A queda do céu: “Gosto de explicar essas coisas para os brancos, para eles poderem saber”

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Publicado originalmente em francês em 2010, A queda do céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, revelou o que o xamã yanomami tem a dizer para o mundo. O livro foi escrito a partir das palavras do xamã contadas a Bruce Albert, um etnólogo com quem nutre uma longa amizade. Recheado de visões xamânicas e meditações etnográficas sobre os brancos, esta obra não é apenas uma porta de entrada para um universo complexo e revelador. É uma ferramenta crítica poderosa para questionar a noção de progresso e desenvolvimento defendida por aqueles que os Yanomami chamam de “povo da mercadoria”. A seguir, leia um trecho de A queda do céu, que será lançado hoje, às 18h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo.

* * *

Faz muito tempo, você veio viver entre nós e falava como um fantasma. Aos poucos, você foi aprendendo a imitar minha língua e a rir conosco. Nós éramos jovens, e no começo você não me conhecia. Nossos pensamentos e nossas vidas são diferentes, porque você é filho dessa outra gente, que chamamos de napë. Seus professores não o haviam ensinado a sonhar, como nós fazemos. Apesar disso, você veio até mim e se tornou meu amigo. Você ficou do meu lado e, mais tarde, quis conhecer os dizeres dos xapiri, que na sua língua vocês chamam de espíritos. Então, entreguei a você minhas palavras e lhe pedi para levá-las longe, para serem conhecidas pelos brancos, que não sabem nada sobre nós. Ficamos muito tempo sentados, falando, em minha casa, apesar das picadas das mutucas e piuns. Poucos são os brancos que escutaram nossa fala desse modo. Assim, eu lhe dei meu histórico, para você responder aos que se perguntam o que pensam os habitantes da floresta. Antigamente, nossos maiores não contavam nenhuma dessas coisas, porque sabiam que os brancos não entendiam sua língua. Por isso minha fala será algo de novo, para aqueles que a quiserem escutar.

Mais tarde, eu disse a você: “Se quiser pegar minhas palavras, não as destrua. São as palavras de Omama e dos xapiri. Desenhe-as primeiro em peles de imagens, depois olhe sempre para elas. Você vai pensar: “Haixopë! É essa mesmo a história dos espíritos!”. E, mais tarde, dirá a seus filhos: “Estas palavras escritas são as de um Yanomami, que há muito tempo me contou como ele virou espírito e de que modo aprendeu a falar para defender a sua floresta”. Depois, quando essas fitas em que a sombra das minhas palavras está presa ficarem imprestáveis, não as jogue fora. Você só vai poder queimá-las quando forem muito velhas e minhas falas tiverem já há muito tempo sido tornadas desenhos que os brancos podem olhar. Inaha tha? Está bem?

 

Como eu, você ficou mais experiente com a idade. Você desenhou e fixou essas palavras em peles de papel, como pedi. Elas partiram, afastaram-se de mim. Agora desejo que elas se dividam e se espalhem bem longe, para serem realmente ouvidas. Eu lhe ensinei essas coisas para que você as transmita aos seus; aos seus mais anciãos, aos seus pais e sogros, aos seus irmãos e cunhados, às mulheres que você chama de esposas, aos rapazes que irão chamá-lo de sogro. Se lhe perguntarem: “Como você aprendeu essas coisas?”, você responderá: “Morei muito tempo nas casas dos Yanomami, comendo sua comida. Foi assim que, aos poucos, sua língua pegou em mim. Então, eles me confiaram suas palavras, porque lhes dói o fato de os brancos serem tão ignorantes a seu respeito”.

Os brancos não pensam muito adiante no futuro. Sempre estão preocupados demais com as coisas do momento. É por isso que eu gostaria que eles ouvissem minhas palavras através dos desenhos que você fez delas; para que penetrem em suas mentes. Gostaria que, após tê-las compreendido, dissessem a si mesmos: “Os Yanomami são gente diferente de nós, e no entanto suas palavras são retas e claras. Agora entendemos o que eles pensam. São palavras verdadeiras! A floresta deles é bela e silenciosa. Eles ali foram criados e vivem sem preocupação desde o primeiro tempo. O pensamento deles segue caminhos outros que o da mercadoria. Eles querem viver como lhes apraz. Seu costume é diferente. Não têm peles de imagens, mas conhecem os espíritos xapiri e seus cantos. Querem defender sua terra porque desejam continuar vivendo nela como antigamente. Assim seja! Se eles não a protegerem, seus filhos não terão lugar para viver felizes. Vão pensar que a seus pais de fato faltava inteligência, já que só terão deixado para eles uma terra nua e queimada, impregnada de fumaças de epidemia e cortada por rios de águas sujas!”.

Gostaria que os brancos parassem de pensar que nossa floresta é morta e que ela foi posta lá à toa. Quero fazê-los escutar a voz dos xapiri, que ali brincam sem parar, dançando sobre seus espelhos resplandecentes. Quem sabe assim eles queiram defendê-la conosco? Quero também que os filhos e filhas deles entendam nossas palavras e fiquem amigos dos nossos, para que não cresçam na ignorância. Porque se a floresta for completamente devastada, nunca mais vai nascer outra. Descendo desses habitantes da terra das nascentes dos rios, filhos e genros de Omama. São as palavras dele, e as dos xapiri, surgidas no tempo do sonho, que desejo oferecer aqui aos brancos. Nossos antepassados as possuíam desde o primeiro tempo. Depois, quando chegou a minha vez de me tornar xamã, a imagem de Omama as colocou em meu peito. Desde então, meu pensamento vai de uma para outra, em todas as direções; elas aumentam em mim sem fim. Assim é. Meu único professor foi Omama. São as palavras dele, vindas dos meus maiores, que me tornaram mais inteligente. Minhas palavras não têm outra origem. As dos brancos são bem diferentes. Eles são engenhosos, é verdade, mas carecem muito de sabedoria.

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Eu não tenho velhos livros como eles, nos quais estão desenhadas as histórias dos meus antepassados. As palavras dos xapiri estão gravadas no meu pensamento, no mais fundo de mim. São as palavras de Omama. São muito antigas, mas os xamãs as renovam o tempo todo. Desde sempre, elas vêm protegendo a floresta e seus habitantes. Agora é minha vez de possuí-las. Mais tarde, elas entrarão na mente de meus filhos e genros, e depois, na dos filhos e genros deles. Então será a vez deles de fazê-las novas. Isso vai continuar pelos tempos afora, para sempre. Dessa forma, elas jamais desaparecerão. Ficarão sempre no nosso pensamento, mesmo que os brancos joguem fora as peles de papel deste livro em que elas estão agora desenhadas; mesmo que os missionários, que nós chamamos de “gente de Teosi”, não parem de dizer que são mentiras. Não poderão ser destruídas pela água ou pelo fogo. Não envelhecerão como as que ficam coladas em peles de imagens tiradas de árvores mortas. Muito tempo depois de eu já ter deixado de existir, elas continuarão tão novas e fortes como agora. São essas palavras que pedi para você fixar nesse papel, para dá-las aos brancos que quiserem conhecer seu desenho. Quem sabe assim eles finalmente darão ouvidos ao que dizem os habitantes da floresta, e começarão a pensar com mais retidão a seu respeito?

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Eu, um Yamomani, dou a vocês, os brancos, esta pele de imagem que é minha.

Mate minha mãe

Por Érico Assis

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Jules Feiffer aparece em Mad Men. Ele está no antepenúltimo episódio da quinta temporada, compondo um trio que avalia Megan Draper para o elenco da peça Pequenos Assassinatos. Não é Feiffer em pessoa que aparece no episódio. O ator escolhido tem a cara do Feiffer em 1967, entre os trinta e os quarenta, época em que o episódio se passa. O personagem não é nomeado nem tem falas. Sua aparência entra ali como um detalhe, um easter egg para quem souber quem é o autor de Pequenos Assassinatos.

O Feiffer desta época estava começando a carreira de dramaturgo. Viria a escrever mais umas peças e alguns roteiros de cinema. Já tinha uma vida inteira nos quadrinhos: aos 16 anos, fora ao estúdio de Will Eisner para dizer que não só lia e admirava as HQs do mestre, mas que também as estudava como um nerd. Começou a carreira lá, tendo inclusive escrito alguns Spirit creditados a Eisner. Uma década depois, ele começou uma tira no Village Voice que viria a durar mais de quarenta anos, em meio às peças de teatro, aos filmes, aos livros para crianças e para adultos, a um Oscar aqui, um Pulitzer ali…

Feiffer sempre foi uma figura esquisita nos quadrinhos dos EUA. Seus desenhos rabiscados não tinham o rebuscamento mais claro que se pedia nas revistas, seu humor não era óbvio nem infantil o bastante para as tiras de jornal (embora ele tenha tido uma tira de curta duração, chamada Clifford, nos anos 50). Foi o que o levou a publicações alternativas como o Village e a um público cult. Alguém deve ter dito que ele devia aproveitar o ouvido para diálogos e o talento nos cortes de cena fazendo roteiros. Foi um ótimo conselho: Feiffer ganhou mais reconhecimento em outras áreas, e provavelmente mais dinheiro, do que teria ganho se ficasse só nas HQs.

Talvez se pense que Mate minha mãe, escrita, desenhada e lançada pelo Feiffer octagenário — no momento, ele está com 86 — seja misericórdia dos editores com o velhinho. Hogwash, berraria um de seus rabiscos. Os diálogos afiados continuam à frente dos colegas de profissão. Os desenhos talvez tenham até ficado melhores. Feiffer tem fôlego para inventar algumas coisas: dê uma olhada no design esperto da leitura da página 108.

Mate minha mãe é vendida como primeira “graphic novel” de Feiffer, usando o termo que seu ex-chefe Eisner popularizou. Fãs mais atentos do autor reclamaram que ele já havia feito muita coisa com cara de graphic novel, como Passionella e Tantrum — a primeira, ainda nos anos 50. Em entrevistas, o autor se mostrou mais uma vez afiado: seja ou não sua primeira graphic novel, ele ressalta que é seu primeiro noir.

A tela plana de 65 polegadas, os blu-rays, o canal TCM e o botão de pause aparecem na sessão de agradecimentos de Mate minha mãe. Nomes de personagens e de ruas, cenas e diálogos fazem referências a momentos clássicos de Relíquia Macabra, Pacto de Sangue, a Raymond Chandler, Joan Crawford e Billy Wilder. Assim como nos filmes e livros noir, os personagens mais fortes não falam to os outros, mas at os outros. Não são falas, são disparos.

Embora não se associe o noir tanto às trilhas sonoras, Mate minha mãe tem muita música. Feiffer queria usar as letras de Duke Ellington, mas seu editor disse que ia custar uma fortuna. Então ele criou músicas por conta própria. Como tradutor, defendi que elas ficassem em inglês para reproduzir aquela dissonância dos filmes dos anos 40, quando a música começa e a dublagem é substituída pela voz original. Para a referência ficar mais evidente, pensei em sugerir legendas como as de cinema sob os quadros da HQ, com a tradução literal das músicas. Mas ia atrapalhar o desenho e podia causar mal entendidos. (As traduções literais de todas as músicas estão no final.)

Feiffer já disse que quer fazer dois outros álbuns com personagens de Mate minha mãe. O primeiro será um prelúdio, nos anos 30, com policiais e investigadores particulares; o segundo se passa depois de Mate, e trata da época da lista negra em Hollywood. Provavelmente vai terminar os dois perto dos 90. No ano passado, ele disse à Mother Jones: “Artista não costuma se aposentar. O grande Al Hirschfeld morreu aos 99 com as mãos tremendo porque queria desenhar. Eu fui quem fiquei mais surpreso com a diversão que tive trabalhando em Mate minha mãe. E é nisso que eu vou me concentrar daqui em diante, dependendo do quanto tempo me resta até eu começar a babar e cair na escada.”

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site — Twitter — A Pilha

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Lançamento de Outro silêncio, de Alice Ruiz S
Para o lançamento de seu novo livro, Outro silêncio, Alice Ruiz bate um papo com os leitores nas noites de autógrafos em São Paulo e Curitiba.

  • Segunda-feira, 31 de agosto, às 19h30
    Local: Teatro Eva Herz na Livraria Cultura — Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional — São Paulo, SP
  • Quinta-feira, 3 de setembro, às 18h30
    Local: Livraria Arte & Letra — Alameda Dom Pedro II, 155, Batel — Curitiba, PR

Lançamento de O amor das sombras
Segunda-feira, 31 de agosto, às 19h
Ronaldo Correia de Brito autografa O amor das sombras, lançamento da Alfaguara.
Local: Livraria Cultura Paço Alfândega — Rua Madre de Deus, s/n — Recife, PE

Lançamento de A queda do céu
Terça-feira, 1º de setembro, às 18h
Participe do bate-papo de lançamento de A queda do céu, com Davi Kopenawa e Marcos Wesley de Oliveira.
Local: Teatro Eva Herz na Livraria Cultura — Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional — São Paulo, SP

Rodolfo Witzig Gutilla autografa Ai! Que preguiça!…
Quarta-feira, 2 de setembro, às 19h
Além da sessão de autógrafos de Ai! Que preguiça!…Rodolfo Witzig Gutilla bate um papo com Carlos Felipe Moisés e Jorge Caldeira no evento de lançamento do livro.
Local: Livraria Cultura do Shopping Iguatemi — Av. Brigadeiro Faria Lima, 2232 — São Paulo, SP

Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro
De 3 a 13 de setembro, o Rio de Janeiro recebe mais uma edição da Bienal do Livro. Confira os autores do Grupo Companhia das Letras que estarão participando dos eventos oficiais da Bienal e no estande da editora (Pavilhão Azul, G08/H07):

  • Sexta-feira, 4 de setembro, às 17h30
    Mesa Boa vizinhança: Para conhecer a história de São Paulo, com Jorge Caldeira e Roberto Pompeu de Toledo (mediação de Merval Pereira).
  • Sexta-feira, 4 de setembro, às 19h
    Nova Prosa Argentina, com Mariana Enriquez, Martín Kohan e Maria Moreno (mediação de Joca Reiners Terron).
  • Sábado, 5 de setembro, às 18h30
    Sessão de autógrafos com Raphael Montes
    Local: Estande Grupo Companhia das Letras
  • Sábado, 5 de setembro, às 20h
    Encontro de leitores da Seguinte e Suma de Letras
    Local: Auditório Madureira (Pavilhão Verde)
  • Sábado, 5 de setembro, às 20h
    Mesa Viva o Povo Brasileiro: Homenagem a João Ubaldo Ribeiro, com João Carlos Teixeira Gomes, Cacá Diegues e Rodrigo Lacerda (mediação de Juva Batella).
  • Domingo, 6 de setembro, às 12h
    Mesa O Pequeno Príncipe está no Brasil, com Mônica Cristina Correia, Geraldo Carneiro e Ana Paula Pedro (mediação de Gisele Eberspächer).
  • Domingo, 6 de setembro, às 15h30
    O Brasil em Crise, com César Benjamim e Jean Wyllys (mediação de Mauro Ventura).
  • Domingo, 6 de setembro, às 18h30
    O Movimento nos Quadrinhos, com Gabriel Bá, Fábio Moon, Tiago Lacerda e Allan Sieber (mediação de Alexandre Barbosa de Souza).
  • Domingo, 6 de setembro, às 18h30
    Sessão de autógrafos Capitolina.
    Local: Estande Grupo Companhia das Letras
  • Domingo, 6 de setembro, às 19h30
    Sessão de autógrafos com Juliana Parrini e Camila Moreira
    Local: Estande Grupo Companhia das Letras
  • Domingo, 6 de setembro, 20h
    O Povo na Rua: As manifestações populares de 2013 para cá, com Luize Tavares, João Gabriel de Lima e Gustavo Gesteira Costa (mediação de Daniel Benevides).
  • Segunda-feira, 7 de setembro, às 11h
    Encontro com Autores com Mauricio de Sousa.
  • Segunda-feira, 7 de setembro, às 11h
    Investigando o Romance Policial, com Raphael Montes e Rodrigo Garcia Lopes (mediação de Carlos Marcelo Carvalho).
  • Segunda-feira, 7 de setembro, às 15h30
    70 Anos Sem Mário de Andrade, com Eduardo Jardim e Sérgio Miceli Pessoa de Barros (mediação de Manya Millen).
  • Segunda-feira, 7 de setembro, às 17h
    Encontro de leitores geek da Editora Seguinte e Suma de Letras (Doctor Who, Star Wars, Stephen King e Millennium)
    Local: Auditório Madureira (Pavilhão Verde)
  • Segunda-feira, 7 de setembro, às 18h30
    Sessão de autógrafos com Juliana Parrini e Camila Moreira
    Local: Estande Grupo Companhia das Letras
  • Terça-feira, 8 de setembro, às 16h
    Lançamento de Muito mais que 5inco minutos, de Kéfera Buchmann
    Local: Praça Maracanã. Veja como participar.

Sessão de autógrafos de Dois irmãos
Segunda-feira, 7 de setembro, às 17h
Fábio Moon e Gabriel Bá autografam Dois irmãos no Rio de Janeiro.
Local: Livraria da Travessa — Rua Voluntários da Pátria, 97, Botafogo — Rio de Janeiro, RJ

Bach, salmão defumado e escrever livros até o final

Por Luiz Schwarcz

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Foto: Elena Seibret

O começo desta história penso que os leitores do blog conhecem. Eu era amigo de longa data de Oliver Sacks, soube da sua doença um pouco antes dela se tornar pública, tentei visitá-lo, mandei discos a ele, recebi cartas escritas à mão, como ele sempre fazia. Hoje, entristecido com sua morte — que ocorreu quase exatamente dentro do prazo que os médicos lhe deram —, conto mais um pedaço dessa história, para quem quiser ler.

O tratamento a que Oliver Sacks se submeteu foi sofrido mas, no início, deu resultados surpreendentes. Ele pode viajar para Londres, rever a família, os amigos e escrever.

Numa carta, ele me contou sobre as melhoras no seu estado geral, ao mesmo tempo em que agradecia o CD com as sonatas de Schubert que eu lhe enviara. Me disse que não havia dado atenção necessária àquela obra de piano do compositor austríaco, de morte tão prematura, e que agora ficava feliz ao ouvi-las.

As boas notícias me deram um ânimo exagerado. Correndo uma manhã em Paraty, durante a Flip, pensei — como sempre penso ao correr — que a forma ideal de comemorar os trinta anos da Companhia das Letras, no ano que vem, seria trazer Oliver para uma palestra. Cheguei da corrida na casa que sempre alugo durante o festival e fui direto para o celular. Já tinha escrito a carta em minha cabeça, só faltava passá-la para as pequenas teclas do iPhone. A resposta de Kate Edgar, amiga e secretária fiel, veio rápida, foi curta e direta:

“Luiz, não temos como planejar nada com tanta antecipação na condição de Oliver. E será muito difícil ele poder viajar ao Brasil.”

Continuei embarcado em minha ilusão, a adrenalina da corrida não abaixava, ou eu não queria assimilar que o futuro não era tão promissor, e poucas semanas depois escrevi de novo. Disse que no dia sete de setembro estaria em Nova York para reuniões na Penguin/Random House. Por conta disto perguntei a Kate:

“Posso visitar Oliver e você?”

A resposta mais uma vez veio direta.

“Não, Luiz, ele não está mais recebendo visitas, mas fique tranquilo que eu e Bill estamos cuidando bem dele.” Bill, para os que não sabem, é um amor recente da vida de Oliver, um dos fatos mais marcantes de sua vida afetiva.

Foi um dos últimos sinais que tive. Em vinte de agosto, escrevi um e-mail para dizer que as memórias de Oliver (que publicamos em julho com o título Sempre em movimento) teriam uma segunda impressão e perguntei numa mensagem posterior e breve:

“Espero que Oliver esteja bem.”

Kate respondeu:

“Não está bem, mas sem dor, está emocionalmente em paz. Neste momento ele está ouvindo gravações clássicas de histórias de Sherlock Holmes, contadas por John Gielgud, Ralph, Richardson e outros. Sua vida está muito prejudicada mas ainda há prazeres. Salmão defumado e Bach são alguns dos principais.”

Em seguida respondi que enviaria alguma gravação de Bach da minha predileção para que ele escutasse. Kate disse, mais uma vez, para não me preocupar. Ele tinha muitas.

Numa parte da correspondência desses dias Kate me reiterou que ele seguia escrevendo e que iria continuar fazendo livros até o final. Conseguiu, aparentemente escreveu mais um livro e preparou outros dois, de cartas, correspondências e artigos.

Ouvindo a Paixão Segundo São Mateus, neste triste domingo de manhã em minha casa, logo após saber que meu amigo morreu, sinto uma pena danada. Não houve tempo para o último presente. Ao menos ele ficou feliz com a edição brasileira de Sempre em movimento, que considerou “Magnificent”. Em minha opinião é das capas mais bonitas dos trinta anos da editora. Oliver estará assim, de alguma forma, presente em nossas discretas comemorações.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros.

Semana duzentos e sessenta e quatro

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A queda do céu, Davi Kopenawa e Bruce Albert (Tradução de Beatriz Perrone-Moisés)
A queda do céu foi escrito a partir de suas palavras contadas a um etnólogo com quem nutre uma longa amizade – foram mais de trinta anos de convivência entre os signatários e quarenta anos de contato entre Bruce Albert, o etnólogo-escritor, e o povo de Davi Kopenawa, o xamã-narrador. A vocação de xamã desde a primeira infância, fruto de um saber cosmológico adquirido graças ao uso de potentes alucinógenos, é o primeiro dos três pilares que estruturam este livro. O segundo é o relato do avanço dos brancos pela floresta e seu cortejo de epidemias, violência e destruição. Por fim, os autores trazem a odisseia do líder indígena para denunciar a destruição de seu povo. Recheada de visões xamânicas e meditações etnográficas sobre os brancos, esta obra não é apenas uma porta de entrada para um universo complexo e revelador. É uma ferramenta crítica poderosa para questionar a noção de progresso e desenvolvimento defendida por aqueles que os Yanomami – com intuição profética e precisão sociológica – chamam de “povo da mercadoria”.

A garota na teia de aranha – Millennium vol.4, David Lagercrantz (Tradução de Guilherme Braga e Fernanda Sarmatz Åkesson)
A genial e atormentada justiceira Lisbeth Salander está de volta. Mas por que Lisbeth, uma hacker fria e calculista que nunca dá um passo sem pesar as consequências, teria cometido um crime gravíssimo e ainda provocado de forma quase infantil um dos maiores especialistas em segurança dos Estados Unidos? Depois de finalmente se livrar da polícia sueca e de todas as acusações que pesavam sobre si, que motivo ela teria para se atirar em outro lamaceiro político? É o que se pergunta Mikael Blomkvist, principal repórter da explosiva revista Millennium, além de amigo e eventual amante de Lisbeth. Mas Blomkvist precisa lidar com seus próprios demônios: afundada numa crise sem precedentes, a revista foi comprada por um grupo que pretende modernizá-la. Nada mais repulsivo ao jornalista que prefere apurar e pesquisar suas histórias a ceder às demandas e ao ruído das redes sociais. Ainda assim, há tempos o repórter não emplaca um de seus furos, e por isso não hesita em sair no meio da madrugada para atender a um chamado que promete ser a grande história de sua carreira. Presos a uma teia de aranha mortífera, Lisbeth e Blomkvist terão mais uma vez que unir forças, agora contra uma perigosa conspiração internacional. Uma volta em grande estilo da dupla que mudou para sempre os romances de mistério e aventura.

Devagar e simples, André Lara Resende 
André Lara Resende herdou do pai, Otto, o dom da palavra, o prazer do convívio, a clareza de raciocínio e o foco no que importa. E aprimorou essas qualidades ao longo da vida. Este livro é um exemplo dessas virtudes. Os treze artigos aqui reunidos têm alguns eixos comuns, que não derivam apenas de um passageiro interesse do autor no momento em que os escreveu. Alguns são imprescindíveis para o debate público do momento no Brasil. Outros são muito relevantes para entender o atual debate no mundo e seu significado para o Brasil.

O caso de Saint-Fiacre, Georges Simenon (Tradução de Eduardo Brandão)
O caso Saint-Fiacre é o décimo terceiro livro protagonizado por Jules Maigret, em que, finalmente, conhecemos seu passado. Ele é filho do administrador de um castelo ao sul de Paris, para onde volta pela primeira vez desde o enterro do pai. O motivo? Um bilhete anônimo: um crime seria cometido no local durante a missa de finados. Antes do fim do sermão, a condessa de Saint-Fiacre morre subitamente. Sua família está falindo. O filho é um aproveitador. O secretário, seu amante e possível herdeiro. Os atuais administradores do castelo, oportunistas em potencial. O padre, um omisso.

Seguinte

Capitolina – O poder das garotas, Vários autores
A revista on-line Capitolina surgiu em 2014 como uma alternativa à mídia tradicional voltada para meninas adolescentes. Sua proposta é criar um conteúdo colaborativo, inclusivo e livre de preconceitos, abordando temas como relacionamentos, feminismo, cinema, moda, games, viagens e muito mais. Esta edição reúne os melhores textos publicados em um ano de revista, além de vários artigos inéditos, todos eles ilustrados. No total, são 41 jovens escritoras e 23 artistas talentosas. Para completar, há atividades interativas para que cada leitora ajude a construir o livro e dê a ele seu toque pessoal. As leitoras vão encontrar conselhos, dicas, reflexões, muito apoio e, principalmente, a sensação de que não estão sozinhas.

Os bons segredos, Sarah Dessen (Tradução de Cristian Clemente)
Sydney sempre se sentiu invisível, já que Peyton, seu irmão mais velho, era o foco da atenção da família. Até que ele causa um acidente por dirigir bêbado, deixando um garoto paralítico, e vai para a prisão. Sydney parece ser a única a responsabilizá-lo, ao contrário de seus pais, que enxergam o filho como vítima. Para fugir do clima insuportável em casa, certa tarde Sydney entra numa pizzaria ao acaso. Lá conhece Layla, filha do dono do restaurante, e a amizade entre as duas é instantânea. Logo Sydney se vê contando à garota segredos que ninguém mais sabe, e encontra entre a família dela um espaço onde todos a enxergam e a aceitam como é.

Penguin-Companhia

Hamlet, William Shakespeare (Tradução de Lawrence Flores Pereira)
Um jovem príncipe se reúne com o fantasma de seu pai, que alega que seu próprio irmão, agora casado com sua viúva, o assassinou. O príncipe cria um plano para testar a veracidade de tal acusação, forjando uma brutal loucura para traçar sua vingança. Mas sua aparente insanidade logo começa a causar estragos – para culpados e inocentes.

Piloto de guerra, Antoine de Saint-Exupéry (Tradução de Mônica Cristina Corrêa)
Durante a Segunda Guerra Mundial, Saint-Exupéry serviu como piloto nas forças armadas francesas. Em 1940, foi designado para um sobrevoo da região de Arras, ao norte da França, numa missão de alto risco. Em parte relato dessa expedição, em parte indagação sobre o sentido da guerra – o conflito não é uma aventura, mas uma doença, afirma o narrador -, Piloto de guerra é um clássico a ser redescoberto por todas as gerações de leitores.

Companhia das Letrinhas

O pequeno príncipe, Antoine de Saint-Exupéry (Tradução de Mônica Cristina Corrêa)
Nesta edição, depois de ler a história do piloto que encontra um menino de cachos dourados no deserto do Saara, o leitor é convidado a fazer um mergulho na vida do autor e nos detalhes e curiosidades que envolvem a obra, em um posfácio recheado de fotos inéditas e informações imprescindíveis.

Mônica é daltônica?, Mauricio de Souza
Nesta história, a primeira publicada na revista Mônica, em 1970, o Zé Luís – e não o Cebolinha, acredite se quiser -, inaugura a tradição dos planos mirabolantes para tentar acabar com as temidas coelhadas da dona da rua. E o Titi, o Cascão, o Cebolinha, junto com o líder do grupo, executam passo a passo o combinado, até que… Além de descobrir o fim da aventura, o leitor vai conhecer curiosidades sobre a turma e as ilustrações surpreendentes de Odilon Moraes, que reinterpreta um clássico de Mauricio de Sousa.