A questão dos superdotados

Por Joca Reiners Terron


A expressão ESSAS CRIANÇAS DE HOJE EM DIA…, que geralmente demarca o espanto de gente mais velha diante de um bom exemplo de esperteza infantil, tem encontrado eco nos livros de ficção. Uma verdadeira febre de narradores adolescentes superdotados tem afetado a literatura mundial. Esse espanto em relação à agilidade sináptica dos pimpolhos remonta a alguns espertinhos do passado, como as histórias de Pedro Malasartes, por exemplo, ou nosso Pedrinho do Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato. Na literatura de língua inglesa a ocorrência é ainda maior, do Tom Sawyer, de Mark Twain, ou Jim Hawkins, o protagonista de A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, ao Peter Pan, de J. M. Barrie.

Em livros mais recentes, entretanto, esses heróis adolescentes evoluíram de meramente espertinhos a verdadeiras sumidades intelectuais. Será um sinal dos tempos e da evolução da tecnologia e das ciências? Em O Último Samurai, da norte-americana Helen Dewitt, Ludo é um menino órfão de pai que aprende a ler aos 2 anos de idade; aos 4 ele já fala diversas línguas estrangeiras, entre elas japonês; por causa disso, desenvolve uma obsessão por Os sete samurais, filme de Kurosawa, e a partir daí segue uma peregrinação em busca do paradeiro de seu verdadeiro pai. Apesar de sua inteligência aguda, Ludo não passa de uma criança com todas as suas carências. Carência, porém, não é algo que exista no fabuloso livro de Hellen Dewitt, entre as grandes narradoras de língua inglesa da ficção contemporânea.

Em City, do italiano Alessandro Baricco, o garoto Gould, de 13 anos, está na universidade. Superdotado, ele constrói uma cidade onde pretende encenar um bangue bangue, gênero pelo qual é fissurado, e novamente — como acontece com Ludo — o cinema alimenta o cérebro do garoto. Aos poucos o leitor descobre (ou desconfia) que nenhum dos personagens malucos que atravessam a história “existem” de verdade, a não ser na poderosa imaginação de Gould, um menino solitário que preenche o vazio de sua existência com amigos imaginários.

Diário Absolutamente Verdadeiro de Um Índio de Meio Expediente, de Sherman Alexie, ganhou o National Book Award e conta a história de Arnold Spirit Junior, um menino de 14 anos que tem uma cabeça gigante, nasceu com 42 dentes e com água no cérebro e mesmo assim descobre ser um grande lutador. Nascido numa tribo spokane, ele lutará por uma educação melhor para si e para seus iguais. Arnold representa nesta seleção de supercérebros a variação que apresenta narradores adolescentes que sofrem de doenças raras, um outro fenômeno da ficção recente que também pode ser conferido em Afluentes do Rio Silencioso, de John Wray, que conta a história de William Heller, jovem esquizofrênico de 16 anos que desenvolve um fascínio pelos subterrâneos do metrô, onde se perde após um surto.

Já Oliver Tate, o narrador de Submarino, de Joe Dunthorne, é um típico representante da geração Google. Curioso e esperto, ele usa todas as suas habilidades aliadas à infinita curiosidade para investigar a depressão enfrentada pelo pai desde que sua mãe resolveu tomar aulas de surfe com um antigo namorado. Conhecedor de todos os becos possíveis e impossíveis da internet, Oliver descobre aos poucos os descaminhos da vida sentimental dos adultos.

Todos esses personagens ultraespertos e inteligentíssimos parecem ter se originado na figura de Holden Caulfield, o moleque boca suja criado por J.D. Salinger em O Apanhador no Campo de Centeio. Pioneiro em retratar um menino que enfrenta os dilemas do amadurecimento ao desenvolver sua singular visão de mundo, Salinger inaugurou uma tradição na ficção moderna que culminaria em Hal Incandenza, uma jovem promessa do tênis e herói de Graça Infinita, o clássico contemporâneo de David Foster Wallace (a ser lançado em novembro pela Companhia das Letras), ele próprio um escritor de capacidade mental trocentos mil pontos acima da média que se suicidou aos 43 anos de idade em 2008, após um forte período de depressão.

Sinal dos tempos ou não — afinal seguidas gerações foram saudadas com a espantada expressão ESSAS CRIANÇAS DE HOJE EM DIA… —, os narradores adolescentes de romances, por mais superdotados que sejam, uma hora ou outra são obrigados a enfrentar a realidade e seus dilemas. Nesse embate a inteligência é essencial, mas também é fácil perceber através desses destinos literários que não é a única arma de sobrevivência, além de nem sempre ser uma bênção.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Marque na agenda

Lira Neto na FLIQ
Terça-feira, 21 de outubro
Autor da biografia de Getúlio Vargas é convidado para a Feira de Livros e Quadrinhos de Natal.
Local: Praça Cívica do Campus da UFRN – Natal, RN

Paloma Jorge Amado e Rita Lobo autografam no Rio
Terça-feira, 21 de outubro, às 19h
Rio de Janeiro recebe o evento de lançamento de A cozinha baiana de Jorge Amado e Pitadas da Rita.
Local: Livraria da Travessa Shopping Leblon – Avenida Afrânio de Melo Franco, 290, Leblon – Rio de Janeiro, RJ

Lançamento de Amor em dois tempos e Um lugar perigoso
Quarta-feira, 22 de outubro, às 19h
Livia Garcia-Roza e Luiz Alfredo Garcia-Roza autografam seus novos livros no Rio de Janeiro.
Local: Livraria da Travessa – Rua Visconde de Pirajá, 572, Ipanema – Rio de Janeiro, RJ

Julio Bernardo autografa no Rio
Quinta-feira, 23 de outubro, às 18h30
Participe do lançamento de Dias de feira, de Julio Bernardo, com sessão de autógrafos.
Local: Livraria da Travessa – Rua Voluntários da Pátria, 97, Botafogo – Rio de Janeiro, RJ

Lançamento de A casa cai
Quinta-feira, 23 de outubro, às 19h
Marcelo Backes autografa seu novo livro, A casa cai, no Rio de Janeiro.
Local: Livraria da Travessa – Rua Visconde de Pirajá, 572, Ipanema – Rio de Janeiro, RJ

Xico Sá no Sempre Um Papo
Quinta-feira, 23 de outubro, às 19h30
Autor de Big Jato, Xico Sá chega a Juiz de Fora para mais uma edição do Sempre Um Papo.
Local: Auditório do SESC – Rua Tupinambas, 956, Centro – Juiz de Fora, MG

Palestra com Lúcia Barros em Porto Alegre
Sábado, 25 de outubro, às 15h
Autora de Vamos brincar de estátua participa de palestra e sessão de autógrafos sobre o livro de ioga para crianças.
Local: Santander Cultural – Praça da Alfândega – Porto Alegre, RS

Raphael Montes participa do Identidade Literária
Sábado, 25 de outubro
Autor de Dias perfeitos, Raphael Montes é convidado para o evento que reúne novos autores da literatura nacional.
Local: Livraria Cultura do Cine Vitória – Rua Sen. Dantas, 45 – Rio de Janeiro, RJ

Contação de histórias de Opostos on the table
Sábado, 25 de outubro, às 17h
Participe da contação de histórias com o novo livro de Daniel Kondo, Opostos on the table.
Local: Livraria NoveSete – Rua França Pinto, 97, Vila Mariana – São Paulo, SP

Contação de histórias com Kiara Terra
Domingo, 26 de outubro, às 15h
Kiara Terra comanda mais uma contação de histórias em São Paulo, com o livro O coiso estranho, de Blandina Franco.
Local: Livraria Cultura do Shopping Bourbon – Rua Tiriassú, 2100, Pompéia – São Paulo, SP

Sessão de autógrafos com Tony Bellotto
Segunda-feira, 27 de outubro, às 12h
Tony Bellotto autografa em São Paulo seu novo livro, Bellini e o labirinto. A distribuição de senha será feita uma hora antes do evento.
Local: Livraria Saraiva do Shopping Pátio Higienópolis – Av. Higienópolis, 618 – São Paulo, SP

Drauzio Entrevista Tony Bellotto
Segunda-feira, 27 de outubro, às 19h30
Em mais uma edição do Drauzio Entrevista, Drauzio Varella encontra Tony Bellotto para falar de sua carreira literária e musical. Após o evento, haverá coquetel e sessão de autógrafos de Bellini e o labirinto.
Local: Teatro Eva Herz na Livraria Cultura do Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073 – São Paulo, SP

Bate-papo sobre o livro Jerusalém
Terça-feira, 28 de outubro, às 19h
Rita Lobo e Andrea Kaufmann conversam sobre o livro de Yotam Ottolenghi e Sami Tamimi, Jerusalém, vencedor do mais concorrido prêmio de culinária, o James Beard Award.
Local: Livraria da Vila – Alameda Lorena, 1731 – São Paulo, SP

 

Semana duzentos e vinte e cinco

A revolução brasileira - a questão agrária no  Brasil, de Caio Prado Jr.
A revolução brasileira é um ajuste de contas de Caio Prado Jr. com o partido no qual militou durante a maior parte da vida: o PCB. Motivado pelo Golpe de 1964, o livro busca compreender por que as forças de esquerda foram tão facilmente derrotadas.Antes, o autor já havia criticado a interpretação então prevalecente na esquerda a respeito do problema fundiário, em artigos escritos para a Revista Brasiliense e reunidos em A questão agrária no Brasil. Por conta disso, faz todo o sentido publicar os dois trabalhos conjuntamente, além de tentar lançar nova luz sobre os escritos políticos do historiador. Neles, Caio Prado Jr. defende que não se pode entender o campo brasileiro com base no que foi o feudalismo europeu. Em outro sentido, o país se criou a partir da grande exploração agrária: empresa moderna, baseada na escravidão, que respondia a estímulos do mercado externo. Portanto, para se constituir como nação seria necessário superar a orientação vinda da colônia. Ou ainda, em outras palavras, a formação do Brasil contemporâneo deveria levar à revolução brasileira.

Um lugar perigoso, de Luiz Alfredo Garcia-Roza
São muitos os lugares perigosos deste livro. O primeiro é o próprio Rio de Janeiro, onde a história se desenrola. Como de costume nos romances de Garcia-Roza, a cidade é protagonista e sua geografia se torna parte indissociável da trama. Outro lugar de perigos insondáveis é a memória do professor Vicente, figura central neste enredo. Afastado da universidade em razão de problemas de saúde, ele passa os dias em casa e ganha a vida como tradutor, numa rotina aparentemente tranquila. Até que se depara com uma lista cheia de nomes de mulheres.Quem são elas? Foram suas colegas na universidade? Alunas? Por que ele as reuniu numa lista e que relação manteve com elas? São questões que ele não tem como desvendar, pois sofre de uma síndrome em que as lembranças se apagam e a imaginação toma o lugar dos fatos.Vicente busca a ajuda do delegado Espinosa para descobrir o paradeiro das mulheres listadas. Mas a investigação traz à tona os cantos obscuros de sua mente e pode revelar a origem de crimes que nada têm de imaginários.Na décima primeira aventura do delegado Espinosa, Garcia-Roza mostra por que é um dos renovadores do gênero policial no Brasil e um de seus artífices mais talentosos.

Drácula, de Bram Stoker.
As inúmeras adaptações cinematográficas e o lugar crucial do conde Drácula na cultura popular criaram uma mitologia em torno dessa figura, que costuma ser vista como um dândi sedutor em traje de gala e capa preta. A versão original do vampiro mais famoso da literatura surpreenderá até mesmo os admiradores mais fervorosos ao contar a história desse aristocrata sisudo e muitas vezes repulsivo. Quando um agente imobiliário ajuda um conde a comprar uma propriedade em Londres, não poderia imaginar o mal que estava levando ao Ocidente. Na partida de xadrez que se segue, entre esse nobre perturbador (que pouco aparece, mas é onipresente) e um determinado grupo de adversários (que inclui o professor Van Helsing e a inteligente Mina Harker), o que está em jogo vai além da luta entre a vida e a morte.Esta edição traz notas e introdução de Maurice Hindle, ph.D. em literatura pela Universidade de Essex, e prefácio de Christopher Frayling, reitor da Real Academia de Artes em Londres.

O circo do amanhã, de Lilia Moritz Schwarcz
O incrível Circo do Amanhã acaba de chegar na sua cidade, e ele vem cheio sde aventuras sensacionais! Palhaços aposentados, bailarinas disfarçadas, vilões bigodudos, meninas espertas, garçonetes peludas, fuscas tigrados, cartas, parlendas, receitas, adivinhas, partituras, dobraduras, receitas e muito mais!

Portfolio Penguin

O estado empreendedor, de Mariana Mazzucato
Este livro desmascara o mito do Estado como um paquiderme burocrático, sem mobilidade e ineficiente omo gestor de negócios. Para muitos, o Estado deveria apenas “corrigir” as falhas do mercado, deixando a inovação e o empreendedorismo dinâmico para o setor privado. Dos produtos mais inovadores da Apple até as chamadas tecnologias “limpas”, passando pela indústria farmacêutica, Mariana Mazzucato mostra que o setor privado só aposta depois de o Estado empreendedor ter feito todos os investimentos mais ousados e de maiores riscos. Trata-se de um livro imprescindível para o entendimento e a discussão sobre os rumos do capitalismo contemporâneo.

Editora Paralela

Milagres já! – 108 ferramentas para tornar sua vida melhor, de Gabrielle Bernstein
A maioria de nós quer melhorar a qualidade de vida, mas não tem tempo para praticar uma hora de ioga ou 30 minutos de meditação diariamente. Se o ritmo acelerado de nossas vidas nos faz sentir sobrecarregados, nossa prática espiritual para combater o estresse e a ansiedade não deve agravar essa sensação. Foi pensando nisso que a autora e professora de ioga Gabrielle Bernstein escolheu a dedo 108 técnicas para nos ajudar, de forma rápida, a enfrentar problemas corriqueiros, tais como frustração, ciúme, ressentimento e estresse. Cada técnica é apresentada de maneira simples e fácil de seguir, incorporando verdades espirituais poderosas e meditação Kundalini, além de lições e princípios do texto metafísico Um curso em milagres.

Panelinha

A comida baiana de Jorge Armado, de Paloma Jorge Amado
S
ó de ler Jorge Amado a gente já fica com água na boca cada vez que um personagem resolve comer. Acarajé, vatapá, feijoada, beiju de tapioca, moqueca – e ainda nem chegamos à sobremesa! Paloma Jorge Amado compilou as receitas de pratos que aparecem na obra de seu pai e o resultado é este livro, que ainda apresenta citações, divertidas crônicas e maravilhosas fotos. E mais: receitas testadas com o método Panelinha! Até quem não sabe cozinhar vai conseguir trazer um pouco da Bahia para a cozinha de casa.

Jerusalém, de Yotam Ottolenghi e Sami Tamimi
Yotam Ottolenghi é chef premiado, dono de quatro restaurantes em Londres, colunista do jornal The Guardian e apresentador de séries de televisão, entre elas A cozinha mediterrânea de Yotam Ottolenghi, que no Brasil foi exibida pelo canal GNT. Ele escreveu este livro com o chef Sami Tamimi – os dois cresceram na cidade, Sami no leste muçulmano e Yotam no oeste judeu, mas só se conheceram já adultos, trabalhando na Inglaterra. Juntos, os autores traçam o perfil da histórica e cosmopolita Jerusalém com receitas supreendentes, memórias e belas imagens. É para viajar sem sair da cozinha! Não é à toa que este livro de receitas leva o nome da cidade, feito guia turístico.  

Livros, boates e gritaria

Por Paulo Scott


Tempo atrás escrevi que não gostava de futebol, que não compreendia como alguém que tivesse um mínimo de inteligência pudesse gostar de futebol — a assertiva, evidentemente, se tratava de uma provocação. Pessoas, independentemente do seu grau de inteligência ou de patetice, seja lá o que a hierarquização das inteligências ou patetices signifique, têm o direito de gostar de um esporte tão fascinante (o esporte que mais mobiliza hipsters e intelectuais de toda ordem nos Estados Unidos da América do Norte no momento é o futebol), minha provocação tinha outro alvo: esta grande máquina de enganar que é o esquema inventado e constantemente aprimorado pelos cartolas do futebol no Brasil e no Mundo.

Pessoas sofrem, gastam até o último centavo do seu dinheiro e até matam por algo que é escancaradamente manipulado por meia dúzia, que beneficia financeiramente apenas meia dúzia. Embora a paixão pelo Colorado prevaleça em momento e outro da minha medíocre existência (cheguei a comprar aquela camiseta da edição especial “Campeão de tudo”), faço o que posso para não perder um segundo do meu tempo com essa bobagem que é fazer do futebol uma religião e, quem sabe, no saldo geral, salvar minutos, horas, turnos, dias para empregá-los, por exemplo, na missão de reduzir a lista imensa de livros que pretendo ler antes que chegue ao fim minha participação por aqui — nesta “arena da vida”, diria alguém.

Algo que aprendi na “arena da vida” foi: não duvidar do poder do circo e da boate. Futebol é circo e também é boate (é o lúdico desesperado e é zorra total), uma ferramenta eficaz garantindo que um bando de gente consiga atravessar a semana e a derrocada psicológica que aguarda boa parte da humanidade nas tardes e nas noites de domingo. Pessoas precisam se apoiar em algo e fingir que tudo está bem — não dá para tapar o sol com peneira, pelo menos não o tempo todo. Por que não o futebol? Por que não a chance de sonhar com a vitória que, no final das contas, é um tipo de truque perfeito que faz o vitorioso imaginar que é mais especial do que o outro? Por que não o maniqueísmo irracional tão propício da disputa em perspectiva simplificada?

A Copa do mudo foi o grande turn point na narrativa deste ano — quem trabalha com roteiro de cinema sabe a razão de dividir a narrativa ao meio e encontrar os dois grandes pontos de virada, de saber tirar proveito disso —, e eu poderia continuar falando sobre as garantias fundamentais que mais uma vez foram completamente desrespeitadas em solo brasileiro (os jovens de pele escura das periferias chamam isso de constância). A novidade, uma das tantas, foi o alinhamento de governantes em todos os níveis de governo arquitetando um estado renovado de repressão. Pois é, ninguém escapa. O salvador da pátria não existe, nunca existiu. Ainda assim não resistimos ao conforto do papel de bons torcedores, ingênuos e esperançosos, apesar de todas as evidências — uma parte corre para um lado e o restante, quase na mesma proporção dos seus opostos, corre para o outro, e tudo bem se o resumo do chilique geral, de um lado e de outro, for só descabelamento e gritaria, porque depois será a segunda-feira e será o marasmo, de novo.

Na semana passada chegou às minhas mãos um exemplar bem castigado — benditos sejam os exemplares castigados — de um dos livros que mais influenciaram o meu modo de escrever, um livro do qual (tenho até vergonha de confessar) eu mal lembrava, é o Eu falo dos que não falam, uma seleção de poemas do alemão Hans Magnus Enzensberger, publicada no Brasil em mil novecentos e oitenta e cinco pela Editora Brasiliense. Graças à Morgana, que o conseguiu — a forma e a razão como o livro chegou até ela renderiam uma coluna à parte, acreditem — e perguntou se eu conhecia aquele poeta, aquele livro, eu tive a sorte de reler poemas que foram fundamentais para que eu chegasse à convicção, que é pura teimosia, sobre como escrever e o que escrever, não importando se o que resultar será apontado como agradável ou desagradável, cômodo ou incômodo, não importando qualquer rótulo que eventualmente o resultado possa receber.

No exemplar castigado do livro do Hans Magnus Enzensberger tem este poema:

 

Defesa dos lobos contra os cordeiros

Querem que o abutre coma miosótis?

O que exigem do chacal,

Do lobo, que mude de pele? Querem

que ele mesmo extraia seus dentes?

O que é que não apreciam

nos comissários políticos e nos papas,

por que olham, feito burros,

o vídeo mentiroso?

Quem costura a faixa de sangue

Nas calças do general? Quem

trincha, diante do agiota, o capão?

Quem pendura, orgulhoso, a cruz de lata

sobre o umbigo que ronca de fome? Quem

aceita a propina, a moeda de prata,

o centavo para calar-se? Há

muitos roubados, poucos ladrões; quem

os aplaude, quem

lhes põe insígnias no peito, quem

é sequioso de mentiras?

Olhem-se no espelho: covardes,

temendo a fadiga da verdade,

sem vontade de aprender, entregando

o pensar aos lobos

um anel no nariz como adorno preferido,

nenhuma ilusão burra o bastante, nenhum consolo

barato o suficiente, cada chantagem

ainda é clemente demais para vocês.

Ó cordeiros, irmãs

são as gralhas comparadas a vocês;

vocês se arrancam os olhos uns aos outros.

Fraternidade reina

entre os lobos:

andam em alcateias.

Louvados sejam os salteadores: vocês

convidam para o estupro

deitando-se no leito preguiçoso

da obediência. Mesmo gemendo

vocês mentem. Querem

ser devorados. Vocês

não mudam o mundo.


E também tem este outro (cuja coincidência com o romance que terminei em abril deste ano é assustadora):

 

Os Desaparecidos

Não foi a terra que os engoliu. Foi o ar?

Tão numerosos como a areia, mas não se tornaram

areia, e sim nada. Em massa

foram esquecidos. Muitas vezes, de mãos dadas,

como os minutos. Mais do que nós,

porém sem memória. Não registrados,

não decifráveis no pó, mas desaparecidos

seus nomes, colheres e solas.

Não nos fazem arrepender. Ninguém

os lembrará: nasceram,

fugiram, morreram? Sem vazios

é o mundo, porém seguro

pelos que não moram nele,

os desaparecidos. Eles estão em todas as partes.

Sem os ausentes não haveria nada.

Sem os fugitivos nada seria firme.

Sem os esquecidos nada seria certo.

Os desaparecidos são justos.

Assim também se vão os nossos.


Imagino que só exista um lugar para o escritor: o lugar o mais longe possível das aspirações dos políticos, dos governos, das sucessões familiares na política, do engajamento religioso — que no fundo, e no médio prazo, é sempre interesseiro e contabilístico — na política, do engajamento apaixonado como os dos torcedores de futebol (o suporte irascível da faceta do futebol que mencionei acima). Sempre haverá bandidos para todos os gostos, para todas as cegueiras, paixões, chiliques, para os dois lados do campo.

E a poesia — este é o momento cretino e gagá “temos de cuidar muito bem da poesia, meu querido” —, suponho, sempre dará um jeito de achar o leitor (bastam trezentas cópias de um bom livro de poesia, lembra?) e dar sinal de que a vida é uma só e sempre poderá ser mais do que a paisagem que eventualmente tremule diante dos nossos olhos e da nossa pressa. Há os detalhes, as pequenas investigações, os pequenos acertos, as pequenas cobranças, há, sobretudo, as pequenas coisas importantes, do nosso lado e do lado oposto, que nos acostumamos simplesmente a jogar fora.

Sempre fica repleto de heróis dentro das boates, a justiça (essa palavra que cabe na boca de qualquer um) é boutique, carteiraço e mão no popô dentro das boates. Todos são podres de tanta erradicação da pobreza — não importa se carenados de socialismo ou de mão invisível do mercado — dentro das boates e podres de total franqueza diante da vida dentro das boates. Bacana é pagar de passarela olha como eu sou especial e enxergo o que o resto não enxerga dentro das boates. Mas boates não são planos de voo, não são projetos de vida. Boates operam em modo apagar os detalhes.

Hoje, fico por aqui (um pouco mais perplexo do que antes); e, sim, leiam Hans Magnus Enzensberger se tiverem chance.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal(Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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Quando o trailer vira notícia

Por Ana Maria Bahiana


Uma das coisas que mais me intriga e, ao mesmo tempo, repele e atrai, é a narrativa do objeto cultural como produto de massa e da luta pelo poder e pelo controle dessa narrativa. É uma narrativa tão antiga quanto a existência dos sistemas de distribuição maciça de produtos culturais, embora se possa argumentar que Charles Dickens, Mozart, Chopin e Liszt foram verdadeiros popstars de seu tempo… (Deem uma conferida em O nosso segredo [The Invisible Woman, Ralph Fiennes, 2013] e Lisztomania [Ken Russell, 1975], por exemplo).

Quando cheguei aqui em Los Angeles, a chamada “era de ouro” dos estúdios já tinha terminado há muito tempo. A geração sexo-drogas-rock ‘n roll tinha posto o ponto final nessa história em meados da década de 1970, marcando de vez a transição para um sistema onde todo mundo é freelancer e o controle do produto final é fluido. As novas estéticas exigidas pela imensa nova geração de espectadores, os baby boomers nascidos depois da Segunda Guerra Mundial, eram apenas parte dessa transformação. A outra parte era estrutural: os altos custos da disputa de mercado com a televisão e com os sindicatos, principalmente.

Cheguei aqui no momento de glória dos intermediários: os agentes, os divulgadores, os porteiros de luxo que, na virada dos 1980 para os 1990, controlavam os acessos. Eram tempos caóticos, especialmente para uma recém chegada como eu. Mas ao mesmo tempo, as brechas eram suficientes para que fosse possível um real exercício da prática jornalística. Ainda era possível, por exemplo, negociar uma entrevista com um ator ou diretor e realizá-la sem supervisão, controle ou ingerência de terceiros. Era possível propor pautas independentes, fazer perguntas independentes e obter acesso a quem de fato interessava, com base apenas no currículo individual e no comportamento, preparo e seriedade de cada profissional.

Foi assim que entrevistei Robert Altman — que não queria ser entrevistado, no começo, e depois não queria parar de ser entrevistado. Foi assim que entrevistei James Cameron no set de O Exterminador do Futuro II. Foi assim que entrevistei Chuck Jones e a dupla Frank & Ollie, últimos representantes do grupo de artistas que criou a Disney, gigantes da animação. Foi assim que entrevistei Kathryn Bigelow quando ela ainda estava longe de ganhar um Oscar, mas estava virando a mesa para as mulheres atrás das câmeras; Francis Ford Coppola quando decidiu investir em vinhos; Bob Rafelson, Brian De Palma, Curtis Hanson, Ridley Scott, Johnny Depp, os escritores Bruce Wagner e Mike Davis… A lista é longa e boa. As entrevistas eram conversas reais sobre assuntos de substância, pautadas por curiosidades e oportunidades reais.

Eu pressentia e temia que isso não ia durar para sempre. Os mercados internacionais estavam crescendo rapidamente, novas praças estavam exigindo conteúdo e entretenimento, a internet avançava comendo as mídias tradicionais pelas bordas e criando um clima de competição histérica. Quando há mais demanda que oferta, a oferta sempre ganha.

Um telefonema inesperado, numa tarde de 1990, deu o sinal: era um estúdio me convidando para um fim de semana com tudo pago num hotel de luxo do deserto. Com a contrapartida: eu teria que entrevistar um bando de atores de pouco ou nenhuma consequência, para divulgar um filme de segunda divisão.

Era o começo da era do junket, que é exatamente o que descrevi acima, e que, hoje, não se aplica apenas a filmes, séries e outros produtos culturais de segunda divisão. Muito pelo contrário.

Não estou exagerando quando digo que hoje, como na “era de ouro” de Hollywood, o acesso ao produto cultural de massa está completamente controlado, regido e organizado pelos grandes produtores. Não há mais brechas, não há mais negociação. Duas décadas de oferta constante de, vamos chamar assim, “acesso premiado”, juntamente com o colapso financeiro das grandes empresas de mídia e a completa restrição a qualquer outro tipo de acesso transformou o que era um diálogo numa via de mão única. Os grande produtores criam, implementam e controlam a oferta de acesso e de material. Ao outro lado cabe apenas receber. De preferência, sem questionar.

Esse é o universo em que um trailer, que há não muito tempo atrás era apenas uma peça promocional, se torna algo que passa por notícia.

Eu tive a visão completa dessa mudança alguns anos atrás, quando eu ainda produzia um programa para um canal pago da TV brasileira e aguardava, com dezenas de outros jornalistas, minha vez de entrevistar o elenco de um filme que não tinha substância alguma, mas cujos atores eram até interessantes. Em circunstâncias normais alguns deles renderiam até ótimas conversas, mas agora eu teria rígidos cinco minutos de acesso, rigorosamente monitorados por um batalhão de funcionários do estúdio. O intenso perfume de ansiedade que flutuava no ar, o desespero pelo convite para o próximo junket, pelo melhor posicionamento na absurda fila de espera pelos três minutos monitorados eram difíceis de ignorar. Era muito parecido com uma prisão, ou pior. A disputa pelas migalhas. O temor de cair em desgraça com as autoridades. A completa falta da possibilidade de independência, autonomia e pensamento crítico.

Tinha acontecido: o controle, mais uma vez, tinha passado para o outro lado. Estávamos de novo em 1949, mas a máquina de criar ilusões era, agora, ainda mais toda-poderosa.

Não deixava de ser fascinante.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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