Budapeste de Wes Anderson é quase a biografia imaginária de um momento da vida de Stefan Zweig.

Aliás, escolher um momento numa vida é uma das melhores soluções para o enigma da biografia na tela. Em vez da compressão, o instante definidor, a escolha que ilumina e define uma trajetória.

A safra 2014-2015 tem alguns bons exemplares desse tipo de opção. O minúsculo Jimi: All Is By My Side, estreia na direção de John Ridley, roteirista premiado de 12 anos de escravidão (que por sua vez é uma excelente adaptação de uma obra literária centrada num momento definidor) consegue o milagre de flagrar o complicadíssimo Jimi Hendrix no momento mais misterioso de sua vida —  a transição da obscuridade para a fama, e daí para o mito (e faz tudo isso sem colocar uma única música de Hendrix na trilha, coisa impossível para quem estava trabalhando com um orçamento diminuto).

Outro bom exemplo é Selma, de Ava DuVernay: como o Lincoln de Steven Spielberg , que não tentou comprimir a vasta vida do décimo sexto presidente dos Estados Unidos, e sim expandir o momento em que ele se definiu na batalha pelo fim tanto da escravidão quanto da guerra civil norte-americana. Selma foca no ano de 1965 e em Martin Luther King como um jovem pastor e líder comunitário e sua decisão de enfrentar as estruturas racistas do sul dos Estados Unidos com um simples gesto: caminhar da cidade de Selma até a cidade de Montgomery, no coração do estado mais segregacionista da união, o Alabama, tendo como ponto final o escritório de registro eleitoral, que se recusava a cadastrar eleitores negros. É uma provocação, e ele sabe disso: a provocação que, ele pensa, forçará a mão do presidente Lyndon Johnson na direção de um conjunto de medidas que tornará ilegal qualquer ato de discriminação racial.

É um pedaço de história e um pedaço de vida, mas, tratados com sensibilidade e inteligência, iluminam tantos cantos diferentes, aquelas esquinas onde o pessoal e o histórico se cruzam. Muito, muito melhor que tentar comprimir o oceano de uma vida no dedal de um filme.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Companhia das Letras chega a Portugal

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É com muita alegria que o Grupo Companhia das Letras informa que, em iniciativa conjunta com o Penguin Random House Grupo Editorial, o selo Companhia das Letras será também publicado em Portugal. O primeiro livro a ser lançado no mercado português agora em fevereiro é o romance O irmão alemão, de Chico Buarque, que já teve 100 mil cópias impressas no Brasil.

A criação deste selo leva a Portugal nomes consagrados, clássicos e contemporâneos, da literatura brasileira. Para 2015 estão garantidos, além de Chico Buarque, os clássicos Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade, e nomes como Fernanda Torres, Sérgio Rodrigues e Raphael Montes. No Brasil, a Companhia das Letras passa a intensificar a publicação de autores portugueses. Já neste ano, será publicado o romance A Biografia involuntária dos amantes, de João Tordo, autor vencedor do Prêmio José Saramago.

Em Portugal, a Companhia das Letras será o selo dedicado à publicação de autores de língua portuguesa de todas as nacionalidades, com 12 títulos planejados já para 2015. Assim, os novos romances dos portugueses Afonso Cruz e João Tordo e um livro de textos do angolano Ricardo Adolfo sairão também pelo selo Companhia das Letras.

Markus Dohle, CEO da Penguin Random House, afirmou sobre a iniciativa: “A Companhia das Letras é reconhecida no Brasil e a nível global pelo seu fôlego criativo e qualidade literária. Agora, em parceria com a Penguin Random House, a Companhia das Letras Portugal continuará essa tradição de excelência e assegurará uma audiência ainda maior para autores locais e autores de língua portuguesa de todo o mundo, cujas obras, contemporâneas ou clássicas, serão lidas por um público mais vasto, dos dois lados do Atlântico. Felicitamos o Luiz Schwarcz e a Clara Capitão por este passo adiante para autores e leitores em Portugal e no mundo inteiro.”

John Makinson, chairman da Companhia das Letras, disse: “A criação do selo Companhia das Letras em Portugal é uma extensão natural e desejada da posição preeminente da Companhia no mercado editorial brasileiro. A Companhia não tem par como editora literária no Brasil e nos dá grande satisfação saber que as suas qualidades e relações literárias e a sua marca de prestígio irão enriquecer a comunidade editorial em Portugal. O lançamento desta iniciativa foi planejado em consulta próxima com as empresas-irmãs da Companhia das Letras no âmbito da Penguin Random House: o Penguin Random House Grupo Editorial em Barcelona e a Objetiva no Rio de Janeiro. Isso evidencia a força e o potencial da associação entre a Companhia e a família Penguin Random House em todo o mundo.”

“Estou muito feliz! Esta frase tão simples, com todas as exclamações possíveis, é a que mais me atrai para dizer como me sinto. Viajar com nossos logotipos – entre eles uma caravela, como a que trouxe os portugueses ao Brasil –, cruzar o Atlântico e reproduzir nossa história, agora com a contribuição e liderança da Clara Capitão, me deixam animado ao extremo. A Companhia agora chega a Portugal para mostrar um pouco da sua cara na terra de José Saramago e de tantos escritores que ligaram ainda mais nossos países. E por aqui será um pouco mais portuguesa, com a mesma alegria”, afirma Luiz Schwarcz, fundador da Companhia das Letras.

Núria Cabutí Brull, CEO do Penguin Random House Grupo Editorial, afirmou: “Para o Penguin Random House Grupo Editorial é uma honra poder anunciar a chegada do selo Companhia das Letras aos leitores portugueses. Quero agradecer ao meu colega Luiz Schwarcz o seu entusiasmo, apoio e ajuda para que este projeto se tenha convertido hoje em realidade. Cuidaremos deste grande legado com a máxima atenção e os nossos esforços serão dirigidos a dar a maior difusão possível aos autores e às suas obras e a aumentar a nossa base de leitores em Portugal, mercado em que queremos reforçar a nossa presença”.

Clara Capitão, diretora do Penguin Random House Grupo Editorial em Portugal, declara: “Desde que trabalho no mundo da edição que a Companhia das Letras é uma referência: pelo critério, pelo arrojo, pelo bom gosto. Sobretudo, pelo excelente catálogo brasileiro e internacional que soube construir, sob a direção de Luiz Schwarcz. Poder trabalhar com uma chancela de tal prestígio é um sonho e uma responsabilidade. E também uma oportunidade para autores da língua portuguesa de terem uma casa nos dois lados do Atlântico. Inaugurar a Companhia das Letras em Portugal com a obra de Chico Buarque é abrir com chave de ouro.”

Entrincheirados no balcão

Por Joca Reiners Terron

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1.
Em 1972, depois de assaltar a casa onde hoje fica a Livraria da Vila, o ladrão anarquista Guido Amleto Meneghetti subiu a Fradique Coutinho com guardas no seu encalço. Esbaforido, dobrou à direita na Rodésia e resolveu entrar no boteco de seu Albino.

Meneghetti tinha 92 anos.

Foi a última vez que bebeu em liberdade.

2.
A família Benuthe comprou o bar do seu Albino no ano seguinte, em 1973, e a Mercearia São Pedro (instalada na rua Rodésia desde 1968) começou também a vender molhados, além de secos.

3.
Me ocorre agora que ao morrer em Madri em novembro de 1936, Buonaventura Durruti tinha apenas a muda de roupa, um par de binóculos, duas pistolas, os óculos escuros e uma sede danada.

4.
A primeira vez que arremessaram um legume em Betina foi também a primeira em que ela foi à Mercearia São Pedro. Depois de atravessar a rua e se sentar numa cadeira na calçada, uma abobrinha caiu em seu colo.

5.
Pombinho foi o primeiro a ver o fantasma de Meneghetti diante da Mercearia, num final de tarde de 1976. O anarquista estava em pé, encostado no poste, e ainda tomava sua taça de vinho tinto. Pombinho latiu, pois aquele era o poste onde costumava mijar.

6.
Pombinho era o cachorro do Larilarai, o bêbado mais folclórico da Vila Madalena. Os dois morreram de tanta cachaça: Pombinho de cirrose, Larilarai não se sabe ao certo — numa noite de 1982, depois de sentar no “banquinho do Meneghetti”, ele desapareceu.

7.
Enquanto via seu corpo ser jogado numa vala comum pelos camisas negras de Mussolini, Enrico Malatesta pensava que uma cerveja viria a calhar, “Afinal não há melhor lugar para se entrincheirar do que um balcão”. Os fascistas não desejavam ver o túmulo de Malatesta transformado num símbolo anarquista.

8.
Há trinta anos, todos os dias, seu Sorrentino bebe um conhaque, porém nos anos bissextos pede duas taças. Uma taça é para ele mesmo, a outra coloca diante de si, do outro lado da mesa. Nessas ocasiões seu Sorrentino conversa longamente em italiano, mas nenhum garçom ousa perguntar com quem.

9.
Depois de trabalhar no Cineclube Oscarito, Marquinhos Benuthe iniciou em 1985 a projeção de curtas-metragens na Mercearia. O primeiro filme foi Dov’e Meneghetti, de Beto Brant.

10.
Às 23h30 de uma noite de 1998, Betina achou um pimentão amarelo dentro de sua bolsa.

11.
O cantor australiano Nick Cave mudou-se para São Paulo em 1990. Depois de alguns dias perdido pela cidade, foi parar na Mercearia São Pedro. Lá, ele começou a bater cartão todos os dias. Os clientes achavam que ele era um sósia e se espantavam com sua semelhança com um certo cantor de rock australiano.

12.
O culpado pelo França ter começado a trabalhar na Mercearia em 1992 foi o Magrão. O França continua por lá, porém o Magrão deve estar queimando no inferno para onde vão os garçons quando cometem atos imperdoáveis.

13.
França viu o fantasma de Meneghetti no final de uma noite fria de 1993. Nem ligou, pois não acreditava em fantasmas. O fantasma também não lhe deu crédito, já que não acreditava em pigmeus.

14.
Depois de um pico de heroína batizada e dez doses de uísque, Nick Cave ficou horas na locadora de vídeo nos fundos da Mercearia procurando um filme, ele próprio não sabia qual. Foi quando o fantasma de Meneghetti apareceu e lhe sugeriu qualquer coisa dos Irmãos Marx.

15.
Diz uma lenda da Mercearia São Pedro que se o cliente sentar-se no “banquinho do Meneghetti” aquela será sua última bebida.

16.
Ao atravessar a Rodésia em direção à Mercearia numa noite de 2001, Betina recebeu do carro que passava uma berinjela siamesa que lhe foi arremessada. Ela ficou feliz por não ter sido uma jaca.

17.
Andando pela Broadway em 2002, Nick Cave viu uma foto de Buonaventura Durruti na vitrine da livraria Shakespeare & Co. Ao lado do anarquista espanhol estavam dois homens que Cave teve a nítida impressão de conhecer. Um deles era o fantasma que vira anos atrás, na Mercearia. O outro parecia o seu Sorrentino, um velho cliente do bar, mas como poderia ser?

18.
Em torno das 11h da manhã de sábado, 21 de setembro de 2003, a cozinheira afoita chamou Pedro Benuthe até a cozinha. De dentro do caldeirão da feijoada ela retirou com a colher de pau um colar de ouro e pedras preciosas. Na parte de trás da maior gema havia um entalhe de brasão familiar. Depois de consultado um especialista, descobriu-se que a joia havia sido roubada por Meneghetti da mansão Matarazzo em 1936.

19.
Toda vez que vem a São Paulo participar da Mostra de Cinema, o cineasta alemão Peter Sempel faz questão de cumprimentar os amigos na Mercearia São Pedro. Ele fica horas lá sentado, tomando cerveja, mas às vezes desaparece entre as estantes da locadora de vídeo. Marquinhos diz que Sempel aproveita para fazer uma consultoria com Meneghetti. É só verificar nos créditos de seu filme mais conhecido, Punk + Glory — argumento: Guido Amleto Meneghetti.

20.
No começo de 2004, depois de beber uma cerveja sentado no “banquinho do Meneghetti”, Bijóia foi para casa, porém antes resolveu tomar a saideira num boteco da rua Harmonia. Enquanto bebia começou a chover, e Bijóia entornou mais cinco “saideiras”, aguardando o pé-d‘água passar. Quando enfim resolveu ir embora, tropeçou na calçada, bateu a cabeça no meio-fio e se afogou na enxurrada.

21.
A confusão se estabelece todas as noites entre os garçons da Mercearia São Pedro. Nessas ocasiões em que França briga com Neto por causa das comandas e Dario alisa os bigodes, procure não prestar atenção apenas na anarquia promovida por eles. Você poderá ouvir uma gargalhada com nítido sotaque italiano vinda bem lá do fundo do bar.

[Conto em homenagem à Mercearia São Pedro, meu bar predileto de toda vida, publicado originalmente em Uma antologia bêbada (2004), volume que reunia textos de 17 escritores habituês.]

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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