Ódio mortal

Por Júlia Moritz Schwarcz


Mais uma onda de embates entre israelenses e palestinos, que dessa vez assume o tamanho e o nome de guerra. Com o evento chegam as notícias, os artigos, os posts no Facebook, as fotos das crianças machucadas. Olhando pra tudo isso, repito uma frase pra mim mesma quase sem perceber. Por que tanto ódio? Mas por que tanto ódio? Há muitas questões políticas em jogo, mas o que ressoa com mais força é mesmo o aspecto humano. O ódio milenar que move essas pessoas a sequestrarem, matarem e queimarem uns aos outros.

Tenho me lembrado constantemente de um livro que editei há um ano e pouco, chamado Uma garrafa no mar de Gaza. Nele, uma israelense de 17 anos chamada Tal escuta uma bomba explodindo no café ao lado da sua casa. Em mais um atentado morrem seis pessoas, entre elas uma garota que se casaria em poucos dias. Enquanto a mãe de Tal corre para pegar o celular e ao mesmo tempo ligar a TV e o computador (como faz nos recorrentes atos de terrorismo que se sucedem no dia a dia), Tal toma um copo de vodka com limão e vai dormir, bastante perturbada com toda a situação. No dia seguinte, no meio de uma aula de biologia, ela acaba escrevendo uma carta para um palestino, movida por essa mesma pergunta que fica martelando na minha cabeça. “Cresci com a ideia de que entre os palestinos e nós poderia haver outra coisa além de corpos dilacerados, sangue e ódio”, ela diz a certa altura. Tal quer entender como um palestino se sente frente a essa situação, e como tem um irmão que é enfermeiro militar servindo perto de Gaza, coloca a carta em uma garrafa e pede para que ela seja jogada no mar. Na carta, indica um endereço de e-mail para poder receber uma resposta. Ela vem, assinada por um tal de Gazaman, e dá início a uma longa troca de ideias entre os dois.

Desconfortável, é claro, diante desse conflito sem fim no Oriente Médio, me sentindo bem idiota frente a qualquer posicionamento que eu possa tomar, fui reler o livro e me comovi mais uma vez com muitas coisas que são ditas ali. A primeira carta de Tal é bem sensível e real, por isso pensei em compartilhá-la aqui. Quem sabe ela também ecoe dentro de você.

* * *

Prezado você,

Se um dia ler esta carta, já saberá algumas coisas sobre mim. Você conhecerá meu nome, minha idade, a profissão de meu pai, o nome de minha melhor amiga e até mesmo o sobrenome de meu professor de história.

De minha parte, ignoro tudo sobre você.

Imagino que você tenha longos cabelos escuros, olhos castanhos e — não sei por quê — um ar sonhador.

Imagino que você fique triste com frequência.

Imagino que você tenha a mesma idade que eu, mas não sei se, aos dezessete anos, você se sente muito velha ou muito jovem.

Imagino que as batidas de seu coração às vezes se acelerem, por quem?

Imagino que você se pergunte, como eu, quem você será em dez anos, e que você não consiga ver nada com muita clareza.

Imagino que você tenha irmãos que a incomodem, mas que você, mesmo assim, os ame.

Sabe, comecei a escrever essas páginas logo depois do atentado que ocorreu perto de casa. Ainda hoje ouço o terrível “bum” e não fico nem uma hora sem ver o rosto sorridente e os cabelos lisos da moça que iria casar.

Você com certeza deve saber que, quando há um atentado, todo mundo se pergunta como os palestinos podem fazer isso, matar inocentes. Eu também me fiz essa pergunta várias vezes.

Então pensei que não tinha sentido nenhum dizer “os palestinos”. Porque aí, como aqui, necessariamente existem gordos e magros, ricos e pobres, bons e maus.

Sinto muito medo e muita esperança ao escrever para você. Nunca escrevi uma carta para alguém que não conhecesse. Dá uma sensação estranha. Não tenho certeza de estar conseguindo dizer o que quero.

Talvez você rasgue esta carta e as páginas anteriores. Talvez você só sinta ódio ao ouvir o nome Israel. Talvez você zombe de mim. Ou talvez você simplesmente não exista.

Mas, se esta carta tiver a sorte de encontrar você, se você tiver paciência de lê-la até o fim, se você pensar como eu, que precisamos aprender a nos conhecer, por mil bons motivos, a começar por nossas vidas, que queremos construir em meio à paz porque somos jovens, então me responda.

Não sei mais o que dizer, não sei se o que estou fazendo é bom ou ruim, loucura ou simplesmente excentricidade, útil ou inútil.

Vou colocar estas folhas dentro de uma garrafa, a que bebemos no dia 13 de setembro de 1993. Papai e mamãe a guardavam como recordação daquele grande acontecimento, mas azar, direi a eles que a quebrei.

Entregarei a garrafa a Eytan. Confio nele: ele não dirá nada a ninguém. E ele fará o que eu pedir: jogará a garrafa no mar, onde você mora, em Gaza.

Claro que se Efrat soubesse de tudo isso ela me diria que uma garrafa ao mar não é um meio de comunicação no mundo moderno, que estou vivendo num filme. E eu responderia que, justamente: quero fazer cinema. Mas tenho a ideia de que, para fazer filmes, é preciso primeiro conhecer bem a realidade.

Não sei se o correio funciona direito entre os territórios palestinos e nós, se há censura. Então vou passar para você um endereço eletrônico que criei especialmente para você: bakbuk@hotmail.com.

Pronto, espero que você me responda. É um pouco banal isso, mas é a verdade: realmente espero.

Saudações,

Tal

* * * * *

Júlia Moritz Schwarcz é editora do selo Companhia das Letrinhas e publisher da Editora Seguinte.

Dois episódios acerca de intolerância e flores

Por Joca Reiners Terron


Arquivo pessoal do autor.

“Todo homem traz consigo a inteira humana condição
MONTAIGNE

Existem escritores certamente mais privilegiados, que observam pássaros e caçam borboletas; já eu estou condenado a observar mendigos.

Em uma crônica de 1957 publicada no France-Observateur, Marguerite Duras relata a seguinte história: estava em um cruzamento de Paris quando surgiu, vindo do mercado, um jovem argelino. Carregava um cesto de flores nas mãos. O rapaz pretendia vender as flores na esquina seguinte, quando surgiram dois policiais. Pediram documentos, que o clandestino não pôde apresentar. Um policial arrebentou a cesta, e as flores se espalharam pela calçada. Sem querer danificá-las, os passantes se desviaram delas. Uma senhora parabenizou os policiais por reprimirem “aquela escória”. Então outras mulheres que tudo acompanhavam passaram a recolher as flores da calçada e a pagar o rapaz. Faziam um buquê, pagavam-no, iam embora. A cena foi rápida, e só depois os policiais — perplexos — levaram o argelino para a delegacia. Não restou sequer uma flor sobre a calçada.

Aperte o botão FF do controle remoto e adiante o filme uns cinquenta e cinco anos: estamos no meu bairro, região central de Necrópolis, Brasil. Na esquina está o Assombração. É um mendigo, eu o apelidei assim. Ele vive na porta de casa há mais ou menos um ano e meio. Quando veio parar aqui, fiz a seguinte nota mental:

Na minha rua vive um mendigo
que tudo pede apesar de mudo: é um pidão.
Apelidei-o, já lhes digo, “Assombração”.

Era para ser um poema, mas após a terceira linha fiquei mudo tal qual minha musa rueira; na verdade se tornou impossível pensar com a barulhada do Assombração na vizinhança: surdo-mudo a quem a vida não deu nada, a não ser o direito de usar sons guturais para exigir o mínimo dos passantes; um prato de comida, roupa, dinheiro, migalha de atenção, qualquer coisa; voz já não tem, o que dizer?

De início pensei que fosse louco. Era viciado em crack, com certeza, sumia de vez em quando e dias depois aparecia num estado de lascar. Também já o flagrei em plena nóia, fritando miolo pelas calçadas. Numa dessas estava com um tamborzinho daqueles infantis e azucrinou a rapaziada e moças do comércio com sua batucada surda e a cantoria muda.

Seria necessário dizer que Assombração não é o único a apavorar o pedaço, e a Alameda Barros é um verdadeiro corredor da morte? Na primeira reunião de condomínio de que participei, semanas após me mudar, pude ver como a favela móvel da rua era tema premente aos moradores mais incontidos. Um deles, muito assustador, quase pregou na porrada o síndico liberal de então em pleno meeting porque este não “expulsava a escória”. Lembrei de Marguerite Duras e suas flores.

Havia também aqui ao lado uma comunidade travesti, liderada por uma figura que era a cara do Gilberto Gil na capa de “Refavela”. Minha simpatia por ela não se resumia a isso, por sua touca de crochê e sorrisos de bom dia, mas porque era querida pelas senhorinhas judias do bairro, às quais sempre guardava duas palavras de atenção. Lucidamente política, escolheu como abrigo um trecho do quarteirão ao lado da lotérica e da farmácia de genéricos (com isso, contava com trocados da sorte — a respeito, leiam outra coluna passada — e cuidados contra a morte). E por aqui foi ficando.

Acabou por atrair para a lateral do prédio onde dormia todo um séquito de travestis de rua. Era mais que atraente estar a meio caminho do restaurante luso-nordestino na hora do almoço. Como são exagerados, os PFs servidos pelos restaurantes populares: são feitos para serem divididos. Era o que a rapaziada fazia ao voltar para o batente da firma. Os proprietários do prédio não gostavam disso.

Mas o Assombração, por motivos óbvios, não tinha qualquer possibilidade de diálogo. Logo percebi que não era louco, pois tinha senso de humor. Montava fantasias a partir de roupas encontradas no lixo. Um dia apareceu calçando um par de botas de jóquei e ficou a semana inteira disfarçado de marechal. Sei que galardão militar é o preferidão dos hospícios, mas nem bem passou seus dias viajando por terra, mar e ar e ressurgiu todo estropiado: antes não tinha voz, agora nem tinha dentes. A vida continuava a subtraí-lo em uma conta sempre de menos.


Arquivo pessoal do autor.

E berrava de manhã, de tarde, de noite, de madrugada. Deitado em minha cama sem conseguir dormir, assistindo no teto um filme do qual eu já sabia o final, eu pensava: como tolerar esse som que trespassa tudo, porta, grade e janela anti-ruído e que me diz que em qualquer hora do dia existe na calçada lá de baixo um cara igual a mim, mas que não faz a menor ideia do odor lavanda de Confort de meu lençol? O amaciante amaciava a quem, afinal, o tecido ou a mim?

Um dia meu vizinho Chico me relatou que a câmera de vigilância de seu prédio filmara o Assombração incendiando um carro estacionado em frente. A simplicidade da técnica o surpreendeu: bastou botar um papelão debaixo do carro e atear fogo. Semanas adiante, o Assombração tentou incendiar a sibipiruna aqui em frente. Usou um material plástico qualquer que corroeu o tronco da árvore de mais de cinquenta anos de idade. Era um mala, porém insisto que não era louco. Por um motivo: ele adorava assustar mocinhas que passavam. Ficava em silêncio, e quando se aproximavam: buuu! Nunca falhava.

Nessas ocasiões não pedia nada, apenas sorria esvaziadamente. Depois de observar Assombração repetir a cena muitas vezes, percebi qual era o sentido da pantomima repetitiva: sem ouvir, sem ser ouvido, aquela era a sua única chance de perceber que o som que fazia causava algum efeito. A cada berro seu as meninas pulavam, e depois o xingavam. E às vezes lhe sorriam de volta.

Fui viajar um tempo, e quando voltei Refavela Gil e sua comunidade travesti não estavam mais na calçada próxima à lotérica. Em seu lugar havia uma fileira com seis gigantescos vasos de flores de uns duzentos quilos cada um, instalados irregularmente ali pelo condomínio privado em plena via pública apenas para espantá-los. Ironia irremediável, a flora aplicada no combate à fauna. Como na crônica de Duras, passados cinquenta e cinco anos, não restou sequer uma flor verdadeira sobre a calçada.

O Assombração desapareceu há dois meses.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Marque na agenda

Simone Campos autografa seu novo livro no Rio e em São Paulo
Participe do lançamento do novo romance de Simone Campos, A vez de morrer.

  • Terça-feira, 22 de julho, às 19h
    Local: Loja da Companhia das Letras por Cultura – Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional – São Paulo, SP
  • Quinta-feira, 24 de julho, às 19h
    Local: Livraria da Travessa – Rua Voluntários da Pátria, 97, Botafogo – Rio de Janeiro, RJ

Encontro de Leitores da Seguinte
Para comemorar o lançamento de A escolha, a Editora Seguinte vai promover um encontro de leitores para falar sobre a trilogia, com sorteio de brindes exclusivos e um livro autografado pela Kiera Cass.

  • Terça-feira, 22 de julho, às 19h30
    Local: Livraria Catarinense – Rua Felipe Schmidt, 60, Centro – Florianópolis, SC
  • Sábado, 26 de julho, às 15h
    Local: Leitura Maceió no Parque Shopping Maceió – Av. Comendador Gustavo Paiva, 5945 – Maceió, AL

Lançamento de Bonecas russas
Quarta-feira, 23 de julho, às 18h30
Eliana Cardoso lança seu primeiro romance, Bonecas russas, com sessão de autógrafos em São Paulo.
Local: Livraria Cultura do Shopping Iguatemi – Av. Brigadeiro Faria Lima, 2232 – São Paulo, SP

Jorge Duro lança livro pelo selo Portfolio-Penguin
Quinta-feira, 24 de julho, às 19h
Em Mitos corporativos, Jorge Duro desvenda o que os MBAs não ensinam. Publicado pelo selo Portfolio-Penguin, o livro será lançado no Rio de Janeiro.
Local: Livraria da Travessa do Shopping Leblon – Av. Afrânio de Melo Franco, 290, loja 205 A – Rio de Janeiro, RJ

Mário Magalhães participa de congresso da Abraji
Quinta-feira, 24 de julho, às  11h
Autor da biografia Marighella, o jornalista Mário Magalhães participa do 9º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.
Local: Campus Vila Olímpia da Universidade Anhembi Morumbi – Rua Casa do Ator, 275 – São Paulo, SP

Contação de férias com Kiara Terra
Sábado, 26 de julho, às 16h
Kiara Terra faz uma contação de histórias especial de férias com o livro Zoo Zoado, de Fabrício Corsaletti e ilustrações de Eloar Guazzelli.
Local: Livraria Cultura do Shopping Bourbon – Rua Turiassú, 2100, Pompéia – São Paulo, SP

Lançamento do livro Flubete
Sábado, 26 de julho, às 15h
O ilustrador Dalcio Machado lança seu novo livro infantil, Flubete, em Campinas.
Local: Livraria da Vila – Rod. Dom Pedro I, 1315 – Campinas, SP

Matinê da Companhia das Letrinhas
Domingo, 27 de julho, às 11h30
Kiara Terra comanda mais uma Matinê da Companhia das Letrinhas com contação do livro A cidade que derrotou a guerra.
Local: Livraria da Vila – Rua Fradique Coutinho, 915 – São Paulo, SP

Semana duzentos e treze

Lançamentos Millôr Fernandes:

The cow went to the swamp
Foi a partir da sugestão de um amigo que Millôr começou a traduzir para o inglês expressões tipicamente brasileiras. As mais de seiscentas frases reunidas neste livro dão uma amostra de por que o autor é reconhecido como uma das mentes mais talentosas que o Brasil já teve.
Nessa “master class” da tradução literária – ou da tradução literal -, Millôr nos ensina como dizer que fulano é “casca grossa” (thick bark), ou que um amigo “meteu os pés pelas mãos” (he stuck his feet through his hands), ou que chegou a hora de “tirar a barriga da miséria” (to take the belly from the wretchedness). Ao criar este antimanual de tradução, Millôr Fernandes capacitou o leitor a “tirar de letra” (to take of letter) as dificuldades de tradução sem “pisar na bola” (step on the ball). Compilação abrangente de expressões que não estão no “pai dos burros” (the father of the asses), A vaca foi pro brejo (The cow went to the swamp) é o livro de referência ideal para quem quer “fazer bonito” (to make beautiful) e ficar “por cima da carne seca” (above the dried meat) na hora de falar inglês.

Tempo e contratempo
Dos anos 1940 a meados da década de 1960, o semanário O Cruzeiro foi a revista mais vendida e influente do Brasil, com tiragens que chegavam a cerca de 700 mil exemplares, e um número de leitores estimado em 4 milhões por edição. Uma das seções mais populares era uma página dupla de humor intitulada “Pif Paf”, assinada por um certo Emmanuel Vão Gôgo, cujo nome verdadeiro era Millôr Fernandes, um jovem precoce de vinte e poucos anos que trabalhava na imprensa desde os quinze. Primeiro livro do autor, publicado em 1949,Tempo e contratempo é uma seleção de poemas, contos, crônicas, sátiras, pastiches e piadas visuais dos onze anos de Millôr em “Pif Paf”, que já na época alternava diferentes estilos com a naturalidade que só um “escritor sem estilo” – como ele costumava se autodenominar – é capaz de ter. A respeito do interesse que o nosso filósofo maior da vida cotidiana tinha sobre os mais variados assuntos, Luis Fernando Verissimo diz, na apresentação deste volume, que Millôr “andava (ou corria, ipanemamente, de sunga) entre as coisas deste mundo, amando tudo e acreditando em nada. Já tinha nos dito que a morte é hereditária, mas isso não era razão para nos resignarmos a ela. Tudo que fez na vida foi em desrespeito à morte”.

Esta é a verdadeira história do paraíso
Em 1963, Millôr Fernandes era um importante colunista de O Cruzeiro, na época a revista mais lida do Brasil. Ateu desde menino, satirizava em seus textos as passagens bíblicas e os dogmas religiosos, posição que arrebatou milhares de fãs, mas também incomodou os mais fanáticos, como atesta a história em torno da primeira publicação desta versão do Gênesis. Pressionada por “alguns carolas do interior”, segundo as palavras do autor, a direção da revista afirmou que Esta é a verdadeira história do Paraíso havia sido publicado sem a sua autorização. A resposta de Millôr foi se desligar da revista, e quando a mentira veio a público o autor ganhou amplo apoio de seus leitores e dos artistas da época. Mais de cinquenta anos depois, superada a polêmica, o livro é considerado uma das obras mais importantes do autor, com questionamentos que só poderiam ter saído da mente do nosso humorista mais brilhante. Logo nas primeiras páginas fica evidente por que esta história do paraíso, recontada com descrença e humor, está mais atual do que nunca. Nesta edição, além do fac-símile publicado em O Cruzeiro, alguns dos principais quadrinistas da atualidade deram a sua versão sobre a origem do mundo.

Essa cara não me é estranha e outros poemas
Millôr Fernandes sempre fez questão de se definir, não sem ironia, como um “escritor sem estilo”. Durante mais de seis décadas de produção intensa, transitou pelos mais diferentes tipos de linguagem, do cartum à dramaturgia, e ao se dedicar à poesia, sua faceta menos conhecida, mantinha a mesma abordagem iconoclasta, sem se preocupar com a busca por uma unidade temática nem se prender a formas fixas. Os poemas reunidos neste livro são exercícios livres de criatividade, que se debruçam com um olhar atento, inteligente e bem-humorado sobre os mais variados assuntos: literatura, tecnologia, convenções sociais, política, pequenos dramas cotidianos, filosofia, cultura e gatos. Em Essa cara não me é estranha e outros poemas, com uma linguagem poética leve e sedutora, Millôr faz em versos aquilo que o notabilizou na imprensa, nas artes visuais e no teatro: expressar através do humor seu pensamento original e surpreendente – ou expressar um pensamento original e surpreendente como quem faz humor.

*

Suíte em quatro movimentos, de Ali Smith (Trad. de Caetano W. Galindo)
Imagine a seguinte situação: você está dando um jantar e um amigo de uma amiga traz à sua casa um conhecido dele que você não conhece. Imagine que depois de comer o prato principal esse estranho suba as escadas, tranque-se no quarto de hóspedes e recuse-se a abrir a porta. Talvez você não consiga tirá-lo de lá por dias, semanas, meses. Talvez ele nunca mais saia da sua casa.
Dividido em quatro surpreendentes movimentos, o romance de Ali Smith se desenrola a partir da noite em que Miles Garth se tranca em um quarto de uma casa de uma família aristocrática de Greenwich, na Inglaterra, e passa a se comunicar com o mundo exterior passando bilhetes por debaixo da porta.
Uma narrativa carregada de ternura e ironia, que explora a linguagem em todas as suas possibilidades e põe em evidência o absurdo da existência humana.

O louco de palestra, de Vanessa Bárbara
A capacidade de observação, a inteligência e o humor de uma das melhores cronistas da nova geração numa seleção de textos irresistíveis. O louco de palestra é um desfile de cenas, personagens e situações tão encantadoras quanto humorísticas. Da vida social no Mandaqui, bairro da zona norte de São Paulo, a observações – atiladas e bem-humoradas – sobre cidades como Londres e Macau, tudo parece ganhar novos contornos na prosa da jovem autora brasileira. Entre um continente e outro, Vanessa muda de ares, mas continua a mesma> observadora perspicaz, curiosa onívora e com o olhar (e a audição) treinado para captar e reproduzir aqueles detalhes sutis de que são feitas as coisas do cotidiano. Os apinhadíssimos ônibus paulistanos, a vida secreta dos vizinhos, pequenas epifanias em meio ao caos da cidade grande: não há nada remotamente humano (ou quelônio) que passe despercebido por Vanessa Bárbara.

O melhor tempo é o presente, de Nadine Gordimer (Trad. de Paulo Henriques Britto)
Amantes clandestinos no passado, devido às leis raciais que proibiam relações entre negros e brancos, hoje Jabulile Gumede e Steve Reed vivem numa África do Sul democrática. Ambos foram ativistas que lutaram com todas as forças pelo fim do apartheid, e seus filhos, felizmente, já nasceram em um tempo e em um lugar de liberdade. Mas à medida que os ideais de uma vida melhor para todos são ameaçados por tensões políticas e raciais, pela ressaca das ambiguidades morais e pelo enorme abismo entre os privilegiados e a grande massa pobre que só aumenta a cada dia, o casal pensa em abandonar o país pelo qual tanto lutou. O assunto de O melhor tempo é o presentenão poderia ser mais contemporâneo, porém a escritora Nadine Gordimer o trata, como é característico em sua tremenda obra, de modo atemporal. Aqui, ela mais uma vez dá mostras da grande romancista que é, ao capturar a essência da nação sul-africana no século XXI por meio da história de um casal em conflito.

Portfolio Penguin

Mitos corporativos, de Jorge Duro
Aníbal fora contratado para assumir um cargo de alta responsabilidade no Rio de Janeiro. Vidno do Nordeste, sua prieira impressão na cidade maravilhosa e no novo trabalho era de que nada poderia dar errado. Até descobrir que sua secretária, Neide, uma senhora pra lá de complicada, era também a melhor amiga da esposa do presidente da empresa – e já fora responsável pela demissão de tantos funcionários que tinham passado pelo cargo de Aníbal. Como proceder diante disso? Quando se trata de relações d epoder entre seres humanos, em qualquer contexto, coroprativo ou não, há muito mais variáveis do que supõe a filosofia ensinada nas salas de aula. Um título de MBA é o primeiro passo para o sucesso, mas certamente não será o último. Por meio de um texto acessível e didático, Mitos Corporativos apresenta novas perspectivas para qualquer um que almeja crescer na carreira, sem se deixar levar pelos desafios invisíveis que aparecerão pelo caminho.

Vinte regras para escrever histórias de detetive

Por Raphael Montes


Foi em 1928 que o escritor e crítico americano S. S. Van Dine, criador do detetive Philo Vance, publicou sua lista de vinte regras para escrever um bom romance policial. Como sabemos, listas em geral são reducionistas e mais atrapalham do que ajudam, principalmente quando o assunto é literatura. São pouquíssimas as regras para se fazer boa literatura, se é que elas existem. De todo modo, para os interessados no gênero policial, a lista de Van Dine tem relevância histórica e ajuda a entender alguns elementos da literatura policial hoje. Abaixo, escolhi e comentei algumas regras (ficaria enorme se comentasse todas), mostrando que poucas ainda são pertinentes — a maioria perdeu sentido e chega a ser engraçada ou patética. Vamos lá:

“1. O leitor deve ter oportunidade igual a do detetive de solucionar o mistério. Todas as pistas devem ser claramente descritas e enunciadas.”

Para o leitor da Era de Ouro, o romance policial era, antes de tudo, um torneio intelectual, uma espécie de “livro-jogo” que o desafiava. Whodunit (quem matou?) era tanto o gênero quanto o objetivo do leitor ao buscar esses romances. Não bastava ler, era preciso desvendar o quebra-cabeças também. Assim, leitor e detetive deveriam ter acesso às mesmas informações na “disputa” de quem desvendaria o final primeiro. A meu ver, é uma regra ainda válida: apenas nos romances policiais ruins o autor surge com um elemento que não havia aparecido antes e resolve toda a situação.

“2. Nenhum truque ou tapeação proposital deve ser utilizado pelo autor, senão os que tenham sido legitimamente empregados pelo criminoso contra o próprio detetive.”

Naturalmente, “tapeações” narrativas e de linguagem são muitíssimo interessantes. Há ótimos livros policiais que se utilizam da perspectiva do personagem (normalmente, em primeira pessoa) para fazer o leitor tomar um partido ou acreditar em uma versão dos fatos.

“3. Não deve haver interesse amoroso no entrecho. Trazer amor à cena é atravancar a obra puramente intelectual com sentimentos que não vêm ao caso. A questão a ser deslindada é a de levar o criminoso ao tribunal e não a de levar um casal enamorado ao altar.”

A regra não faz mais sentido. No estilo clássico, os personagens não mereciam grandes aprofundamentos psicológicos e serviam de peças ao “livro-jogo”. Nesse contexto, entrechos amorosos não tinham mesmo vez. Hoje em dia, há vários romances policiais românticos (voltados ao público feminino) e outros que exploram justamente a intriga amorosa, como o meu Dias perfeitos, uma história de amor obsessivo.

“4. Jamais o detetive ou algum investigador deve ser o culpado. Isso seria tapeação da mais deslavada, correspondente a oferecer a alguém uma moeda de níquel, nova e luzidia, em troca de uma moeda de ouro maciço. Seria impostura.”

Na época de sua publicação, a lista de Van Dine ficou tão famosa que diversos autores trataram de escrever romances que quebrassem suas regras. Agatha Christie, Edgar Wallace e Erle Stanley Gardner escreveram livros em que o assassino era o investigador. Eu mesmo, em Suicidas, meu romance de estreia, tratei de romper uma das regras de Van Dine.

“5. O culpado deve ser identificado mediante deduções lógicas e não por acidente, coincidência ou confissão forçada. O contrário disso seria mostrar ao leitor que todo o seu trabalho de dedução foi inútil, pois o tempo todo tinha o nome do criminoso escondido na manga do paletó. O autor assim não passa de um brincalhão.”

Assino embaixo. A base do romance policial é a trama bem arquitetada, com sequências lógicas e personagens fortes, como reafirma a regra 10:

“10. O culpado sempre deve ser uma pessoa que tenha desempenhado um papel mais ou menos importante na história, isto é, alguém que o leitor conheça e o interesse. Acusar do crime, no último capí­tulo, uma personagem que acaba de introduzir ou que desempenhou na intriga um papel completamente insuficiente seria, da parte do autor, confessar sua incapacidade de medir-se com o leitor.”

“11. O autor nunca deve escolher o criminoso entre o pessoal doméstico, tais como criado, mordomo, lacaio, crupiê, cozinheiro ou outros. Há nisso uma objeção de princí­pio, pois é uma solução fácil demais. O culpado deve ser alguém que valha a pena.”

A regra é absurda, claro, mas traz uma curiosidade: no fim da época vitoriana na Inglaterra, quando o gênero policial nascia, alguns autores apontavam, de preferência, elementos da criadagem como criminosos. Na época, G. Bernard Shaw chegou a comentar que “a aristocracia inglesa é tão esnobe e preguiçosa que até para cometer um crime manda que seu mordomo o faça”.  Daqui, surgiu o senso comum de que o mordomo é sempre o culpado.

“15. A verdade do problema deve estar bem à vista em todos os momentos da narrativa. O leitor tem que ser arguto para perceber. Quando o leitor, chegando à última página, recomeça a leitura deve pensar: Puxa, por que eu não percebi isso? O leitor tem que se convencer que não é tão arguto quanto o detetive. Uma novela de mistério nunca será de mistério para todos os leitores, pois alguns deles descobrirão o assassino antes do detetive.”

Há, hoje, diversos romances policiais sem o elemento “final surpresa”. Ainda assim, é uma delícia chegar ao final do livro e perceber que foi enganado o tempo todo, não?

“18. O crime na história policial jamais deve ocorrer por acidente ou suicí­dio. Encerrar a história com esse anticlímax corresponde a um truque contra o leitor.”

Para bom entendedor, meia palavra basta.

Por fim, Van Dine enumera uma série de clichês do gênero que, de tão usados, perderam a graça. Chega a ser divertido:

“20. Para fazer uma conta redonda de parágrafos para este credo, queria enumerar abaixo alguns macetes aos quais não recorrerá nenhum autor que se respeite.

a) A descoberta da identidade do culpado, comparando uma ponta de cigarro encontrada no local do crime com o modelo que fuma um suspeito;

b) A sessão espí­rita trucada, no decorrer da qual o criminoso, tomado de terror, se denuncia;

c) As falsas impressões digitais;

d) O álibi constituído por meio de um manequim;

e) O cão que não late, revelando assim que o intruso é um familiar do local;

f) O culpado, irmão gêmeo do suspeito ou um parente que se parece com ele a ponto de levar a engano;

g) A seringa hipodérmica e o soro da verdade;

h) O assassinato cometido numa peça fechada, na presença dos representantes da polícia;

i) O emprego de associações de palavras para descobrir o culpado;

j) A decifração de um criptograma pelo detetive ou a descoberta de um código cifrado.”

Leia a lista completa aqui.

* * * * *

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.

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