Caixa de Sapato Bilionária

Por Érico Assis


E se…? foi, sem dúvida, uma das maiores surpresas que já recebi como proposta de tradução. E depois ainda teve surpresa em cima de surpresa.

Na hora em que André Conti me mandou o PDF do livro, eu não tive noção do que era — apesar de já estar com o original na minha lista de pré-compras. As pré-vendas, aliás, foram o que fizeram o livro sair a foguete aqui e no resto do mundo. Já tinham massas de gente pré-comprando o original no início deste ano, apesar do lançamento em setembro nos EUA.

Quem conhece um pouco de quadrinho deveria ficar exultante. Randall Munroe já era mini-celebridade, merecidamente, por conta da xkcd. Embora eu não seja seguidor devoto, fico embasbacado com os experimentos dele (escrevi sobre aqui e aqui) e acompanhei o What If? nos primeiros dias. Aí, nos dias em que eu estava fechando a tradução, meu pai me perguntou se eu tinha assistido um vídeo do TED no qual o palestrante fala do que aconteceria se alguém rebatesse uma bola de beisebol arremessada à velocidade da luz. Se meu pai pergunta sobre o Randall Munroe, tem alguma coisa acontecendo.

O lançamento do livro nos EUA foi há poucos dias. Neste momento, ele está na lista de livros mais vendidos da Amazon e do New York Times. E Se…? Respostas científicas para perguntas absurdas sai em outubro pela Companhia das Letras. Procure a capinha verde e compre. Sim, só em outubro, desculpe.

Texto publicado originalmente em A Pilha.

Leia abaixo mais uma pergunta do site What If? traduzida por Érico Assis.

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Qual seria a maneira mais cara de encher uma caixa de sapatos tamanho 42 (por ex., com cartões MicroSD de 64 GB carregados com música digital comprada?)? – Rick Lewis

Uma caixa de sapatos cheia de coisas valiosas bateria nos US$ 2 bilhões. O mais incrível é que isto vale para diversas possibilidades de conteúdo.


Mais o valor da caixa.

Cartões MicroSD são uma boa ideia. As músicas do iTunes custam mais ou menos US$ 1 cada, e cartões MicroSD têm capacidade aproximada de 420 terabytes por litro. Uma caixa de sapatos masculinos tamanho 42 tem uns 10 a 15 litros, dependendo da marca e do tipo de sapato, de forma que você consegue armazenar 1,5 bilhões de músicas de 4 MB (mais ou menos um dólar cada). (Isso dá umas 20 vezes o número de músicas que se encontra hoje na loja da iTunes, então você vai ter que comprar algumas músicas mais de uma vez.)

Softwares caros, como o Adobe®©TM Photoshop®©TM CS®TM 5TM têm uma proporção custo/megabyte um pouquinho maior, já que ele é vendido a centenas de dólares e ocupa centenas de megabytes. Ou ocupava, até que a Adobe mudou para a nuvem.

Quando se entra em preço de software, dá para puxar o “custo” das coisas que entram na caixa de sapato o quanto você quiser a partir de aquisições in-app infinitas. E embora o personagem que você vá montar no RPG provavelmente represente o gasto de tanto dinheiro, vai ser difícil lhe dizer de cara séria que seu personagem não vale um trilhão de dólares.

— Meus compatriotas: gostaria de anunciar um aumento repentino de US$ 2 trilhões na nossa dívida interna. Mudando totalmente de assunto, vejam só quantas espadas meu personagem tem!
(Na real bateu no teto de 2.147.483.648 espadas, mas gastei o outro trilhão porque fiquei torcendo que revisassem o sistema.)

Por isso, vamos pensar em objetos de verdade.

Tem o ouro, que é óbvio. Treze litros de ouro valem hoje mais ou menos US$ 10 milhões. Platina é um pouco mais cara e dá US$ 13 milhões/caixa de sapatos¹. Seria 10 vezes o valor de uma caixa de sapatos cheia de notas de US$ 100. Por outro lado, uma caixa de sapatos cheia de ouro teria o peso de um potrinho.

Existem metais mais caros. Um grama de plutônio puro, por exemplo, custaria uns US$ 5 mil. Melhor ainda: plutônio é mais denso que ouro, então daria para você colocar quase 300 quilos de plutônio numa caixa de sapato.

Antes de você gastar US$ 3 bilhões em plutônio, observe o seguinte: a massa crítica do plutônio fica por volta dos 10 quilos. Então, embora dê para colocar 300 quilos numa caixa de sapato, você só ia conseguir fazer isso bem rapidinho.


Ou seja, provavelmente você não vai achar comprador. Ou, se você se dispor a encher a caixa de sapatos em horário e local combinados, é PROVÁVEL que encontre comprador.

Diamantes de alta qualidade são caros, mas é difícil ter noção do preço exato porque essa indústria toda nasceu de um veio porque o mercado de pedras preciosas é complicado. Tem um site que diz que um diamante impecável de 600 mg (3 quilates) vale mais de US$ 300 mil. Então, uma caixa de sapatos cheia de diamantes perfeitos valeria até US$ 20 bilhões. Só que eu acho mais razoável falar em US$ 1 ou 2 bilhões.

— Hmm. Qual seria a forma mais eficiente de acomodar diamantes com lapidação estilo brilhante e tamanho uniforme?
— Te vejo daqui a 12 horas.
(Quase não resisti a pesquisar problemas+empacotamento+insolúveis no Google.)

Tem muitas drogas ilegais cujo peso vale mais que ouro. O preço da cocaína varia bastante, mas em muitos mercados fica na faixa dos US$ 100/grama². Ouro, atualmente, vale metade disso. Contudo, a cocaína é muito menos densa que o ouro³, então uma caixa de sapatos cheia de cocaína valeria menos que uma cheia de ouro.

Cocaína não é a droga mais cara segundo o critério do peso. O LSD — provavelmente a substância de consumo mais amplo que é vendida ao consumidor às microgramas — custa mais ou menos mil vezes mais que cocaína, considerando o peso. Uma caixa de sapatos cheia de LSD puro valeria uns US$ 2,5 bilhões.

Algumas drogas de farmácia podem sair tão caras quanto o LSD. A dose única de brentuximab vedotina (Adcetris) pode chegar a US$ 13.500, o que — para o paciente médio — eleva o valor da caixa de sapatos à mesma faixa dos US$ 2 bilhões de LSD, plutônio e cartões MicroSD. Existem outras drogas ainda mais caras.

Mas, obviamente, você pode colocar sapatos na caixa de sapatos.


Doido. (Ah, acho que se você não usar os sapatos quando estiverem dentro da caixa, aí tudo bem.)

Os sapatos que Judy Garland usou em O Mágico de Oz foram leiloados a US$ 666 mil e — diferente de tudo que consideramos acima — em algum momento já deve ter estado dentro de uma caixa de sapatos.

Se você quer mesmo encher uma caixa de sapatos com uma quantidade de dinheiro arbitrariamente descomunal, é só pedir ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos para fazer uma moeda de platina de um trilhão de dólares.

Mas se você se dispõe a apoiar-se na autoridade legal do nosso sistema monetário para incutir valores em qualquer objeto inanimado…

Em inglês existem umas discordâncias sobre a grafia “check” ou “cheque”. Mas todo mundo concorda que o melhor vai ser quando a gente abolir essa palavra de vez.

… é só você fazer um cheque.

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1 – Que infelizmente ainda não é uma unidade do SI.

2 – Meu histórico de pesquisa depois de investigar preços de drogas provavelmente me botaria na lista de suspeitos de tudo que é governo, se eu já não estivesse nelas por todas as outras coisas que pesquisei para o E Se…?.

3 – Mas peraí: qual é a densidade da cocaína? Como sempre, os fóruns de discussão do Straight Dope já realizaram esta investigação; neste thread, eles consultaram o CRC Handbook of Chemistry and Physics e o Merck Index, depois desistiram e resolveram que deve ser por volta de 1 kg/L, como é o caso da maioria das substâncias orgânicas. Descobriram, por outro lado, ponto de ebulição e a solubilidade da cocaína em azeite.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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A questão do Snoopy

Por Joca Reiners Terron


Muitos escritores devem ter sido inspirados na infância por um certo cão beagle que finge ser um ás combatente da Primeira Guerra que trava batalhas aéreas encarapitado no teto de sua casinha de cachorro. Snoopy é o único cão escritor do mundo. Talvez por isso também seja o único personagem a suplantar a realidade e seus problemas em Peanuts, cartum criado por Charles Schulz em 1950 e publicado até a morte do autor, em 13 de fevereiro de 2000, véspera da publicação da última tira.

Peanuts é a série de tiras de jornal mais longa da história. Inteiramente escrita, desenhada e letreirada por Schulz sem qualquer ajuda de assistentes, foi publicada ao longo de cinquenta anos em 2600 jornais de todo o mundo, atingindo mais de 350 milhões de leitores. Com números tão expressivos, Schulz criou o modelo tira de jornal como é conhecido e explorado hoje por filhos diletos como Calvin & Haroldo ou Garfield.

Schulz conseguiu traduzir a ambivalência do comportamento humano por meio de seus personagens desde a tira inaugural, publicada em 2 de outubro de 1950. Nela, dois garotinhos no meio-fio festejam a aproximação do “velho e bom Charlie Brown”. Todavia, quando Charlie Brown cruza sem lhes dar atenção, passa imediatamente a ser odiado. Várias qualidades do trabalho de Schulz já se faziam notar nessa primeira tira, como o caráter realista de bonequinhos infantis somente na aparência e o domínio da progressão temporal em apenas quatro quadrinhos.

Como observou o quadrinista Art Spiegelman, “Schulz separou diferentes aspectos de sua própria personalidade em vários personagens e passou o resto de sua vida permitindo que eles se chocassem uns contra os outros”. Assim, o fantasioso Snoopy, o preocupado Charlie Brown, o filosófico Linus e a mandona Lucy, entre outros personagens, tipificaram comportamentos com os quais pessoas de todo o mundo se identificaram.

Com Peanuts, pela primeira vez na história dos quadrinhos os leitores se preocupavam com pequenas crianças feitas de papel e tinta como se elas fossem de verdade. A longevidade da série criada por Charles Schulz levou esse envolvimento a um paroxismo: muita gente começou a acompanhar as aventuras de Charlie Brown e companhia na infância e fez isso até a maturidade, crescendo ao mesmo tempo que eles. Diagnosticado com uma doença que o impediu de continuar a criar em 1999, Schulz caía em lágrimas todas as vezes que era obrigado a falar de seus personagens.

Se o bom e velho Charlie Brown é o garotinho que mais se parecia com seu criador, inclusive fisicamente, o cão beagle Snoopy é a perfeita tradução da imaginação criadora de Charles Schulz. Ao travar batalhas aéreas matutinas contra o Barão Vermelho e ao batucar lentamente suas histórias numa máquina de escrever, Snoopy divertiu e demonstrou a importância da vida secreta das fantasias para a preservação da lucidez na vida real. Com isto, inspirou muitos escritores. Eu, muito humildemente, sou apenas um deles.

[Em novembro, a Companhia das Letrinhas vai publicar quatro livros infantis de Snoopy e sua turma: É hora da escola, Charlie Brown; Charlie Brown e a Grande Abóbora de Halloween; Largue o cobertor, Linus e O dia dos namorados de Charlie Brown.]

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Marque na agenda

Semana Literária do Sesc Paraná
Autores da Companhia das Letras participam da 33ª Semana Literária do Sesc Paraná, que acontece em várias cidades do estado. Confira a programação:

  • Mesa com Simone Campos e Raphael Montes
    Segunda-feira, 15 de setembro, às 20h
    Autores de A vez de morrerDias perfeitos conversam sobre “A violência por escrito”.
    Local: Sesc Cascavel – Rua Carlos de Carvalho, 3367 – Cascavel, PR
  • Bate-papo com Luiz Ruffato
    Luiz Ruffato, autor de Flores artificiais, participa do encontro “A invisibilidade como forma de violência”.
    Terça-feira, 16 de setembro, às 20h
    Local: Sesc Cascavel – Rua Carlos de Carvalho, 3367 – Cascavel, PR
    Quarta-feira, 17 de setembro, às 20h
    Local: Sesc Pato Branco – Av. Tupi, 405, Bortot – Pato Branco, PR

Brian Greene no Fronteiras do Pensamento
Físico teórico e professor de matemática na Universidade de Columbia, o americano Brian Greene, autor de A realidade oculta, participa da conferência do Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre e São Paulo. Veja mais informações sobre os ingressos no site.

  • Segunda-feira, 15 de setembro, às 19h45
    Local: Salão de Atos da UFRGS – Av. Paulo Gama, 110 – Porto Alegre, RS
  • Quarta-feira, 17 de setembro, às 20h
    Local: Teatro do Complexo Ohtake Cultural – Rua dos Coropés, 88, Pinheiros – São Paulo, SP

Lançamento de Obra autobiográfica
Rosa Freire d’Aguiar, organizadora de Obra autobiográfica, de Celso Furtado, participa de eventos de lançamento do livro em João Pessoa, Campina Grande e Recife.

  • Terça-feira, 16 de setembro, às 19h
    Mesa com Rosa Freire d’Aguiar e prof. Iedo Fontes (UFPB) no Fórum Universitário.
    Local: Universidade Federal da Paraíba, CCHLA – Cidade Universitária – João Pessoa, PB
  • Quarta-feira, 17 de setembro, às 19h
    Rosa Freire d’Aguiar conversa com os professores Rosilene Montenegro (UFCG), Ida Steinmueller (IHCG) e Sales Gaudêncio (UFPB).
    Local: Auditório do Campus Universitário da Universidade Federal de Campina Grande – Bodocongó – Campina Grande, PB
  • Quinta-feira, 18 de setembro, às 17h
    Conversa com Rosa Freire d’Aguiar e prof. Marcos Costa Lima (UFPE).
    Local: Livraria Praça de Casa Forte – Praça de Casa Forte, 426 – Recife, PE

Lançamento de Tribunos, profetas e sacerdotes
Quinta-feira, 18 de setembro, às 18h30
Bolívar Lamounier autografa Tribunos, profetas e sacerdotes logo após o debate com José Augusto Guilhon, Milton Lahuerta e Sérgio Fausto.
Local: Livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis – Av. Higienópolis, 618 – São Paulo, SP

Simone Campos autografa em Curitiba e Porto Alegre
Lançamento de A vez de morrer e sessão de autógrafos com Simone Campos.

  • Quinta-feira, 18 de setembro, às 19h
    Local: Livrarias Curitiba do Shopping Estação – Av. Sete de Setembro, 2775 – Curitiba, PR
  • Segunda-feira, 22 de setembro, às 18h30
    Local: Palavraria Livros & Cafés – Rua Vasco da Gama, 165 – Porto Alegre, RS

Contação de história e lançamento de O coiso estranho
Sábado, 20 de setembro, às 11h
Venha para mais uma manhã de contação de histórias com Kiara Terra na Matinê da Companhia das Letrinhas. Lançamento do livro O coiso estranho, com ilustração ao vivo de José Carlos Lollo e autógrafos com Blandina Franco.
Local: Livraria NoveSete – Rua França Pinto, 97, Vila Mariana – São Paulo, SP

Drauzio Entrevista com Sérgio Sant’Anna
Segunda-feira, 22 de setembro, às 19h30
No evento do lançamento de O homem-mulher, Sérgio Sant’Anna participa de mais uma edição de Drauzio Entrevista, com sessão de autógrafos logo após o bate-papo.
Local: Teatro Eva Herz na Livraria Cultura do Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073 – São Paulo, SP

Semana duzentos e vinte e um

Diário de inverno, de Paul Auster (Trad. de Paulo Henriques Britto)
Em 1982, com a publicação de seu primeiro livro em prosa, A invenção da solidão, um jovem Paul Auster chamou a atenção do público e da crítica ao escrever sobre a paternidade. Trinta anos depois, já amplamente consagrado, ele escreve seu segundo livro de memórias, no momento em que adentra a velhice. Se em sua estreia o escritor se debruçou sobre a figura do pai, que havia acabado de morrer, em Diário de inverno Auster dá destaque à mãe, que se divorciou do marido e se tornou uma pária dentro da própria família. Em meio a lembranças dos jogos de beisebol, do primeiro relacionamento sério, fadado a dar errado, e do dia em que conheceu sua segunda mulher, Auster relembra a luta da mãe para criar os filhos sozinha, sua dedicação ao trabalho, o segundo e o terceiro casamentos, a dependência financeira na velhice e sua morte. Neste livro nada convencional de memórias, os fãs de Auster reconhecerão muitas das virtudes de seus livros anteriores, como a sensibilidade, o estilo claro e lúcido, o fascínio pela arte e pelo esporte. Ao falar das mudanças de casa, das brigas, do amor pela família e pelos amigos, e principalmente do envelhecimento, este relato de uma experiência pessoal se transforma no retrato de uma experiência universal com a qual todos podem se identificar.

Discurso de primavera e algumas sombras, de Carlos Drummond de Andrade
A ecologia, o passado do Brasil, a amizade e os amores em mais uma obra poderosa de nosso grande poeta. Discurso de primavera e algumas sombras é o testemunho poético de uma inteligência penetrante e ecumênica, que abarcava praticamente todos os aspectos do cotidiano – e além disso contava com o arsenal da melhor lírica em língua portuguesa.


Uma amizade (im)possível, de Lilia Moritz Schwarcz
Em meados do século XVI, quando a história de Uma amizade (im)possível acontece, aos olhos dos europeus o Brasil representava uma possessão esranha, ocupadapor homens ainda mais estranhos em seus costumes. Após a febre do pau-brasil, foi a cultura da cana que animuo a exploração da rica colônia e seus nativos. Portanto, de parte a parte, sobrava desconfiança e motivos para todo tipo de distância e suspeita culturais. É nesse contexto histórico que a amizade entre Pedro, filho de um mercador português, e o corajoso Aukê, um índio Tupinambá, ganha ares de aventura. Uma amizade improvável, construída pelas semelhanças e diferenças desses dois heróis mirins, é o ponto central da história. Voltado para o público infanto-juvenil, esta bonita história de companheirismo e tolerância vem acompanhada por um glossário que ajudará o leitor a entender um pouco os desafios dessa Terra de Santa Cruz, marcada pelo vermelho da tinta do pau-brasil e o doce do açúcar da cana.

 

Remoções

Por Paulo Scott*


Foto: Paulo Scott

Enquanto serve mais um pouco da coca-cola nos nossos copos, o investigado diz que hoje à noite o bicho vai pegar. Falo que ele precisa tomar cuidado, que não é legal ficar o tempo todo tão exposto, que o segredo da coisa é avançar e depois recuar, que é deixar pra fazer o que tem que fazer quando for o momento certo. Ele diz que nunca sentiu tanta adrenalina, que não é tão fácil de controlar a adrenalina. Pergunto quantos mais vão estar por lá no final de tarde. Ele diz que não sabe, que sabe tanto quanto eu, que deixa pra ver o que pega quando o bicho pega. Digo que não quero correr riscos desnecessários. Ele diz que é divertido, que pra ele não passa de diversão. Digo que faço porque quero que as coisas melhorem no país, que não é possível que os que já têm muita grana fiquem ainda com mais grana enquanto a classe média e os trabalhadores só se ferram. Ele me encara com um olhar de quem está entendendo o que eu digo, mas que considera o que eu digo algo sem muita importância, diz que nada é mais foda do que quebrar vidraça de banco, que os bancos têm mais é que sumirem do mapa. Digo que concordo com ele, que se tem alguma coisa que eu vou quebrar certo esta noite é vidraça de banco. Ele ri. Ele não é muito de falar, isso não facilita o meu trabalho, mas aos poucos eu chego lá. Ele pergunta se eu não topo tomar uma cerveja. Digo que é um pouco cedo pra mim. Ele diz que pra um cara de trinta anos que está desempregado há meses eu pareço conformado demais com a vida. Esqueço de responder, fico olhando o movimento dos carros na Rio Branco. Quando trabalho meses disfarçado preciso disto, destes momentos em que digo pra mim mesmo que não importa o que vai acontecer a seguir. Ele diz que sou estranho, mas que sou legal. Respondo que estamos juntos nesta. Ele pega o cardápio do bar, que é uma folha A4 plastificada com a lista de sanduíches e aperitivos que eles preparam ali, diz que está com um pouco de fome. Digo que estou com um pouco de fome também. [...] É a primeira vez que saímos os dois juntos do prédio. Fico um pouco nervosa, mas, droga de paranoia, quem é que vai descobrir? Ele toma a dianteira, vai na direção da Cinelândia. Fico parada em frente ao prédio por um instante mexendo no meu celular. Quando percebo que ele já está a uma distância de cem metros, começo a caminhar na mesma direção. Sei que hoje ele vai me dar um presente, não tenho certeza do que vai ser, mas sei que em algum bolso do blazer ou da calça tem algo que ele comprou pra me dar. Aniversário de seis meses. Seis meses transando duas vezes por semana à tarde no escritório do primo que está na Argentina. Os caras na rua me olham. É bom ser olhada aqui, muito diferente de ser olhada na praia. Perco ele de vista, melhor assim: ele ganha tempo pra pegar o elevador, chegar no escritório, ajeitar as coisas e pensar em uma forma bem show de me entregar o presente. Passo por um cara interessante. Ele faz uma careta engraçada, fofa, e fala pra mim uma frase que não consigo entender. Não seguro o riso. Aqui é bem melhor do que na praia. Espero que isso da gente ter saído junto do prédio não tenha sido um erro. Seis meses. Maneiro demais. Só não dá pra se descuidar. Da próxima vez espero cinco minutos ou mais. Seria uma burrice pôr tudo a perder por bobeira. [...] O passageiro me dá uma nota de cem reais. Digo que não tenho troco pra cem reais. Ele diz que é por isso que o Brasil não vai pra frente e insiste: como é que você não tem troco pra cem? Explico que pra uma corrida de dezoito reais, não ter troco pra uma nota de cem, considerando que peguei no trabalho há menos de meia hora, não é algo tão absurdo. Ele pede pra eu esperar ali, que ele vai dar um jeito de trocar em algum lugar, afinal estamos na Rio Branco. Não há o que eu possa fazer. Digo que por mim está tudo bem. Ele diz que eu deveria ficar mais esperto com esse detalhe do troco, que sair atrás de troco só vai ferrar com a vida dele, que quando alguém pega um táxi é porque quer agilidade, rapidez. Eu fico calado. Ele sai do táxi, bate a porta e desaparece na multidão que circula pela calçada. De longe, uma dupla de fiscais do trânsito me observa. [...] Ela já devia ter saído desta porra de livraria, não deve estar se controlando, deve estar pegando mais livros do que consegue esconder na bolsa. Caraca, maluco, o que essa louca tá pensando? Vai querer furtar a coleção do Deleuze inteira? Não acredito, não acredito, não acredito. Eu que não vou ficar segurando livro quando ela cansar de ficar segurando a bolsa durante a passeata. Se demorar mais um minuto pra sair por aquela porta, juro que vou embora. Um minuto a partir de agora. De repente vou ali, na farmácia, e volto, ou fico cuidando de lá. É, fico olhando de lá. Caralho, essa garota me paga. [...] A contadora insiste que prestou toda a assessoria que o nosso contrato previa. Digo que ela está enganada, que estou fazendo tudo sozinho, que nem sequer das certidões negativas que a Funarte está solicitando ela se encarregou de providenciar. As pessoas que vêm no contrafluxo da calçada são em número maior do que as que estão indo, por vezes eu e ela precisamos nos distanciar para em seguida ficar um ao lado do outro de novo. Ela diz que eu sou um arrogante, que é impossível conversar comigo. Deixo que ela fale à vontade e na esquina da Rio Branco com a Rua do Ouvidor eu paro, digo que entrarei ali. Ela diz que eu sou terrível, diz que se dependesse dela tudo se ajeitaria. Respondo que se a Funarte recusar a prestação de contas do projeto eu vou processá-la, que estou profundamente arrependido de um dia tê-la contatado, que ela é uma tremenda Um Sete Um, uma tremenda incompetente. Ela ameaça me dar uma bolsada, mas eu me afasto. Meu telefone toca. Viro de costas para ela, atendo. É o meu sócio no projeto perguntando como foi minha conversa com a contadora. Olho por cima do ombro para saber se a vaca ficou ou foi embora. Foi embora. Respondo que teremos de contratar outro contador e depois vamos ter de processar a vagabunda. Ele diz que não teremos dinheiro para contratar outro contador. Explico que darei um jeito. Uma ruiva toda montada de executiva passa e me dá uma olhada. Faço uma careta engraça e aponto para o celular falando sem emitir som: estou falando com a sua futura sogra. Ela ri. Faço sinal para ela esperar. Ela dá uma paradinha, mas segue adiante. Peço ao meu sócio que não se preocupe, proponho de nos encontrarmos no café da Livraria Travessa ali da Rio Branco daqui a duas horas. Ele diz que não está nos seus planos ficar pelo Centro mais do que o necessário. Peço que ele me ligue quando já tiver se liberado. Passam duas mulatas estonteantes. Aceno para a que está mais próxima. Ela acena de volta. Meu sócio diz que vai tentar, mas que não está mesmo disposto a ficar pelo Centro mais tempo do que o necessário. [...] Desembarcamos do metrô na estação Cinelândia, saímos na esquina do Cinema Odeon. Processando impassível a quantidade brutal de informações a que o estou expondo desde que saímos do meu apartamento em Ipanema, o menino segura minha mão. Digo que ali é o centro do Rio de Janeiro (ele me olha com certa devoção, talvez me olhe dessa forma por conta das boas maneiras que sua mãe lhe ensinou, porque talvez tenha enfatizado que ele precisa ser obediente e atencioso, principalmente com os velhos, principalmente comigo, ainda assim percebo o quanto ele está concentrado operando a máquina moedora que existe dentro da sua mente e na mente de qualquer criança sadia como ele, uma esponja insaciável que absorve tudo sem diferenciar normalidade e anormalidade, um estado constante que ficará lá até algum momento da sua adolescência e depois enfraquecerá). Caminhamos até a frente da Biblioteca Nacional, digo que atrás daquele prédio bonito existia um morro bem grande, onde os meus bisavós compraram uma casa quando se mudaram para o Rio, que o nome do morro era Morro do Castelo e que foi desmanchado no início do século passado. Pergunto se ele sabe o que significa a palavra século. Ele volta a me olhar, sem perder seu jeito inquietante, inquietante ao menos para mim, faz cara de quem interrompeu o funcionamento da máquina moedora de informações por um instante e está procurando no seu fichário mental de palavras em português e também em norueguês – porque mora na Noruega e, mesmo que sua mãe fale em português com ele em casa, na casa da Noruega, e o esteja alfabetizando também em português, é com a língua norueguesa que ele se sente mais confortável nas conversações –, responde que um século são cem anos e se volta na direção do Teatro Municipal. Pergunta se eu já entrei dentro daquele lugar. Respondo que sim, muitas vezes, inclusive com a sua mãe quando ela tinha quase a idade dele. Se fosse mais velho talvez perambulássemos pelas ruas secundárias, mas como fazer uma criança de oito anos que nunca esteve no centro desta cidade lembrar para o resto da vida da primeira, e talvez única, vez em que esteve com o seu bisavô no centro desta cidade se não andar pela principal avenida do centro desta cidade de extremo a extremo. Seguimos até a esquina com a Almirante Barroso. Quando o sinal abre para os pedestres, eu o pego nos braços, ele não se surpreende, que criança maravilhosa. Pela faixa de segurança, vamos até onde ele possa perceber a reta que deverá acabar na Praça Mauá. Aponto na direção da Praça Mauá, pergunto se consegue ir caminhando até a outra ponta. Ele sorri, balança a cabeça, diz uma palavra em norueguês, uma palavra com uma sonoridade maravilhosa, tão maravilhosa quanto ele, uma palavra que eu não faço a menor ideia do que significa. [...] Reclamo por quase termos sido atropelados só porque do nada ele gritou o nome de Getúlio Vargas e, desconsiderando por completo o fato de que não tenho menor simpatia pela figura do Getúlio Vargas, me puxando pelo braço, saiu correndo feito um destemperado na direção do obelisco onde os gaúchos amarraram os cavalos na Revolução de mil novecentos e trinta. Ele retruca afirmando que de nada valeria estar de férias no Rio de Janeiro pela primeira vez juntos se não tirássemos uma foto naquele monumento tão emblemático para a história dos gaúchos e do Brasil. Pergunto se ele não poderia ter esperado o sinal fechar. Concentrado na operação de tirar sua maldita máquina fotográfica do estojo, ele não responde, apenas sorri da maneira artificial de quem está usando óculos de sol que lhe cobrem quase todo o rosto. Aviso que não vou tirar foto alguma com ele naquele lugar. O sorriso desaparece. Ele argumenta que seria uma foto importante. Não sei o que dizer sem que acabe perdendo de vez o pouco de paciência que me resta. O mais acertado talvez fosse contar que pretendo me separar dele quando voltarmos a Santa Maria, pegar um táxi e voltar ao hotel, deixando que ele vá sozinho até a loja masculina onde seu pai costuma comprar as tais camisas sociais de linho duma tal camisaria da zona norte do Rio que está à beira da falência há anos, mas que fabrica as melhores camisas de linho que se possa encontrar no Brasil, deixando que se entretenha à vontade com as lojas da Rio Branco. Pego a máquina da sua mão, digo que farei uma foto bem bacana. Resignado com a minha recusa, ele diz que é melhor eu colocar no automático. Obedeço. Ele pede que eu tente um ângulo em que apareça a torre onde está o relógio da antiga Mesbla. Obedeço. Pede que eu me afaste mais um pouco, mesmo que esse eu me afastar mais um pouco me leve a alguns passos fora do calçamento me deixando à mercê dos carros que estão passando. Obedeço. [...] Tentando não ser o único a ficar dizendo que tem alguma coisa estranha nisso do motor do barco ter parado de funcionar da maneira como funcionou, o único a insistir com o dono do barco pra que ele baixasse a âncora enquanto resolvia o problema do motor e, principalmente, fazendo de tudo pra não pegar o caminho fácil, que seria começar a beber cerveja e, pior do que beber cerveja, a beber no mesmo ritmo dos outros caras convidados da festa, daquela festa de homens jovens e sarados vestindo apenas sungas que ele inventou porque estava entediado, resolvo parar de fazer perguntas sobre qual seria o plano B se o motor não voltasse a funcionar e dar descanso ao dono do barco que neste momento está às voltas com a maquinaria tentando compreender o que aconteceu com aquele motor a diesel nada agradável de se olhar porque está visivelmente sem a conservação adequada. Subo até a cabine do condutor, pego o binóculo sobre o tampo do lado direito do timão, me acomodo longe da muvuca que ele e os seus convidados estão promovendo, como se não houvesse motivo algum para se preocupar. Coloco os fones de ouvido, programo o álbum da Adriana Calcanhoto pra rodar no iphone, pelo binóculo, olho na direção do centro do Rio e relaxo. O barco está de frente pra Avenida Rio Branco, consigo ver o corredor de prédios que se estende em linha reta, uma reta perfeita, até o outro lado do Centro, o resultado do que a terra firme é capaz de proporcionar e a altura que só a terra firme pode proporcionar. Um dos caras de sunga vem falar comigo, a voz delicada da Calcanhoto está suficientemente alta pra que eu não entenda uma palavra do que ele está dizendo. Então ele faz sinal pra que eu tire ao menos um dos fones e o escute. Opto por colocar a reprodução no silencioso, pergunto se está tudo bem. Ele me dá uma piscada, que é claramente uma forma de afirmar que não podia estar melhor, e pergunta se está tudo bem. Respondo que sim. Ele explica que o meu amigo, o dono da festa, pediu pra ele vir perguntar o que eu estou pensando. Respondo que estou só olhando a Rio Branco e pergunto se ele não acha engraçado que o nosso barco ancorado esteja coincidindo com o alinhamento da Rio Branco. Ele diz que a Rio Branco faz ele se lembrar do carnaval, dos blocos, principalmente do bloco Cacique de Ramos. Eu digo pra ele que ela me faz lembrar trabalho, conto que quando saí da casa dos meus pais aos dezesseis anos trabalhei por quase dois anos numa daquelas lanchonetes de calçada e que as lembranças daquele lugar não são as melhores. Ele pergunta se eu já fui alguma vez nos desfiles de carnaval que acontecem lá. Digo que não sou muito fã de carnaval e que, na verdade, nem gosto muito de circular pelo centro do Rio, mas que precisava admitir: a Rio Branco tinha a sua energia. Da mesma forma que sentou ao meu lado ele se levanta, diz que ficou contente de ver que eu não estou triste, que só estou admirando a cidade. Não digo nada. Ele retorna à muvuca dos caras só de sungas. Tiro a música do iphone do silencioso. A tarde está linda, fico mais tranquilo ao me dar conta de que a tarde está linda e a terra firme não está tão longe, não sou bom de natação, mas com um dos coletes salva-vidas do barco, ainda mais estando sóbrio como estou, tenho certeza de que consigo me virar se for mesmo necessário. Meu Jesus do Céu, que tarde linda. Não importa o que de pior aconteça por aqui, pelo menos ali, na terra firme, não vai ter o que tire a graça e a tranquilidade desta tarde linda, linda, linda.

*Este conto foi escrito para um projeto artístico que deverá ser veiculado até o final do ano. Por razões que não vêm ao caso explicar neste momento, teve de ser modificado, adaptado e reduzido. Aproveito tudo que está em jogo neste período pré-eleitoral para lembrar (ainda tentando entender toda sua riqueza) o que aconteceu em junho do ano passado não só no Rio de Janeiro, mas no Brasil inteiro. Literatura e política são dimensões culturais muito distintas, mas são consequências relevantes da vida; o que sei é que uma dessas duas dimensões jamais chegará tão perto da alma brasileira e da sua inquietude única como a outra. Na próxima edição, prometo, retomo o estado normal da coluna. Até lá.

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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