Semana duzentos e trinta

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Obras Completas de José Saramago Vol. 1 e 2
Toda a obra de José Saramago será reunida nos volumes de Obra Completa, que já tem duas edições prontas. No primeiro volume, estão os livros Memorial do convento, Levantado do chão, Manual de pintura e caligrafia, O ano de 1993 As pequenas memórias. O segundo volume contém as obras Ensaio sobre a cegueira, Ensaio sobre a lucidez, Que farei com este livro?, In Nomine Dei Don Giovanni ou o dissoluto absolvido. 

A balada de Adam Henry, de Ian McEwan (Tradução de Jorio Dauster)
A personagem central é Fiona Maye, uma juíza do Tribunal Superior especialista em Direito da Família. Ela é conhecida pela “imparcialidade divina e inteligência diabólica”, na definição de um colega de magistratura. Mas seu sucesso profissional esconde fracassos na vida privada. Prestes a completar sessenta anos, ela ainda se arrepende de não ter tido filhos e vê seu casamento desmoronar. Assim que seu marido faz as malas e sai de casa, Fiona tem de lidar com o caso de um garoto de dezessete anos chamado Adam Henry. Ele sofre de leucemia e depende de uma transfusão de sangue para sobreviver. Seus familiares, contudo, são Testemunhas de Jeová e resistem ao procedimento. O dilema não se resume à decisão judicial. Como nos demais casos que julga, Fiona argumenta com brilho em favor do racionalismo e repele os arroubos do fervor religioso. Mas Adam se insinua de modo inesperado na vida da juíza. Revela-se um garoto culto e sensível e lhe dedica um poema incisivo: “A balada de Adam Henry”. A crise doméstica e o envolvimento emocional com Adam, que oscila entre a maternidade reprimida e o desejo sexual, desarrumam sua trajetória de vida exemplar, trilhada com disciplina espartana desde a infância.

O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, de Sérgio Sant’Anna
Neste livro, o conto ganha novas abordagens, num registro que combina com maestria a alta e a baixa literaturas, o erudito e o pop, o sagrado e o por vezes indescritivelmente profano. Num tom cortante e desconcertante, o autor passeia por cenários familiares e aponta ao leitor as possibilidades narrativas escondidas por eles. Onde vemos esgotamento, o autor vê um campo de possibilidades, como se o mundo enxergado por ele exigisse uma radicalização da linguagem e das formas de expressão. Publicado no início dos anos 1980, O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro arrebatou crítica e público, e colocou Sant’Anna definitivamente no mapa das letras brasileiras. Um livro que marcou o início de uma geração deliciosamente livre, e cujas influências se fazem sentir até os dias de hoje.

Judas, de Amós Oz (Tradução de Paulo Geiger)
Em Judas, Shmuel Asch é um estudante que se vê em apuros no inverno de 1959: sua namorada o deixou, seus pais faliram e ele foi obrigado a abandonar os estudos na universidade e interromper sua pesquisa — um tratado sobre a figura de Jesus sob a ótica dos judeus. Passado o desespero inicial, ele encontra morada e emprego numa antiga casa de pedra, situada num extremo de Jerusalém. Durante algumas horas diárias, sua função é servir de interlocutor para um velho inválido e perspicaz. Na mesma casa, vive uma mulher bonita e sensual chamada Atalia Abravanel, com quase o dobro de sua idade. Shmuel é atraído por ela, até que a curiosidade e o desejo transformam-se numa paixão sem futuro. Neste romance cheio de lirismo, Amós Oz retorna ao cenário de alguns de seus livros mais apreciados, entre eles Meu Michel e De amor e trevas: a Jerusalém dividida em meados do século XX. Ao lado de seus personagens, Oz é corajoso o bastante para questionar o estabelecimento de um estado para os judeus, com suas consequentes guerras, e se pergunta se seria possível eleger um caminho histórico diferente.

Casei com um comunista, de Philip Roth (Tradução de Rubens Figueiredo) (Bolso)
Menino pobre e ignorante que fugiu da casa dos pais, trabalhador braçal sempre metido em brigas, Ira Ringold conseguiu se tornar um ator de rádio famoso. Comunista exaltado e linha-dura, Ira se atira com ferocidade contra tudo o que julgue ser um inimigo. No auge da carreira, ele faz fama como defensor de causas “progressistas” e se casa com uma atriz de cinema-mudo, Eve Frame. Jamais imaginaria que ela pudesse se voltar contra ele com tamanho ímpeto. Em plena era do macarthismo, quando ser adepto do comunismo equivalia a crime, Eve escreve um livro intitulado Casei com um comunista, pondo a nu, diante do público e das autoridades, a vida dupla do astro do rádio. Nessa história sobre crueldade, traição e vingança, Philip Roth, o grande cronista da vida americana no século XX, faz um brilhante retrato ficcional do pós-guerra, época em que a febre anticomunista não contagiava apenas a política, mas traumatizava os recantos mais íntimos da vida de amigos e famílias, pais e filhos, maridos e esposas.

Editora Paralela

Somente sua, de Sylvia Day (Tradução de Alexandre Boide e Juliana Romeiro)
Chega às livrarias o quarto livro da série Crossfire. “Gideon me chama de anjo, mas é ele o milagre na minha vida. Meu deslumbrante guerreiro ferido, determinado a destruir meus demônios, ao mesmo tempo em que se recusa a encarar os seus. Os votos que trocamos deveriam ter nos deixado mais próximos do que nunca. Em vez disso, abriram feridas antigas, expuseram dor e insegurança, e atraíram os meus inimigos a sair das sombras. Senti que ele se distanciava. Meus maiores medos pareciam virar realidade; meu amor estava sendo testado, me deixando em dúvida se seria forte o suficiente para aguentar.”

Orações do povo brasileirode Carolina Chagas
O guia definitivo dos santos e orações mais requisitados ao redor do Brasil. Carolina Chagas já vendeu milhares de cópias dos seus livros sobre os santos com mais devotos. Para este livro, fez um levantamento em gráficas e igrejas para saber quais são as orações que mais ajudam os fiéis brasileiros.

Companhia das Letrinhas

O amor pega feito um bocejo, de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, ilustrações de Rogério Coelho
Maquiagem vermelha para ir à igreja, esquecer o fogo ligado, tropeçar nos tapetes pela casa… Pelo jeito, a tia Cátia anda meio avoada, por isso seu sobrinho resolve levá-la para morar com sua família. Com rimas divertidas, o autor deste livro narra as mudanças no dia a dia familiar e os causos engraçados dessa nova convivência. Rapidamente, a tia conquista o coração daqueles que estão ao seu redor — e também do leitor, que logo passa a se reconhecer nas confusões da simpática senhora.

Charlie Brown e a Grande Abóbora de Halloweende Charles M. Schulz (Tradução de André Conti)
Neste episódio clássico, a turma de Charlie Brown comemora mais um Halloween e, mantendo a tradição, Linus espera convicto pela Grande Abóbora. Enquanto isso, o resto do pessoal vai para uma festa, mas alguns convidados resolvem usar fantasias bem estranhas… O leitor vai se divertir com a criatividade de Snoopy e com o pobre Linus, que mais uma vez vira a piada do bairro.

Feliz Dia dos Namorados, Charlie Brown, de Charles M. Schulz (Tradução de André Conti)
Snoopy e seus amigos estão animados para o Dia dos Namorados. Mas o pobre Charlie Brown vai se frustrar de novo! Mesmo com várias pretendentes, o garoto resolve se declarar para a Menininha Ruiva, que não parece muito animada com o amor de alguém de quem ela mal se lembra…

É hora da escola, Charlie Brownde Charles M. Schulz (Tradução de André Conti)
Neste livro pensado especialmente para o público infantil, os leitores vão se divertir com mais um fracasso do dono de um dos cachorros mais queridos dos quadrinhos. Afinal, as aulas voltaram e Charlie Brown resolveu participar de uma competição de soletrar. Não é preciso saber muito sobre o garoto azarado e medroso para saber qual será o final dessa história.

Amigos para semprede Charles M. Schulz (Tradução de André Conti)
Neste livro, Snoopy demonstra ser, além de muito inteligente, um amigo exemplar. Ele prova como é parceiro, compreensivo, carinhoso… e engraçado, claro. Crianças e adultos vão se divertir e se emocionar com as pequenas lições de companheirismo dadas por ele e por toda a turma do Charlie Brown.

Resultado: Concurso cultural Ilustre e-book O conto da ilha desconhecida, de José Saramago

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Ilustração escolhida no concurso.

Temos a honra de anunciar que o vencedor do Concurso cultural “Ilustre o e-book O conto da ilha desconhecida, de José Saramago“, para escolher um ilustrador para a nova edição do e-book, foi Juergen Cannes.

Juergen Cannes, 26 anos, é um ilustrador da cena independente de Porto Alegre. Estudante quase jubilado do curso de Letras-Francês da UFRGS, já atuou como vendedor de livros em sebo, figurinista, jurado de concurso de cachorros, modelo e homem forte na colheita de uma plantação de rosas. Há três anos tem um projeto chamado “Cenas do mundo no fim do pescoço”, que consiste em uma série de retratos dos pequenos dramas de seus personagens: pessoas com excesso de imaginação e pescoços longuíssimos, acompanhadas de monstros floridos e cheios de textura. Já participou de mostras culturais de poesia e literatura, em eventos coletivos com jovens artistas. Seus trabalhos são atualmente postados na página www.facebook.com/sailor.juergen. Abaixo, o vencedor fala um pouco sobre como chegou à ilustração escolhida.

“Se eu soubesse onde mora o rei, com certeza amanhã cedo eu estaria lá, dizendo: cara, você, majestade, me dá um barco.

O conto da ilha desconhecida é maravilhoso. Eu amo a ilha do Saramago. E eu falo “do” Saramago porque gosto imenso da voz dele (que meus olhos fazem escutar) e me sinto próximo e com direito a intimidade. É fabuloso quando algo tão bem humorado e cheio de imagens irresistíveis pode ser tão carregado de significados gigantescos e fundamentais. Fiquei profundamente envolvido com o personagem que se vê rodeado por um mundo que é incapaz de aceitar a clareza com que se mostra o desconhecido. Há uma dependência extrema em se acreditar que se sabe de algo (como se nomes e mapas fizessem realmente sentido de pedra). Foi mágico poder desenhá-lo, o marujo metafísico. Mas eu não sabia, passei dias desenhando o mar (quase ficando cego). Minhas maiores influências imagéticas são Hayao Miyazaki, Abbas Kiarostami e João Cabral de Melo Neto. O comprometimento obsessivo com o feito à mão do incomparável japonês, o sublime uso de recursos do iraniano, e a perfeita edição do homem-cabra são meus pontos cardeias na busca pela beleza. Então desenhei um homem sentado fora de proporção e quis me jogar pela janela. Foram quatro mares desperdiçados. Então, de repente, ele apareceu, com seus lindos cabelos de coqueiro, e trazia um barco na mão.

Eu soube que era ele.

Estou muito feliz explodindo. É realmente surreal e uma honra infinita e dourada ilustrar o trabalho de um homem gênio-montanha-continente-voador.”

A Companhia das Letras agradece a todos que enviaram suas propostas para o concurso.

 

 

 

O projeto como pólen: sonhamos, portanto existimos

Por Ana Maria Bahiana

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Uma das imagens do documentário Jodorowsky’s Dune. 

Para onde vão os projetos que nunca são feitos? Que tipo de limbo entre-mundos acolhe essas ideias tantas vezes nutridas por intenso amor e  gestadas com o ardor das grandes paixões e que, por algum jogo de dados da Fortuna, jamais se manifestam plenamente?

Existe a Gaveta, a proverbial e eterna Gaveta. Todos nós temos a Gaveta, nem que ela seja uma caixa, uma pasta, uma cesta. Seria a Gaveta a estação terminal, então?

Eu acho que não. Acho que, como tudo na Natureza, toda energia se transforma em alguma outra coisa.

Vendo afinal o excelente documentário Jodorowsky’s Dune minhas suspeitas foram confirmadas.

Um pouco de pano de fundo: autor, ator, mímico, artista plástico, dramaturgo, cineasta, Alejandro Jodorowsky nasceu no Chile em  1929, numa família de judeus da Ucrânia, e foi um dos luminares da contracultura graças, principalmente, a dois filmes: o western psicodélico El Topo, de 1970, e a acid-trip filosófica-esotérica A Montanha Sagrada, de 1973. Dizer que Jodorowsky usa livre-associação, com um pé em Jung e outro no xamanismo-budismo, é empregar uma definição extremamente restrita. Melhor usar as próprias palavras dele, logo no começo do documentário: “Eu sempre quis criar a sensação de estar viajando de ácido. Não que a pessoa precise viajar de ácido para ver meus filmes, claro. Eu queria criar a sensação de viajar de ácido sem precisar tomar ácido”.

Em 1974 um grupo de produtores franceses adquiriram os direitos de Duna, o épico de ficção científica escrito por Frank Herbert. Publicado em 1965, Duna rapidamente tornou-se uma espécie de O Senhor dos Anéis da sci-fi, a versão interestelar de uma busca metafísica, um Flash Gordon guiado pelo Don Juan de Carlos Castañeda. Encantados com o sucesso de A Montanha Sagrada, que havia se tornado um arrasa quarteirão entre os midnight movies, os produtores ofereceram o projeto a Jodorowsky.

E é aí que a verdadeira saga começa.

Possuído pelo espírito “messiânico” de Duna, Jodorowski começou a arregimentar a equipe que realizaria sua visão. Em pouco tempo, havia ao seu redor um dos grupos mais talentosos e interessantes do final do século 20: Jean “Moebius” Giraud realizou os storyboards, efetivamente colocando no papel, tomada a tomada, a versão jodorowskiana de Duna; o artista plástico suíço H.R. Giger, que jamais havia trabalhado com cinema, ficou encarregado de conceber as naves espaciais, as vestimentas e os prédios; Chris Foss, artista plástico e capista das maiores obras de ficção científica, criou os esboços das paisagens e planetas; Dan O’Bannon, que até então fizera apenas um curta com John Carpenter, seria o supervisor de efeitos especiais; a trilha musical foi entregue ao Pink Floyd e ao grupo francês Magma (cujos integrantes também foram escalados para interpretar os vilões de Duna). O elenco, aliás, incluía, além do Magma, Salvador Dalí, Orson Welles, Mick Jagger e David Carradine.

As histórias de como Jodorowsky chegou a essa equipe e esse elenco são contadas em deliciosos detalhes no documentário, mas para mim o mais importante é o que vem logo depois: o terceiro ato do projeto, quando, num arroubo de otimismo, Jodorwosky e seus produtores tomam o rumo de Los Angeles armados de cópias do volumoso livro contendo as minuciosas storyboards de Moebius, certos de que encontrariam em Hollywood o financiamento que necessitavam.

Claro que não aconteceu coisa alguma.

O mais doloroso e o mais fantástico da visão de Jodorowsky para Duna é que ele estava absolutamente certo. Certo demais: o tempo para que ela fosse executada ainda não tinha chegado — um problema comum a visionários e místicos.

O que aconteceu com as vastas ideias que Jodorowsky e sua equipe acumularam durante o desenvolvimento do projeto confirma minha intuição de que projetos são essencialmente energia, pólen, sementes voadoras, capazes de renascer de muitos modos diferentes. A partir de Duna, Dan O’ Bannon e H.R.Giger escreveram e idealizaram visualmente Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott. Um sem-número de ideias e conceitos de Moebius e Foss aparecem, inequivocamente, em personagens e cenas de Star Wars, Indiana Jones, Matrix e praticamente todos os filmes de sci-fi e super-herói a partir do final dos anos 1970. Jodorowsky e Moebius colaboraram numa série de graphic novels baseados em seus storyboards — o ciclo L’Incal — mas na verdade a mais ampla influência de sua obra pioneira e abortada está em praticamente todo o imaginário cinematográfico de fantasia: a confluência de orgânico e mecânico, a dimensão metafísica do espaço exterior, as possibilidades de percepções paralelas.

É uma constatação que assusta mas também conforta. Francis Ford Coppola me disse, certa vez, que todo criador é um pouco mago ou bruxa: ao focar sua energia, durante um longo tempo, sobre um conjunto de ideias, ele ou ela acaba contribuindo para que as ideias se manifestem no plano material, de uma forma ou de outra. Talvez não do modo como o criador planejou, mas esse é o risco da dança da criação: no final das contas, somos o que sonhamos.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Schulz desde sempre

Por Gustavo Duarte

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Para comemorar o lançamento da coleção de livros infantis de Snoopy e sua turma pela Companhia das Letrinhas, convidamos autores e colaboradores da editora para contarem suas histórias com a obra de Charles Schulz. Hoje, o texto fica por conta de Gustavo Duarte, autor de Monstros! Có & Birds, que chega nas livrarias no final de novembro.

Leia também o post anterior escrito por Mell Brittes, editora da Companhia das Letrinhas.

* * *

Puxando pela memória, não lembro a primeira vez que ouvi falar do Charles Schulz.

Deve ser porque ele, juntamente com Snoopy, Charlie Brown e companhia, sempre estiveram presentes na minha vida.

Foi facilmente a minha primeira referência de quadrinhos e de alguém que produz quadrinhos.

Por isso, quando a Companhia me pediu para escrever sobre ele, achei fácil por um lado e difícil por outro, já que nos meus 37 anos de vida não me faltam ocasiões para lembrar desse que é certamente um dos meus maiores ídolos e uma das grandes influências na minha carreira.

Como estou escrevendo aqui justamente por ter virado um cartunista/quadrinista, acho que vale lembrar que foi ele que me fez querer ser um desenhista pra valer.

Era um sábado no começo de 84 ou final de 83. Eu tinha seis anos de idade.

Estávamos mudando de apartamento e minha única preocupação era que naquela tarde a Rede Manchete passaria um documentário sobre a vida de Charles Schulz. E, óbvio, eu queria muito assistir.

Todo mundo sabe como uma mudança é caótica. Até para uma criança de 6 anos.

Porém, na sexta, a minha mãe tinha me prometido: como o programa passaria no fim da tarde, até lá, por mais que tudo ainda estivesse bagunçado, já teríamos tudo dentro do apartamento e poderíamos ligar uma TV, mesmo que improvisada, e assistir.

E foi assim. Final da tarde, meu quarto era só um monte de caixas e uma TV sintonizada na Rede Manchete.

Lá fiquei assistindo feliz da vida o documentário que mostrava o meu ídolo e seus personagens.

Minha mãe se sentou ao meu lado e assistiu um pouco comigo.

Vendo ele desenhando no estúdio dele lá em Santa Rosa, Califórnia, pela primeira vez soube o que eu queria fazer da vida.

Virei para minha mãe e disse: “Mãe, é isso que eu quero fazer quando crescer.”

Venho tentando desde então. :)

Nesses mais de 30 anos, pra mim pouco mudou.

Continuo tão ou mais fã do que eu era naquele sábado.

Talvez isso seja uma das características mais marcantes no trabalho dele.

Poucos cartunistas conseguiram conversar tão bem com todas as idades como Charles Schulz.

E é incrível como ainda conversa.

Seja nas milhares de tiras e desenhos que produziu durante os 50 anos de Peanuts, nas centenas de jornais que ainda o republicam diariamente, nos livros novos e antigos que continuam sendo editados ou num novo filme 3D que estreia no ano que vem.

Charles Schulz é pra sempre.

* * * * *

Gustavo Duarte nasceu em São Paulo, em 1977, e mudou-se para Bauru em 1985. Formado em design gráfico pela Unesp, começou sua carreira de cartunista e ilustrador no Diário de Bauru, produzindo trabalhos de 1997 a 1999. Foi designer gráfico na editora Abril, além de colaborar com as principais revistas e jornais do país. Foi vencedor de oito prêmios HQMix. Pela Quadrinhos na Companhia, publicou Monstros! (2012) e Có & Birds (2014).

Desapontamentos IV

Por Joca Reiners Terron

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1.
É impossível secar time alheio em plena temporada de chuva.

2.
Dica de escrita: uma volta no quarteirão seguida de dose de uísque resolve qualquer impasse narrativo. E o bom é que pintam vários impasses por dia.

3.
Durma-se com um silêncio desses.

4.
Para o míope, tomar banho e não lavar os óculos é o mesmo que continuar um pouco sujo.

5.
Quando criança eu achava que o cão pequinês de minha avó tinha esse nome porque era pequeno, e não porque sua raça vinha de Pequim.

6.
Para chamar o meu nome, minha mulher — assim como os esquimós ao gelo e os gatos à fome —, inventou cinquenta diferentes formas de cicios e sussurros.

7.
É muito ingênuo aquele que não acredita que os japoneses já inventaram o frango com doze corações e seis coxas.

8.
É complicado se autopremiar com um automóvel por uma vitória pessoal, pois automóveis vêm com defeito, quebram ou são roubados, enquanto a verdadeira vitória nunca tem defeito, quebra ou pode ser roubada.

9.
Tem noites de insônia em que me sinto um atum no convés de um pesqueiro japonês forrado de colchões para não me deixar hematomas.

10.
Lição de Política Atualizada: Esquerda e Direita se fundiram na Ambidestra.

11.
É impossível ler nas entrelinhas do Tuíter, no máximo dá pra ler nas entreletras.

12.
Todo aforismo que se leva a sério tem cheirinho de epitáfio. Como este aqui.

13.
Qual criança brasileira não temeu que um dia Zumbi dos Palmares lhe aparecesse e devorasse o cérebro?

14.
Um dicionário que cai da estante em nossa cabeça sempre nos deixa sem palavras.

15.
Onde foi parar a balconista? Não a moça ou a função, mas a palavra. Detrás do balcão é que não está. Terá fugido com o guarda-chaves?

16.
A cada encontro no banheiro com as exigências da fisiologia, dois ou três capítulos do Brás Cubas: esse é o ritmo do sábio.

17.
A grossura da unha do dedão do pé de um velho é a medida exata de sua teimosia, justamente a necessária para aparar a unha.

18.
Desafio contemporâneo: não se conformar ao Daltontrevisanismo semioculto e almejar a impossível Btravenidade em tempos de exposição total.

19.
Senhora do prédio me conta no elevador que passeando no bairro levou uma queda e se machucou. Quando levantou, foi assaltada. Que acontece?

20.
O fato é que Giordano Bruno está mais para prato grelhado do que para nome de dono de restaurante.

21.
Minha amiga Regina está de seis meses e trabalha doze horas por dia como garçonete. Seu primogênito acha que o irmão caçula já vai nascer cansado.

22.
Preferia o Tuíter ao Instagrã, pois sempre acreditou que cento e quarenta caracteres falam mais do que mil imagens.

23.
O toca-cd teve uma vida útil tão curta que não houve nem mesmo tempo para se criar um nome afetuoso para ele, como vitrola ou radiola.

24.
Só o cérebro consome quarenta por cento da energia do corpo. E ainda dizem que não custa nada sonhar.

25.
Piada ouvida em Belém: o prefeito ia receber uma comissão da OEA e tascou essa: “Como assim, ó é a? Pois lá na minha terra ó é ó e a é a…” E assim segue o baile da política.

26.
Há um grupo de cantores de ópera no hotel. Falam e se comportam como se o saguão fosse um palco. Batem palmas para tudo. As sopranos lembram focas. Os tenores, leões marinhos. Eu sou a sardinha espectadora.

27.
Aquele que hesita em passar adiante a nota de dez reais estalante de tão nova no fundo não acredita na existência de outras iguais.

28.
Não é no mínimo curioso criticar a acefalia política de São Paulo, uma cidade cujo padroeiro foi decapitado?

29.
Um homem é devorado por seus porcos nos EUA e todos estranham, menos os porcos. Estes só estranham quando são devorados pelo homem.

30.
Não é irônico que os grandes revisores ortográficos sempre se chamem Huendel ou Uílson?

* * *

Leia também os Desapontamentos I, II e III.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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