Robert Darnton e Alberto Manguel se encontram no primeiro evento de aniversário da Companhia das Letras

Evento 30 anos Companhia

Acontece hoje, dia 30, às 20h, o primeiro de uma série de eventos que comemoram os 30 anos da Companhia das Letras. O encontro com Robert Darnton e Alberto Manguel, com mediação de Sérgio Rodrigues, ocorre no Sesc Vila Mariana e tem entrada franca. Para participar, basta retirar o ingresso na Central de Atendimento uma hora antes do evento (2 por pessoa).

Robert Darnton é pioneiro nos estudos sobre a história do livro. É professor e diretor da biblioteca da Universidade de Harvard. Em seu livro mais recente, Censores em ação, Darnton recria três momentos em que a censura restringiu a expressão literária. Em entrevista para O Estado de S. Paulo concedida recentemente, Darnton afirmou que “não é exagero dizer que o mundo do livro está passando por sua maior transformação em 500 anos. É excitante e ameaçador para profissionais do livro, mas, para mim, é um tempo de grandes oportunidades”.

Alberto Manguel vem ao Brasil para divulgar seu mais novo livro, Uma história natural da curiosidade, no qual mapeia os textos e autores que o inspiraram ao longo de sua vida como leitor. Em entrevista para O Globo, falando de sua vinda ao Brasil e de seu novo livro, Manguel afirma que “o ódio é a vontade de não conhecer, por isso, a curiosidade é um meio de combater o preconceito”. Atualmente, Manguel dirige a Biblioteca Nacional da Argentina, cargo que já foi ocupado por Jorge Luis Borges. 

Conheça os demais eventos que comemoram os 30 anos da Companhia das Letras.

Maus, 30 anos

Por Érico Assis

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Neste agosto, faz 30 anos que Maus — A Survivor’s Tale I: My Father Bleeds History saiu em forma de livro. Ou de graphic novel, se preferir. Art Spiegelman não preferia, mas com o tempo topou. Maus saía desde 1980 em fascículos encartados na Raw, revista que ele e a esposa Françoise Mouly editavam. Reunir os seis primeiros fascículos em graphic novel-livro-coisa-que-para-em-pé-lombada-quadrada mudou tudo.

Faz 44 anos que Spiegelman publicou “Maus”, uma HQ de três páginas sobre um filho ratinho que ouve do pai rato os apuros que este passou nas mãos dos gatos. Gatos que prenderam sua família, que levaram pai rato para Mauschwitz e que mataram vários e vários ratos.

Faz 80 anos que Vladek (Zev) Spiegelman e Anja (Andzia) Zylberberg noivaram. Casaram-se um ano depois. Richieu, o primeiro filho, nasceu em oito meses. No ano seguinte, o casal viu a primeira bandeira nazista. No seguinte, Vladek foi convocado a lutar pelo exército polonês. Nos seguintes, eles e família são realocados entre guetos, campos de trabalho forçado e de concentração. Ficam separados. Richieu é envenenado junto a outras crianças sob os cuidados de uma parenta que teme o pior nas mãos nazistas — ela também se suicida. Vladek e Anja reencontram-se, não mais prisioneiros, há 71 anos.

Faz 68 anos que Art Spiegelman nasceu, em Estocolmo, Suécia.

Faz 38 anos que Spiegelman começou a gravar longas entrevistas com o pai, em rolo de fita, pensando em transformar sua história de vida em quadrinhos. O que se registrou foi não só a história, mas a relação conturbada entre pai (rato) e filho (rato).

Faz 24 anos que Maus II – A Survivor’s Tale II: And Here My Troubles Begin ganhou um Prêmio Pulitzer. Foi a primeira HQ a ganhar o prêmio. Até hoje a única.

Faz 29 anos que um jornalista alemão, na Feira de Frankfurt, perguntou se Spiegelman não considerava um gibi sobre Auschwitz “de mau gosto”. Spiegelman: “Não, eu achei Auschwitz de mau gosto.”

Faz 25 anos que Spiegelman mandou uma carta ao New York Times solicitando que Maus passasse a figurar na lista de best-sellers de Não-Ficção. E não, como estava, na de Ficção. O Times respondeu: “Vamos todos à casa do Spiegelman e só passamos para a lista de não-ficção se um rato gigante atender a porta!” Provavelmente foram, pois o livro passou para a lista de Não-Ficção.

Faz apenas 15 anos que Maus foi publicado na Polônia. Poloneses, que não curtiram ser desenhados como porcos, protestaram em frente ao local de trabalho do editor. Vestindo uma máscara de porco, o editor abanou da janela para os manifestantes.

Faz 28 anos que saiu o primeiro artigo acadêmico sobre Maus. Não há, pelo menos em inglês, HQ mais analisada, pormenorizada, dissecada pelo mundo acadêmico em artigos, livros, aulas e palestras. Há cinco anos, Spiegelman colaborou com os estudiosos publicando Metamaus, um arquivo de referências em torno de Maus.

Há quatro anos, quando Spiegelman era convidado de honra do Festival d’Angoulême, as banquinhas de editoras independentes vendiam Katz, uma reprodução quase exata de Maus em que a única diferença era rostos de gatos colados sobre todos os personagens. O détournement criado pelo grego Ilan Manouach motivou um processo da editora francesa de Maus, a Flammarion. Sem dinheiro para se defender nos tribunais, Manouach e editores decidiram recolher o livro e destruir todos os exemplares. A pilha de papel picado é capa de Metakatz, livro que documenta e comenta todo o processo.

Há 20 anos, o livro Comics, Comix & Graphic Novels reproduziu quadros de Maus em tamanho ampliado — “tamanho de livrão de arte”, diz Spiegelman — sem autorização. Spiegelman processou a editora. “Os ratos gritando de agonia ao serem queimados vivos num fosso haviam virado uma coisa impactante demais, totalmente fora de contexto. (…) [Maus] é feita para ser impressa no tamanho em que foi desenhada.”

Há um mês, Nadja Spiegelman, filha de Art e Françoise, publicou seu primeiro livro de memórias. Chama-se I’m Supposed to Protect You From All This [Era para eu proteger você dessas coisas]. Embora não se tenha Holocausto nem (a princípio) ratos, há pelo menos um paralelo com Maus: o tema é a relação entre ela e a mãe.

Há 34 anos, Vladek Spiegelman faleceu. “Fiquei menos afetado pela morte do que achei que ia ficar”, diz Art, “talvez porque já estivesse por acontecer, talvez porque não havia mais espaço para mudar aquela relação. Fui ao funeral quase como um repórter tentando descobrir como era o fim da pauta. Mas minhas emoções foram mais rudimentares do que qualquer coisa que rendesse uma anedota.”

No ano passado, Spiegelman alertou que Maus fora recolhido das livrarias da Rússia em função de uma nova lei que proibia propaganda nazista. “É óbvio que não acho que Maus tenha sido o alvo da lei”, disse o autor. “Mas não queremos que as culturas apaguem suas memórias.”

* * * * *

Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

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Bienal Internacional do Livro de São Paulo
De 26 de agosto a 4 de setembro
Nossa programação continua na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. O Grupo Companhia das Letras estará no estande H30 promovendo encontros com seus autores e com uma seleção especial de nossos livros e promoções. Nossos autores participam da programação principal e paralela do evento, com bate-papos e sessões de autógrafos. Confira aqui a programação completa do Grupo Companhia das Letras na Bienal!
Local: Pavilhão do Anhembi — Rua Prof. Milton Rodrigues, 13 — São Paulo, SP

Seminário Trópicos utópicos
Segunda-feira, 29 de agosto, às 17h
Eduardo Giannetti fala sobre seu novo livro, Trópicos utópicos, em que discute a identidade nacional.
Local: Casa das Garças — Av. Padre Leonel Franca, 135 — Rio de Janeiro, RJ

Booktour com Jennifer Niven e Ava Dellaira
Depois de passar pela Bienal, Jennifer Niven, autora de Por lugares incríveis, e Ava Dellaira, autora de Cartas de amor aos mortos, partem por um booktour pelo Brasil.

  • Belém
    Segunda-feira, 29 de agosto, às 19h
    Local: Saraiva MegaStore Boulevard Shopping — Av. Visconde de Souza Franco, 776, Loja 233 — Belém, PA
  • Fortaleza
    Quarta-feira, 31 de agosto, às 18h
    Local: Livraria Cultura — Av. Dom Luís, 1010 — Fortaleza, CE
  • Recife
    Sexta-feira, 2 de setembro, às 18h
    Local: Saraiva do Shopping RioMar — Av. República do Líbano, 251 — Recife, PE

Lançamento de A memória rota
Arcadio Díaz-Quiñones autografa em São Paulo e no Rio de Janeiro o livro A memória rotaConfira as datas e locais de cada evento:

  • Rio de Janeiro
    Segunda-feira, 29 de agosto, às 19h
    Debate com Arcadio Díaz-Quiñones, Silviano Santiago e André Botelho.
    Local: Livraria da Travessa do Shopping Leblon — Av. Afrânio de Melo e Franco, 290 — Rio de Janeiro, RJ
  • São Paulo
    Quarta-feira, 31 de agosto, às 19h
    Debate com Arcadio Díaz-Quiñones, Pedro Meira Monteiro e José Miguel Wisnik.
    Local: Livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis — Av. Higienópolis, 618 — São Paulo, SP

Fronteiras do Pensamento com Robert Darnton
Segunda-feira, 29 de agosto, às 20h
Robert Darnton, que lançou recentemente no Brasil o livro Censores em ação, participa da próxima conferência do Fronteiras do Pensamento.
Local: Salão de Atos da UFRGS — Av. Paulo Gama, 110 — Porto Alegre, RS

Companhia 30 Anos: Encontro com Alberto Manguel e Robert Darnton
Terça-feira, 30 de agosto, às 20h
O primeiro evento de comemoração dos 30 anos da Companhia das Letras traz para o Brasil Alberto Manguel e Robert Darnton. Nossos grandes autores conversam com Sérgio Rodrigues em São Paulo. Saiba mais sobre o evento.
Local: Sesc Vila Mariana — Rua Pelotas, 141 — São Paulo, SP

Gregorio Duvivier e Xico Sá no “Você é o que lê”
Terça-feira, 30 de agosto, às 19h
Gregorio Duvivier, Maria Ribeiro e Xico Sá fazem um bate-papo sobre literatura em São Paulo.
Local: Livraria Cultura do Shopping Iguatemi — Av. Brigadeiro Faria Lima, 2232 — São Paulo, SP

Jout Jout em Porto Alegre
Quinta-feira, 1º de setembro, às 18h
A youtuber Jout Jout autografa Tá todo mundo mal em Porto Alegre.
Local: Saraiva do BarraShoppingSul — Av. Diário de Notícias, 300 — Porto Alegre, RS

Lançamento de Magda
Sexta-feira, 2 de setembro, às 19h
Rafa Campos Rocha autografa sua nova graphic novel, Magda, na Gibiteria.
Local: Gibiteria — Praça Benedito Calixto, 158 — São Paulo, SP

Sérgio Rodrigues lança Viva a língua brasileira!
Segunda-feira, 5 de setembro, às 19h
Sérgio Rodrigues e o jornalista Arthur Dapieve bate um papo no lançamento de Viva a língua brasileira!, um almanaque que ensina de forma divertida e desfaz mitos sobre a língua portuguesa.
Local: Livraria da Travessa — Rua Voluntários da Pátria, 97, Botafogo — Rio de Janeiro, RJ

Semana trezentos e doze

Companhia das Letras

Uma história natural da curiosidade, de Alberto Manguel (tradução de Paulo Geiger)
Em Uma história natural da curiosidade, Alberto Manguel mapeia os textos e autores que o inspiraram ao longo de sua vida como leitor. Não se trata, porém, de um leitor qualquer. Manguel vivia rodeado por 30 mil livros em sua casa na França e atualmente dirige a Biblioteca Nacional da Argentina, cargo antes ocupado por Jorge Luis Borges. O livro se estrutura em torno de dezessete questões de respostas nada óbvias. “O que é língua? ” e “Quem sou eu?” são temas que estão na origem das histórias que o autor mobiliza neste livro. Manguel seleciona uma galeria de curiosos notáveis, como Tomás de Aquino, David Hume, Lewis Carroll, Sócrates e, sobretudo, Dante, para nos guiar em meio a tais questões.

O inferno dos outros, de David Grossman (tradução de Paulo Geiger)
Em cima de um palco decadente de uma pequena cidade israelense, Dovale apresenta um show de stand up para alguns gatos pingados e um amigo de infância, seu convidado especial da noite. Enquanto faz piadas mais ou menos sagazes, no limite do politicamente correto e do bom gosto, passeando por temas tão amplos quanto o conflito Israel-Palestina e os palavrões proferidos por um papagaio, o comediante provoca o riso da plateia, mas também o desconforto. A tensão aumenta conforme Dovale expõe seus dramas pessoais mais profundos, e o humor se esvai dando lugar a uma melancolia comum a todos nós. Um romance corajoso e atual, breve mas avassalador, de um dos maiores ficcionistas contemporâneos.

Suma de Letras

A colônia, de Ezekiel Boone (tradução de Leonardo Alves)
Uma história aterrorizante sobre uma espécie adormecida há mil anos, que agora voltou para reconquistar o planeta. Nas profundezas de uma floresta no Peru, uma massa negra devora um turista americano. Em Mineápolis, nos Estados Unidos, um agente do FBI descobre algo terrível ao investigar a queda de um avião. Na Índia, estranhos padrões sísmicos assustam pesquisadores em um laboratório. Na China, o governo deixa uma bomba nuclear cair “acidentalmente” no próprio território. Enquanto todo tipo de incidente bizarro assola o planeta, um pacote misterioso chega em um laboratório em Washington… E algo está tentando escapar dele. O mundo está à beira de um desastre apocalíptico. Uma espécie ancestral, há muito adormecida, finalmente despertou. E a humanidade pode estar com os dias contados.

Paralela

Tá gravando. E agora?, de Kéfera Buchmann
Ela está de volta. Depois de vender 400 mil exemplares do seu primeiro livro, Muito mais que 5inco minutos, Kéfera Buchmann publica Tá gravando. E agora?, novamente pela Editora Paralela. Nele a youtuber mais conhecida do Brasil conta como seu canal, 5incominutos, atualmente com mais de oito milhões de assinantes, surgiu, revelando detalhes até então inéditos. Kéfera relembra como foi gravar o primeiro vídeo, as inseguranças que surgiram e como ela conseguiu superar os obstáculos para, aos poucos, ir conquistando milhões de fãs. Ela ainda tenta responder a pergunta que mais ouve dos seus seguidores: “Como eu faço para fazer o meu canal de Youtube dar certo?”. Não, não existe uma fórmula mágica, mas Kéfera dá várias dicas úteis que podem ajudar os aprendizes de youtuber. Muitas das dicas servem não só para quem quer brilhar na internet. Kéfera fala de como melhorar sua criatividade de maneira geral na vida, sugerindo até exercícios para isso. De bônus, Tá gravando. E agora? traz depoimentos emocionantes de kélovers (como os fãs dela são conhecidos), que contam como Kéfera influenciou suas vidas.

Bridget Jones: No limite da razão, de Helen Fielding (tradução de Alda Porto)
Se em O diário de Bridget Jones os leitores já se apaixonaram pela personagem despojada e carismática, no segundo volume, Bridget Jones: No limite da razão, conheceremos seu lado ainda mais inusitado. Seja em uma prisão tailandesa ou em jantares desconfortáveis, nada é tão ruim que não possa piorar. Mas é imprescindível manter o bom humor e contar sempre com os amigos.

Seguinte

Capitolina vol.2 — O mundo é das garotas
Depois de mostrar o poder das garotas, a Capitolina vem provar que, juntas, podemos transformar o mundo. As 46 colaboradoras que participaram dessa edição usaram as mais diversas formas de expressão para produzir um conteúdo inclusivo e livre de preconceitos, voltado especificamente para garotas adolescentes. Além dos melhores artigos publicados no segundo ano da revista on-line, em Capitolina: o mundo é das garotas você encontrará temas inéditos, como ciências, esportes e saúde. Outra surpresa são os formatos diferentes: tem entrevista, bate-papo, história em quadrinhos, manifesto, conto, ensaio fotográfico… Tudo ilustrado por artistas supertalentosas.

Companhia das Letrinhas

O pum e o piriri do vizinho, de Blandina Franco e José Carlos Lollo
Todo mundo já conhece o Pum de outras aventuras e sabe que, quando ele quer sair, é quase impossível segurá-lo. Agora ele tem novos amigos: a Couve-Flor e o Piriri do vizinho, e os três vão passar um fim de semana inteiro juntos. Dá pra imaginar a bagunça que essa turma vai fazer – e o quão divertido vai ser acompanhá-la!
Você conhece a Píppi meialonga?, de Astrid Lindgren (ilustrações de Ingrid Nyman)
Quando Píppi Meialonga chega na Vila Vilekula, os irmãos Tom e Aninha ficam bastante felizes, pois queriam muito uma nova amiga. E eles têm uma grande surpresa ao descobrir que Píppi é uma menina diferente de qualquer outra: ela é tão forte que consegue carregar um cavalo sozinha e tão habilidosa que, ao mesmo tempo que faz tranças no cabelo, amarra os sapatos — e, quando vai ao circo, ainda se equilibra em um arame na frente de todos! É claro que, com tanto talento, os três vão viver as mais divertidas aventuras.

Reimpressões

A festa da insignificância, de Milan Kundera

A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch

A nervura do real, de Marilena Chaui

Cem dias entre céu e mar, de Amyr Klink

Deus, um delírio, de Richard Dawkins

Poética, de Ana Cristina Cesar

Seminário dos ratos, de Lygia Fagundes Telles

Sobre o Estado, de Pierre Bourdieu

De todos os cantos do mundo, de Magda Pucci

Divinas Desventuras, de Heloisa Prieto

Lá vem história outra vez, de Heloisa Prieto

Inferno no colégio interno, de Lemony Snicket

Mau começo, de Lemony Snicket

O elevador Ersatz, de Lemony Snicket

Achados e perdidos, de Stephen King

O apanhador de sonhos, de Stephen King

O poeta e o mundo

Por Wislawa Szymborska

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Foto: Sipa/ Newscom/ Fotoarena

Chega às livrarias no dia 2 de setembro Um amor feliz, uma nova coletânea de poemas de Wislawa Szymborska, traduzidos e selecionados por Regina Przybycien e que falam dos amores e da vida cotidiana, uma obra que toca os leitores e influencia novas gerações. Este segundo volume promete fazer tanto barulho quanto o primeiro livro de Szymborska lançado no Brasil em 2011, Poemas. Em 2016, comemoramos também os 20 anos do seu prêmio Nobel de Literatura. Na entrega do prêmio que aconteceu no dia 7 de dezembro de 1996, seu discurso versou sobre o que é a poesia e o poeta. É este discurso que apresentamos aqui no blog para quem já conhece a obra da poeta e para quem ainda vai se encantar com a sua leitura. Leia a seguir (tradução de Carlos Alberto Bárbaro).

* * *

Dizem que a primeira frase de qualquer discurso é sempre a mais difícil. Bem, agora ela já ficou para trás. Embora algo me diga que as frases por vir — a terceira, a sexta, a décima e assim sucessivamente, até a última linha — serão tão difíceis quanto, já que é suposto que eu tenha que falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto, quase nada, na verdade. E sempre que isso aconteceu, eu tinha a ligeira impressão de que não sabia do que falava. Por isso, meu discurso será bem curto. Toda imperfeição é mais fácil de tolerar se servida em pequenas doses.

Os poetas contemporâneos são sempre céticos e desconfiados, até mesmo, ou talvez especialmente, sobre si próprios. Eles só admitem ser poetas de modo relutante, como se estivessem um pouco envergonhados por o ser. Nesta nossa época ruidosa, porém, é bem mais fácil admitir seus defeitos, principalmente se numa roupagem interessante, que reconhecer os próprios méritos, visto estes estarem profundamente ocultos, tanto que nem nós mesmo acreditamos neles… Ao preencher formulários ou ao conversar com estranhos, isto é, quando não conseguem evitar de dizer no que trabalham, os poetas preferem utilizar o genérico “escritor”, ou substituir “poeta” pelo nome de qualquer trabalho que tenham além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um misto de incredulidade e pânico ao descobrirem que estão frente a um poeta. Imagino que os filósofos se deparem com reações similares. Se bem que talvez estejam em uma situação melhor, dado que na maior parte do tempo podem dourar sua vocação com algum tipo de galardão acadêmico. Professor de filosofia — isso sim soa bem mais respeitável.

Mas não existem professores de poesia, porque isso implicaria, afinal, que a poesia é uma ocupação que requer estudo especializado, avaliações frequentes, artigos teóricos acompanhados de bibliografia e notas de rodapé e, por fim, diplomas cerimoniosamente concedidos. O que, por sua vez, significaria que não basta preencher páginas mesmo com poemas dos mais requintados para se tornar um poeta. O elemento crucial seria alguma folha de papel trazendo um selo oficial qualquer. Lembremos que o orgulho da poesia russa, que viria ele mesmo a ser premiado com um Nobel, Joseph Brodsky, foi certa vez sentenciado a um exílio em seu próprio país com base exatamente nessas convenções. Chamaram-no de “parasita” por ele não dispor de um documento oficial que lhe assegurasse o direito de ser poeta…

Muitos anos atrás, tive a honra e o prazer de conhecer Brodsky pessoalmente. E notei que, de todos os poetas que eu já havia conhecido, ele era o único que gostava de se apresentar como um. Ele pronunciava a palavra sem constrangimento algum.

Na verdade, era exatamente o oposto, ele a pronunciava com liberdade desafiadora. Julguei que era assim por ele se lembrar sempre das humilhações brutais que havia sofrido em sua juventude.

Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é roubada tão prontamente, os poetas aspiram, claro, ser publicados, lidos e compreendidos, mas não se esforçam muito, se é que se esforçam, para se situarem acima do rebanho e do cotidiano esmagador. E no entanto, não faz muito tempo, nas primeiras décadas do século passado, os poetas buscavam chocar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Embora fosse tudo meramente para consumo do público. Porque sempre chega o momento em que os poetas têm que cerrar as portas atrás de si, despir-se dos seus mantos, ornamentos e outras parafernálias poéticas para confrontar — silenciosamente, aguardando pacientemente seus verdadeiros eus — a ainda branca folha de papel. Porque é isso, no final, que conta de verdade.

Não é por acaso que se produzem aos montes biografias filmadas de grandes cientistas e artistas. Os diretores mais ambiciosos buscam reproduzir de modo convincente o processo criativo que levou a descobertas científicas importantes ou ao surgimento de uma obra-prima. E é possível descrever alguns tipos de trabalho científico com relativo sucesso. Laboratórios, instrumentos diversos, maquinário elaborado, trazidos à vida; esse tipo de cenário pode manter o interesse do público por algum tempo. E aqueles momentos de incerteza — será que o experimento, repetido pela milésima vez com algum tipo de variação microscópica, vai finalmente alcançar o resultado desejado? — podem ser bem dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, na medida em que buscam recriar cada passo da evolução de um quadro célebre, da primeira linha do esboço até a pincelada final. A música preenche todos os espaços em filmes sobre compositores: os primeiros compassos da melodia que ecoa nos ouvidos do músico finalmente emergem como um trabalho maduro em forma sinfônica. Claro que tudo isso é bem ingênuo e não explica o estranho estado mental conhecido popularmente como inspiração, mas pelo menos há ali algo para olhar e ouvir.

Poetas, no entanto, são os piores. O trabalho deles, indiscutivelmente, não tem como ser fotogênico. Alguém sentado a uma mesa ou deitado em um sofá, olhando imóvel para o teto ou uma parede. Vez ou outra essa pessoa escreve sete linhas apenas para riscar uma delas quinze minutos depois, e depois outra hora se passa, durante a qual nada acontece… Quem aguentaria assistir a esse tipo de coisa?

Eu falei de inspiração. Os poetas contemporâneos dão respostas evasivas quando perguntados sobre o que é isso, e se existe de fato. Não é que nunca tenham experimentado a graça desse impulso interior. É que não é fácil explicar a alguém algo que você próprio não entende.

Quando me perguntam sobre o assunto, eu também tergiverso. Mas respondo o seguinte: inspiração não é privilégio exclusivo de poetas ou artistas em geral. Existe, existiu e sempre vai existir certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. Esse grupo é composto de todos os que escolheram atender à sua vocação e fazer seu trabalho com amor e imaginação. E ele pode incluir médicos, professores, jardineiros — e eu poderia enumerar aqui centenas de outras profissões. O trabalho dessas pessoas se torna uma aventura contínua enquanto elas conseguirem continuar a descobrir novos desafios nele. Dificuldades e contratempos não sufocam sua curiosidade. Um enxame de novos questionamentos surge para cada novo problema que elas resolvem. Seja o que for a inspiração, o certo é que ela surge de um contínuo “não sei”.

Não existem muitas pessoas assim. A maior parte dos habitantes da Terra trabalha para viver. E trabalha porque têm que trabalhar. Eles não escolheram um ou outro trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas é que escolheram por eles. Trabalhos sem amor, trabalhos tediosos, trabalhos valorizados somente porque outros não conseguem sequer aquilo, por menos apreciados e tediosos — essa é uma das mais dolorosas misérias da condição humana. E não há nenhum sinal de que os séculos por vir produzirão qualquer mudança para melhor, até onde se pode vislumbrar.

E é por isso que, embora eu possa negar aos poetas seu monopólio sobre a inspiração, ainda assim eu os situo no seleto grupo dos prediletos da Fortuna.

A esta altura, porém, algumas dúvidas podem ser levantadas pelo meu público. Todo tipo de torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que buscam o poder fazendo uso de alguns poucos bordões gritados a plenos pulmões também gostam do seu trabalho, e também desempenham seus afazeres com inventivo fervor. Sim, claro, mas eles “sabem”. Eles sabem, e seja lá o que saibam, é o que lhes basta para o agora e para todo o sempre. Eles não querem descobrir mais nada sobre nada mais, dado que isso pode diminuir a força de seus argumentos. E qualquer conhecimento que não levante novas questões morre rapidamente, porque não sucede em manter a temperatura necessária para preservar a vida. Nos mais extremos dos casos, aqueles bem conhecidos da história antiga e moderna, esse tipo de conhecimento se constitui de fato em uma ameaça letal à sociedade.

E é por isso que eu prezo tanto aquela pequena expressão, “não sei”. Ela é curta, mas tem asas enormes. Ela amplia nossas vidas para incluir nela nossos espaços interiores, mas também os exteriores, em que está suspensa a nossa pequena Terra. Se Isaac Newton não tivesse jamais dito para si um “não sei”, as maçãs em seu pequeno pomar poderiam ter caído ao solo como granizo, e na melhor das hipóteses ele teria parado para apanhar algumas delas e devorá-las com prazer. Se minha compatriota Marie Sklodowska-Curie jamais tivesse dito para si própria seu “não sei”, por certo ela acabaria lecionando química em alguma escola privada para moças de boas famílias, e terminaria seus dias desempenhando essa, de todo modo, perfeitamente respeitável profissão. Mas ela continuou dizendo “não sei” e estas palavras a levaram, não apenas uma, mas duas vezes, a Estocolmo, onde espíritos incansáveis e questionadores são de quando em quando premiados com o Nobel.

Os poetas, se autênticos, também devem seguir repetindo “não sei”. Cada poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas tão logo a linha final seja deitada à página, o poeta começa a hesitar, começa a perceber que essa resposta particular era puro disfarce, que seria totalmente inadequado trajar. Assim, os poetas seguem tentando, e cedo ou tarde os resultados consecutivos de seu desagrado consigo mesmos são organizados em uma pasta gigante por historiadores literários, passando a ser chamados sua “obra”…

Amiúde sonho com situações que não podem, de modo algum, se tornar realidade. Imagino audaciosamente, por exemplo, que me é dada a oportunidade de conversar com o Eclesiastes, o autor daquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Eu me curvaria profundamente diante dele, porque ele é, acima de tudo, um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Feito isto, eu tomaria sua mão. “‘Não há nada de novo sob o sol’, foi isso o que escrevestes, Eclesiastes. Mas vós mesmo nascestes novo sob o sol. E o poema que criastes também é novo sob o sol, considerando que aqueles que viveram antes de vós não puderam ler esse poema. E esse cipreste sob o qual estais sentado não esteve ali crescendo desde a aurora dos tempos. Ele veio a ser graças a um outro cipreste semelhante a esse vosso, mas não exatamente o mesmo. E, Eclesiastes, eu também gostaria de vos perguntar em que coisa nova sob o sol estais trabalhando agora? Um acréscimo de última hora aos pensamentos que já expressou? Ou talvez estejais tentado a contraditar alguns deles agora? Em uma obra anterior, mencionastes o êxtase — então, e daí se ele for fugaz? Talvez vosso novo-poema-sob-o-sol seja sobre o êxtase? Já fizestes anotações sobre ele, e rascunhos? Eu duvido que irás escrever ‘Eu já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar.’ Não há poeta no mundo que possa dizer isto, ao menos um grande poeta como vós.”

O mundo — não importa o que pensemos quando aterrorizados pela sua vastidão e nossa própria impotência, ou amargurados pela sua indiferença ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e, talvez, mesmo das plantas, porque como podemos estar tão certos que as plantas não sintam dor; pensemos o que possamos pensar de suas extensões, atingidas pelos raios das estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, alguns deles já mortos?, ainda mortos?, não sabemos; o que quer que possamos pensar desse imensurável teatro para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cuja validade é comicamente curta, limitada como o é por duas datas arbitrárias; não importa o que possamos pensar sobre este mundo — é assombroso.

Mas “assombroso” é um epíteto que embute uma armadilha lógica. Somos assombrados, afinal, por coisas que se desviam de alguma norma bem conhecida e universalmente aceita, de uma obviedade com a qual crescemos acostumados. O ponto agora é: esse mundo óbvio não existe. Nosso assombro existe por si só e não é baseado em comparação com outra coisa.

Claro, no discurso cotidiano, em que não paramos para considerar toda palavra dita, todos fazemos uso de frases como “o mundo normal”, “a vida normal”, “o curso normal dos eventos”… Mas na linguagem da poesia, em que toda palavra tem seu peso, nada é corriqueiro ou normal. Nem uma simples pedra e nem uma simples nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite que a ele se segue. E acima de tudo, nem uma única existência, nem a existência de qualquer pessoa nesse mundo.

Ao que parece, os poetas sempre terão um trabalho duro à frente.

Fonte: Nobel Prize.