Semana duzentos e vinte e sete

Opostos on the table, de Daniel Kondo
“Este livro é quase uma malcriação. Quando uma página diz frio, a outra diz quente. Quando uma imagem mostra perto, a outra desmente e mostra longe. Isso é o oposto: o avesso das coisas. Não é mais do mesmo, nem apenas diferente. É o contrário perfeito de tudo. E se não fossem os opostos, que graça teria o mundo? Tão bom fazer tudo invertido!” – Marina Moraes

A cabeça de um homem, de Georges Simenon (Trad. de Eduardo Brandão)
Maigret tenta provar a inocência de um homem condenado à morte por um assassinato brutal. Enquanto se desenrola seu plano, ele encontra expatriados americanos com segredos que poderão trazer toda a verdade à tona.

Editora Seguinte

A quase honrosa liga de piratas vol. 2: O terror das terras do sul, de Caroline Carlson (Trad. de André Czarnobai)
Em O tesouro da Encantadora, Hilary viveu grandes aventuras em alto-mar até encontrar o maior tesouro do reino, desaparecido havia muito tempo, e sua dona, a Encantadora das Terras do Norte. Como recompensa, recebeu um certificado de filiação à Quase Honrosa Liga de Piratas e o título de Terror das Terras do Sul.
Neste novo volume da série, a Encantadora voltou ao seu posto, e Hilary acompanha a redistribuição dos objetos mágicos pelo reino. Mas o presidente da QHLP não está satisfeito: Hilary precisa se envolver numa atividade verdadeiramente pirática logo, como matar um monstro marinho ou derrotar um líder pirata num duelo, senão perderá seu título – e sua filiação à Liga.
Antes que consiga recuperar sua reputação, a garota fica chocada ao descobrir que a Encantadora foi sequestrada. Contrariando as ordens do presidente da Liga, Hilary se junta à gárgula e a seus amigos para investigar o caso, ainda que resgatar Encantadoras não esteja na lista de atividades próprias a um pirata.

Editora Paralela

After, de Anna Todd (Trad. de Alexandre Boide e Carolina Caires Coelho)
Depois de bater a marca de um bilhão de acessos na plataforma de leitura Wattpad ao transformar os integrantes da banda One Direction em personagens de uma história de amor sexy, a série After vira livro e promete ser o novo fenômeno editorial. No primeiro livro, Tessa, de 18 anos, sai de casa, onde mora com a mãe, para ir para a faculdade. Até então sua vida se resumia a estudar e ir ao cinema com o namorado doce que conheceu ainda criança. No primeiro dia na faculdade, onde ela passa a dividir um quarto com uma amiga que adora festas, Tessa conhece Hardin, um jovem rude, tatuado e com piercings que implica com seu jeito de garota certinha. Logo, no entanto, os dois se envolvem e Tessa, que era virgem, vê sua sexualidade aflorar. Hardin é inspirado em Harry Styles, um dos membros do One Direction. Os outros quatro músicos da banda – Zayn, Niall, Louis e Liam – também viraram personagens na trama. Tessa logo descobre que Hardin possui um passado cheio de fantasmas e os dois começam um relacionamento intenso e turbulento. Depois dele, ela nunca mais será a mesma.

Presente para Carlos

Por Pedro Augusto Graña Drummond


Durante anos foi fácil dar presentes ao Carlos. Não precisava pensar muito, bastava trazer de Buenos Aires aquelas caixas de mentas brancas da Harrods. Como bom doceiro que era, ele adorava aquelas mentas (puras ou cobertas com chocolate).

Um dia, Carlos disse basta. Enjoou das famosas mentas da Harrods. E ficou mais complicado escolher um “regalo” para ele. Não só porque já tinha praticamente tudo o que precisava, mas, também, porque recebia inúmeros presentes super bacanas de seus amigos e leitores.

Não dava para competir com a linda réplica em escala do Profeta Daniel de Aleijadinho, do ateliê de Ferreira Jr., presenteada pelo povo de Congonhas quando Carlos completou 80 anos. Tampouco eu tinha cacife para superar os doces biscoitinhos caseiros que Kate Lyra tantas vezes fez para ele. Nem tive como equiparar minha generosidade com a dos que lhe deram a linda Carranca do Rio São Francisco, estrategicamente colocada na porta de casa por vovó Dolores e que, até hoje, afugenta maus espíritos e encanta os bons que nos visitam.

Carlos ganhava lindos presentes. Mas, apesar da concorrência de tanto carinho e admiração, lembro de ter lhe dado algumas coisas que ele gostou de receber. Por exemplo, uma caixa de discos de vinil com as sinfonias de Schubert dirigidas por Karl Böhm, que ouviu várias vezes seguidas na sua vitrola automática Phillips, encaixada entre os dicionários na prateleira inferior de sua biblioteca. Depois, perante a dificuldade de lhe presentear com livros ou discos, porque ele tinha muitos e bons, optei por um caminho mais econômico e original. Como sou inclinado às artes, rabiscante de aquarelas e praticante de escultura, passei a lhe dar desenhos e objetos feitos por mim. Ele os guardou com carinho. Um deles foi uma esfera de resina poliéster contendo uma ampulheta que simbolizava a relatividade do tempo, pois ao girá-la a força centrífuga impedia a passagem da areia, “parando o tempo” — recordo que Carlos comentou com bom humor que, lamentavelmente, ela não funcionava, pois seu tempo já tinha passado. Outro presente de aniversário, que tive gosto de lhe dar, foi uma réplica de minha mão que talhei em pedra sabão. Creio que ele gostou de ver meu progresso na matéria e a colocou na sala, junto com outros objetos bonitos que ele também ganhara.

Hoje, lembro com saudade dessa preocupação: o que dar de presente ao Carlos? E concluo que, na verdade, eu recebi de meu avô muito mais do que fui capaz de lhe retribuir. Ganhei dele muitos livros, discos, brincadeiras, doces — ele sempre partilhava os presentes que recebia, quando não nos beneficiava com os mesmos. O mais importante de tudo foi o amor que ele me deu, sem condições nem cobranças — tal era seu sentimento de justiça, que procurava aplicar coerentemente a todas as coisas. Que bom exemplo me deu! Gostaria que ele estivesse aqui para lhe dizer isso. Como não é possível, tento fazer com que meu filho Miguel se sinta próximo de Carlos e, aos poucos, descubra esse “rio de sangue” e essa “estranha ideia de família viajando através da carne”.

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Pedro Augusto Graña Drummond é desenhista gráfico e cenógrafo.

 

Declarações à colegial que veio entrevistar-me

Por Carlos Drummond de Andrade

Foto: Augusto Gomes

Hoje, dia 31 de outubro, comemora-se o Dia Drummond em celebração ao aniversário do poeta. Para marcar a data, publicamos “Declarações à colegial que veio entrevistar-me”, texto retirado do livro Boca de luar, que acaba de chegar às livrarias.

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Também sou estudante, mas a vida fez de mim aluno repetente. Ou nasci repetente, é isso. Torno a fazer sempre o mesmo vestibular, pago invariavelmente a mesma correção monetária, e só gosto de escrever sobre as eternas mesmas coisas, que são poucas e mínimas.

Ser aluno repetente, viu?, é uma forma de saber mais do que os outros, embora não sabendo nada de novo. Ou melhor, nada de nada. Se você não entende esta sabedoria canhota, nem eu. Mas dá para viver, sem as aflições e cortes de circuito do ativismo. Olhe, o gafanhoto me fascina, se pousa nesta poltrona, vindo de onde? e a viagem em redor do mundo me deixa inapetente. Nem precisa que o gafanhoto pouse. Basta figurá-lo, pensar o gafanhoto. Entro no escuro, acendo a luz: lá está ele. Também pode ser o contrário: é apagar a luz e sinto que, sutil, o gafanhoto vem me visitar.

Quando anunciaram aí esses cavalos de Viena, senti certa emoção, reconstituindo o meu cavalo que não era vienense, não fazia nada de barroco, tinha o comportamento cavalar dos cavalos. Já notou que os animais comuns se tornam exceção? Não deixa de ser inquietante; daqui a pouco nós perderemos para eles. Seremos exibidos na arena conforme nossas habilidades não específicas. E, pessoalmente, serei mais uma vez reprovado…

Não que eu deteste a reprovação, fique sabendo. Todas as vezes (raras) em que alguém me aprovou, experimentei uma espécie de remorso. Estava traindo minha natureza. Uma vez subi de maneira tão espetacular no ônibus em movimento, que os passageiros bateram palmas. O motorista parou o veículo e veio me cumprimentar. Recuou a tempo. Viu que eu não era o campeão que ele pensava, tudo obra do acaso, e voltou-me as costas com reprovação. Respirei aliviado, no limite da autossatisfação, que pode coincidir com a consciência pesada, e mesmo ser um de seus produtos.

Como? Às vezes pareço contraditório? É porque não reparam que a descontinuidade constante da linha de vida forma de certo modo continuidade, e como tal se justifica. Não há vaidade nem humildade em ser como a gente consegue ser. Os uniformes e os múltiplos se entrelaçam, e a falta de programação vale, eu acho, como programação.

Confesso que meu trabalho de ser é afetado pela necessidade de dar satisfações aos outros, seja sob a forma de deveres políticos e sociais, seja para explicar por que não admiro, digamos, os filmes de Bergman. Cercado de prazos, papéis, condicionamentos, cortesias e outros empecilhos, não sei me explicar bem. Donde os juízos críticos: é selvagem, é pueril, é espertíssimo, está escondendo alguma coisa.

A tal ponto, ouviu? que costumo procurar em toda espécie de bolsos que a gente carrega, e não encontro, aquilo que devo estar escondendo. Aliás, procuro não assumir a posse de objetos (ou preocupações) para não ter o incômodo de guardá-los. Escasseiam espaços físicos e morais para conter o montão de coisas que nos solicitam e até nos invadem, acabando por obstruir a limitada área de nossas vidas. Expulso de mim mesmo, despejado que nem inquilino faltoso, onde iria morar, me diga? Daí essa concha-suplemento, que levo para os inevitáveis banquetes, simpósios, manifestações audiovisuais e/ou impressas; concha em que ninguém repara, como se fosse invisível.

Tome nota: jamais em minha alongada existência vi objeto voador não identificado, talvez porque me atraísse de preferência o voo das aves. Uma das falhas de minha biografia, mas que fazer? Não há discos voadores em quantidade suficiente para a percepção de todos. Também a parapsicologia me tem recusado metodicamente seus fenômenos, e respeito-lhe, discreto, as portas seladas. Nada entender de ciências políticas, econômicas e financeiras, embora me credencie para altos postos, não me levou até eles. Devo concluir que há excesso de gente disponível nas mesmas condições? Assim seja, e estarei isento de duras responsabilidades.

Repetente me declaro, repetente quero conservar-me, sempre naquele degrau menor, que dispensa de vertigens e quedas. Se os degraus são cinquenta, propõem, no mínimo, 49 acidentes, fora os subsidiários. Vamos parar, minha filha, antes que eu comece a admirar-me, por ser aluno dotado de tanta falta de atributos para ser um notável entrevistado. Ah, o gravador estava desligado? Que pena. Ou que bom. Ciao, garota.

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Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira (MG), em 1902. Um dos mais importantes poetas brasileiros de todos os tempos e um dos grandes nomes da poesia internacional do século XX, estreou na literatura em 1930, com os versos de Alguma poesia, e nos cinquenta anos seguintes publicou diversas obras fundamentais em verso e prosa, como Sentimento do mundo, A rosa do povo, Contos de aprendiz e muitos outros. Consagrado, estudado e admirado por leitores de todas as idades, Drummond morreu no Rio de Janeiro em 1987, aos 84 anos.

Capim, o retorno

Por Luiz Schwarcz


Na segunda feira passada, a Companhia das Letras celebrou seu 28º aniversário. Foi bem discreto, como gostamos, talvez discreto até demais. Já escrevi sobre a inauguração da editora em posts passados, não vale a pena repetir. Talvez não contei aqui que, alguns anos depois da inauguração no Museu da Casa Brasileira, fui agraciado com um prêmio da caneta Montblanc, de “personalidade de destaque no cenário cultural do país”, a ser entregue na mesma sala onde celebramos o início da Companhia. Na ocasião da entrega fiquei emocionado demais estava passando por um momento delicado e em vez de falar, chorei.

O episódio acabou me servindo de inspiração a um conto que encerra o meu livro Discurso sobre o capim, na qual um homem bem sucedido, sempre cobrado a respeito de um possível livro de memórias, recebe um prêmio de marketing e na cerimônia fala sobre um quadro de sua coleção, em que inesperadamente aparece uma grama, ou restinga, na areia de uma praia ensolarada e árida. A palavra do premiado é cortada, como ocorreu comigo, e o apresentador elenca os méritos empresariais sobre os quais o homenageado deveria ter falado, enquanto este pensa que, se um dia vier a escrever um livro de memórias, ele se intitulará Discurso sobre o capim. Eu procurava, assim, dizer que a minha biografia estava mais presente na vida dos pobres personagens do meu livro, todos tímidos e sensíveis, do que em elegias pessoais ou discursos de louvação. Eu buscava também uma possível metáfora para a literatura em geral, como um discreto e inesperado capim fora do lugar.

Escrevo estas linhas do táxi, chegando em Nova York, para participar da premiação de uma grande amiga e editora, Carol Brown Janeway, que escolheu a mim para entregar-lhe um prêmio em cerimônia que acontecerá esta noite, terça, 28 de outubro. Para os interessados, vejam abaixo meu discurso, no qual reaproveito meu conto, sem revelar a fonte, ou mesmo sem dizer que boa parte do que digo é pura ficção.

* * *

Há um tempo, fui convidado para participar da cerimônia de um prêmio completamente diferente deste. Foi uma cerimônia para premiar alguém como o “homem do ano”, e o vencedor foi um importante empresário brasileiro, amigo meu. O evento correu muito bem, até o momento no qual ele deveria fazer o discurso. Quando o “homem do ano” foi ao microfone e começou a falar, tivemos uma surpresa. Em vez de mencionar todas as suas conquistas nas companhias por onde passou, começou a descrever o primeiro quadro de arte que comprou para sua coleção pessoal. Ele é um importante colecionador da arte modernista brasileira. O quadro, que descreveu em detalhes, era uma paisagem deslumbrante do mar, do artista Pancetti, pintor e marinheiro um homem simples, que fazia parte do partido comunista brasileiro. Suas obras são vistas como um tesouro da arte brasileira modernista figurativa.

A pintura é, sem dúvida, incrível: o mar ocupa a parte inferior do quadro, cerca de um terço, ou mesmo um quarto da tela. Alguns pequenos barquinhos são vistos no horizonte do oceano, e o mar, azul esverdeado, combinado com a luz do azul puro do céu; causam uma forte impressão no observador. Um pouco abaixo, vemos uma extensão de areia que ocupa o restante da obra. O artista sabiamente levou em consideração o que é realmente especial nas praias do Brasil: a areia. Em primeiro plano, muito maior que os barcos e navios, mas ao mesmo tempo com discrição, uma vez que se trata de uma pintura minimalista, vemos algumas pequenas folhas de capim que cresceram na extensão da areia.

Pois bem: ninguém estava entendendo qual era o sentido daquele discurso, especialmente quando ele começou, evidentemente emocionado, a perguntar ao público: “Por que aquele capim cresceu na areia? Alguém poderia me explicar? Capim em terreno árido… como? Por quê?”. A esta altura da noite, o apresentador precisou intervir e retirar o microfone da mão do meu amigo. Começou a fazer o discurso que se esperava do homenageado, listando as empresas que ele comprou, os resultados de seus trabalhos – chegando até mesmo a mencionar sua coleção de arte, mas apenas como resultado de uma vida bem sucedida, possível graças ao mundo dos negócios e de sua dedicação a ele.

Creio que nunca conheci ninguém que ama tanto a literatura como este meu amigo. Então, possivelmente, fui o único a entender o que o “homem do ano” dizia. A importância de coisas que são inesperadas, num mundo onde tentamos constantemente prever tudo, desde o tempo até as emoções. O capim que nasceu na areia seria, para meu amigo, uma metáfora sobre as coisas que realmente importavam a ele. Uma metáfora sobre arte, e especialmente sobre literatura, paixão que carrega até hoje.

Se o discurso era totalmente fora de lugar, acho que isso só reforça a minha interpretação de onde meu amigo gostaria de chegar. A força da arte e, principalmente, da literatura, reside na possibilidade de nos levar para lugares distantes, diferentes daquele onde devemos estar. Através da da liberdade de expressão e da criatividade dos escritores quebramos obstáculos, saltamos fronteiras. Com eles podemos nos transformar em outras pessoas, com eles nos unimos para, ao ler um livro, sermos um só narrador. O verde encontrado na areia da tela e aquele discurso talvez representem a melhor metáfora para a literatura que já pude ouvir. Metáfora que teria sido bem melhor interpretada e compreendida hoje à noite, quando tenho a enorme honra de entregar o Ottawa Award para minha querida amiga Carol Brown Janeway.

Carol Janeway é uma das melhores editoras e tradutoras do mercado editorial contemporâneo. Por conta de seu trabalho, leitores tiveram acesso a obras de diversos países, culturas e línguas. Ela própria traduziu trabalhos de Bernhard Schlink, Thomas Bernhard (curiosamente a grande diatribe contra prêmios literários), Daniel Kehlmann, Sándor Marai, entre outros. Ela publicou autores como José Donoso, do Chile, Ivan Klima, da República Tcheca, e Margriet de Moor, da Holanda.

Se eu disse que uma das principais razões para a existência da literatura é a capacidade de nos fazer viajar dentro de nós, e também para outros países, tempos e culturas, então a importância de Carol no mercado editorial de hoje é inimaginável. Não há outras como ela por aí, e nem mesmo pessoas que são metade do que Carol é. Poucos tradutores ou editores chegam perto de sua mente, uma das mais abertas que conheço. Poucos conseguiram nos levar a praias tão distantes, onde um capim cresce, inesperadamente.

Se tenho razão quando digo que, ao ler um livro, autor e leitor tornam-se um único narrador da história, e que ficção depende, talvez na mesma proporção, da imaginação do leitor tanto como do autor, reconheço a tarefa de um tradutor que precisa lidar com línguas estrangeiras, e de um editor, assim como de todos os mediadores dessa união entre o autor e o leitor, que abrem caminhos para preciosidades que parecem tão distantes. Sim, tradutores e editores de literatura estrangeira possuem uma tarefa gigantesca. Sem o trabalho de pessoas como Carol, nossa jornada a locais áridos, onde o milagre do verde acontece, não seria possível. Um tradutor e editor precisa ter um grande coração. Um coração aberto a surpresas, um coração que está sempre disposto a levar outra pessoa a um lugar diferente.

Comecei a minha editora brasileira há exatos 28 anos e um dia. Na minha primeira visita a Knopf, em 1986, acho que Carol ainda não estava lá. Eu fui a Nova York e me encontrei com a ex-responsável pelo setor de venda de direitos de tradução. Disse a ela que iria abrir a minha própria editora. Tinha 30 anos na época. A mulher, muito gentil e que veio a tornar-se uma grande amiga, me fez algumas perguntas:

Há algum livro de nosso catálogo que você gostaria de comprar?

Sim respondi , gostaria de publicar uma coleção de poemas de Wallace Stevens.

COMO? ela respondeu. Você deve ter muito dinheiro para jogar pela janela. Ou é maluco!

O livro de Wallace Stevens foi publicado e acho que está na quarta reimpressão. Imagino que Carol, no nosso primeiro encontro em Frankfurt, alguns anos depois do ocorrido, foi checar os livros que comprei da Knopf e, em vez de questionar o dinheiro que desperdicei, me adotou. Passei a fazer parte de um grupo privilegiado de pessoas que a encontram duas ou três vezes por ano, editores que a procuram para saber onde podem achar novas surpresas, quais fronteiras podem cruzar juntos, quais limites não devem respeitar.

Carol Brown Janeway é uma das minhas melhores amigas pessoais e da área editorial. Quem conhece seu trabalho entende por que eu digo que não há muitas Carols Janeways no mundo. Ela tem um dos maiores corações que conheci. Ela merece este e todos os prêmios do mundo. Estou emocionado e me sinto honrado em ser a pessoa que lhe entrega este prêmio. Obrigado, Carol, por ser a pessoa que é e por me acolher entre os seus amigos. Por favor, continue a nos mostrar o caminho para o inesperado.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

 

Marighella: dois poemas inéditos

Por Mário Magalhães


Marighella, junho de 1939.

No começo da noite da próxima terça-feira, 4 de novembro, a tocaia em que agentes da ditadura fuzilaram o revolucionário baiano Carlos Marighella completará 45 anos. Numa rua escura paulistana, ao menos 29 beleguins do Departamento de Ordem Política e Social, armados até os dentes, assassinaram o guerrilheiro de 57 anos que não portava nem um canivete.

O tempo esclareceu as circunstâncias da morte de Marighella, narrada em pormenores na biografia que a Companhia das Letras lançou no finzinho de 2012. Com o ressurgimento da democracia no Brasil, a União reconheceu duas vezes que em 1969 ocorrera assassinato — e não confronto — e pediu desculpas à família do veterano militante. Seus matadores, embora identificados, nunca foram punidos.

Dois obstáculos conspiraram para tornar ainda maior o desafio de reconstituir a trajetória do antigo líder estudantil, constituinte, deputado, dirigente comunista e guerrilheiro declarado, em 1968, “inimigo público número 1”: determinada historiografia intolerante buscou eliminá-lo da memória nacional, e ele próprio, para sobreviver aos perseguidores, empenhou-se em apagar as pegadas.

Nos últimos anos, Carlos Marighella (1911-1969) inspirou a arte. Isa Grinspum Ferraz dirigiu o documentário Marighella, e Daniel Grinspum, o clipe “Mil faces de um homem leal”, com os Racionais. A música do vídeo havia sido composta por Mano Brown para o filme de Isa. Caetano Veloso reverenciou o conterrâneo com a canção “Um comunista”. O ator Wagner Moura se prepara para estrear na direção de longa-metragem adaptando para o cinema a biografia que eu escrevi. A produtora O2, de Fernando Meirelles, é parceira de Wagner na empreitada.

A vida fascinante de Marighella — goste-se ou não dele, de suas ações e de suas ideias — não se limitou às pelejas da revolução. Desde criança, o filho de italiano e de filha de escravos se dedicou à poesia. Ganhou fama em Salvador aos dezessete anos, não em virtude das querelas da política, mas ao responder em versos rimados uma prova de física no ensino médio.

Aos dezenove, calouro do curso de engenharia civil, fantasiou uma odisseia por Lavras Diamantinas, Jeremoabo e Canudos, terras baianas, e o Saara africano. Concluiu:

 

Andei como o diabo! Enfim… eis-me de novo aqui:

Quero ver se descubro se já me descobri.


O mais renitente adversário de Marighella na Bahia foi Juracy Magalhães, interventor (governador nomeado) do Estado quando o estudante Marighella foi preso pela primeira vez. Corria o mês de agosto de 1932, e o universitário acabou encarcerado com cinco centenas de colegas ao participar de um protesto. Na cadeia, bolou uma versão de “Vozes D’África”, o clássico de Castro Alves.

“Vozes da mocidade acadêmica” principia assim:

 

Juracy! Onde estás que não respondes!?

Em que escusa latrina tu te escondes,

Quando zombam de ti?

Há duas noites te mandei meu brado,

Que embalde desde então corre alarmado…

Onde estás Juracy?

 

Fecha:

 

Basta, senhor tenente! De teu bucho

Jorre através das tripas

Um repuxo de Judas e sandeus!

Há duas noites… eu soluço um grito…

Escuta-o, conclamando do infinito

‘À morte os crimes teus!’.

 

Reproduzi na biografia numerosas poesias de Marighella, das líricas às eróticas. Para assinalar os 45 anos de sua morte, compartilho aqui no Blog da Companhia dois poemas inéditos do revolucionário poeta.

* * *

Em maio de 1939, Marighella foi preso pela polícia política do Estado Novo, iniciando um período de quase seis anos de cana. No quarto onde o militante clandestino vivia em São Paulo, os tiras encontraram dois sonetos de autoria de certo “Dr. Carijó”, como Marighella os assinara.

Os poemas tripudiavam sobre os ativistas da AIB (Ação Integralista Brasileira), fascistoides que haviam sido colocados fora da lei pelo governo do ditador Getúlio Vargas, chamado de “Gegê” por Marighella. Os integralistas eram espinafrados como “galinhas verdes” pelos contendores ideológicos. Seu líder era o jornalista e escritor Plínio Salgado.

Um dos sonetos se intitulava “Verde ilusão”. Garimpei-o no processo judicial preservado pelo Arquivo Nacional:

 

Olá! Meu caro Plínio, estás salgado

Com a baiana mestraça do Gegê!

Parecias o Príncipe Esperado

E agora, de AIB, és ABC!

Eu te supunha cabra quilotado

E és mais arisco que um zabelê!

Hoje, que o teu balão está furado,

Que fazes? Ninguém te ouve, ninguém te lê?

Quem dantes via a crista que sustinhas

Juravas que eras trunfo e bambambão,

Peso pesado, braço, trinca-espinhas!

Calcula que tremenda decepção

Quando o femeaço verde dos galinhas

Viu que tu não és galo e sim… capão!”

* * *

O jornalista Claudio Leal me enviou em dezembro de 2013 um e-mail com o assunto “Marighelliana” e contou: “Topei com algo que pode lhe interessar. É um poemeto de circunstância de Marighella, dos tempos do veranico legal dos comunistas, em 1947, pouco antes da cassação do registro do PCB. Encontrei-o num caderno de mensagens de uma ex-auxiliar da Câmara Federal chamada Helena Prado”.

O generoso Claudio, um dos maiores talentos da sua (jovem) geração, fotografou os versos manuscritos de Marighella — a letra inconfundível era mesmo dele. Observou: “Pelas mensagens [de deputados como Nelson Carneiro, Jorge Amado e Marighella], depreende-se que Helena era loira e superlativamente bonita”.

O deputado federal Marighella versejou, em 28 de janeiro de 1947:

 

Cantar o que é belo, sim,

mas numa quadra pequena,

que tem somente por fim

falar do seu nome, Helena.

Mesmo assim…

Muita gente com certeza

afirmará que os “comunas”

não rendem culto à beleza.

* * * * *

Mário Magalhães é jornalista, blogueiro do UOL e ex-ombudsman da Folha de S. Paulo. Recebeu 25 prêmios jornalísticos e literários no Brasil e no exterior. É autor da biografia Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras, 2012). A obra foi agraciada com o Prêmio Jabuti, o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, o Prêmio Brasília de Literatura, o Prêmio Botequim Cultural, o Prêmio Direitos Humanos e o Prêmio Casa de las Américas. Seu próximo livro, cujo tema ainda é segredo, sairá pela Companhia das Letras em 2016.