Semana duzentos e cinquenta e um

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O fim do terceiro Reich, de Ian Kershaw (tradução de Jairo Arco e Flexa)
Como se explica a sobrevida do Estado nazista quando estava evidente que não havia chance de vitória? Por que o Exército alemão concordou em lutar se o abismo era certo? Por que a sociedade alemã permaneceu fiel ao regime a ponto de tolerar o extermínio dos poucos que se insurgiam contra a luta inútil? Em O fim do terceiro Reich, Ian Kershaw — autor da monumental biografia de Hitler — se lança à resolução dessas perguntas armado de conhecimento inigualável da Alemanha nazista. Fugindo de explicações fáceis, procura demonstrar que a autoridade carismática do Führer, a ambição de sua “corte” e a perseverança das Forças Armadas são os ingredientes principais dessa autoaniquilação sem par na história ocidental.

Fome de saber — a formação de um cientista, de Richard Dawkins (tradução de Érico Assis)
Filho de pais naturalistas e de uma família de cientistas consumados, Richard Dawkins estava fadado a levar a biologia nos genes. Mas que influências moldaram seu desenvolvimento intelectual? E quem o inspirou a tornar-se o cientista pioneiro e a autoridade intelectual cuja fama (ou infâmia, para alguns) alcança todo o planeta? Em Fome de saber, Dawkins traça um panorama colorido e encorpado de seus primeiros anos de vida. A autorreflexão sincera e as anedotas espirituosas são intercaladas com reminiscências da família, dos amigos, da literatura, da poesia e da música. Finalmente podemos compreender as influências que moldaram o intelectual que buscou explicar nossas origens.

Obras completas volume 8 — O delírio e os sonhos na Gradiva, análise da fobia de um garoto de cinco anos e outros textos, de Sigmund Freud (tradução de Paulo César de Souza)
O primeiro ensaio deste volume trata da novela Gradiva, do alemão Wilhelm Jensen. Ao analisar o delírio de um jovem arqueólogo que se apaixona por uma moça retratada numa antiga escultura romana, Freud faz o primeiro estudo psicanalítico de uma obra literária. O segundo ensaio conta a história do “pequeno Hans”, um saudável garoto de cinco anos que repentinamente passa a ter fobia de cavalos. A partir do relato que o pai faz de conversas com o menino, Freud compreende os complexos por trás da fobia e obtém a cura do paciente. O volume inclui também “Caráter e erotismo anal”, “Atos obsessivos e práticas religiosas”, “O escritor e a fantasia” e “O esclarecimento sexual das crianças”, entre outros.

Sombras na Place des Vosges, de Georges Simenon (tradução de André Telles)
Raymond Couchet, dono de uma grande rede de farmácias, é assassinado em seu escritório na Place des Vosges, endereço nobre de Paris. Uma grande soma em dinheiro foi roubada. No mesmo prédio onde ocorreu o crime, moram Edgar e Juliette Martin, a primeira mulher de Couchet. É por ali que o comissário Maigret resolve começar suas investigações. Não longe do local, no Hotel Pigalle, vivem, sem se conhecer, Nine Moinard, amante da vítima, e Roger Couchet, filho do primeiro casamento de Raymond. Problemático, Roger logo desperta as suspeitas de Maigret. Mas, de repente, comete suicídio. Ele sabia o que estava por trás da morte do pai.

Quando a máscara cai —  a verdadeira história do homem que fingiu ser um Rockfeller, de Walter Kirn (tradução de Sergio Tellaroli)
Walter Kirn conheceu por acaso o homem que se apresentou como Clark Rockefeller, herdeiro de uma das famílias mais poderosas dos Estados Unidos. Era um sujeito esquisito, mas nada que causasse desconfiança. Depois de quinze anos de amizade, porém, o escritor ficou devastado ao descobrir que seu amigo milionário não passava de um farsante, acusado de assassinato, sequestro e outros crimes. Combinando memórias, jornalismo investigativo e análise cultural, este livro tem o brilhantismo literário que encontramos em A sangue frio, de Truman Capote. Kirn expõe as camadas complexas da ilusão e da corrupção, das ambições e do autoengano que estão por trás de um grande impostor.

Paralela

Samba, de Delphine Coulin (tradução de Julia da Rosa Simões)
Depois de uma árdua jornada que começou no Mali, o imigrante africano Samba desceu do ônibus e se viu, enfim, livre pela primeira vez. Olhou em volta e lá estava ele: Paris, França. Ao caminhar pelas construções antigas, estava radiante. Seus pés estavam cansados e seus sapatos cheios de buracos, mas o céu estava claro, as paredes refletiam luz, e tudo parecia brilhar só para ele. Dez anos depois, seu encantamento com a cidade-luz só havia aumentado. Mesmo atrás das grades, mesmo algemado, ele ainda amava a França. Só lhe faltava pensar em um jeito de permanecer — e sobreviver — como um clandestino naquele país.

Balas de tamarindo

Por Raphael Montes

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Casar com Douglas foi um ato de desespero. Ou de redenção, não sei. Eu já estava fazendo trinta anos, o senhor entende? E chega uma idade em que a gente precisa dar um rumo pra vida. As pessoas são cruéis. As pessoas comentam. Lucia vai morrer sem ninguém. Lucia é independente. Cadê seu namorado que conhecemos na última festa, querida? Difícil suportar.

Conheci e namorei Douglas em um mês. Eu não gostava dele. Ele chupava uma bala de tamarindo fedida cujo cheiro impregnava na língua. Odeio tamarindo. Mas ele tinha um monte delas no bolso. E sempre as chupava. Chupava e me oferecia. Nunca aceitei.

Também nunca aceitei seus carinhos, presentes, perguntas ou sorrisos. Eu fazia cara feia e reclamava de tudo. Jamais fingia orgasmo. Em minha defesa, devo dizer que nunca fui falsa com ele. Mas Douglas sorria. Sorria e dizia gostar daquele meu jeito. Você é muito sincera, Lucia, mas amo você assim. Vai entender. Amava mesmo.

Nunca fui falsa comigo também. E isso me consola. Sabia que não seria feliz. Mas estabilidade é mais importante do que felicidade, não acha? Aceitar a aliança de Douglas foi como assinar um tratado de monotonia. Nos casamos e fomos morar em Copacabana. Ele acordava às seis e saía para comprar jornal. Caminhava no calçadão e comprava balas de tamarindo numa mendiga da praça Inhangá. Jogava na loteria com a mesma sequência numérica (as datas de aniversário da mãe e do pai — que Deus os tenha). Voltava com um livro velho comprado no sebo lá perto de casa. Passava o café, refastelava-se na poltrona, fazia palavras cruzadas, chupava as malditas balinhas. Quarenta anos se passaram assim, sem eu me dar conta.

No início, era mais fácil. Ele trabalhava no Banco do Brasil e só voltava de noite. Eu podia ficar em casa e ver tevê sem ouvir o tilintar irritante da bala de tamarindo batendo em seus dentes, sendo revolvida pela língua, prendendo-se no céu da boca. Com a aposentadoria, todos os dias eram como o domingo. A rotina matinal se repetia de tarde e de noite. E a casa se entupia de jornais, bilhetes de loteria, livros velhos e balas de tamarindo. Um cheiro agridoce e poeirento dominava os móveis. Mas eu estava disposta a viver assim. Tinha aceitado minha sina. Aos setenta anos, a gente já não quer mais mudar as coisas. Temos o consolo de que falta pouco para acabar. Basta ter paciência.

Douglas me surpreendeu uma única vez na vida. Quando acordei, ele não estava na poltrona, fazendo palavras cruzadas e chupando balas de tamarindo. Em vez disso, enchia uma mala velha com mudas de roupa e alguns documentos. Assustou-se quando me viu acordada, mastigou uma bala de tamarindo e murmurou:

— Vou embora.

Pensei que estivesse sonhando. Douglas não se deteve e passou o zíper na mala quase vazia.

— Conheceu alguma garota novinha? — perguntei. Não estava com ciúmes, só queria entender.

— Não conheci ninguém. Apenas não quero mais te fazer infeliz.

Depois de quarenta anos?, eu quis perguntar. Levantei-me da cama e fui ao banheiro lavar o rosto. Nada fazia sentido. Quando voltei, a mala já estava na soleira da porta.

— Não vai levar seus livros e jornais velhos?

— Se puder empacotá-los, busco depois.

— E as balas de tamarindo?

— Pode jogar fora.

— Vai deixar o apartamento para mim?

— Não seria capaz de tirá-lo de você. Pode ficar com o Fusca também.

Jogou o molho de chaves sobre a poltrona em que se sentara por quarenta anos.

— Vai ficar onde?

— Na casa de algum amigo.

— Você não tem amigos.

Ele sorriu, embaraçado, mas logo retrucou:

— Ficarei em algum hotel então. Copacabana é cheio deles.

A velhice deve estar me deixando um tanto lerda. Demorei a concluir o óbvio. Pedi um instante a ele e fui à cozinha. O jornal do dia estava sobre a bancada da pia, como sempre. Alguns hábitos não se perdem. Confirmei os números da loteria. As datas de nascimento dos pais dele. Vinte milhões acumulados.

Peguei o revólver velho guardado na cômoda do nosso quarto e dei três tiros no peito de Douglas. Quando o sangue saiu, cheirava a tamarindo. Ao revolver seus bolsos, encontrei o bilhete premiado. Rasguei-o antes da polícia chegar. Não queria o dinheiro. Os jornais me chamaram de velha maluca. Me colocaram em prisão preventiva como se eu pretendesse fugir para algum lugar. Não quero fugir. Sou paciente. Logo que cheguei na cadeia, fiz duas amigas. São meninas moças, simpáticas, mas lésbicas. Gostam de mim e me trazem presentes. Parece ironia: essa semana, me ofereceram balas de tamarindo. Numa provocação a mim mesma, aceitei provar. E quer saber? Gostei.

* * * * *

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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Da Madison Avenue à beira do Pacífico: a jornada imaginária dos Mad Men pela América do século 20

Por Ana Maria Bahiana

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Cena de Mad Men (AMC).

Posso falar de Mad Men de novo? Por conta daquele maravilhoso episódio final?

Quando uma jornada desse fôlego chega ao final — e a um final que seu criador sempre afirmou estar planejado desde o início — minha vontade é sempre rever/reler tudo, como se faz com um bom livro, procurando arcos e curvas, ritmos expressos e ocultos, temas recorrentes. E é o que estou fazendo agora, revendo/relendo os 92 episódios da obra de Matthew Weiner (e seus colaboradores) à luz do ponto final.

Muita gente aqui nos Estados Unidos achou defeito em “Person to Person”, o episódio final que foi ao ar no domingo, dia 17 (e exibido uma hora antes, para uma seleta plateia de convidados, no Ace Theater de Downtown LA). Não sei bem o que essas pessoas queriam, ou esperavam. Eis o que Matthew Weiner fez: depois de ir dando adeus, progressivamente, à maioria das personagens principais ao longo dos episódios da sétima e última temporada (com um telefonema, um fechar de porta, eles literalmente saíam de cena), ele se preocupou em dar o nó final nos arcos que foram a viga mestra da série. Com a própria agência independente desmantelada, física e emocionalmente, no antepenúltimo episódio, cada personagem essencial foi colocado brevemente em queda livre para fazer as opções necessárias ao seu futuro — aquilo que, definitivamente, extingue o passado.

Restou o, digamos assim, núcleo duro. Revendo as temporadas anteriores, e consultando a lista de 10 filmes que Weiner usou como guias de sua inspiração, duas coisas me pareceram bem claras no universo de Mad Men — que é a compressão imaginária dos Estados Unidos da Guerra Fria —, os homens parecem dominar, mas na verdade andam em círculos, rosnando uns para os outros na defesa de seu território profissional e sexual; são as mulheres que, da sombra de seus papéis subalternos como conquistas/enfeites/administradoras da pax domestica, emergem e marcham adiante, na direção de algo novo, desconhecido, inebriante.

Vi o episódio final pensando nisso. Quatro mulheres fecharam a narrativa em pleno controle de suas vidas. Sally, com quem me identifico demais, assume a liderança de sua família e, como sempre ao longo da série, explica ao pai os comos e porquês de tudo o que ele se recusa a entender. Joan, que sempre foi a dona absoluta de seu corpo e de sua sexualidade na selva dos homens, traça uma linha no chão: sim, quero me divertir; não, não abro mão de minhas ambições e minha independência.

Betty sempre foi uma personagem misteriosa, complicada, fácil de detestar — especialmente quando vista fora do contexto comum para as mulheres dessa geração, ou seja, alguém que se casou assim que se formou no colegial, que nunca teve tempo de crescer, que foi enclausurada na jaula doméstica do ideal de família classe média dos anos 1950 antes de descobrir quem ela realmente era. Se Don Draper e seus colegas de agência eram os “swinging bachelors” (apesar de casados…) do meio do século, a outra face do puritanismo da época, Betty era a “dona de casa exemplar”, a santa dos subúrbios, com o jantar sempre pronto e as crianças limpas e sorridentes quando o marido à casa volta. A jornada de Betty começa com a desilusão profunda, o desencanto desse mito, e prossegue passo a passo, penosamente, até a volta à faculdade, o encontro furtivo com o ex-marido — basicamente para lhe dizer que tudo mudou — e, finalmente, a tomada das rédeas das decisões de vida e morte que sua geração — onde o cigarro tornou câncer e enfisema males de proporções epidêmicas — conheceu tanto.

Peggy, a personagem mais emblemática da nova geração de mulheres que abriu clareiras no mercado de trabalho, causou polêmica por aqui por ter respondido com um entusiástico “sim” à observação de seu diretor de arte/futuro namorado Stan Rizzo de que “nem tudo na vida é trabalho”.  Com todo respeito à opinião contrária, não vejo nada na jornada de Peggy rumo à independência que possa ser ameaçado ou diminuído por um relacionamento saudável e alegre com alguém que a conhece bem e respeita mais ainda. Nenhuma de suas conquistas desaparece diante dessa escolha — sim, em 10 anos é muito provável que ela seja a diretora de criação de uma grande agência, ou dona de sua própria empresa, a Roger Sterling do final do século, com ou sem Stan a seu lado.

Além do mais, o relacionamento da dupla — que foi sugerido pela equipe de roteiristas da série, e, no começo, rejeitado por Weiner — sempre teve todo tom de uma das referências estéticas de Mad Men: as comédias românticas do mestre Billy Wilder, nas quais o pugilato verbal é sempre o aquecimento para um desenlace feliz.

E os rapazes? Espalham-se aos quatro ventos, seguindo as versões possíveis de suas fantasias. E ficamos com o mistério supremo que é Don Draper/Dick Whitman. A dualidade do protagonista sempre foi central para a série — Weiner aponta North by Northwest, de Hitchcock, como uma viga mestra da trama, com seu publicitário (Cary Grant) que toma o nome de outra pessoa. Nos derradeiros episódios a dualidade tornou-se uma fuga, não de adversários externos, como no filme de Hitchcock, mas de demônios interiores.

Numa progressão cada vez mais intensa, os últimos episódios de Mad Men levaram Don/Dick a revisitar metaforicamente sua infância pobre e infeliz, o hobo que lhe deu a ideia de uma vida aventureira, a mulher que provavelmente ele amou de verdade (a poderosa e decidida Rachel Menke), sua passagem nada heroica pelo exército. Em outras palavras, a última temporada, para Don Draper, é a primeira temporada, uma oitava acima.

E finalmente, nada mais resta. Sozinho na fronteira final da América, no alto de uma falésia sobre o Pacífico, não há mais para onde fugir. Primeiro vem a dor do reconhecimento do abismo. Depois, como costuma ser, a paz.

Ao nascer do sol, ao som de um ommmm, Don e Dick se encontram e se fundem. Não há mais dualidade ou conflito na Era de Aquário pessoal do nosso anti-herói. Agora ele sabe quem ele é, e o que sabe fazer: vender absolutamente qualquer coisa a qualquer pessoa. Não há mais inocência.

Isso é que é.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Os primeiros passos

Por Gabriel Bá

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Dois meses. Duas línguas. Nove sessões de autógrafos em cinco cidades na França, mais de 4.000 livros vendidos nas primeiras quatro semanas. Oito eventos em cinco cidades do Brasil, todos com bate-papos e longas sessões de autógrafos. Quase 6.000 livros distribuídos. Contratos assinados para lançar edições em inglês e italiano ainda este ano. Nunca imaginamos que este livro pudesse ser tão brasileiro e, ao mesmo tempo, tão internacional.

Quando penso no Dois irmãos, parece que minha cabeça se transforma no Biblos, restaurante do viúvo Galib, com sua algaravia de vozes e línguas. Formulo frases em francês pra explicar a história, resultado do lançamento no Salon du Livre de Paris e da pequena turnê pela França, em março, promovendo a edição do Deux Frères, publicada pela Urban Comics simultaneamente com a edição brasileira. Na semana passada, terminei a revisão do livro em inglês e passei os últimos dias discutindo o livro com o editor, pensando na edição e no lançamento nos EUA. Mas quando penso nas frases do livro que mais me encantam, as palavras ainda vêm em português.

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Depois de uma gestação de quatro anos, finalmente temos um livro novo no Brasil. Durante esses quatro anos, pudemos trabalhar em silêncio no Dois irmãos, não falamos ou mostramos nada do livro, assim como não fomos questionados sobre ele, pois as pessoas ainda estavam descobrindo o Daytripper. Incrivelmente, nosso último livro sobreviveu no interesse do público, nas prateleiras das livrarias, na boca do povo. Viajamos o mundo por causa do Daytripper. Sempre questionados sobre novos trabalhos, respondíamos que estávamos trabalhando nesta adaptação e a conversa parava por aí. Com o livro finalmente pronto e em mãos, surgem agora as razões para sair do isolamento produtivo e encontrar o público, falar da história, falar do trabalho, essa conversa entre leitor e autor só possível quando intermediada pela obra.

A curiosidade em cima do livro é enorme, cheia de “comos” e “porquês”, e o público presente nos lançamentos é muito diverso, incluindo nossos leitores, leitores do Milton, e até pessoas que se interessaram na obra depois de ver uma matéria na imprensa. Muitas pessoas descobrindo a história. Muitos não sabem nada do nosso trabalho, muitos não conhecem o Milton, mas a beleza desta adaptação está na união dessa gente toda, na ampliação de ambos os públicos.

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O Daytripper foi publicado inicialmente nos EUA, já ganhou edições em 12 línguas e tem nos levado para convenções ao redor do mundo, mas ele também nos aproximou mais do público brasileiro. O Dois irmãos pode reforçar ainda mais esses laços. As duas histórias poderiam se passar em qualquer outro lugar do mundo, mas por se passarem no Brasil elas ganham mais autenticidade, mais camadas de leitura, dão mais ferramentas de reflexão ao leitor brasileiro. O livro do Milton apresenta uma cidade encantadora, mas praticamente desconhecida, isolada geograficamente e perdida no tempo.

Depois de trabalhar por tanto tempo com essa história, criamos uma ligação muito forte com Manaus, uma relação que só o tempo traz. Poder retornar à cidade para lançar o livro foi uma enorme honra, uma chance de voltar no tempo e reviver a história do livro, pois a cidade que conhecemos há quatro anos também não existe mais, continua mudando. O inusitado lançamento de uma adaptação para os quadrinhos da maior obra do autor mais celebrado da cidade tomou conta do largo São Sebastião, mobilizou a grande mídia local, e várias pessoas pararam para escutar os dois gêmeos que respondiam perguntas, hipnotizando a todos com a novidade, com o circo. Alguns ali também não conheciam o Milton nem o romance, mas ficaram admirados com aqueles artistas de São Paulo, que haviam pintado tão belo retrato da sua cidade. Ninguém reparava no desenho em preto e branco. Viam uma cidade de avenidas largas, praças amplas e arborizadas e lindos sobrados. Uma cidade que alguns poucos presentes conheceram, mas todos sentem saudade. O poder que a ficção tem de falar da realidade.

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E finalmente, temos o Milton. Este trabalho nos apresentou e nos aproximou do Milton, um sábio, um mestre, um amigo. Ouvir o Milton falando do nosso livro é como ouvir um professor elogiando o desempenho do seu filho na escola, nos infla o peito de orgulho. Ele não está se gabando ou falando bem de sua própria obra, mas fala como maior conhecedor do assunto. Ele podia não saber nada da profissão de quadrinista, mas entende o trabalho e fala do nosso livro, da complexidade da história, dos personagens como se não tivessem saído da cabeça dele. Como ele mesmo disse, os dois livros são irmãos, mas não são gêmeos.

Nossos trabalhos são semelhantes e diferentes e o livro nos uniu, criou uma relação de respeito mútuo. A relação do Milton com a escrita, com a literatura, nos ensinou muito sobre os quadrinhos.

Este livro tem tudo que nós sempre acreditamos ser possível de fazer: uma história incrível, com a intensidade e poesia da literatura e o poder narrativo dos quadrinhos. Ele já nasceu falando mais de uma língua e viajando o mundo, e esses são só os primeiros passos.

* * * * *

Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo, e em 2015 lançaram pela Quadrinhos na Cia. a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
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A questão dos exercícios

Por Joca Reiners Terron

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1. O incêndio vespertino nas piscinas dos subúrbios

John Cheever, em sua temporada como professor na Iowa University, propunha três exercícios aos seus alunos:

  1. A escritura de um diário pelo tempo mínimo de uma semana, um diário onde aparecesse de tudo: sentimentos, sonhos, orgasmos, todo tipo de sensação, desde as mais íntimas até a descrição da cor de garrafas vazias ou em vias de serem entornadas;
  2. O segundo exercício consistia na composição de um conto no qual sete personagens ou sete paisagens que aparentemente não tivessem nada a ver um com o outro surgissem inevitável e profundamente relacionados entre si;
  3. O terceiro exercício — e esta era sua lição favorita — era redigir uma carta de amor como se estivesse escrevendo em um edifício em chamas — “Um exercício que nunca falha”, dizia.

E Cheever disse mais, num depoimento à Newsweek: “Um conto ou um relato é aquilo que se conta a si mesmo na sala do dentista, enquanto está se aguardando que nos arranquem um molar. O conto curto tem na vida, me parece, uma grande função. É também em sentido muito especial um bálsamo eficaz para a dor: preso na metade do caminho em cima do teleférico que leva a pista de esqui, no bote que se parte ao meio, diante do doutor que observa fixamente as nossas radiografias… Passamos o tempo esperando uma contra-ordem para a nossa morte e quando não temos tempo suficiente para um romance, bem, aí está o conto curto. Tenho certeza de que, no momento exato da morte, o que uma pessoa conta para si mesmo é um conto e não um romance”.

No ensaio Why I Write Short Stories (que coincidiu com a publicação de seus contos reunidos), John Cheever esclareceu a maneira com que compreendia a narrativa curta: “Quem lê contos?, alguém se perguntaria, e gosto de pensar que são homens e mulheres em salas de espera quem os leem; os leem nas viagens aéreas intercontinentais, em vez de assistir filmes banais e vulgares para matar o tempo; os leem homens e mulheres sagazes e bem informadas que parecem sentir que a ficção narrativa pode contribuir muito para nossa compreensão de uns e outros e, algumas vezes, do confuso mundo que nos rodeia. O romance, em toda a sua grandeza, exige, ao menos, algum conhecimento das unidades clássicas, que preservam esse laço misterioso entre a estética e a moral; porém que essa novidade inexorável exclua a novidade em nosso modo de vida seria lamentável. Alguns conhecem esta novidade através de A Guerra das Galáxias, outros através da melancolia que se segue ao erro cometido por um jogador que não rebate sua última chance num jogo de beisebol. Na busca da novidade, a pintura contemporânea parece ter perdido a linguagem da paisagem e — muito mais importante — do nu. A música moderna se separou daqueles ritmos mais profundamente enraizados em nossa memória, porém a literatura ainda possui a narrativa — o conto — e defenderia isto com a própria vida. Nos contos de meus estimados colegas — e alguns dos meus — encontro aquelas casas de verão alugadas, esses amores de apenas uma noite, e os laços extraviados que desconcertam a estética tradicional. Não somos mais nômades, mas isto permanece sem dúvida mais do que uma insinuação no espírito de nosso grande país, e o conto é a literatura do nômade”.

 

2. O fícus etc.

Vejamos: o mais proverbial dos exercícios de criação literária é aquela sugestão de GUS Flaubert a Maupassant, THE GUY:

— Senta-te diante deste fícus, oh Maupassant, e descreva-o em cento e trinta mil palavras.

Ou algo que o valha.

Se Maupassant não fosse tão desobediente, é provável que tivesse antecipado o nouveau roman em século e meio.

Enfim.

(Fícus. Datação: sXX Acepções: substantivo masculino de dois números Rubrica: angiospermas. design. comum às plantas do gên. Ficus, da fam. das moráceas, que reúne cerca de 750 spp. de árvores, arbustos e lianas, tb. conhecidas como figueira , com látex leitoso, raízes aéreas e subterrâneas ger. poderosas, folhas quase sempre simples, e flores e drupas em um receptáculo carnoso (o figo), tido como fruto [Nativas das Américas, África e esp. da Índia à Austrália, várias spp. são cultivadas pelas madeiras, como medicinais, pelo fruto comestível, para extração de fibras e resinas, e esp. como ornamentais.] Etimologia: lat.cien. gên. Ficus (1735); ver fic(i/o)- Sinônimos: fico.)

 

3. Atualizações possíveis, ou tudo fala com você

Cheever:

  1. Comentário da movimentação de um dia de sua timeline no Facebook sob a perspectiva do seu maior inimigo;
  2. Um relato sobre o encontro de cinco gerações de uma família numa tarde de domingo, encontro que só é possível nos dias atuais, com a evolução da capacidade da medicina de prorrogar a morte;
  3. Redigir um hate mail como se o seu laptop estivesse em chamas e sua conexão fosse cair em (contagem regressiva) 5, 4, 3, 2, 1, 0 minutos.

Flaubert:

Senta-te num banquinho no meio desta vida, oh mau passante, e descreva O HORROR em centro e trinta mil palavras.

Ou, mais atual impossível, William S. Burroughs:

“Dê uma volta pelo quarteirão. Volte e escreva precisamente o que aconteceu, com particular atenção àquilo que você pensava ao notar um sinal de trânsito, um carro ou um estranho que passava ou qualquer outra coisa que cativasse sua atenção. Você está recebendo mensagens. Tudo fala com você.”

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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