Semana trezentos e doze

Companhia das Letras

Uma história natural da curiosidade, de Alberto Manguel (tradução de Paulo Geiger)
Em Uma história natural da curiosidade, Alberto Manguel mapeia os textos e autores que o inspiraram ao longo de sua vida como leitor. Não se trata, porém, de um leitor qualquer. Manguel vivia rodeado por 30 mil livros em sua casa na França e atualmente dirige a Biblioteca Nacional da Argentina, cargo antes ocupado por Jorge Luis Borges. O livro se estrutura em torno de dezessete questões de respostas nada óbvias. “O que é língua? ” e “Quem sou eu?” são temas que estão na origem das histórias que o autor mobiliza neste livro. Manguel seleciona uma galeria de curiosos notáveis, como Tomás de Aquino, David Hume, Lewis Carroll, Sócrates e, sobretudo, Dante, para nos guiar em meio a tais questões.

O inferno dos outros, de David Grossman (tradução de Paulo Geiger)
Em cima de um palco decadente de uma pequena cidade israelense, Dovale apresenta um show de stand up para alguns gatos pingados e um amigo de infância, seu convidado especial da noite. Enquanto faz piadas mais ou menos sagazes, no limite do politicamente correto e do bom gosto, passeando por temas tão amplos quanto o conflito Israel-Palestina e os palavrões proferidos por um papagaio, o comediante provoca o riso da plateia, mas também o desconforto. A tensão aumenta conforme Dovale expõe seus dramas pessoais mais profundos, e o humor se esvai dando lugar a uma melancolia comum a todos nós. Um romance corajoso e atual, breve mas avassalador, de um dos maiores ficcionistas contemporâneos.

Suma de Letras

A colônia, de Ezekiel Boone (tradução de Leonardo Alves)
Uma história aterrorizante sobre uma espécie adormecida há mil anos, que agora voltou para reconquistar o planeta. Nas profundezas de uma floresta no Peru, uma massa negra devora um turista americano. Em Mineápolis, nos Estados Unidos, um agente do FBI descobre algo terrível ao investigar a queda de um avião. Na Índia, estranhos padrões sísmicos assustam pesquisadores em um laboratório. Na China, o governo deixa uma bomba nuclear cair “acidentalmente” no próprio território. Enquanto todo tipo de incidente bizarro assola o planeta, um pacote misterioso chega em um laboratório em Washington… E algo está tentando escapar dele. O mundo está à beira de um desastre apocalíptico. Uma espécie ancestral, há muito adormecida, finalmente despertou. E a humanidade pode estar com os dias contados.

Paralela

Tá gravando. E agora?, de Kéfera Buchmann
Ela está de volta. Depois de vender 400 mil exemplares do seu primeiro livro, Muito mais que 5inco minutos, Kéfera Buchmann publica Tá gravando. E agora?, novamente pela Editora Paralela. Nele a youtuber mais conhecida do Brasil conta como seu canal, 5incominutos, atualmente com mais de oito milhões de assinantes, surgiu, revelando detalhes até então inéditos. Kéfera relembra como foi gravar o primeiro vídeo, as inseguranças que surgiram e como ela conseguiu superar os obstáculos para, aos poucos, ir conquistando milhões de fãs. Ela ainda tenta responder a pergunta que mais ouve dos seus seguidores: “Como eu faço para fazer o meu canal de Youtube dar certo?”. Não, não existe uma fórmula mágica, mas Kéfera dá várias dicas úteis que podem ajudar os aprendizes de youtuber. Muitas das dicas servem não só para quem quer brilhar na internet. Kéfera fala de como melhorar sua criatividade de maneira geral na vida, sugerindo até exercícios para isso. De bônus, Tá gravando. E agora? traz depoimentos emocionantes de kélovers (como os fãs dela são conhecidos), que contam como Kéfera influenciou suas vidas.

Bridget Jones: No limite da razão, de Helen Fielding (tradução de Alda Porto)
Se em O diário de Bridget Jones os leitores já se apaixonaram pela personagem despojada e carismática, no segundo volume, Bridget Jones: No limite da razão, conheceremos seu lado ainda mais inusitado. Seja em uma prisão tailandesa ou em jantares desconfortáveis, nada é tão ruim que não possa piorar. Mas é imprescindível manter o bom humor e contar sempre com os amigos.

Seguinte

Capitolina vol.2 — O mundo é das garotas
Depois de mostrar o poder das garotas, a Capitolina vem provar que, juntas, podemos transformar o mundo. As 46 colaboradoras que participaram dessa edição usaram as mais diversas formas de expressão para produzir um conteúdo inclusivo e livre de preconceitos, voltado especificamente para garotas adolescentes. Além dos melhores artigos publicados no segundo ano da revista on-line, em Capitolina: o mundo é das garotas você encontrará temas inéditos, como ciências, esportes e saúde. Outra surpresa são os formatos diferentes: tem entrevista, bate-papo, história em quadrinhos, manifesto, conto, ensaio fotográfico… Tudo ilustrado por artistas supertalentosas.

Companhia das Letrinhas

O pum e o piriri do vizinho, de Blandina Franco e José Carlos Lollo
Todo mundo já conhece o Pum de outras aventuras e sabe que, quando ele quer sair, é quase impossível segurá-lo. Agora ele tem novos amigos: a Couve-Flor e o Piriri do vizinho, e os três vão passar um fim de semana inteiro juntos. Dá pra imaginar a bagunça que essa turma vai fazer – e o quão divertido vai ser acompanhá-la!
Você conhece a Píppi meialonga?, de Astrid Lindgren (ilustrações de Ingrid Nyman)
Quando Píppi Meialonga chega na Vila Vilekula, os irmãos Tom e Aninha ficam bastante felizes, pois queriam muito uma nova amiga. E eles têm uma grande surpresa ao descobrir que Píppi é uma menina diferente de qualquer outra: ela é tão forte que consegue carregar um cavalo sozinha e tão habilidosa que, ao mesmo tempo que faz tranças no cabelo, amarra os sapatos — e, quando vai ao circo, ainda se equilibra em um arame na frente de todos! É claro que, com tanto talento, os três vão viver as mais divertidas aventuras.

Reimpressões

A festa da insignificância, de Milan Kundera

A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch

A nervura do real, de Marilena Chaui

Cem dias entre céu e mar, de Amyr Klink

Deus, um delírio, de Richard Dawkins

Poética, de Ana Cristina Cesar

Seminário dos ratos, de Lygia Fagundes Telles

Sobre o Estado, de Pierre Bourdieu

De todos os cantos do mundo, de Magda Pucci

Divinas Desventuras, de Heloisa Prieto

Lá vem história outra vez, de Heloisa Prieto

Inferno no colégio interno, de Lemony Snicket

Mau começo, de Lemony Snicket

O elevador Ersatz, de Lemony Snicket

Achados e perdidos, de Stephen King

O apanhador de sonhos, de Stephen King

O poeta e o mundo

Por Wislawa Szymborska

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Foto: Sipa/ Newscom/ Fotoarena

Chega às livrarias no dia 2 de setembro Um amor feliz, uma nova coletânea de poemas de Wislawa Szymborska, traduzidos e selecionados por Regina Przybycien e que falam dos amores e da vida cotidiana, uma obra que toca os leitores e influencia novas gerações. Este segundo volume promete fazer tanto barulho quanto o primeiro livro de Szymborska lançado no Brasil em 2011, Poemas. Em 2016, comemoramos também os 20 anos do seu prêmio Nobel de Literatura. Na entrega do prêmio que aconteceu no dia 7 de dezembro de 1996, seu discurso versou sobre o que é a poesia e o poeta. É este discurso que apresentamos aqui no blog para quem já conhece a obra da poeta e para quem ainda vai se encantar com a sua leitura. Leia a seguir (tradução de Carlos Alberto Bárbaro).

* * *

Dizem que a primeira frase de qualquer discurso é sempre a mais difícil. Bem, agora ela já ficou para trás. Embora algo me diga que as frases por vir — a terceira, a sexta, a décima e assim sucessivamente, até a última linha — serão tão difíceis quanto, já que é suposto que eu tenha que falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto, quase nada, na verdade. E sempre que isso aconteceu, eu tinha a ligeira impressão de que não sabia do que falava. Por isso, meu discurso será bem curto. Toda imperfeição é mais fácil de tolerar se servida em pequenas doses.

Os poetas contemporâneos são sempre céticos e desconfiados, até mesmo, ou talvez especialmente, sobre si próprios. Eles só admitem ser poetas de modo relutante, como se estivessem um pouco envergonhados por o ser. Nesta nossa época ruidosa, porém, é bem mais fácil admitir seus defeitos, principalmente se numa roupagem interessante, que reconhecer os próprios méritos, visto estes estarem profundamente ocultos, tanto que nem nós mesmo acreditamos neles… Ao preencher formulários ou ao conversar com estranhos, isto é, quando não conseguem evitar de dizer no que trabalham, os poetas preferem utilizar o genérico “escritor”, ou substituir “poeta” pelo nome de qualquer trabalho que tenham além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um misto de incredulidade e pânico ao descobrirem que estão frente a um poeta. Imagino que os filósofos se deparem com reações similares. Se bem que talvez estejam em uma situação melhor, dado que na maior parte do tempo podem dourar sua vocação com algum tipo de galardão acadêmico. Professor de filosofia — isso sim soa bem mais respeitável.

Mas não existem professores de poesia, porque isso implicaria, afinal, que a poesia é uma ocupação que requer estudo especializado, avaliações frequentes, artigos teóricos acompanhados de bibliografia e notas de rodapé e, por fim, diplomas cerimoniosamente concedidos. O que, por sua vez, significaria que não basta preencher páginas mesmo com poemas dos mais requintados para se tornar um poeta. O elemento crucial seria alguma folha de papel trazendo um selo oficial qualquer. Lembremos que o orgulho da poesia russa, que viria ele mesmo a ser premiado com um Nobel, Joseph Brodsky, foi certa vez sentenciado a um exílio em seu próprio país com base exatamente nessas convenções. Chamaram-no de “parasita” por ele não dispor de um documento oficial que lhe assegurasse o direito de ser poeta…

Muitos anos atrás, tive a honra e o prazer de conhecer Brodsky pessoalmente. E notei que, de todos os poetas que eu já havia conhecido, ele era o único que gostava de se apresentar como um. Ele pronunciava a palavra sem constrangimento algum.

Na verdade, era exatamente o oposto, ele a pronunciava com liberdade desafiadora. Julguei que era assim por ele se lembrar sempre das humilhações brutais que havia sofrido em sua juventude.

Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é roubada tão prontamente, os poetas aspiram, claro, ser publicados, lidos e compreendidos, mas não se esforçam muito, se é que se esforçam, para se situarem acima do rebanho e do cotidiano esmagador. E no entanto, não faz muito tempo, nas primeiras décadas do século passado, os poetas buscavam chocar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Embora fosse tudo meramente para consumo do público. Porque sempre chega o momento em que os poetas têm que cerrar as portas atrás de si, despir-se dos seus mantos, ornamentos e outras parafernálias poéticas para confrontar — silenciosamente, aguardando pacientemente seus verdadeiros eus — a ainda branca folha de papel. Porque é isso, no final, que conta de verdade.

Não é por acaso que se produzem aos montes biografias filmadas de grandes cientistas e artistas. Os diretores mais ambiciosos buscam reproduzir de modo convincente o processo criativo que levou a descobertas científicas importantes ou ao surgimento de uma obra-prima. E é possível descrever alguns tipos de trabalho científico com relativo sucesso. Laboratórios, instrumentos diversos, maquinário elaborado, trazidos à vida; esse tipo de cenário pode manter o interesse do público por algum tempo. E aqueles momentos de incerteza — será que o experimento, repetido pela milésima vez com algum tipo de variação microscópica, vai finalmente alcançar o resultado desejado? — podem ser bem dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, na medida em que buscam recriar cada passo da evolução de um quadro célebre, da primeira linha do esboço até a pincelada final. A música preenche todos os espaços em filmes sobre compositores: os primeiros compassos da melodia que ecoa nos ouvidos do músico finalmente emergem como um trabalho maduro em forma sinfônica. Claro que tudo isso é bem ingênuo e não explica o estranho estado mental conhecido popularmente como inspiração, mas pelo menos há ali algo para olhar e ouvir.

Poetas, no entanto, são os piores. O trabalho deles, indiscutivelmente, não tem como ser fotogênico. Alguém sentado a uma mesa ou deitado em um sofá, olhando imóvel para o teto ou uma parede. Vez ou outra essa pessoa escreve sete linhas apenas para riscar uma delas quinze minutos depois, e depois outra hora se passa, durante a qual nada acontece… Quem aguentaria assistir a esse tipo de coisa?

Eu falei de inspiração. Os poetas contemporâneos dão respostas evasivas quando perguntados sobre o que é isso, e se existe de fato. Não é que nunca tenham experimentado a graça desse impulso interior. É que não é fácil explicar a alguém algo que você próprio não entende.

Quando me perguntam sobre o assunto, eu também tergiverso. Mas respondo o seguinte: inspiração não é privilégio exclusivo de poetas ou artistas em geral. Existe, existiu e sempre vai existir certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. Esse grupo é composto de todos os que escolheram atender à sua vocação e fazer seu trabalho com amor e imaginação. E ele pode incluir médicos, professores, jardineiros — e eu poderia enumerar aqui centenas de outras profissões. O trabalho dessas pessoas se torna uma aventura contínua enquanto elas conseguirem continuar a descobrir novos desafios nele. Dificuldades e contratempos não sufocam sua curiosidade. Um enxame de novos questionamentos surge para cada novo problema que elas resolvem. Seja o que for a inspiração, o certo é que ela surge de um contínuo “não sei”.

Não existem muitas pessoas assim. A maior parte dos habitantes da Terra trabalha para viver. E trabalha porque têm que trabalhar. Eles não escolheram um ou outro trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas é que escolheram por eles. Trabalhos sem amor, trabalhos tediosos, trabalhos valorizados somente porque outros não conseguem sequer aquilo, por menos apreciados e tediosos — essa é uma das mais dolorosas misérias da condição humana. E não há nenhum sinal de que os séculos por vir produzirão qualquer mudança para melhor, até onde se pode vislumbrar.

E é por isso que, embora eu possa negar aos poetas seu monopólio sobre a inspiração, ainda assim eu os situo no seleto grupo dos prediletos da Fortuna.

A esta altura, porém, algumas dúvidas podem ser levantadas pelo meu público. Todo tipo de torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que buscam o poder fazendo uso de alguns poucos bordões gritados a plenos pulmões também gostam do seu trabalho, e também desempenham seus afazeres com inventivo fervor. Sim, claro, mas eles “sabem”. Eles sabem, e seja lá o que saibam, é o que lhes basta para o agora e para todo o sempre. Eles não querem descobrir mais nada sobre nada mais, dado que isso pode diminuir a força de seus argumentos. E qualquer conhecimento que não levante novas questões morre rapidamente, porque não sucede em manter a temperatura necessária para preservar a vida. Nos mais extremos dos casos, aqueles bem conhecidos da história antiga e moderna, esse tipo de conhecimento se constitui de fato em uma ameaça letal à sociedade.

E é por isso que eu prezo tanto aquela pequena expressão, “não sei”. Ela é curta, mas tem asas enormes. Ela amplia nossas vidas para incluir nela nossos espaços interiores, mas também os exteriores, em que está suspensa a nossa pequena Terra. Se Isaac Newton não tivesse jamais dito para si um “não sei”, as maçãs em seu pequeno pomar poderiam ter caído ao solo como granizo, e na melhor das hipóteses ele teria parado para apanhar algumas delas e devorá-las com prazer. Se minha compatriota Marie Sklodowska-Curie jamais tivesse dito para si própria seu “não sei”, por certo ela acabaria lecionando química em alguma escola privada para moças de boas famílias, e terminaria seus dias desempenhando essa, de todo modo, perfeitamente respeitável profissão. Mas ela continuou dizendo “não sei” e estas palavras a levaram, não apenas uma, mas duas vezes, a Estocolmo, onde espíritos incansáveis e questionadores são de quando em quando premiados com o Nobel.

Os poetas, se autênticos, também devem seguir repetindo “não sei”. Cada poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas tão logo a linha final seja deitada à página, o poeta começa a hesitar, começa a perceber que essa resposta particular era puro disfarce, que seria totalmente inadequado trajar. Assim, os poetas seguem tentando, e cedo ou tarde os resultados consecutivos de seu desagrado consigo mesmos são organizados em uma pasta gigante por historiadores literários, passando a ser chamados sua “obra”…

Amiúde sonho com situações que não podem, de modo algum, se tornar realidade. Imagino audaciosamente, por exemplo, que me é dada a oportunidade de conversar com o Eclesiastes, o autor daquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Eu me curvaria profundamente diante dele, porque ele é, acima de tudo, um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Feito isto, eu tomaria sua mão. “‘Não há nada de novo sob o sol’, foi isso o que escrevestes, Eclesiastes. Mas vós mesmo nascestes novo sob o sol. E o poema que criastes também é novo sob o sol, considerando que aqueles que viveram antes de vós não puderam ler esse poema. E esse cipreste sob o qual estais sentado não esteve ali crescendo desde a aurora dos tempos. Ele veio a ser graças a um outro cipreste semelhante a esse vosso, mas não exatamente o mesmo. E, Eclesiastes, eu também gostaria de vos perguntar em que coisa nova sob o sol estais trabalhando agora? Um acréscimo de última hora aos pensamentos que já expressou? Ou talvez estejais tentado a contraditar alguns deles agora? Em uma obra anterior, mencionastes o êxtase — então, e daí se ele for fugaz? Talvez vosso novo-poema-sob-o-sol seja sobre o êxtase? Já fizestes anotações sobre ele, e rascunhos? Eu duvido que irás escrever ‘Eu já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar.’ Não há poeta no mundo que possa dizer isto, ao menos um grande poeta como vós.”

O mundo — não importa o que pensemos quando aterrorizados pela sua vastidão e nossa própria impotência, ou amargurados pela sua indiferença ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e, talvez, mesmo das plantas, porque como podemos estar tão certos que as plantas não sintam dor; pensemos o que possamos pensar de suas extensões, atingidas pelos raios das estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, alguns deles já mortos?, ainda mortos?, não sabemos; o que quer que possamos pensar desse imensurável teatro para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cuja validade é comicamente curta, limitada como o é por duas datas arbitrárias; não importa o que possamos pensar sobre este mundo — é assombroso.

Mas “assombroso” é um epíteto que embute uma armadilha lógica. Somos assombrados, afinal, por coisas que se desviam de alguma norma bem conhecida e universalmente aceita, de uma obviedade com a qual crescemos acostumados. O ponto agora é: esse mundo óbvio não existe. Nosso assombro existe por si só e não é baseado em comparação com outra coisa.

Claro, no discurso cotidiano, em que não paramos para considerar toda palavra dita, todos fazemos uso de frases como “o mundo normal”, “a vida normal”, “o curso normal dos eventos”… Mas na linguagem da poesia, em que toda palavra tem seu peso, nada é corriqueiro ou normal. Nem uma simples pedra e nem uma simples nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite que a ele se segue. E acima de tudo, nem uma única existência, nem a existência de qualquer pessoa nesse mundo.

Ao que parece, os poetas sempre terão um trabalho duro à frente.

Fonte: Nobel Prize.

A descoberta do poeta

Por Inez Cabral

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Cartaz original da peça Morte e vida severina.

O poema “Morte e vida severina”, de João Cabral de Melo Neto, foi publicado pela primeira vez em 1956, em Duas águas. Exatos dez anos depois, o espetáculo de mesmo nome recebia o grand prix do IV Festival Mundial de Teatro Universitário em Nancy, na França. A peça Morte e vida severina estreara no ano anterior no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com direção de Silnei Siqueira e música do jovem Chico Buarque de Holanda.

No texto a seguir, feito especialmente para o blog da Companhia, Inez Cabral conta como João Cabral reagiu ao pedido do grupo de teatro amador para montar e musicar seu poema.

Você encontrará outras histórias de João Cabral na coletânea A literatura como turismo, que será lançada juntamente com a edição especial de Morte e vida severina. Nela, entremeados aos poemas, breves memórias de Inez Cabral sobre sua convivência com o pai revelam a faceta mais íntima de um dos maiores poetas da literatura brasileira.

* * *

Genebra, uma noite qualquer do ano de 1964. O jantar está na mesa. Ao sair do escritório a caminho da sala de jantar, meu pai passa pelo termostato, confere a temperatura da calefação, confirma que as aspirinas estão no seu bolso e senta-se à mesa numa das cabeceiras. Na frente de seu prato, enfileirados em um batalhão, estão todos os comprimidos efervescentes ou não, cápsulas, pílulas e drágeas que costuma consumir, para que escolha quais vai tomar antes da refeição. Minha mãe lhe estende uma carta por cima da mesa. Ele deixa os remédios de lado e examina o envelope: Vem de São Paulo. Abre-o cuidadosamente com a faca e começa a ler a missiva. De repente se indigna:

— Querem botar música em Morte e vida severina!

— Para quê?

— Estão pedindo para montar a peça. É um grupo de teatro amador de São Paulo.

— Que ótimo! Pode deixar que eu redijo a autorização depois do jantar.

— Mas Stella, eles querem por música em meus versos!

— Você vai negar a autorização por causa disso?

— Eu detesto música, você está cansada de saber. Os versos vão mudar de ritmo e perder a força.

— Me deixa ler essa carta. Quem vai musicar é um rapaz novo, Francisco Buarque de Holanda. Será que é parente do Sérgio?

— Já sei! vou autorizar a montagem do texto, mas proibir de mudar a métrica dos versos. Se o rapaz conseguir…

E assim a autorização é enviada a Silney Siqueira, diretor do espetáculo que será montado pelo Tuca, grupo de teatro amador da PUC de São Paulo.

Alguns meses depois, já em 1966, recebo um telefonema de minha mãe no internato onde estudo e ela me diz:

— Já dei a autorização para você sair do colégio ainda hoje, você vai à França com seu pai e comigo.

— Que legal! Vamos fazer o que na França? E na França onde?

— Vamos a Nancy, assistir à montagem de Morte e vida severina por um pessoal de São Paulo. Seu pai quer que você venha conosco porque está preocupado, ele acha que você está europeia demais. Assim, vai entrar em contato com jovens brasileiros, você precisa disso.

— Então vou me arrumar, tem um trem que sai de Fribourg para Berna daqui a uma hora. Até já!

Na maior felicidade (nada melhor do que matar alguns dias de aula), em menos de meia hora estou pronta e na estação.

No dia seguinte, lá vamos nós de carro até Nancy, onde acontece o Festival Mundial de Teatro Universitário.

A peça será encenada daqui a dois dias. Durante esse tempo, assisto os ensaios, ouço falar português sem ser em casa, aprendo algumas gírias novas. O pessoal é absolutamente adorável e o compositor… enfim, o que dizer de Chico Buarque aos vinte e um anos, visto por uma garota de dezoito? Ainda tive a alegria e a honra de ouvi-lo cantar “Olê, Olá” só para mim.

No dia da apresentação, chegamos cedo ao teatro, que está lotado.

A peça começa. Legendas são projetadas no alto do palco. O silêncio na sala é total. Fico siderada, e reparo que meu pai, sentado a meu lado fica também. As músicas inseridas no texto são arrepiantes. Meu pai está pasmo, o rapaz não mexeu numa vírgula sequer, e comenta isso durante os aplausos. A peça é ovacionada em pé, o que não é uma reação muito normal para um público francês. Tudo o que ouço em volta de nós na plateia é:

— Quelle merveille!

— Incroyable!

— C’est d’une beauté!

Eu seria uma mentirosa se não confessasse o orgulho que senti do meu velho naquele momento. Nunca tinha lido o texto, apenas sabia que existia. Esse foi o dia em que descobri o poeta escondido dentro daquele que para mim era apenas o meu pai. O texto de Morte e vida severina precisou ficar dez anos dormindo, até ser despertado por um grupo de estudantes paulistas a quem serei eternamente grata por me apresentarem, há cinquenta anos atrás, o poeta João Cabral de Melo Neto.

* * * * *

 

Inez Cabral nasceu em Barcelona, na Espanha. Durante a infância estudou em vários países, acompanhando o pai diplomata. Cineasta, trabalhou na extinta TVE, participou da equipe de diversos filmes e dirigiu curtas-metragens como Romance policial brasileiro. É também tradutora e vive atualmente no Rio de Janeiro.

Do que falamos quando falamos de ficção científica

Por Luara França

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Ilustração de A guerra dos mundos, de H. G. Wells, por Warwick Goble. 

Nem sempre fui uma leitora de ficção científica (FC). É bastante comum que as pessoas que gostam do gênero comecem sua jornada já no fim da infância lendo Eu, robô, de Isaac Asimov, A guerra dos mundos, de H. G. Wells ou Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Minha infância, por outro lado, esteve repleta de fantasia, mágicos, monstros e dragões que não precisavam ser explicados por nenhuma lógica científica. Foi só mais tarde, ao ler Solaris, de Stanisław Lem, que o gênero realmente se abriu para mim. Foi a partir dessa leitura que pude revisitar boa parte do que já havia lido e descobrir como um gênero tão amplo como a FC pode extrapolar barreiras literárias.

Não me parece contraditório que um gênero que se preocupa em pensar a existência do outro, da diferença, do alien, atraia uma gama tão diversa de leitores. Todo mundo pode ler FC, desde crianças fascinadas com as estrelas até adultos que tentam entender as consequências de uma guerra.

Posso estar me precipitando aqui, talvez seja melhor definir do que falamos quando falamos de FC. […] O.k., tarefa impossível. Próxima.

Talvez seja melhor tentar desvendar os contornos do que seria a ficção científica. A ideia mais aceita é a de que você precisa ter um elemento distante da nossa realidade que seja explicado por uma teoria científica. Exemplo: se você vê uma vassoura voadora mágica, está em um livro de fantasia; se você vê uma vassoura voadora movida por micro-turbinas feitas por uma grande corporação que pode na verdade estar querendo dominar o mundo através da sistemática contratação, substituição por clones e assassinato de físicos e engenheiros especializados em nanomateriais, eis aí em um livro de FC. A diferença é sutil e não raramente as linhas se cruzam. É comum que livros de outros gêneros (ei, ficção literária, estou olhando para você) se apropriem de tropos da FC para dar um “gostinho diferente” aos seus livros. Esse hibridismo entre os gêneros costuma ser bastante benéfico para todos os campos, e são os gêneros da chamada ficção especulativa (terror, fantasia e FC) que mais favorecem as outras áreas.

Mas a FC ainda vai além e também se junta à física, à matemática e às demais ciências exatas para construir um mundo parecido e ao mesmo tempo diferente do nosso. Um mundo em que a Revolução Cultural Chinesa aconteceu, mas pode ter levado também ao primeiro contato com extraterrestres. Um mundo em que físicos passam horas jogando um vídeo game que talvez não seja exatamente o que aparenta ser. Essa é a história de O problema dos três corpos, livro do chinês Cixin Liu, lançamento da Suma de Letras agora em agosto. O livro é o primeiro volume de uma trilogia que vai explorar a ideia do primeiro contato da Terra com alienígenas — tema frequentemente entendido como uma exploração do lidar com o diferente. O autor, Cixin Liu, foi o primeiro escritor não anglófono a receber o prêmio Hugo (a principal premiação da FC) e pareceu a escolha perfeita para integrar o catálogo da Suma de Letras.

O catálogo do selo já conta com grandes livros de FC, como A guerra dos mundos, de H. G. Wells, e do terror, como It, de Stephen King, mas agora começamos um novo capítulo que trará para o nosso time autores contemporâneos (como Sylvain Neuvel e seu Gigantes adormecidos) e clássicos (Connie Willis e Shirley Jackson confirmadas para 2017!).

Esperamos que o selo abra portas para quem ainda não conhece o gênero e também agrade aos que já são fãs. Porque “a natureza nunca apela para a inteligência senão quando o hábito e o instinto são incapazes de resolver um problema. Não existe inteligência onde não existe mudança ou a necessidade de mudança.”. (Não sou eu falando, é o H. G. Wells em A máquina do tempo.)

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E não se esqueça: “Nunca dou ouvidos a quem critica meu gosto pela viagem espacial, eventos estranhos ou gorilas. Quando isso acontece, eu pego meus dinossauros e deixo a pessoa falando sozinha”. ― Ray Bradbury

Se você se interessa por FC, recomendo que siga a Suma de Letras nas redes sociais (Facebook, Twitter e Instagram) para ficar por dentro de todas as novidades do selo. Muita coisa boa está por vir!

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Luara França é editora dos selos Alfaguara e Suma de Letras.

Papéis coloridos

Por Socorro Acioli

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Meu primeiro emprego foi como vendedora de uma pequena livraria em Fortaleza, aos dezenove anos, e eu poderia contar inúmeras histórias que me aconteceram nesse período. Da mulher que me pedia para escrever dedicatórias de um fictício amante apaixonado ao rapaz que ia diariamente me pedir que lhe contasse das minhas leituras e que acabou casando comigo. Da presença de Rachel de Queiroz no lançamento do seu livro de memórias Tantos anos às performances do poeta pernambucano Miró, que lotava a livraria em todos os seus eventos.

Nos meus primeiros dias de trabalho, eu praticamente só vendia dois livros: O mundo de Sofia e O Xangô de Baker Street. Eles vinham da Companhia das Letras, uma editora que eu não conhecia ainda, mas que me conquistou de cara e me ajudou muito no começo.

Primeiro, porque a venda inacreditável dos livros mencionados acima melhorou consideravelmente a minha comissão. Segundo porque eu não tinha tempo de ler tudo e precisava de informações para indicar as novidades para os clientes. Então a Companhia mandava resenhas dos livros em papéis coloridos, vários tons de todas as cores. Eu guardava um por um no colecionador de plástico que eu levei de casa. Até que não coube mais nada e eu tive a ideia de encadernar e deixar na mesa de leitura da livraria.

Foi um sucesso. Alguns clientes sentavam para ler o Caderno de Resenhas da Companhia das Letras. Escolhiam os livros e faziam encomendas. Eu morria de ciúmes. Se alguém sentasse à mesa e ignorasse meu precioso caderno de resenhas, eu pedia licença e o retirava de lá, com medo de alguma avaria.

Quando a livraria fechou, o caderno foi doado à artista plástica Alba Alves, maior fã da Companhia que passou por ali. Lemos na mesma época o Momentos do livro no Brasil e conversávamos sobre o papel da editora na história do livro. Ela mereceu herdar o volume.

Deixei o trabalho para voltar à faculdade de jornalismo. Quase no final do curso, o escritor Lira Neto, então editor da Fundação Demócrito Rocha, convidou-me para escrever um dos ensaios biográficos da saudosa coleção Terra Bárbara. Uma semana antes, eu estive com Frei Betto, que lamentava a falta de uma biografia sobre o frade cearense Frei Tito de Alencar.  Aceitei o desafio e publiquei o livro Frei Tito em 2001.

Depois do Frei Tito, segui a carreira de escritora e alimentei secretamente, pouco a pouco, o desejo de publicar pela Companhia das Letras.

Enfim, chegou a minha vez. Levado pelas mãos da minha agente Lúcia Riff, em 2014, meu romance A cabeça do Santo foi publicado pela Companhia. A capa amarela escolhida pela designer Elisa Von Randow me fez lembrar dos papéis coloridos que eu guardava como tesouro aos dezenove anos, trabalhando na livraria.

É pela lembrança tão nítida desses dias que cometo o pecado da pieguice na hora de falar da minha relação com a Companhia das Letras. Tenho dois livros na casa, mais dois por vir em breve e vários planos para o futuro. Minhas editoras são minhas amigas, bem como todos os que cuidam de várias etapas de edição e divulgação dos meus livros.

Não passo por São Paulo sem visitar a casa e tenho um orgulho imenso de ser parte da comemoração dos trinta anos da Companhia das Letras, de maneiras diferentes, desde 1994. Toda pieguice será perdoada. É tudo sonho e narrativa.

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Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna do prêmio Nobel Gabriel García Márquez na oficina Como Contar um Conto, em Cuba, e publicou diversos livros, entre eles A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu (editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013. Em 2014, publicou seu primeiro romance para o público adulto pela Companhia das Letras, A cabeça do santoe em 2015 lançou a nova edição de A bailarina fantasma pela Editora Seguinte.