Sopa de Eduardo Medeiros

Por Érico Assis

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Sopa de salsicha, de Eduardo Medeiros, começa com o próprio e a esposa, A Baixinha, mudando-se de Porto Alegre para Florianópolis. Os dois estavam cansados da cidade onde nasceram e cresceram, cansados dos malucos dos prédio onde moravam, queriam uma sacada com vista para alguma coisa que não outro prédio e, como 98% dos gaúchos, queriam morar na grande praia gaúcha de Santa Catarina.

Quis o destino, uma proprietária autoritária e os advogados desta que, quando Sopa de salsicha foi lançado, com sua declaração de amor à tranquilidade que encontraram na Praia dos Ingleses, o casal não estivesse mais morando em Florianópolis. No início deste ano, eles voltaram para o Rio Grande do Sul. Mas não para Porto Alegre. Foram para Imbé, no litoral, quase no meio do caminho entre Porto e Floripa.

“Eu fui criado em Capão Novo, que é outra praia perto daqui”, Medeiros me disse numa conversa via Facebook, “e tenho uma relação de nostalgia que me agrada mais que a quase solidão que sentia em Floripa. Resposta meio fruta, mas é verdade.”

Sim, Floripa também estava cansando — como acontece com 98% dos gaúchos que vão para lá. Eles estão se adaptando à nova casa e gostam que a proximidade de Porto Alegre rende cerveja com os amigos da cidade natal. Mas a solidão não é necessariamente uma coisa ruim. “A característica do litoral gaúcho é de ter três meses de uma super população absurda de gente e nove meses de uma solidão até que boa”, escreveu ele em uma HQ recente.

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GRAPHIC NOVEL é quando nós, artistas, fazemos histórias em quadrinhos com mais de 100 páginas, totalmente dedicadas a falar de nós mesmos e problemas mal resolvidos de nossas vidas”, Medeiros diz nas primeiras páginas de sua… graphic novel. Outras características da gréfic nóvel segundo o gréfic novelista: finalização com pincel para aumentar o status, contar tristezas e, se possível, falar de doenças para aumentar as vendas.

“Às vezes tenho a impressão que o termo graphic novel só é aplicado a um seleto time de artistas. Esses fazem graphic novel, os outros fazem quadrinhos”, Medeiros disse na nossa conversa. “Daniel Clowes faz graphic novel, o Zezinho faz HQ.”

Sopa de salsicha trata do problema mal resolvido de Medeiros com seus dreads (check), com gente que cospe na rua (check), com a sunga verde que seu pai marombado passou a usar depois do divórcio (check), parece finalizada em pincel (check), mostra receitas com banana (check) e fala de depressão (jackpot).

“Mas acho que é mais como o artista vende o seu material, né. Na real acho que é tudo pompa do artista mesmo. Não que aquele não seja eu, mas é tudo mais exagerado”, ele me diz na conversa. “Pelo personagem é uma graphic novel, mas por mim tanto faz, cara. Mesmo.”

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“Perdi meu HD tem uns dois anos, quando caiu um raio na minha rua lá em Floripa”, ele conta. Algumas páginas se foram. Ele continua com alguns projetos que vem tocando desde antes do HD perdido. Neeb e Open Bar, duas HQs que publicou independente, vão ganhar continuação. Não me mande flores, colaboração com o escritor Paulo Scott sobre a história da banda DeFalla, terá 300 páginas — um terço está desenhado, mas ele quer redesenhar. E sua História mais triste do mundo deve ganhar versão ampliada e em inglês.

Publicar em inglês para chegar a outros mercados faz parte do seu plano de carreira. Ele já colaborou em um álbum lançado nos EUA (Mondo Urbano) e teve pequenas histórias na Marvel e na DC (a do Homem-Aranha é sensacional). Os dois amigos que ele mais cita em Sopa de salsicha, Mateus Santolouco e Rafael Albuquerque, estão ajudando no processo — também porto-alegrenses, eles trabalham exclusivamente para o mercado norte-americano.

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“A internet cria essa ilusão de que tu tem muita gente acompanhando teu trabalho, mas a parcela de pessoas que realmente vê e comenta é muito pouca”, Medeiros diz. Cada comentário tem seu valor, porém: “As poucas resenhas que saíram foram ótimas, o que me deixou mais tranquilo, porque sempre bate aquela vergonha/incerteza que dá vontade de me esconder.”

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Sopa de salsicha terá lançamento em Porto Alegre no dia 15/10, a partir das 14h, na Galeria Hipotética (Visconde do Rio Branco, 431), com participação do autor.

Eduardo Medeiros publica suas HQs mais recentes em http://sopadesalsicha.com/.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

Mia Couto se encontra com Maria Bethânia nos 30 anos da Companhia das Letras

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Hoje (26), a partir das 20h, os leitores cariocas poderão participar de um encontro incrível: Mia Couto, que vem ao Brasil lançar seu novo romance, Sombras da água, conversa com uma das maiores cantoras brasileiras, Maria Bethânia. O encontro é gratuito e acontece na Sala Cecília Meireles. A retirada de ingressos acontecerá a partir das 17h, na bilheteria da Sala, com o limite de 2 ingressos por pessoa.Para a sessão de autógrafos de Sombras da água serão distribuídas 200 senhas por ordem de chegada na bilheteria no momento da retirada dos ingressos.

Sombras da água dá continuidade à história iniciada em Mulheres de cinzas, romance histórico encenado à época em que o sul de Moçambique era dominado por Ngungunyane, o último grande líder do Estado de Gaza, no fim do século XIX. Alternando as vozes da africana Imani e do sargento português Germano de Melo, Mia Couto apresenta duas visões de mundo muito diferentes, porém profundamente interligadas nesta trama.

O encontro com Mia Couto e Maria Bethânia é o segundo evento que comemora os 30 anos da Companhia das Letras. O autor também estará em São Paulo na quarta-feira, dia 28 de setembro, com Julián Fuks, Fabiana Cozza e Lenna Bahule. E em outubro, a comemoração será com os autores David Grossman e Ian McEwan. Saiba mais sobre os 30 anos da Companhia das Letras.

O evento desta segunda-feira será gravado e disponibilizado no nosso canal no YouTube.

Marque na agenda

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Mia Couto nos 30 anos da Companhia das Letras
Nesta segunda-feira, dia 26, e na próxima quarta-feira, dia 28, Mia Couto participa de dois encontros que comemoram os 30 anos da Companhia das Letras no Rio de Janeiro e em São Paulo. Confira mais informações:

  • Encontro de Mia Couto com Maria Bethânia
    Segunda-feira, 26 de setembro, às 19h
    A retirada de ingressos acontecerá a partir das 17h, na bilheteria da Sala Cecília Meireles, com o limite de 2 ingressos por pessoa.Para a sessão de autógrafos de Sombras da água serão distribuídas 200 senhas por ordem de chegada na bilheteria no momento da retirada dos ingressos.
    Local: Sala Cecília Meireles — Rua da Lapa, 47 — Rio de Janeiro, RJ
  • Encontro de Mia Couto com Julián Fuks, Fabiana Cozza e Lenna Bahule
    Quarta-feira, 28 de setembro, às 20h
    A distribuição de ingressos será feita no dia 28 de setembro, a partir das 14h, na rede Sesc. Limitado a dois ingressos por pessoa.
    Local: Sesc Vila Mariana — Rua Pelotas, 141 — São Paulo, SP

Antonio Prata autografa Trinta e poucos
Terça-feira, 27 de setembro, às 19h
Antonio Prata autografa seu novo livro, Trinta e poucos, no Rio de Janeiro.
Local: Livraria da Travessa do Shopping Leblon — Av. Afrânio de Melo e Franco, 290 — Rio de Janeiro, RJ

Jornada Marilena Chaui
Terça-feira, 27 de setembro, às 19h
Na Jornada Marilena Chaui, que discute a obra da autora, ela lança seu novo livro, A nervura do real II.
Local: USP — Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, sala 14, Complexo didático de Filosofia e Ciências Sociais — Av. Prof. Lineu Prestes, 338 — São Paulo, SP

Ruy Castro no Sempre um Papo
Quarta-feira, 28 de setembro, às 19h30
Em Santo André, Ruy Castro participa do debate “Noites de samba canção, tardes de bossa nova”, em mais uma edição do Sempre um Papo.
Local: Sesc Santo André — Rua Tamarutaca, 302 — Santo André, SP

Lançamento de Sombras da água
Mia Couto autografa seu novo livro, Sombras da água, em São Paulo. O livro continua a trilogia As areias do imperador, romance histórico encenado à época em que o sul de Moçambique era governado por Ngungunyane, o último grande líder do Estado de Gaza, em fins do século XIX. Confira os horários:

  • Saraiva
    Quinta-feira, 29 de setembro, às 11h30
    Leia as regras do evento.
    Local: Livraria Saraiva do Shopping Pátio Higienópolis — Rua Dr. Veiga Filho, 133 — São Paulo, SP
  • Livraria da Vila
    Quinta-feira, 29 de setembro, às 19h
    Leia as regras do evento.
    Local: Livraria da Vila — Alameda Lorena, 1731 — São Paulo, SP

Debate com Noemi Jaffe
Quinta-feira, 29 de setembro, às 17h
Noemi Jaffe, autora de Írisz: as orquídeas, fala sobre escrita criativa em Niterói.
Local: Instituto de Letras UFF — Campus Gragoatá — Bloco C — Rua Miguel de Frias, 9 — Niterói, RJ

Lançamento de Verissimas
Sexta-feira, 30 de setembro, às 19h
Na semana em que completa 80 anos, Luis Fernando Verissimo autografa seu novo livro, Verissimas, em Porto Alegre.
Local: Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country — Rua Thadeu Onar, 80 — Porto Alegre, RS

Semana trezentos e dezesseis

Companhia das Letras

Trabalho urbano e conflito social – 1890-1920, de Boris Fausto
Trabalho urbano e conflito Social, do historiador Boris Fausto, foi publicado pela primeira vez em 1976. O livro trata da história da formação da classe trabalhadora e do movimento operário no Rio de Janeiro e em São Paulo, entre 1890 e 1920. O surgimento de uma classe trabalhadora urbana e industrial no Brasil é acompanhado de perto pela reconstituição de suas formas de organização e mobilização política. Visionário e rigoroso, este livro é uma referência obrigatória para quem deseja entender o que foram as relações de trabalho no século XX no Brasil.

Paralela

A espiã, de Paulo Coelho
“Sou uma mulher que nasceu na época errada e nada poderá corrigir isso. Não sei se o futuro se lembrará de mim mas, caso isso ocorra, que jamais me vejam como uma vítima, mas sim como alguém que deu passos com coragem e pagou sem medo o preço que precisava pagar.” Mata Hari foi a mulher mais desejada de sua época: a famosa bailarina de danças orientais que chocava e encantava as plateias ao se desnudar nos palcos, a companheira de confidências e de encontros amorosos com os homens ricos e poderosos de seu tempo, a pessoa de passado enigmático que despertava o ciúme e a inveja das damas da aristocracia parisiense. Ela ousou se libertar do moralismo e dos costumes provincianos das primeiras décadas do século XX e pagou caro por isso: em 1917, foi executada pelo pelotão de fuzilamento do exército francês, sob alegações de espionagem de guerra. Em seu novo romance, Paulo Coelho mergulha com brilhantismo na vida dessa mulher fantástica, revivendo-a para o leitor contemporâneo como uma lição de que as árvores mais altas nascem de pequenas sementes.

Seguinte

Lobo por lobo, de Ryan Graudin (tradução de Guilherme Miranda)
Era uma vez, em outra época, uma garota que vivia no reino da morte. O Eixo ganhou a Segunda Guerra Mundial, e a Alemanha e o Japão estão no comando. Para comemorar a Grande Vitória, todo ano eles organizam o Tour do Eixo: uma corrida de motocicletas através das antigas Europa e Ásia. O vencedor, além de fama e dinheiro, ganha um encontro com o recluso Adolf Hitler durante o Baile da Vitória. Yael é uma adolescente que fugiu de um campo de concentração, e os cinco lobos tatuados em seu braço são um lembrete das pessoas queridas que perdeu. Agora ela faz parte da resistência e tem uma missão: ganhar a corrida e matar Hitler. Mas será que Yael terá o sangue frio necessário para permanecer fiel à missão?

Objetiva

Petrobras – Uma história de orgulho e vergonha, de Roberta Paduan
Um retrato revelador da crise da maior empresa do Brasil. Como a empresa que por tanto tempo foi espelho do que o Brasil tem de melhor se tornou sinônimo de roubo em grande escala? É o que a jornalista Roberta Paduan explica no impactante “Petrobras – Uma história de orgulho e vergonha”, que a Editora Objetiva lança em julho. Fruto de um trabalho extenso de pesquisa e apuração, o livro narra como a estatal foi cenário de vários casos de mau uso político e desvio de verbas ao longo de sua existência, nos governos posteriores à ditadura militar, até se tornar totalmente refém de um esquema de corrupção bilionário sob as presidências de Lula e Dilma. Repórter e editora da revista “Exame”, onde cobriu o Petrolão de perto, Roberta revê a cronologia do escândalo combinando histórias chocantes de bastidores com informações apresentadas de maneira acessível, ajudando o leitor a compreender a magnitude dos danos feitos à petroleira e seus desdobramentos. A Operação Lava-Jato surge como fio-condutor nos principais momentos, muitos dos quais ganham ares de thriller dado o ritmo do texto e o caráter cinematográfico dos personagens e suas ações. Um retrato revelador do debacle de um dos maiores simbolos do Brasil.

Fontanar

Nunca é tarde demais, de Julia Cameron com Emma Lively (tradução Alexandre Boide)
Um programa objetivo, que oferece ferramentas simples e acessíveis para inspirar e aproveitar ao máximo a melhor fase da vida. A chamada “terceira idade” pode ser um momento de grandes inseguranças: tédio, falta de disposição, sensação de vazio e medo do desconhecido são apenas alguns dos aspectos que podem nos assombrar. A liberdade adquirida pela aposentadoria pode ser muito estimulante, mas também bastante assustadora. Nunca é tarde demais transforma esses temores em grandes possibilidades. Repleto de exemplos práticos, este livro mostra como desenvolver a própria criatividade, usando o tempo e a experiência a nosso favor, para fazer deste o período mais rico, completo e criativo da vida, comprovando que nunca é tarde demais para começar de novo.

Companhia das Letrinhas

Karlsson no telhado, de Astrid Lindgren (ilustrações de Ilon Wikland e tradução de Fernanda Sarmatz Åkesson)
Lillebror queria muito ganhar um cachorrinho. Mas, em vez disso, acabou ganhando um amigo muito peculiar, que chegou voando pela janela: Karlsson, um morador do telhado de seu prédio. Karlsson é um homenzinho muito confiante. Apesar de criar várias confusões, ele não perde a pose e acha que é o melhor do mundo em tudo! E para Lillebror, sem dúvida ele é o melhor companheiro de brincadeiras. Os dois vivem aventuras no telhado, fazem shows de mágica, se disfarçam de fantasma e brincam até de mamãe e filhinho. Mas será que essa figura tão particular existe mesmo? Ou Karlsson é fruto da imaginação de Lillebror?

Reimpressões

A grande história da evolução, Richard Dawkins
A varanda do Frangipani (nova capa), Mia Couto
Antes de nascer o mundo (nova capa), Mia Couto
Ética, Fabio Konder Comparato
Foe, J. M. Coetzee
O continente – Vol. 2, Erico Verissimo
O último voo do flamingo (nova capa), Mia Couto
Poemas escolhidos, Mia Couto
Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, Gonçalo M. Tavares
O livro dos porquês, Vários autores
Cisnes selvagens (edição de bolso), Jung Chang
O homem duplicado (edição de bolso), José Saramago
Orações de Nossa Senhora, Carolina Chagas
Os desafios à força de vontade, Kelly McGonigal
Foco, Daniel Goleman
O erro, Elle Kennedy
Dez dias que abalaram o mundo, John Reed
O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde

Capas de dentro

Por Angelo Abu

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Em maio, escrevi neste espaço sobre como recebi a missão de ilustrar as capas de quinze (na época seriam catorze) livros do escritor moçambicano Mia Couto, que estão sendo reeditados pela Companhia das Letras em uma nova coleção, e sobre o processo de criação de cada uma.

Já havia, então, manifestado o desejo de conhecer Moçambique, que cresceu pela imersão no universo do autor em que me encontrava e da necessidade que sentia de ampliar o meu repertório visual e cultural sobre aquele país. Pesquisar pela internet era como olhar pelo buraco da fechadura e a necessidade de atravessar de vez o portal começou finalmente a se condensar em decisão. Moçambique representava mais do que uma pesquisa de campo, mas uma oportunidade de cruzar uma fronteira entre realidade e ficção. De adentrar fisicamente no universo que estava ilustrando.

Mas não queria ir como turista, estava determinado a conhecer o país mais a fundo, através de uma relação mais próxima com as pessoas de lá. Passei cerca de um mês e meio providenciando visto, pesquisando e fazendo contatos diversos, até que me vi com uma vasta rede trançada para me receber da maneira mais intensa e econômica possível.

Naquele momento de preparativos, ainda antes partir, cheguei a ilustrar três capas (afinal, há um cronograma que segue): Na berma de nenhuma estradaVozes anoitecidas e Estórias abensonhadas, todos de contos.

mia2Algumas delas já se beneficiaram dos novos contatos. O alcance de profundidade da minha pesquisa havia crescido consideravelmente, com tantas fotos e opiniões para consultar. Percebi, por exemplo, nas fotos, que as mulheres enroladas em capulanas (cangas estampadas com padronagens africanas, mas geralmente fabricados em Java), equilibrando algum objeto na cabeça e, muitas vezes, um bebê nas costas, eram onipresentes no país, parte da identidade nacional. Foi então que pensei nas árvores desfolhadas sobre suas cabeças como alegoria da perda de referências e do desenraizamento que o contexto de pós-guerra gerou em muitos dos personagens dos contos de Na berma de nenhuma estrada. Além de uma ótima oportunidade para homenagear aquelas equilibristas presentes em todo país.

 

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Diferente dos romances, em que procuro fazer uma interpretação do todo, nos livros de contos primeiro espero que alguma imagem salte voluntariamente do texto. Se não, procuro dar um sentido visual para o título ou busco alguma interseção de sentido entre os contos. Foi o caso de Vozes anoitecidas, em que os pássaros estavam presentes em várias estórias. Há o corvo vomitado, os pássaros sagrados de plumas brancas, o pássaro da morte e também aqueles em que as mulheres se transformam. Optei por esta revoada noturna (Anoitecida) de uma espécie de pássaro sagrado genérico que não fosse nenhum dos que acabei de citar, mas que ao mesmo tempo fossem todos eles, uma afro-fênix ou algo assim.

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Já em Estórias abensonhadas o conto “O cego estrelinho”, logo no começo do livro, destacou-se para mim e comecei a construir aos poucos uma imagem que refletia não só ele, como também o “abensonhadas” do título.

miaaaResultou em uma silhueta estrelada (como devem ser os objetos percebidos na cegueira: cheios de noite sem lua) em contraste com uma constelação de sóis (que tanto propiciam a visão, como também podem cegar). Pesquisando sóis-mandala-moçambicanos como referência, o mais aproximado do que havia pensado que consegui encontrar foi este ao lado, de Burkina Faso. Arrisquei uma versão baseada nela e submeti à avaliação dos meus novos amigos virtuais para saber se estava muito fora da estética moçambicana. Todos a consideraram pan-africana o suficiente… Que poderia ter sido inspirada na arte de qualquer parte do continente sub-saariano. Aceitei o veredito. Mas minhas incertezas nas tomadas de decisões deste tipo só reforçaram para mim que a travessia do Atlântico, para a qual me preparava, havia sido uma decisão acertada. Precisava atravessar a fechadura, saber pelos meus próprios olhos como seriam os sóis vistos da berma de lá.

 

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Até que chegou o dia de partir. Um dos contatos que fiz previamente foi com o Centro Hakumana, uma instituição que trabalha educando e prestando assistência a pessoas com diversos problemas sociais e de saúde. Me dispus a passar as manhãs dando oficinas para as crianças de lá em troca de estadia e comida. Um escambo perfeito, ótima maneira de me aprofundar na cultura, economizar na viagem e de contribuir para um projeto que me parecia bem bonito. E assim foi.

De um dia para o outro estava cercado de novidades, vivendo uma outra dimensão da nossa língua, outra dimensão de existência. Uma experiência que acabou por transcender as capas, se desdobrando em diversos ramos. Em poucos dias, vínculos fortíssimos foram criados sem que eu me desse conta. Além do próprio Mia, que finalmente tive o prazer em conhecer, fiz diversos amigos. Trabalhei com meninos de 8 a 15 anos com ilustração de estórias inventadas ou recontadas por eles em roda, à sombra de uma mangueira (tudo devidamente gravado). O resultado foi maravilhoso, completamente interrompido por minha pré-marcada data de retorno. Voltei ao Brasil certo de que este é um trabalho que quero dar continuidade, mas antes havia ainda sete livros pela frente para ler e ilustrar suas novas capas. E muita informação para aos poucos digerir.

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mia7Li Na varanda do frangipani e Antes de nascer o mundo no decorrer da viagem. Passava os primeiros dias em Moçambique procurando frangipanis para fotografar como referência até que descobri que esta árvore era uma velha conhecida do Brasil, aqui chamada de jasmim-manga, tão comum no sul da Bahia, onde moro. Fotografei vários, mas no final acabei optando por omitir a árvore já contida no título, revelando apenas sua varanda com vista para os dois mundos: o dos vivos, representado pelo Oceano Índico e o dos mortos, com o pangolim (sugerido apenas pela textura das escamas e por sua forma arrenrolada) ensolarando as trevas.

mia8A cena assim leva aos olhos do leitor não o frangipani objetivamente, mas seu ponto de vista,
subjetivo. Que é também o ponto de vista do narrador xipoco(fantasma). Para o pangolim, me baseei em fotos que fiz no Museu de Ciências Naturais de Maputo e também nos grafismos de várias capulanas. No final ficou bem simples e
gráfica, com muita influência dos muitos horizontes de lá.

 

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Em O fio das miçangas, de contos, uma imagem ou outra já havia se insinuado como candidata, mas quando me deparei com a chuva de peixes do conto final, não tive dúvida. Acabei optando por alinhar os peixes como as miçangas do conto que dá título ao livro. Mas alinhei numa composição meio amontoada, quase, de novo, como em um grafismo de capulanas, ou uma pintura de Mulangatana. Ou mesmo um Mailove (caminhonetes de transporte urbano em que as pessoas têm que se abraçar para não cair, de tão cheias. Daí o nome, my love). Para os peixes, busquei alguns em selos antigos do país, outros, nas fotos que fiz no Museu de Ciências Naturais de Maputo, e o restante, na imaginação.

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mia13E se Obama fosse africano? é o único livro de ensaios da coleção. A princípio, por isso o mais desafiador. Não queria remeter diretamente ao Obama do título. No máximo, sutilmente, através do vermelho e azul norte-americanos ali presentes. Por sorte o próprio texto me entregou de bandeja uma imagem precisa, que dialoga com o título, com o universo geral do livro e com uma das formas de expressão artísticas mais emblemáticas do país. Foi no ensaio “O planeta das peúgas rotas”, no seguinte trecho: “Nós somos como uma escultura maconde uja-ama, somos um ramo dessa grande árvore que nos dá corpo e nos dá sombra. Distintamente daquilo que é hoje dominante na Europa, nós olhamos a sociedade moderna como uma teia de relações familiares alargadas.” Em minha estada em Maputo visitei escultores maconde que me proporcionaram além de fotos e de um amuleto que trouxe, memórias táteis daquele texto.

 

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Antes de nascer o mundo em Moçambique tem como título “Jesusalém”, que viria a ser o nome do país que um dos personagens resolveu criar para nele se exilar com sua família e alguns agregados. O livro acabou rebatizado para a edição brasileira em uma espécie de tradução cultural. Mas quando mencionei pessoalmente para o Mia Couto que era o livro que estava lendo naquela ocasião em que estive por lá, ele me confessou que o título que queria ter dado e que sempre imaginava é O afinador de silêncios. Ao final, trabalhar com uma obra trientitulado acabou ampliando e enriquecendo minha visão sobre ela.

Pensando no significado do livro como um todo, enquanto A confissão da leoa, para mim, mergulha no universo feminino, Antes de nascer o mundo é seu avesso: tem o mundo masculino como matéria-prima. Trata-se de um livro solar. Sabia que devia ter uma luz pré-gênese, de gema do mundo. O amarelo foi minha primeira certeza. Amarelo que vai do chão árido da Jesusalém à velhice do mapa, que na história, quando rasgado, prenuncia na forma dos cacos a chegada da mulher primordial. O mapa também foi um elemento que ficou presente na minha mente durante toda a leitura. Foi minha segunda certeza, que acabou me levando ao centro de Maputo em busca de uma cartografia do país para ser rasgada um dia.

Pensava em representar os dois irmãos brincando no rio de seu éden particular, mas não havia ainda definido a cena. Terminei a leitura em Moçambique, mas viria a ilustrá-lo somente semanas depois, no Brasil. Foi então que percebi que aquele estado de suspensão, de gravidez mental de uma imagem estava secretamente afinando meus silêncios. O suspense em si revelou-se para mim um afinador natural de silêncios. Assim que o irmão mais velho acabou suspenso no ar, no meio de um salto no desconhecido do seu mapa-mundo.

mia16A cena estava imaginada, mas continuava sem referências em que me basear. E trata-se de uma imagem que só funcionaria sobre uma base naturalista. Um dia mencionei para uma amiga, a Adriana Londoño, que lamentava a velha amendoeira da ponte de Santo André, onde moro, ter morrido. Além de um ícone local era o único lugar de onde as crianças dali saltavam no rio. Foi quando ela me disse que, por sorte, havia feito as fotos que eu buscava há alguns anos, daquele exato local, e que seria um prazer colaborar. Incrível sintonia. Aproveito para manifestar aqui minha gratidão a ela e também felicidade por termos ressuscitado a amendoeira da ponta.

 

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Em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra a presença constante do homem à espera de seu enterro demandava por si alguma forma de representação simbólica. Mas quando, em determinado momento da história, a terra se recusa a se deixar cavar, foi que a pá me surgiu como totem. Cavar uma simples cova se tornou quase uma batalha, física e espiritual. Assim as pás acabaram se desdobrando em variadas formas, algumas meio lança, outras meio carrancas… Ferramentas diversas para cavar nos mais variados planos entre a vida e a morte. As tiras horizontais azuis remetem ao rio-tempo do título, fluxo da vida.

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Até o décimo primeiro e último conto da coletânea Cada homem é uma raça, não havia ainda definido uma imagem para a capa. Foi então que ela apareceu pronta, no finalzinho do livro, na forma de laranjas incandescentes. Em Os mastros do paralém no trecho que segue: “…o mulato era um mussodja e caminhava, por entre o pomar, com sua farda guerrilheira. Mas, de espanto: ele tocava as laranjas e elas se acendiam, em chamas redondas. O laranjal parecia uma plantação de xipefos.” Me pareceu uma ótima chance de novamente padronizar estampa de capulanas.

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Contos do nascer da terra foi o último dos quinze. Um livro de 35 contos, dentre os quais dois foram escritos para sua filha, Rita Couto, que acabei vindo a conhecer pessoalmente e que me recebeu tão generosamente na Fundação Fernando Leite Couto, que ela coordena, e onde acabei dando uma palestra a convite do próprio Mia. Por isso aquelas duas histórias continham uma camada extra para mim, uma vez que os personagens já vinham com fisionomias e relevos pré-traçados. Acabei optando pelo segundo conto, intitulado “A menina sem palavra” em que há uma irresistível cena onírica da lua se estilhaçando no mar abaixo, que se cindia em uma fresta de sangue. Achei que essas imagens, além da força que continham por si mesmas, dialogavam bem com o título do livro. A lua rachada parece o ovo primordial do mencionado nascer da terra. A racha de sangue, remete à própria saída do ventre ou algo assim.

Partindo para a execução, procurei dar uma ambiguidade aos brancos do plano de baixo que funcionam tanto como reflexo quanto como mencionados cacos da lua. Quis também que sutilmente estivessem contidas naquelas formas manchas de leopardos ou girafas e que as nuvens ficassem bem zebradas. Ou como presas de marfim dispostas simétricas em torno de uma máscara. E o mais importante: busquei dar à cena, por causa do título, um clima de último crepúsculo, de pré-primalvorada. E tudo sem perder de vista a voz da Rita.

E eis que chegou ao fim. Ao todo foram quinze livros em onze meses. Hei de sentir falta da constância deste trabalho. Mas o universo do Mia Couto e os tantos outros mundos adjacentes que vim a descobrir seguem presentes em mim. Chegou a hora de digerir cada um deles. Só tenho a agradecer aos moçambicanos pela amorosa maneira com que me receberam. Como se diz em changane, língua original do sul do país, Kanimambo! Abaixo, alguns moçambicanos que cruzaram meu caminho e que refletem a diversidade humana daquele país.

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Angelo Abu nasceu em Belo Horizonte em 1974. Graduou-se em cinema de animação pela UFMG, e vem ilustrando, nos últimos 20 anos, livros infantis e juvenis para diversas editoras. Em 2010, ficou em primeiro lugar no concurso de caricaturas da Folha de S. Paulo, para onde passou a contribuir esporadicamente. Neste ano, lançou Macunaíma em quadrinhos, adaptado e ilustrado em parceria com Dan X, pela editora Peirópolis.