Semana trezentos e três

O dono do morro, Misha Glenny (Tradução de Denise Bottmann)
A vida de uma cidade é a história de sua gente – de seus intelectuais e comerciantes, de seus trabalhadores, policiais e bandidos. A menos que estes últimos estejam mortos, para o repórter será sempre mais conveniente tratar dos outros. No entanto, em certas sociedades o bandido tem grande força simbólica, e dar as costas a ele é abrir mão do bom trabalho jornalístico.
O Dono do Morro toma o caminho difícil ao contar a história de Nem da Rocinha, que está tão vivo quanto o leitor. Em novembro de 2011, ao ser preso, Nem era o criminoso mais procurado do Rio de Janeiro, se não do país. Misha Glenny vai encontrá-lo na prisão, e o que se segue é tanto a ascensão e queda de um traficante como a tragédia de uma cidade.
Numa tarde de 2000, Antônio Francisco Bonfim Lopes “subiu o morro como Antônio e desceu como Nem”. Em minutos, passou de trabalhador exemplar a bandido. O Rio é pródigo em episódios de conversão ao crime, mas raras vezes eles se apresentam com essa clareza trágica – com motivação, hora e local perfeitamente determinados.

O instante certo, Dorrit Harazim
A fotografia mudou o mundo. Há cliques que alteraram o rumo da história, os costumes da sociedade, os hábitos privados e coletivos. Neste O instante certo, a premiada jornalista Dorrit Harazim conta a história e as histórias de alguns dos mais célebres fotogramas já tirados. Com o olhar menos interessado em aspectos técnicos do que em aspectos humanos, Dorrit enxerga para além de jogos de luzes e sombras, mirando sempre nas narrativas que as fotografias por vezes revelam e por vezes ocultam.
Assim, registros da Guerra Civil Americana propiciam uma rica análise dos avanços tecnológicos da fotografia e de como eles mudaram a reportagem de guerra. Uma fotografia na cidade de Selma é um relato da trajetória do movimento pelos direitos civis, e uma série de retratos de um casamento inter-racial serve para alterar a visão de uma nação sobre seu próprio racismo. No Brasil, uma mudança na lei trabalhista tem como fruto um dos mais profícuos retratistas do país, e o acaso e a sorte levam outro talentoso fotógrafo ao sucesso internacional.
Num dos momentos mais emocionantes do livro, Dorrit conta a história do fotógrafo que registrou os pertences de dezenas de internos de uma instituição psiquiátrica desativada. São malas, bolsas e inúmeros cacarecos, um labirinto pessoal e afetivo de gente que foi esquecida e abandonada pelo tempo, e cujas memórias são resgatadas por essas imagens. Da mesma forma, Dorrit narra a vida da misteriosa Vivian Maier, uma babá de vida pessoal discreta que, após a morte, foi revelada como uma grande fotógrafa e retratou como poucos a sua cidade e a sua sociedade. Neste que é seu primeiro livro, Dorrit Harazim nos guia não apenas através das imagens, mas de um universo de histórias interligadas, acasos e aqueles breves instantes de genialidade que só a fotografia pode captar.

Pé do ouvido, Alice Sant’Anna
Pé do ouvido se inventa como um poema de formação, gênero que, como se sabe, não existe. Nos romances assim designados, uma personagem jovem parte em viagem e, a cada experiência vivida, forja, por acumulação, sua personalidade e visão de mundo. A narradora de Alice Sant’Anna certamente é jovem, mas já rodou muitas estradas. Entre uma Brook Street qualquer e o Morro Dois Irmãos, o que ela aprende é a perder – certezas, casas ou amores -, aluna aplicada na dura disciplina ensinada por Elizabeth Bishop.

O rei, o pai e a morte, Luis Nicolau Parés
Este livro examina as práticas religiosas na antiga Costa dos Escravos, na África Ocidental, correspondente à extensão onde hoje está a República do Benim. Nesse pequeno trecho de litoral, embarcou-se parte significativa dos africanos que chegaram escravizados ao Brasil, em particular à Bahia. A obra privilegia os dois séculos que vão de 1650 a 1850, quando o tráfico transatlântico de escravos foi mais intenso.
Os principais reinos que dominaram a região nessa época foram Aladá, depois Uidá, e a partir da década de 1720, Daomé. Em razão das várias línguas faladas nessas sociedades, os deuses eram chamados de diversas formas, mas o termo mais comum era, e ainda é, vodum. Assim, o livro analisa o dinamismo e a historicidade da prática associada aos voduns, destacando sua imbricação com a vida política e econômica desses reinos. Em função da ligação histórica do Brasil com o lugar, a última parte da obra aborda questões relativas às repercussões que esses costumes tiveram na Bahia e no Maranhão.

Objetiva

Turno da noite, Aguinaldo Silva
A íntima relação de Aguinaldo Silva com a escrita começou cedo. Publicou seu primeiro romance pouco antes de completar dezoito anos e logo estreou como repórter. Sua vida como jornalista daria uma novela com lances dramáticos e episódios extraordinários, todos narrados na primeira parte deste livro, que traz as memórias de sua juventude no Recife dos anos 1960 e na efervescente cena cultural carioca da década de 1970. A partir de 1969, Aguinaldo passou a se interessar pela reportagem policial. Junto à apuração dos fatos, imprimiu um tom pessoal às matérias, produzindo textos inesquecíveis sobre o mundo do crime e da violência policial, muitos deles reproduzidos na segunda parte deste livro.

Alfaguara

A história dos meus dentes, Valéria Luiselli (Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman)
Gustavo Sánchez Sánchez, mais conhecido como “Estrada”, tem uma missão: quer trocar todos os seus dentes. Ele possui algumas habilidades que podem ajudar nessa empreitada, como, por exemplo, imitar Janis Joplin e decifrar biscoitos da sorte chineses. Além disso, ele é o melhor leiloeiro do mundo — mesmo que ninguém saiba disso, já que ele é muito discreto. Enquanto estuda o ofício com o grande mestre Oklahoma, Estrada viaja o mundo aperfeiçoando seu talento e nos mostra como o valor da arte e a nossa própria identidade podem ser construídos.

Companhia das Letrinhas

Bem lá do alto, Susanne Straber (Tradução de Julia Bussius)
Neste livro, um urso avista um bolo. Ele parece muito apetitoso. Mas, puxa, está bem lá no alto… Como o urso vai conseguir pegá-lo?
Um livro para crianças bem pequenas em que se mostra o quanto é bom poder contar com a ajuda dos amigos e de acontecimentos inesperados.

 

 

A Liga

Por Claudia Rosenberg Aratangy

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Encontro da Liga das faculdades Leitoras.

É uma Liga, mas não é a da Justiça. É formada por heróis com superpoderes? Não, mas tem encantamento e magia, emoção e aventuras.

Um grupo de cinco faculdades – Faculdades Campos Salles, Faculdade de Ciências Contábeis e de Administração de Empresas (FACCAT), Instituto Singularidades, Faculdades Sumaré e Universidade Cruzeiro do Sul (UnicSul) – montou, cada qual no seu campus, um Clube de Leitura em parceria com a Companhia das Letras. Este grupo é chamado de Liga das Faculdades Leitoras. Cada Clube, formado por alunos de Pedagogia ou de Licenciaturas (portanto, futuros professores), é mediado por uma professora amante da literatura. Na companhia de livros cuidadosamente selecionados, os Clubes tiveram, desde setembro passado, seis encontros, nos quais cada um dos seis livros foram lidos.

A curadoria foi feita por Luci Ana Nascimento, da Campos Salles; Luciana Ferreira Leal, da FACCAT; Alcione Muterle, do Singularidades; Maria Elena Roman, da Sumaré; Silvia Valéria Vieira, da UnicSul; Rafaela Deiab e Janine Durand, da Companhia das Letras e Claudia Aratangy e Luciana Gerbovic, da Literária Consultoria. Foram escolhidos títulos de gêneros variados, diferentes nacionalidades e categorias (humor, drama, aventura, romance). Os escolhidos foram:

As avós, de Doris Lessing;

Persépolis, de Marjani Sartrapi;

Eles eram muito cavalos, de Luiz Ruffato;

A vida do livreiro A. J. Fikry, de Gabrielle Zevin;

Três vezes ao amanhecer, de Alessandro Baricco e

Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos.

Os participantes da Liga puderam ler os seis títulos, pagando apenas por um , uma vez que os custos foram divididos entre todos igualmente e os livros rodiziaram entre as faculdades.

A experiência foi marcante e transformadora. Aleni dos Santos Pereira, participante do Clube de Leitura da Sumaré, relata como o Clube mudou sua forma de encarar a leitura: “Eu gostava só de romance. Mas eu tive uma outra visão, quando começou o Clube. Ler um livro e ter a possibilidade de ver a minha visão e a visão das outras pessoas é muito gratificante”.

No sábado, dia 4 de junho, para encerrar o primeiro ciclo de leituras da Liga, todos os participantes foram convidados a participar de um evento especial no auditório das Faculdades Sumaré.

Na abertura, além das boas vindas do diretor da Sumaré, Ramón Vilarinho, e da mediadora, Maria Elena Ramón, anfitriões do evento, os participantes e representantes de cada faculdade deram seu depoimento.

Aline, da Faculdades Sumaré, ressaltou como a discussão coletiva mudava sua impressão sobre a leitura feita: “Esses momentos de conversas sobre o livro lido eram realmente sensacionais, pois até os livros que eu afirmava não ter gostado, sentia vontade de ler novamente e acabava concluindo que havia gostado da leitura“.

Renata, da FACCAT, destacou o quanto tem sido gratificante ler e comentar as leituras com amigos e familiares. Adriana Calabró, do Singularidades, definiu a literatura como um grande exercício de empatia: “Quando o autor escreve, ele entra no mundo dos personagens e no mundo dos leitores; depois, é o leitor que entra no mundo do autor e no dos personagens, e com eles vibra, se emociona… E o Clube de Leitura nos dá mais uma oportunidade de empatia, pois cada um entra no universo da leitura do outro”. Marina Moreira Santos, da Campos Salles, destacou que “foi um desafio, mas as leituras nos encantaram. Além disso, a gente não ensina o que não sabe, então você só pode ensinar os seus alunos a gostar da leitura se você for capaz de ler, de gostar e se encantar”. Para Giovanna Held, das Artes Visuais, integrante da UnicSul, o Clube, além de permitir uma “fuga” das tradicionais leituras de estudo da faculdade, permitiu a “experiência de compartilhar os diferentes pontos de vista que cada um tinha de cada livro, foi muito prazeroso pra todos nós”.

Na sequência, houve uma conversa por Skype com Juan Pablo Villalobos, que começou falando sobre o processo de escrita de Festa no covil. Ele surpreendeu a todos ao revelar que, inicialmente, pretendia escrever uma história infantil. Os participantes perguntaram sobre detalhes do enredo, sobre as escolhas do autor relativas ao tema e sua abordagem, suas influências literárias e, por fim, sua opinião a respeito da importância da formação de leitores, não só para os professores, mas para qualquer pessoa: “Tenho certeza que, não só os professores, mas um matemático, um engenheiro, um médico, seriam melhores se tivessem um bom conhecimento da tradição literária. Porque as grandes questões da existência e as grandes questões da nossa história, os grandes desafios que temos como seres humanos, estão na nossa literatura. Tenho certeza de que esses empresários, executivos, políticos, etc., poderiam tomar decisões melhores se tivessem um bom conhecimento da nossa literatura”.

O último momento do evento foi em salas de aula, nas quais, em grupos menores, os participantes de cada faculdade puderam compartilhar uns com os outros o que foi a experiência do Clube.

Todos, sem exceção, destacaram o quanto aprenderam e se transformaram ao longo dos encontros. Alguns confessaram que sequer gostavam de ler ao ingressar no Clube, mas que isso mudou radicalmente.

A Liga continuará e com novos participantes. Muitos dos integrantes deste primeiro Ciclo estão se formando e deixarão o Clube. De qualquer forma, já não são mais imunes aos poderes de uma boa história e, como heróis e heroínas, seguirão difundindo o gosto pela leitura pelas escolas e lugares por onde passarem.

* * * * *

 

Claudia Rosenberg Aratangy graduou-se em Educação Física pela USP, especializou-se em Dança-educação no Goldsmiths College de Londres, fez MBA em gestão de projetos na FGV e atualmente cursa Direito no Mackenzie. Elaborou, implantou e fez a gestão de diversos programas e projetos de educação e leitura na área pública — dentre eles Programa Ler e Escrever, o Projeto Bolsa Alfabetização e o Cultura é Currículo. Pertenceu à equipe de elaboração dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), coordenou uma série de programas de TV na TV Escola, foi da equipe pedagógica da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e também Diretora de Projetos Especiais da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), onde implantou o Clube de Leitura do projeto Premier Skills, entre outras ações ligadas à difusão da leitura. Atualmente dá consultoria em projetos de leitura, em um projeto de investigação didática, para o Instituto Arte na Escola e também para a Comunidade Educativa CEDAC. Escreve de vez em quando no blog  Peixe grande – pequenas histórias.

Viagem em busca de Ana C. — 4º e último dia

Por Mariana Mendes

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“Viagem em busca de Ana C.” é um diário de bordo escrito durante quatro dias para um trabalho de pesquisa da disciplina de ensaio do curso de pós-graduação do Instituto de Ensino Superior do Vera Cruz, comandado pela escritora Noemi Jaffe. Leia os textos já publicados:

1º Dia

2º Dia

3º Dia

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Estou em casa, Ana, cheguei do Rio. Retornei da busca. Trouxe você comigo, mas confesso estar deprimida. De leve. Sai cedíssimo do albergue para a rodoviária. Acordei antes das cinco. Sabe aquele medo básico de perder a hora? Peguei o ônibus às 8h na rodoviária. A viagem até foi boa. Consegui vir metade do caminho sozinha com os dois bancos só para mim. Dormi umas 5h das 6h de viagem. O que também contribuiu para essa sensação de mudança brusca de paisagem. Como se eu tivesse atravessado uma porta: Rio de Janeiro — São Paulo. É de deprimir qualquer um. São Paulo é mais massacrante, nos levamos muito a sério e não temos a beleza da cidade a nosso favor.

Cheguei na rodoviária, peguei o metrô e, olha, foi um baita de um perrengue que não vem ao caso.

Estou em casa, o Jorge comigo. Fui buscá-lo na avó. Estamos na sala, ele recortando figuras do jornal.

Tive um sábado carioca delicioso com paradas para ler você, lá na Argumento li todinho o A teus pés, lembra? Hoje, no ônibus, li umas 50 páginas do Autobiografia de Alice. Estou adorando, te contei? É fascinante o ponto de vista, a distorção entre o que se lê e o que acontece, o texto e suas camadas de sentido. Muito bom, Ana, excelente recomendação.

Acabo de ver na minha estante um livro da Katherine Mansfield. Uma edição luxuosa, não sei se tem o “Bliss”, seria maravilhoso se tivesse e a tradução fosse a sua, mas não olhei ainda. Vou tentar ler rápido o livro da Gertrude, ele pede essa velocidade, acho. Agora, Ana, me dá licença que vou tentar voltar aqui pra minha realidade. Tem uma boa reportagem na Ilustríssima hoje, da Francesca Angiolillo, amiga do Armando. Ele me falou dela. O olho da matéria cita você:

Na esteira da reedição de Leminski, Ana Cristina Cesar e Waly Salomão, encontro literário de Paraty recebe ex-integrante do coletivo carioca que fazia teatro e música e ‘dizia poesia’ nos anos 1970. Autores, estudiosos e editores analisam como a geração que nasceu à margem do mercado editorial é agora assimilada por ele.

Vou tentar assimilar a vida por aqui, Ana, teu nome lá no jornal e diz que estamos todos a teus pés. Vou ler.

Um grande beijo, Mariana

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Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

Quando mostrar é dizer

Por Tércia Montenegro

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Fotos de Duane Michals.

A grande sedução da arte — seja ela qual for — está em seu potencial de contar uma história. É possível narrar de várias maneiras: usando gestos, movimentos, imagens, melodias, cores… além de palavras, claro. Estas últimas, no entanto, já são constantes (e indispensáveis) para os leitores deste blog e para mim mesma. Eis porque agora proponho, neste espaço, pensar em outros meios narrativos. Veremos como diferentes estratégias se apresentam, acompanhando as circunstâncias de cada linguagem.

Comecemos pela fotografia. Pelo caso de Duane Michals. É um exemplo bem simples e evidente, embora nem por isso pouco interessante. Este autor, nascido em 1932, na Pensilvânia, traz alguns dos seus melhores temas numa coletânea das edições Photo Poche. A obsessão pelo duplo e o trabalho com espelhos, reflexos ou silhuetas fantasmagóricas agem a serviço da criação de suas histórias.

Vários fotógrafos antes — como os clássicos Robert Capa e Cartier-Bresson — tinham ficado célebres pela capacidade de sugerir enredos. Mas Duane Michals vai além, sequencializando imagens, ou seja, dando a elas dinamismo, ação — tramas narrativas com início, meio e fim. No livro que citamos, há vários exemplos disso. Uma experiência poética como “O sonho da jovem” instaura, num conjunto de cinco fotos, o relato sobre uma moça nua dormindo num sofá, a sonhar com um homem (mostrado quase em transparência, a lhe tocar o seio). Ela acorda com a impressão física do toque, o que é indicado por sua própria mão, num espanto, sobre o tal seio. O sonho — ou a fantasmagoria — torna-se um elemento que atravessa várias das sequências de Michals, com diversos efeitos.

Em “O espantalho”, o receio de uma garotinha, de que um monstro pudesse se esconder sob o paletó no cabide, materializa-se. E, quando vemos a criatura feita de roupas “ganhar pernas” e raptar a criança, o resultado é um riso ingênuo. Um sorriso, pelo contrário, muito malicioso, aparece ao final de “Tome um e veja o Fujiyama” — sequência cheia de bom humor sobre os desvarios eróticos provocados por um alucinógeno: o Fujiyama nada mais é do que um monte provocado pela ereção depois de um sonho delirante…

Há bastante comicidade nestes relatos fotográficos, graças ao uso de variadas técnicas. Michals não surpreende o instante, ele o cria. Nessa teatralização, ele se lança ao que o ser humano pode representar (no duplo sentido do termo). Ele contrata modelos, age como um verdadeiro diretor de imagem — e sabe usar táticas de mise en abîme ou surrealismo para deixar o espectador intrigado, em obras como “As coisas são bizarras” e “A luva”. Nesta, por exemplo, encontramos a narrativa surreal sobre uma luva que engole a mão de quem a utiliza e ganha vontade própria.

Para além da piscadela de olho humorística, o que Michals nos fornece é um belo posicionamento ficcional. Embora a atmosfera de alguns de seus trabalhos possa remeter às tradicionais fotonovelas, é a transgressão no trato com a imagem e o enredo o que mais parece interessá-lo. Em sua proposta, o compromisso com a realidade (aspecto pelo qual a fotografia ainda hoje se vê avaliada por uma parte da crítica e do público) não é, nem de longe, um dos primeiros objetivos. A preferência pelos temas oníricos ou transcendentais valida esta afirmação e, se precisamos de ainda outro argumento nesse sentido, vejamos o caso de “A viagem do espírito depois da morte”.

No princípio da sequência, o tom hiperbólico da encenação de uma queda de escada vitima um homem — e lembra a nós, leitores deste texto visual, que esta é uma história encarnada por atores; é como um teatro em poses. O nosso voyeurismo aqui não contempla o real, mas escapa do empírico e, conforme o ponto de referência que Michals escolhe para nós, pode acompanhar a luz diminuindo sobre o corpo inerte do homem ao pé dos degraus. As fotos, aos poucos, mostram um círculo luminoso que cresce. O homem morto, transformado em espírito, frequenta, nu e sob um foco borrado, as pessoas que o conheceram, os objetos que possuiu. Finalmente, banhado em luminosidade, sua viagem chega ao limite e ele se dissolve. As duas últimas fotos, num ciclo de vinte e cinco, mostram um bebê cada vez mais nítido, sugerindo o renascimento do espírito.

Somente através da ficção um fotógrafo poderia, aliás, trabalhar com assuntos metafísicos sem executar fotografia espírita propriamente dita. E a inventividade de Michals necessita de um fio sequencial: um recurso narrativo, em suma. Mesmo quando às vezes não existe uma ação dos personagens, o seu tema se desenrola através de uma série. Estou pensando em “A condição humana” — um famoso ciclo. Em seis fotos, vemos um homem comum numa estação de metrô qualquer, em meio a outras pessoas. A mesma cena progride, sem movimentos, apenas sendo trabalhada em hiperexposição, numa gradação cada vez mais clara, até que as figuras se dissolvam, transformadas em luz completa, galáxia. Se já existiu alguma série fotográfica com grande peso filosófico, foi essa.

Mesmo dentro do gênero retrato, Michals elabora seu veio metafísico, reforçando o caráter misterioso dos rostos que escolhe clicar. René Magritte e Andy Warhol foram dois personagens retratados dessa maneira — sob o estímulo de duplicidades, sobreposições, transparências. E, se recordarmos com Susan Sontag que existem usos narrativos específicos para a fotografia fixa — como no álbum de família —, então aqui estes artistas igualmente integraram histórias, com um estilo direcionado para jogos performáticos, ambíguos (como a obra de Magritte e Warhol, inclusive).

Duane Michals também experimentou o uso da palavra sobre a fotografia. A partir de 1974, suas provas fotográficas começaram a ser enriquecidas por textos manuscritos. Tal elemento tornou-se um registro extra de autoralidade – conforme ressaltava Foucault, ao citar declaração do próprio Michals: “A vista dessas palavras sobre uma página me agrada. É como uma pista que eu deixei atrás de mim, traços que provam que eu passei por lá”. Mas não seria isso, enfim, toda narrativa — uma forma de dizer “eu estive lá”? Estive dentro dessa história; mesmo que eu a tenha inventado.

Michals, que em certa reportagem já se definiu como um contista, sabe que linguagens, suportes ou gêneros textuais não são limites. São trampolins para quem deseja experiências com as múltiplas artes de narrar.

* * * * *

Tércia Montenegro é escritora e fotógrafa, autora do romance Turismo para cegos(Companhia das Letras, 2015).

Carta aberta ao autor não-publicado

Por Luisa Geisler
 
"Berlin, 1936"
Crédito: simpleinsomnia

Querido(a) autor(a) (ainda) não-publicado(a),

Sei que você já está rindo do meu tom condescendente. Sei sim. Eu tenho só vinte e cinco anos e não devia vir encher o saco. Mas sempre brinco que era universitária antes de começar a publicar. Portanto, não tinha currículo algum (pra publicar por ser famosa ou bem sucedida em outras áreas), sem pessoas influentes (pra convencer de publicar o livro da amiguinha) e, óbvio, sem dinheiro no bolso (pra pagar por publicação). E até agora, cada avanço me parece um passo na Lua. Queria compartilhar algumas coisas que aprendi nesse processo. Talvez seja uma espécie de FAQ, mas talvez não tão irônico.

Vamos começar de novo?

Querido(a) autor(a) (ainda) não-publicado(a),

É foda. É horrível de foda. Existe um mundo de pessoas com livros na gaveta, que escrevem, que não são publicadas, que ninguém quer ler. Existe um mundo de pessoas publicadas que ninguém quer ler. Existe um mundo de pessoas que têm zero interesse na literatura, que são publicadas, e um mundo de pessoas que quer ler sim. E você aí com seu livro.

É preciso abrir com a informação de que cada jornada é diferente. Alguns autores fundam editoras, alguns publicam com editais, alguns ganham dinheiro de editais e publicam, alguns ganham prêmios de manuscritos, alguns mantêm blogs e são bem-sucedidos, alguns misturam tudo isso e dá certo. Soa como um livro de autoajuda? Soa. Mas é isso.

Pessoalmente, publiquei graças ao Prêmio SESC de Literatura, que é um prêmio que apoio e divulgo. No entanto, ninguém viu as inúmeras tabelas do Excel que eu preenchia com prêmios, datas de inscrição, gênero, premiação. Até poesia — gênero que hoje tenho o bom senso de apenas ler — escrevi. Qualquer coisa pra ser escritora mesmo.

Sempre que vemos alguém que “deu certo” (muitas aspas), vemos como tudo é linear e faz sentido. Mas a manchete “Luisa Geisler tem um livro que enviou pra trocentos prêmios e depois percebeu que era uma desgraça e o engavetou para sempre” não é tão interessante quanto “jovem de 20 anos ganha o Prêmio SESC de Literatura”.

E, aliás, sim, esse livro engavetado existe. E, não, você não pode ler. Marcelo, tô vendo a sua cara. Não, não pode ler, eu disse. Não.

Esse livro engavetado inclusive não pode existir publicamente. A versão melhorada dele é o Quiçá, meu primeiro romance. Há intersecções, a estrutura e modus operandi com semelhanças por todo o lado. Mas é um romance diferente, sem dúvida, é outra história com outros personagens. Mas os erros e disfunções neste primeiro geraram os acertos do segundo. E antes que você diga que estou mudando de assunto — a-há! —, não estou.

É importante saber abandonar. Nossa, como é importante. Não digo apenas tirar adjetivos, aparar frases, rever a utilidade de parágrafos. Às vezes textos inteiros podem ser geniais pra você e só pra você. Inclusive, achar algo genial é em geral pista pro fato de que não é genial. Seu livro não é genial. Você pode achá-lo genial, mas ele não é. Tampouco meus livros são geniais, deixo claro.

Em especial quando é a primeira coisa que se escreveu, é fácil se apegar. É fácil mandar o mesmo texto pra vinte concursos, postar em trinta mídias diferentes marcando noventa pessoas na postagem (nunca faça isso). O stand-up comedian Louis C.K. disse que se impressionava como George Carlin, um deus em forma de stand-up comedian, tinha um especial pra HBO todos os anos. Ao perguntar a George a respeito disso, George disse que conseguia produzir porque ao final de cada ano, ele colocava todo o material produzido fora. E começava do zero.

Não que eu faça isso, deus me livre e guarde.

Claro que reciclar uma ideia não é trabalhar nela. Claro que livros em geral são trabalhos de anos de aprimoramento. Mas o nível de apego que pessoas que trabalham com ideias têm em relação a elas é imenso. E às vezes reciclar uma ideia até ela servir em algo só serve a você mesmo, não a quem lê.

E essa é a última e mais importante coisa.

Existe um leitor.

Por que ele tem que ler o que você escreveu?

Por que ele tem que ler seu livro e não um Saramago? Ou uma Alice Munro? Ou até um Stephen King, que seja?

Não que eu tenha respostas pra isso. O que realmente sei é que começar é foda. E permanecer também. O resto é pura especulação mesmo. Usem filtro solar?

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.