Semana duzentos e sessenta

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Sempre em movimento — uma vida, Oliver Sacks (Tradução de Denise Bottmann)
Quando Oliver Sacks tinha doze anos, um professor bastante sagaz escreveu num relatório: “Sacks vai longe, se não for longe demais”. Hoje está absolutamente claro que Sacks jamais parou de ir. Desde as primeiras páginas deste comovente livro de memórias, em que relata sua paixão de juventude pelas motos e pela velocidade, Sempre em movimento parece estar carregado dessa energia. Conforme fala de sua experiência como jovem neurologista no início dos anos 1960 — primeiro na Califórnia, onde lutou contra o vício em drogas, e depois em Nova York, onde começa a despontar como pesquisador —, vemos como sua relação com os pacientes veio a definir sua vida. Com a honestidade e o humor que lhe são característicos, Sacks nos mostra como a mesma energia que motiva suas paixões “físicas” — levantamento de peso e natação — alimenta suas paixões cerebrais. Sempre em movimento é a história de um pensador brilhante e nada convencional, o homem que iluminou as muitas formas com que o cérebro nos faz humanos.

Um céu mais perfeito, Dava Sobel (Tradução de Ana Claudia Ferrari)
Em 1514, Nicolau Copérnico desenvolveu o esboço da teoria que desafiava as crenças da época, colocando o Sol, e não a Terra, no centro do universo. Ao longo das duas décadas seguintes, ele compilou seu trabalho num manuscrito secreto, o qual se recusava a publicar. Em 1539, o alemão Georg Joachim Rheticus, atraído pelos rumores de uma revolução científica, viajou à Polônia para procurar Copérnico. Dois anos depois, o jovem publicou As revoluções dos orbes celestes, com os trabalhos que transformaram o lugar do homem no Universo. Com elegância, Dava Sobel descreve as personalidades conflitantes dos dois e cria uma peça teatral que imagina a luta de Rheticus para convencer o mestre a publicar seu manuscrito.

O poder ultrajovem, Carlos Drummond de Andrade
O poder ultrajovem reúne textos publicados por Carlos Drummond de Andrade na imprensa entre o final da década de 1960 e o início da década de 1970. Trata-se de um poderoso conjunto de prosa e verso — sempre pendendo para os domínios da crônica, gênero que o grande escritor mineiro praticou como poucos —, em que o olhar maduro e algo desencantado (mas com muita ironia) do autor se debruça sobre os mais diversos aspectos da vida e da sociedade daquela época. Com posfácio do crítico Alcir Pécora, esta nova edição de um dos mais cativantes livros de Drummond é um brinde à vivacidade e à inteligência sutil de um dos nossos mais estimados escritores.

Companhia das Letrinhas

Nove monstros perigosos poderosos fabulosos do Brasil, Flavio de Souza
Este livro é um desafio! Dentro dele há figuras de nove monstros brasileiros, que estão camuflados em meio a traços coloridos. Encontrar todos eles não será fácil, e o leitor vai precisar superar o pavor. Quem conseguir encarar os monstrengos terá acesso, como prêmio por sua coragem, a informações interessantíssimas sobre cada uma das aberrações: aspecto físico, categoria, lugar de origem, lendas a seu respeito, tipos de poder e — o mais importante — dicas sobre como vencê-las.

Seguinte

O círculo rubi — Bloodlines vol.6, Richelle Mead (Tradução de Guilherme Miranda)
Depois que Sydney Sage escapou das garras dos alquimistas, que a torturaram por viver um romance proibido com Adrian Ivashkov, o casal se exilou na Corte Moroi. Hostilizada por todos ao seu redor por ser uma humana casada com um vampiro, a garota quase não sai de casa e perde a noção do tempo, trocando o dia pela noite. Mas logo Sydney se vê obrigada a abandonar seu refúgio, já que seu coração continua apertado desde que Jill Dragomir desapareceu. O sumiço da jovem princesa vampira coloca em risco toda a estabilidade política dos Moroi… Agora Sydney precisa descobrir quem está por trás desse sequestro para dar um jeito de trazer a amiga de volta — e ao mesmo tempo alcançar sua própria liberdade.

Paralela

Cidade mágica, Lizzie Mary Cullen (Tradução de Renata Moritz)
Viaje ao redor do mundo na ponta do lápis! Agora é possível pintar Londres, Paris e Rio de Janeiro. Vistas com o olhar único e divertido de Lizzie Mary Cullen.

Piloto de guerra escreve O pequeno príncipe

Por Mônica Cristina Corrêa

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Aparentemente contraditório, mas verdadeiro.

Em 1940, partindo num navio de Lisboa, o piloto e autor francês Antoine de Saint-Exupéry, então com quarenta anos, deixa a Europa em direção aos Estados Unidos, aonde chega na virada do ano. Deveria passar ali pouco tempo — alguns meses — a fim de receber o prêmio por seu livro Terra dos homens, de 1939. Sua bagagem àquelas alturas já era a de um piloto experiente, pois havia trabalhado anos na lendária companhia de correio Aéropostale. E a de um escritor fecundo, pois havia escrito livros reconhecidos dentro e fora da França.

Mas o momento era, tanto para ele como para muitos, transformador: vivia-se a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e o piloto-escritor vinha da Europa profundamente afetado pelos acontecimentos, sobretudo a invasão alemã em seu país. Havia engajado em sua defesa a própria pele — como membro do grupo de reconhecimento aéreo 2/33 sobre cidades devastadas —, cumprido missões de altíssima periculosidade. Com a assinatura do Armistício em junho, Saint-Exupéry fora desmobilizado e, ao partir para os EUA, tinha mais que a motivação de um prêmio literário; queria ajudar a convencer os americanos a entrar na Guerra em defesa dos Aliados.

Os poucos meses “americanos” de Saint-Exupéry se transformariam em mais de dois anos; dali o piloto saiu, em 1943, para novamente engajar-se na guerra (“Quem sou se não participo?”, escrevera). E, como para fazer valer sua profunda crença na ação (“Creio nos atos e não nas grandes palavras”), não poupou esforços para voltar à luta, o que não era previsto, pois já tinha 43 anos (a idade máxima para aqueles voos era de 35) e diversas sequelas de acidentes aéreos que lhe impediam a plena forma física.

Em 31 de julho de 1944, Saint-Exupéry partiu da base de Borgo, na Sardenha, para uma missão a fim de fotografar a região de Grenoble-Annecy. Pilotando um Lightening P-38, ele deveria retornar em quatro horas. Seus superiores haviam decidido revelar-lhe o iminente desembarque dos aliados na Provença, a fim de que, portador desse segredo de guerra, deixasse de voar. Temiam por sua vida, conforme disse o camarada que era oficial encarregado de operações, Jean Leleu: “Na realidade, nós todos sentíamos que sua perda como homem seria infinitamente mais grave do que sua perda como aviador e temíamos por seu destino”. Naquele fatídico dia, com efeito, Saint-Exupéry jamais retornou. Desapareceu misteriosamente com seu avião, e as circunstâncias de sua morte só puderam ser esclarecidas a partir de 1998.

A visão de seus colegas não era enganosa: mais que do aviador, todos se lembrariam do homem que foi Saint-Exupéry, sobretudo por conta de sua última obra, publicada em abril de 1943, nos Estados Unidos, hoje a mais traduzida no mundo: O pequeno príncipe. O que poucos sabem é que esse texto tão conhecido está indelevelmente ligado ao seu livro anterior, Piloto de guerra, de 1942, no qual o escritor narra sua experiência durante arriscada missão do dia 10 de maio de 1940 sobre a cidade francesa de Arras, que estava em chamas. Contundente, o texto foi publicado nos Estados Unidos sob o título Flight to Arras; ao sair na França, foi proibido pela censura alemã. Várias foram as edições clandestinas.

Piloto de guerra é obra de um piloto militar — diferente do idílico piloto do deserto e da Aéropostale —, é obra de um homem abalado pela situação de seu país, mas que reflete sobre sua derrota e o avanço do Nazismo; um homem engajado, que entende a necessidade de fazer cessar o esmagamento das civilizações sob o jugo dos regimes totalitários. Decerto, não se subtrai à tristeza, mas é uma exortação à participação dos americanos, cheia da convicção de que é preciso buscar o fim do conflito em vez de se defenderem ideologias ou posições políticas. É esse autor, amargurado, ansioso e muitas vezes incompreendido que escreverá O pequeno príncipe.

O desconhecimento de Piloto de guerra e a superabundante divulgação de O pequeno príncipe fizeram desvanecer a ligação entre os dois textos. Mas, assim como o principezinho é melancólico e procura amigos, o piloto, em seu exílio, tem de incitar uma nação à guerra e é incompreendido por seus compatriotas. Vê seu país sendo esmagado pelos alemães — “Nas mãos do inimigo, há só um ninho de ratos. Tudo muda de sentido” —, e se sente como o piloto-narrador de O pequeno príncipe, que, no deserto, desenha um planeta sufocado por baobás gigantes…

O pequeno príncipe está à deriva em busca de um sentido para a vida e saberá que o “essencial é invisível para os olhos”. Porém aprenderá que não é possível atingi-lo sem fazer sacrifícios, sobretudo o de abandonar a “casca”, o corpo, em prol do espírito. Por isso o personagem se despede, retorna à sua estrela, do modo como dizia o piloto em guerra: “O corpo, velho cavalo, nós o abandonamos”.

Tais são valores destacados por Saint-Exupéry e aos quais se apega em meio à destruição e ao horror. Ele, que havia estado tantas vezes diante da morte, deduzia em Piloto de guerra: “Estou chocado com uma evidência que ninguém confessa: a vida do Espírito é intermitente”. Mas ele é também um homem em conflito, que tenta mudar o estado de coisas. Primeiramente, era-lhe preciso convencer seus compatriotas da necessidade de união dos franceses, já que estes estavam dilacerados entre colaboracionistas e gaullistas ou vichystas. Depois, havia a necessidade ainda maior de aceitar o sacrifício, arriscando a vida pela pátria.

Dessa forma, o desenho do carneiro que o pequeno príncipe solicita ao piloto do deserto pode ser visto como esboço do animal (bíblico, por sinal) simbólico para imolação. O valor desse sacrifício não remete à morte pura e simples. “Sacrifício não significa nem amputação nem penitência. É essencialmente um ato. É um dom de si mesmo ao Ser a que se almeja pertencer”, escreveu Saint-Exupéry em Piloto de guerra.

Nessa concepção, todos são responsáveis por todos e por cada um. Uma responsabilidade solidária que justifica esse “ato”, esse “dom de si” através do engajamento apesar do alto risco da idade e das condições de Saint-Exupéry. É aceitar ser imolado por uma causa maior. O que se tornou uma espécie de fórmula de O pequeno príncipe — “você se torna para sempre responsável pelo que cativou” —, parece reflexo dessa responsabilidade pelo próximo que o piloto de guerra assume.

Saint-Exupéry ancora sua ação na fé num mundo melhor, o da memória, intocável, de sua infância. Assim, suas reminiscências são a visita a esse “território” de pureza e felicidade. Em Piloto de guerra, são as lembranças dos tempos de menino que abrem a narrativa. É o “território” ao qual ele reivindica sua pertença, o território de origem do pequeno príncipe, contrastante com o ambiente bélico em que o homem crescido se encontra.

Por fim, a leitura de Piloto de guerra pode completar a de O pequeno príncipe, e vice-versa, na medida em que o autor de um é o de outro, possivelmente em sentidos opostos; no primeiro, a infância se filtra através das bombas e da destruição; no segundo, a criança, malgrado sua capacidade de enxergar com o coração, entrevê, a todo tempo, a ameaça de destruição pelo materialismo puro.

Somente em 1998, um bracelete com o nome “Antoine de Saint-Exupéry” gravado é encontrado na rede de um pescador de Marselha e dá as pistas de onde teria caído o avião do piloto-escritor. As buscas começaram e, em 2002, o arqueólogo marinho Luc Vanrell tira do mar os destroços do P-38. Um piloto alemão, Horst Rippert, com 95 anos à época, identificou-se como autor dos disparos que abateram o avião de Saint-Exupéry. Tendo imaginado que o piloto de cujos escritos ele era fã tivesse morrido na região dos Alpes, Rippert se calara por muitos anos, até dar-se conta do que se tornou evidente para ele com o achado do avião: ele havia disparado contra o avião de Saint-Exupéry naquele 31 de julho. Desde então, a fama do escritor nunca cessou de crescer, assim como o mito acrescentou-se, pelo mistério de seu desaparecimento, à sua figura artística. Resta, pois, que se leia mais sobre o piloto de guerra que ele foi. Mais que um personagem, esse piloto foi herói da França e da Segunda Guerra Mundial em sua luta pela paz e pelo fim do Nazismo.

A proposta de leitura de Piloto de guerra e de O pequeno príncipe sob uma ótica comum pode ampliar a compreensão do pensamento de um dos autores mais celebrados do século XX. “Quando o corpo se desfaz, o essencial se mostra”, escreveu Saint-Exupéry em Piloto de guerra. Mesmo invisível, pode-se dizer que o essencial desse grande escritor para quem a literatura era profundamente ligada à sua ação, está em sua própria obra.

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Mônica Cristina Corrêa é tradutora de O pequeno príncipe, que será lançado em agosto pela Companhia das Letrinhas, e de Piloto de guerra, que sairá pela Companhia das Letras também em agosto.

É um clássico? Então chamem a polícia

Por Vanessa Ferrari

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“Quem lê o romance de sr. Flaubert? Serão homens que se ocupam de economia ou política social? Não! As páginas levianas de Madame Bovary caem em mãos mais levianas, nas mãos de moças, algumas vezes de mulheres casadas.”

Ernest Pinard, advogado de acusação durante a sustentação oral no processo contra Madame Bovary, em 1857.

Como disse certa vez não sei quem, é fácil prever o passado quando a coisa está consumada. A Penguin completa oitenta anos neste mês e alguns clássicos do catálogo que hoje são unanimidades tiveram uma estreia pouco gloriosa. Madame Bovary deixou o advogado de acusação muito angustiado por não haver um único personagem que pudesse controlar os impulsos daquela mulher. A petição de apreensão de Ulysses foi indeferida depois de o juiz considerar o livro sem tendências a “excitar impulsos sexuais ou pensamentos lúbricos”. Em 1960, a Penguin inglesa foi processada por ter publicado O amante de Lady Chatterley. O argumento jurídico era que o romance de D.H. Lawrence estimulava a depravação. Um dos episódios mais famosos talvez seja o de Lolita, de Nabokov, que saiu com a chancela de lixo pornográfico e ainda hoje provoca calafrios nos leitores. Há também 1984 e A revolução dos bichos, ambos de George Orwell, igualmente conhecidos por engrossar a lista dos encarcerados; e Os versos satânicos, de Salman Rushdie, em que a Fatwa “em nome de Deus Todo-Poderoso” condenou o autor (e os editores) à pena de morte.

Por aqui, apenas para ficar em um exemplo, Rubem Fonseca teve seu Feliz Ano Novo confiscado por retratar “personagens portadores de complexos, vícios e taras, com o objetivo de enfocar a face obscura da sociedade na prática da delinquência, suborno, latrocínio e homicídio”.

Peças jurídicas à parte, nem mesmo os leitores mais experientes estão imunes a julgamentos equivocados. Graciliano Ramos elogiou a autora Rachel de Queiroz no lançamento de Caminho de pedras usando um raciocínio extraliterário que hoje pegaria muito mal ao afirmar que a obra “fez nos espíritos estragos maiores que o romance de José Américo, por ser livro de mulher e, o que na verdade causava assombro, de mulher nova”. O autor de S. Bernardo, por sua vez, recebeu críticas que diminuíam o seu romance por ele não ter dado voz aos oprimidos.

Mário de Andrade, em carta a Manuel Bandeira, confessou se divertir com as angústias provocadas com a publicação de Macunaíma: “está tudo sarapantado, está tudo inquieto, está tudo não gostando com vontade de falar que não gosta porém meio com medo de bancar o bobo por não ter gostado duma coisa boa”.

E no meio desse emaranhado jurídico-intelectual estamos nós, leitores, às vezes defendendo declarações alheias, às vezes duvidando em silêncio, porque, convenhamos, ninguém gosta de apanhar à toa. Por isso, sugiro ao leitor que ao mergulhar em um clássico siga a regra infalível da preferência pessoal, se gostar, siga em frente, do contrário, eleja outro bom autor. E, no caso das narrativas contemporâneas, para apoiar-se em uma fonte confiável, consulte a polícia moral mais próxima, pois ela costuma ter um ótimo faro para obras-primas.

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Vanessa Ferrari é editora da Penguin-Companhia e mediadora do clube de leitura na Penitenciária Feminina de Sant’Ana.

Minha tabela periódica

Por Oliver Sacks

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Trecho do texto “My periodic table”, de Oliver Sacks, publicado originalmente no The New York Times (tradução de Aída Stockler).

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Espero ansiosamente, quase com avidez, pela chegada de jornais semanais como o Nature e Science, e me voltar de vez para artigos sobre ciências físicas — não, como talvez eu deveria, em artigos de biologia e medicina. São as ciências físicas que provocaram meu primeiro encanto quando menino.

Em uma recente edição da Nature, um artigo eletrizante escrito pelo físico ganhador do prêmio Nobel Frank Wilczek falava sobre uma nova maneira de calcular a sutil diferença de massa de nêutrons e prótons. O novo cálculo confirma que nêutrons são ligeiramente mais pesados que prótons — a relação de suas massas sendo 939.56563 e 938.27231 — uma diferença trivial, alguém pode pensar, mas, se fosse diferente, o universo como conhecemos poderia nunca ter se desenvolvido. A habilidade de calcular isto, para Dr. Wilczek, “encoraja-nos a prever um futuro em que física nuclear atinge o nível de precisão e versatilidade que a física atômica nunca atingiu” — uma revolução que, infelizmente, eu nunca irei ver.

Francis Crick estava convencido que “o maior problema” — o entendimento de como o cérebro dá origem à consciência — seria resolvido em 2030. “Você verá isto”, ele frequentemente dizia para meu amigo neurocientista Ralph, “e você verá também, Oliver, se viver até a minha idade”. Crick viveu até o fim de seus 80 anos, trabalhando e pensando sobre a consciência. Ralph morreu prematuramente aos 52 anos e, agora, eu estou doente terminal, aos 82. Devo dizer que não estou muito ligado no “grande problema” da consciência — de fato, eu não consigo ver como um problema no geral, mas fico triste que não verei a nova física nuclear que Dr. Wilczek prevê, nem centenas de outras reviravoltas nas ciências físicas e biológicas.

Há poucas semanas, no campo, longe das luzes da cidade, eu vi um céu inteiro “pulverizado de estrelas” (nas palavras de Milton); este céu, eu imaginei, pode ser visto apenas em altos e secos planaltos, como o Atacama, no Chile (onde está um dos mais poderosos telescópios do mundo). Foi o esplendor celestial que de repente me fez perceber quão pouco tempo, quão pouca vida eu tenho restante. Meu senso de beleza paradisíaca, de eternidade, foi inseparavelmente misturado com um senso de transitoriedade — e morte — para mim.

“Eu gostaria de ver um céu assim novamente quando eu estiver morrendo”, disse aos meus amigos Kate e Allen.

“Levaremos sua cadeira de rodas para fora”, eles disseram.

Eu tenho sido reconfortado desde que escrevi, em fevereiro, sobre ter câncer metastático, através das centenas de cartas que tenho recebido, as expressões de amor e valorização, e a sensação de que (apesar de tudo) eu tenho vivido uma vida boa e útil. Eu permaneço muito feliz e grato a tudo isso — ainda que nada disso me atinja como atingiu aquela noite cheia de estrelas.

Leia o texto completo (em inglês).

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Oliver Sacks nasceu em Londres, em 1933. Formou-se em medicina e em 1960 emigrou para os Estados Unidos. Com Enxaqueca iniciou sua carreira de escritor. É autor de 13 livros, todos publicados no Brasil pela Companhia das Letras, entre eles O homem que confundiu sua mulher com um chapéuO olhar da mente, Alucinações musicais e A mente assombradaEm julho de 2015, lançou no Brasil sua autobiografia, Sempre em movimento.

Booktubers

Por Socorro Acioli

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Há alguns anos acompanho o fenômeno dos booktubers — leitores que criam canais no YouTube para postar vídeos sobre livros. A proposta é simples: eles sentam diante da câmera e conversam informalmente com a audiência sobre impressões de leitura. São vídeos opinativos, em sua maioria, e que não pretendem fazer o papel de critica literária especializada. Ao contrario, muitos costumam reforçar que são apenas leitores e que fazem o canal por diversão, nada mais.

Sempre que vejo esses canais, penso no Sr. Hans Robert Jauss, que no dia 13 de abril de 1967 proferiu sua famosa conferência na Universidade de Constanz, “A história da literatura como provocação à teoria literária”.

Jauss propôs uma mudança de enfoque na arte e na literatura e nascia ali a Estética da Recepção em seu berço alemão, difundida e ampliada por vários pesquisadores na mesma universidade e por outros países.

O enfoque de Jauss era pesquisar e atentar não só para o autor e texto, mas sim para o que ele chamou de “terceiro estado”: o leitor. Nas suas famosas sete teses, ele provoca a abertura de uma nova vereda de pesquisa sobre como a leitura é recebida pelo público, como modifica sua existência. Os frutos das investigações que abraçaram a Estética da Recepção no mundo são inúmeros.

Fico imaginando o quanto o Sr. Jauss gostaria de viver um dos movimentos mais positivos da internet. Acompanhando os canais dos booktubers nacionais temos um retrato da leitura do jovem brasileiro. Um retrato recortado, é claro. Estamos falando de um grupo grande de pessoas com boa escolaridade, acesso à compra ou empréstimo de livros, de faixa etária mais ou menos homogênea e com poder aquisitivo razoável. Ainda não é um espectro amplo, mas uma fonte impressionante de informações.

Os booktubers costumam contar o motivo da escolha de cada livro, a forma de aquisição, tempo de leitura, além de opinar sem reservas sobre o texto, capa, projeto gráfico. Descobri, por exemplo, o hábito de comprar vários livros iguais porque a editora lançou uma capa mais bonita. Os gêneros preferidos de cada canal pode variar muito. O grupo mais jovem foca nos livros Young Adults, mas existem booktubers que determinam metas de ler e reler clássicos, ou autores nacionais, ou só mulheres. Os canais conversam entre si e criam as famosas tags, que são roteiros pré-estabelecidos para os vídeos. E maratonas, desafios, encontros ao vivo, clubes de leitura, participações de um nos canais dos outros e outros tipos de parcerias, formando uma forte rede de leitura.

Quanto ao estilo, existem os seríssimos, os engraçadinhos, os que resumem os livros, os que arriscam uma análise mais profunda, os organizados, os caóticos e os chatos, é claro. A qualidade técnica, de vídeo e edição, também varia muito. É difícil listar os melhores, porque certamente você vai gostar mais daqueles que escolhem livros parecidos com as suas leituras.

O fato é que o movimento dos booktubers é um material precioso para quem tem interesse na literatura e nas diversas facetas do mundo editorial sob o ponto de vista de quem compra e lê muito. Nesse momento confuso, quando o mercado precisa se reinventar, nada mais importante do que ouvir os leitores reais. Atentamente. Canal por canal. Sem preconceitos, sem torcer o nariz para uma bobagem ou outra que escapa de vez em quando, sem pose. Afinal de contas, livros precisam de leitores. Eles estão falando e vale a pena parar e escutar.

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Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna do prêmio Nobel Gabriel García Márquez na oficina Como Contar um Conto, em Cuba, e publicou diversos livros, entre eles A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu(editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013. Em 2014, publicou seu primeiro romance para o público adulto pela Companhia das Letras, A cabeça do santo.
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