Os donos do tempo – ou o silêncio e a fúria

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Por Luiz Schwarcz

livre42Numa entrevista memorável à Paris Review — à qual voltarei seguidamente nestes textos —, William Faulkner compara a profissão de escritor à de roteirista, dando sempre vantagem sensível à primeira. Estendendo a comparação da literatura com a música, e mesmo aceitando esta última como expressão mais natural da natureza humana, Faulkner reafirma também sua clara preferência para com as palavras como meio de expressão: “Prefiro o silêncio ao som, e a imagem produzida por palavras transcorre em silêncio. Isto é, o estrondo e a música da prosa se processam em silêncio”.

No ótimo Uma história da ópera — os primeiros quatrocentos anos, Carolyn Abbate e Roger Parker nos mostram como o pacto que o compositor e o espectador de ópera celebram é, desde o princípio, irrealista. É bobagem criticar a ópera por seu conteúdo implausível. Quando nos envolvemos com a Violetta, de La traviata, ou com a Brunilde, de O anel dos Nibelungos, entramos numa dupla fantasia, irrealista por natureza, já que, além da representação, a vida não transcorre por meio do canto. Ao cantar uma história, quebra-se qualquer possibilidade de transferência natural ou naturalista. O espectador sabe o tempo todo que assiste a algo que nunca existiu, não se colocando plenamente na pele dos personagens, pelo simples fato de que ele próprio não cantaria segundos antes de morrer, antes de envenenar seu rival, ou até mesmo para declarar seu amor eterno à mulher ou ao homem de sua vida — ainda mais na frente de um bando de outros personagens, um maestro e dezenas de músicos de uma orquestra.

Os que criticam a literatura de cunho realista ou naturalista deveriam pensar mais na frase de Faulkner. A vida também não transcorre em silêncio. Essa é uma das armas naturalmente irrealistas da ficção, o campo no qual a imaginação do autor e a do leitor se encontram. Talvez se possa até dizer que a literatura nada mais é do que o encontro de dois silêncios, separados apenas pelo tempo  o do escritor e o do leitor. Paradoxalmente, é o silêncio que na literatura facilita o caminho da fúria, não o som. Ao ler um livro somos transportados ao tempo escolhido pelo autor. Nele encontramos emoções sutis e arrebatadas, em graus e nuances que não notaríamos ou absorveríamos senão no silêncio do texto. Além disso, na leitura, muitas vezes o tempo é quebrado por idas e vindas, fluxos de consciência e outros recursos narrativos. Também existem as interrupções proporcionadas pela pontuação e pelos capítulos. Na vida real não há capítulos. Só em nossa imaginação sobre a vida. Ao separarmos a vida em capítulos  coisa que só podemos fazer a posteriori , estamos de certa maneira, todos nós, escritores ou não, fazendo literatura.

Outro ponto importante, e que faz da arte da ficção algo tão diverso do teatro ou do cinema, é que o controle do tempo da leitura não pertence exclusivamente ao autor. Num filme ou num espetáculo dramático, o espectador vai a um local que não foi por ele escolhido, em hora marcada pelos encenadores, e assiste a uma representação em que o espaço para a imaginação é constrangido, na maioria dos casos, pelo caráter realista da obra em questão, pela cara e pelo tom de voz dos atores, pela cor do céu e pelo mobiliário que aparece na tela ou no cenário. Por isso Brecht se preocupou com a possível alienação do espectador, e defendeu um teatro pontuado de comentários críticos, que lembrasse sempre ao espectador que ele não faz parte daquela ação. Há inúmeros narradores “brechtianos” na história da literatura, que encheram seus livros de ironias e lembranças críticas sobre seus próprios personagens. Machado de Assis é um exemplo clássico de um brechtiano pré-Brecht.

Quem sabe seja possível afirmar que a escolha da narração em terceira pessoa seja quase brechtiana por natureza, até quando a narrativa não tem qualquer tipo de conteúdo crítico aparente. A voz em terceira pessoa é sempre distante, mesmo que de forma sutil. Além disso, quando o livro é composto por várias vozes narrativas, o realismo tão temido pelos pós-modernos nasce morto desde a primeira linha. Neste caso, há ainda mais espaço para a acomodação do leitor, que sempre pode escolher com quem se identifica ou não e, assim, reagir imaginativamente diferenciando os personagens de sua estima.

Além disso a pontuação da leitura não é feita só pelas vírgulas ou capítulos, mas, principalmente, pelo fato de que um leitor escolhe quando vai ler um livro, escolhe o local da leitura e arbitra suas próprias interrupções: pontua a leitura com respiros pessoais, onde pode incluir suas elucubrações. Neste sentido, o clamor pós-moderno contra a literatura, que deve mais a Tolstói do que à Virginia Woolf, é uma grande besteira. Todas as influências literárias são válidas, todas as formas de silêncio valem a pena. Elas nunca reproduzirão simplesmente a vida real, sempre superarão a mera fotografia realista. Graças ao bom Deus, aquele mesmo que, como dizem, teria ditado, soprado ou inspirado a Bíblia, e que neste caso terá sido, ou ainda é, antes de mais nada, um grande escritor.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal sobre livros e o trabalho editorial.

Semana duzentos e oitenta e três

Objetiva

Superprevisões, Dan Gardner e Philip E. Tetlock (Tradução de Cássio de Arantes Leite)
Em um estudo que durou vinte anos, o psicólogo e cientista social Philip Tetlock demonstrou que, ao prever o futuro, um especialista é apenas um pouco melhor do que um leigo. No entanto, com base nos resultados de uma pesquisa inovadora, Tetlock provou que alguns indivíduos têm uma extraordinária habilidade de previsão 60% mais precisa que a média. Superprevisões revela os segredos desse grupo de elite e oferece conselhos práticos sobre como podemos usá-los em benefício próprio.

Companhia de Bolso

Um monge endinheirado, a mulher do bandido e outras histórias de um rio indiano, Gita Mehta (Tradução de Hildegard Feist)
Ainda pouco conhecida no Brasil, Gita Metha tornou-se uma autora de renome nos Estados Unidos e na Europa, sobretudo pela extrema sensibilidade com que traduz o mundo exuberante, complexo e milenar da cultura indiana em narrativas cristalinas, repletas de uma sabedoria sempre atual.
Em O monge endinheirado, a mulher do bandido e outras histórias de um rio indiano, um burocrata quer se tornar umvanaprasthi, alguém que se retira do mundo para meditar, assumindo um cargo num albergue do governo às margens do rio Narmada, lugar sagrado que atrai hinduístas, jainistas, muçulmanos e sufistas, aos quais se somam mendigos, sábios, ascetas, loucos, músicos e professores, de todas as partes do país. Com esses personagens, Gita Metha compõe um painel de histórias que se enlaçam umas às outras, numa belíssima sondagem dos ásperos caminhos que o homem precisa percorrer até encontrar seu destino. O monge endinheirado possui uma rara beleza; é uma pequena obra-prima que comove a cada página.

Paralela

58 listas (33 úteis e 25 nem tão úteis assim), Manuela Barem
Quem nunca disse “vou trabalhar assim que checar o Facebook” e, quando viu, já havia passado mais de hora? Se formos nomear os culpados, Manuela Barem e sua equipe do BuzzFeed encabeçariam a lista. Com as famosas listas de nostalgia, cultura pop, dados inesperados (mas essenciais) e testes de personalidade, o site ajuda a gastar o tempo que jurávamos que seria usado para trabalhar, encontrar os amigos, cuidar da vida ou descobrir novos filmes. 58 listas (33 úteis e 25 nem tão úteis assim) tem tudo isso e muito mais!

Um monstro

Por DW Ribatski

To catch a monster
we make a movie.

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DW Ribatski nasceu em Curitiba em 1982. É artista plástico, ilustrador e quadrinista. Já colaborou com diversas publicações, como o caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo e a revista Superinteressante, entre outras. Nas HQs, publicou Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013), Como na quinta série (Balão Editorial, 2012), La naturalesa (coleção MIL, Cachalote/Barba Negra, 2011), Vigor Mortis (Quadrinhofilia/Zarabatana Books, 2011, com José Aguiar e Paulo Biscaia) e Dois (Roax Press, 2013). Contribui para o blog com uma coluna mensal de quadrinhos.
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Lembranças do Carnaval

Por Juan Pablo Villalobos

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Pros Moronitas

Vou começar com um depoimento anticlimático: eu nasci e cresci numa cidade do México onde não tem Carnaval. Minhas primeiras lembranças do Carnaval são as imagens na televisão dos carnavais de rua em Veracruz e Mazatlán, dois portos que ficam a mais de 600 quilômetros da minha cidadezinha. Além disso, também passava na TV o resumo do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Eram vinte ou trinta segundos no noticiário noturno. Vinte ou trinta segundos de bundas e peitos e mulherada pelada, para ser exato.

Só quando fui morar em Barcelona, com 30 anos, lá em 2003, tive o primeiro contato direto com o Carnaval, em Sitges, uma das capitais gays da Europa. Ir para o Carnaval de Sitges é, pros recém-chegados (os “nouvinguts”, em catalão), um rito de passagem. Para pular Carnaval em Sitges, primeiro você tem que conseguir pular no trem (lotadíssimo) e, depois, o rito exige que você passe frio (é inverno), aguente a chuva (sempre chove) e demore horas para arranjar uma cerveja choca (se você não tomou a providência de trazer sua bebida, e os “nouvinguts” ainda não têm essa proficiência). Depois de cumprir com o rito de passagem no meu primeiro fevereiro em Barcelona, eu decidi, feliz, botar o Carnaval na gaveta das coisas da vida que não têm nada a ver comigo, ali ao lado do críquete, das religiões evangélicas, da taxidermia ou do molho bechamel. Pronto, achei que tinha esquecido para sempre do Carnaval. Hahaha. Que inocente… Porque logo, logo, alguém abriu essa gaveta, pegou o Carnaval e o colocou bem no centro da minha vida. Adivinharam: eu conheci uma brasileira.

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Mulher brasileira é assim: dez anos depois, em 2013, eu estava pulando Carnaval no Sambódromo de São Paulo com a escola Águia de Ouro. Juro. Carregando uma fantasia que pesava dez ou quinze quilos. E que tinha penas. E muitos enfeites brilhantes. E na cabeça eu trazia um capacete de operário amarelo (foi o mais perto que estive da classe trabalhadora na minha vida, vovô Marx estaria orgulhoso de mim). Eram seis horas da manhã do sábado e chovia, igualzinho em Sitges, enquanto a gente desfilava. Mas não vamos tão rápido, é preciso ir mais devagar (a verossimilhança tem suas regras).

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O namoro com a brasileira ficou sério. Tivemos um filho colecionador de passaportes. Depois uma filha com o mesmo hobby. E a cada fevereiro, ganhei uma nova angústia existencial: os brasileiros estavam lá no verão, pulando Carnaval, e a gente estava nessa porra de frio, com chuva, e com a única possibilidade de ir para esse carnavalzinho fajuto de Sitges. A angústia, lógico não era minha. Era da minha brasileira. Os amigos dela eram cruéis e colocavam no Orkut fotos na praia, no Carnaval de salão, no bloco de rua, sempre com pouca roupa. Eu tinha em casa uma suicida em potencial.

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Com a namorada brasileira eu arranjei, lógico, uma família brasileira. Sogra, sogro, cunhado, avós, tios, tudinho. Vinha no pacote. Uma famiglia italiana do estado de São Paulo. Era muito clichê. Mas eles estavam longe, ufa. Longe até a gente decidir ir morar no Brasil, lá em 2011. Aí eu senti de verdade que a bateria do Carnaval começava a bater bem nas portas do meu refúgio anticarnavalesco.

A minha família brasileira ia pro Carnaval de salão do clube chique da cidade. E, além do mais, tinha a matinê para as crianças. Naquela época, os colecionadores de passaportes já tinham 5 e 3 anos, respetivamente. Fofíssimos. Dava para fantasiá-los de piratas e princesas. De personagens da Disney. Até de mexicaninhos (o folclore é admitido). Mas o problema era que o pai gringo também tinha que se fantasiar. Eu peguei a verde-amarela que o sogrão deu de presente antes da Copa de 2010 (e que nunca tinha usado, lógico) e falei que gringo com camiseta do Brasil já pode se considerar fantasiado. Falei que era o Neymar. Claro que eu não usei o penteado do Neymar nem botei o número e o nome dele nas costas, mas o importante era a atitude. A ousadia. Tem ousadia maior que um mexicano de cidadezinha do interior encarar o Carnaval brasileiro?

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Daí aconteceu uma coisa muito estranha. Esquisitíssima. Comecei a gostar do Carnaval. Da matinê das crianças e do Carnaval de rua com bloquinhos alternativos. Comecei a achar legal. E, depois, muito legal. Mas para isso foi preciso muita bebida. Essa cerveja gelada que só tem no Brasil. E cachaça. Muita. Quando eu falo muita, é muita. (Porra, eu bem que tomaria uma cachacinha agora, mas estou tomando antibiótico, por culpa de uma dor de dente.) Aliás, este parágrafo não é comercial da Brahma. Nem da Skol. Eu gosto mesmo é da Serra Malte. Mas não é publicidade, não. O que era que eu estava contando? Peraí (o antibiótico me deixa zonzo).

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Morei três anos no Brasil e minha lembrança favorita do carnaval foi numa matinê, quando a minha princesinha, fantasiada de Frozen, me disse que estava com dor de barriga. Vamos pro banheiro, falei. Entramos na cabine da privada. Faz força, falei. E a minha princesinha peidou confete.

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Para falar a verdade, provavelmente eu ainda não gostava tanto assim do Carnaval. Só tinha aprendido a lidar com ele. Ficava num cantinho com a bebida na mão, olhando com autêntico interesse antropológico. Quando alguém me convidava para dançar ou participar de alguma brincadeira, eu falava que era escritor, um cronista da realidade, e que eu queria era observar. Quem sabe um dia eu acabava escrevendo um textinho sobre o Carnaval. Adorava também assistir o desfile das escolas de samba na TV. Acho que é o espetáculo perfeito, porque você não tem que assistir. Você só tem que deixar a TV ligada e dar uma olhada de vez em quando. Vinte ou trinta segundos por hora.

Mas então chegou aquele dia de finais de 2012. Minha brasileira falou que o irmão e a namorada de uns amigos nossos (editores, aliás – ô raça!) iam desfilar com a Águia de Ouro e que, se quiséssemos, poderíamos participar. Fiquei atônito. Olhei seriamente para ela: ela tinha cara de “é uma prova de amor”. Não dava para dizer que não.

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Cenas de uma noite de Carnaval:

1) Quatro pessoas demoram meia hora para entrar no carro depois de ensaiar inúmeras posições para não estragar as penas da fantasia.

2) Cinquenta pessoas fantasiadas iguais bebem cerveja num posto de gasolina às 2:30 da manhã.

3) Cinquenta pessoas demoram uma hora para entrar no ônibus da prefeitura que levará a nossa ala pro Sambódromo.

4) Aguardamos nossa vez no Sambódromo, seremos a última escola a desfilar. Às 5:45 começa a chover, observo as penas da fantasia molhadas, parecemos as Galinhas de Ouro.

5) Desfilamos sob a chuva, eu não sei de cor o enredo (é a segunda vez que o escuto), eu não sei a coreografia, aprendo tudo durante a hora do desfile, tomo bronca do diretor de nossa ala. Atrasamos um minuto do tempo permitido para terminar de cruzar o sambódromo. Porra.

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Então, em 2014, a brasileira, os colecionadores de passaportes e eu voltamos para Barcelona. Ufa. De volta para as saudades do Carnaval, pensei. Mas minha brasileira tinha outros planos. Ela se candidatou para presidenta da Associação de Pais dos Brasileirinhos da Catalunha (que ela tinha ajudado a fundar, anos atrás), ganhou a eleição e eu virei primeiro-damo. Juro. E este sábado tem matinê lá na Associação. E eu não posso beber por culpa dessa porra de antibiótico. Quem sabe voltarei a não gostar do Carnaval. Quem sabe voltarei a ser parte da ala dos anticarnavalescos. Mas, por enquanto, já lavei minha camiseta do Neymar. Bom carnaval para vocês.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Superprevisões, de Philip E. Tetlock e Dan Gardner

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Foto: thatwendyward – Tavern Brighton

A arte de prever o futuro intriga e fascina a humanidade desde sempre. São fartos os exemplos de rituais de sacrifícios, magias e jogos místicos em busca de respostas para o que está por vir. Afinal, todos nós tomamos decisões com base no que acreditamos em relação ao futuro. Comprar uma casa, mudar de emprego, ter um filho; quase todas as decisões dependem de uma expectativa sobre o que vai acontecer.

Superprevisões – a arte e a ciência de antecipar o futuro (Objetiva), do cientista político Philip Tetlock e do jornalista Dan Gardner, que acaba de chegar às livrarias, investiga o tema com base em pesquisas e em um estudo que levou vinte anos para ser finalizado, e chega a uma conclusão desconcertante: a média de acerto para previsões de longo prazo é de apenas 15% – a mesma de um chimpanzé atingir o alvo no arremesso de dardos. Mais que isso, Tetlock demonstra que a maior parte dos especialistas se sai ligeiramente melhor do que um leigo fazendo suposições aleatórias. A boa notícia é que é possível aprender a aprimorar a previsão do futuro. E há quem se saia bem na tarefa. São os chamados “superprevisores”, minuciosamente descritos pelos autores.

A questão não é simples e não pode ser resumida a modelos matemáticos, sem levar o fator humano (e toda a sua imprevisibilidade) em conta. Toda previsão é uma probabilidade que precisa ser revista a cada momento. Quem diria ainda durante as eleições presidenciais de 2014 que a recessão brasileira fosse alcançar o abismo que se confirmou ao final do ano passado? Uma das razões para a queda vertiginosa do investimento empresarial no Brasil é a perspectiva de piora da situação econômica. Mas qual a real dimensão do quadro político e econômico brasileiro para 2016?

Em entrevista recente para as Páginas Amarelas da revista Veja, Tetlock afirma que “as previsões são inevitáveis porque sempre que alguém toma uma decisão – seja ela pessoal, política ou econômica – leva em conta quais serão as suas consequências. E é disso que as previsões tratam, de consequências.”

Best-seller nos Estados Unidos, separamos para os leitores do blog trechos traduzidos das resenhas publicadas no Sunday Book Review, do New York Times, e das revistas The Economist e Forbes. Vale a pena conferir.

 

Prevendo o futuro

Uma abordagem esclarecedora

The Economist – 26 de setembro de 2015

Humildade diante de um mundo complexo torna os superprevisores pensadores sutis. Eles geralmente se sentem confortáveis com números e conceitos estatísticos como, por exemplo, a “regressão à média” – que basicamente afirma que na maior parte das vezes tudo segue um fluxo de regularidade, e, portanto, é provável que qualquer desvio significativo seja seguido por um movimento de retorno à normalidade. Mas eles não são estatísticos. (…)

Mais importante é o que Tetlock denomina como “ampliação da mentalidade”: um misto de determinação, autorreflexão e vontade de aprender com os erros alheios. Os melhores previsores não estavam tão interessados no fato de estarem certos ou errados, mas, sim, em por que haviam acertado ou errado. Sempre buscavam alternativas para melhorar seu desempenho. Em outras palavras, previsões não são apenas possíveis, podem também ser ensinadas. (…)

Previsões, assim como a medicina do início do século XX, são quase sempre baseadas em prestígio e não em evidências. Os previsores mais famosos do mundo são colunistas de jornais e comentaristas de televisão. Superprevisores não se saem bem como estrelas da mídia. Cuidado, nuance e um ceticismo saudável não se saem tão bem no vídeo um cabelo longo, um sorriso fascinante e declarações simplistas e convictas. Mas, mesmo que a aguardada revolução nunca ocorra, os hábitos e as técnicas mentais apresentadas nesse livro são um presente para qualquer indivíduo que precise pensar sobre os desdobramentos do futuro. Em outras palavras, para qualquer um.

 

É possível as empresas aprenderem a ser “Superprevisoras”?

Mais fácil na teoria que na prática

Revista Forbes – Por Frank David  – 4 de outubro de 2015

Muitas decisões empresariais se fundamentam em previsões sobre o futuro com base em fatos, e carreiras são construídas ou desmanteladas em função de resultados. Não surpreende, portanto, que empresas valorizem “especialistas” em todos os níveis – afinal, mais experiência e educação deveriam acarretar suposições melhor fundamentadas, e, sendo assim, melhores decisões.

Mas qual a confiabilidade das previsões dos assim denominados “especialistas”? Não muita, como se pode ver. Há mais ou menos uma década, o professor Philip Tetlock, da (Universidade) de Wharton, analisou as previsões de cerca de 300 autoridades respeitáveis – e Louis Menand, da New Yorker, avaliou os resultados: “Seres humanos que dedicam a vida estudando a situação mundial… são piores previsores que chimpanzés atirando dardos.” Tetlock dedicou a nova etapa de sua carreira questionando a síntese simplista de seu trabalho prévio. Mas ainda que “especialistas” façam essencialmente suposições, alguns chimpanzés conseguem ser mais precisos que outros para atingir um alvo? O título de seu último livro, Superprevisões, escrito em coautoria com Dan Gardner, adianta a resposta: “Superprevisores”, na realidade, caminham entre nós. E, ainda que não sejam “especialistas” de acordo com qualquer definição tradicional do termo, eles superam, de forma consistente, o desempenho em prever o futuro. (…)

(…) Mas um dos pontos centrais para Tetlock defende que nenhuma dessas habilidades é inata: é possível tanto ensiná-las quanto aprendê-las. Um tutorial de 60 minutos sobre as características de previsores com alto rendimento aumentou em cerca de 10% o índice de acerto dos participantes (da pesquisa desenvolvida por Tetlock) ao longo de todo o ano seguinte. Isso pode não saltar aos olhos, mas se o decorrer do tempo for levado em consideração, produziria um grande impacto, contando apenas com uma intervenção relativamente branda, que pode ser utilizada não apenas pela maioria dos indivíduos como também por empresas. Na verdade, com base apenas nessas informações, “Os dez mandamentos dos aspirantes a superprevisor”, criado por Tetlock, deveriam provavelmente ter um lugar de destaque na maior parte das salas de reuniões empresariais, bem ao lado (ou substituindo) os cartazes onipresentes com “os valores da empresa”.

 

Superprevisões

Sunday Book Review  do  New York Times – Por Leonard Mlodinow – 15 de outubro de 2015

O livro (Superprevisões) descreve as descobertas do Good Judgment Project, uma iniciativa empreendida por Tetlock e sua colaboradora (e esposa), Barbara Mellers, em 2011, que foi criada por um braço da comunidade de inteligência americana.

As agências de segurança nacional têm um interesse óbvio pelo projeto de Tetlock. Segundo estimativas, os Estados Unidos contam com 20 mil analistas de inteligência inteiramente dedicados a avaliar questões como a probabilidade de um ataque surpresa israelense contra o Irã no próximo mês ou a saída da Grécia da Zona do Euro até o final do ano. O número supera em quatro vezes a presença de físicos em centros universitários americanos de pesquisa. E, por isso, o valor gasto para aprimorar os resultados deve ter sido encarado como um bom investimento.

E foi. O Good Judgment Project utilizou a internet para recrutar 2.800 voluntários, pessoas comuns interessadas em temas da atualidade – um programador de computador aposentado, um funcionário do serviço social, uma dona de casa. Por quatro anos, os pesquisadores lhes pediram que se baseassem em notícias e outras fontes de informação para estimar a probabilidade com que vários eventos poderiam ocorrer, apresentando uma média de 500 perguntas nos mesmos moldes que os analistas de inteligência precisam responder todos os dias. Os voluntários também poderiam reafirmar ou ajustar essas probabilidades diariamente até que a questão “expirasse” em uma data de encerramento pré-anunciada.

As lições centrais de Superprevisões podem ser destiladas em uma série de diretrizes. Tenha como base previsões em dados e na lógica e tente eliminar inclinações pessoais. Acompanhe os resultados para que saiba o seu grau de precisão e o dos demais. Pense em termos de probabilidade e reconheça que tudo é incerto. Desmembre uma pergunta em seus componentes, distinguindo entre o que se sabe e o que não se sabe, e examinando as premissas. (…)

As prescrições apresentadas em Superprevisões (…) deveriam oferecer a todos nós uma oportunidade para entender e reagir de maneira mais inteligente diante do mundo confuso que nos rodeia.