Marighella: dois poemas inéditos

Por Mário Magalhães


Marighella, junho de 1939.

No começo da noite da próxima terça-feira, 4 de novembro, a tocaia em que agentes da ditadura fuzilaram o revolucionário baiano Carlos Marighella completará 45 anos. Numa rua escura paulistana, ao menos 29 beleguins do Departamento de Ordem Política e Social, armados até os dentes, assassinaram o guerrilheiro de 57 anos que não portava nem um canivete.

O tempo esclareceu as circunstâncias da morte de Marighella, narrada em pormenores na biografia que a Companhia das Letras lançou no finzinho de 2012. Com o ressurgimento da democracia no Brasil, a União reconheceu duas vezes que em 1969 ocorrera assassinato — e não confronto — e pediu desculpas à família do veterano militante. Seus matadores, embora identificados, nunca foram punidos.

Dois obstáculos conspiraram para tornar ainda maior o desafio de reconstituir a trajetória do antigo líder estudantil, constituinte, deputado, dirigente comunista e guerrilheiro declarado, em 1968, “inimigo público número 1”: determinada historiografia intolerante buscou eliminá-lo da memória nacional, e ele próprio, para sobreviver aos perseguidores, empenhou-se em apagar as pegadas.

Nos últimos anos, Carlos Marighella (1911-1969) inspirou a arte. Isa Grinspum Ferraz dirigiu o documentário Marighella, e Daniel Grinspum, o clipe “Mil faces de um homem leal”, com os Racionais. A música do vídeo havia sido composta por Mano Brown para o filme de Isa. Caetano Veloso reverenciou o conterrâneo com a canção “Um comunista”. O ator Wagner Moura se prepara para estrear na direção de longa-metragem adaptando para o cinema a biografia que eu escrevi. A produtora O2, de Fernando Meirelles, é parceira de Wagner na empreitada.

A vida fascinante de Marighella — goste-se ou não dele, de suas ações e de suas ideias— não se limitou às pelejas da revolução. Desde criança, o filho de italiano e de filha de escravos se dedicou à poesia. Ganhou fama em Salvador aos dezessete anos, não em virtude das querelas da política, mas ao responder em versos rimados uma prova de física no ensino médio.

Aos dezenove, calouro do curso de engenharia civil, fantasiou uma odisseia por Lavras Diamantinas, Jeremoabo e Canudos, terras baianas, e o Saara africano. Concluiu:

 

Andei como o diabo! Enfim… eis-me de novo aqui:

Quero ver se descubro se já me descobri.


O mais renitente adversário de Marighella na Bahia foi Juracy Magalhães, interventor (governador nomeado) do Estado quando o estudante Marighella foi preso pela primeira vez. Corria o mês de agosto de 1932, e o universitário acabou encarcerado com cinco centenas de colegas ao participar de um protesto. Na cadeia, bolou uma versão de “Vozes D’África”, o clássico de Castro Alves.

“Vozes da mocidade acadêmica” principia assim:

 

Juracy! Onde estás que não respondes!?

Em que escusa latrina tu te escondes,

Quando zombam de ti?

Há duas noites te mandei meu brado,

Que embalde desde então corre alarmado…

Onde estás Juracy?

 

Fecha:

 

Basta, senhor tenente! De teu bucho

Jorre através das tripas

Um repuxo de Judas e sandeus!

Há duas noites… eu soluço um grito…

Escuta-o, conclamando do infinito

‘À morte os crimes teus!’.

 

Reproduzi na biografia numerosas poesias de Marighella, das líricas às eróticas. Para assinalar os 45 anos de sua morte, compartilho aqui no Blog da Companhia dois poemas inéditos do revolucionário poeta.

* * *

Em maio de 1939, Marighella foi preso pela polícia política do Estado Novo, iniciando um período de quase seis anos de cana. No quarto onde o militante clandestino vivia em São Paulo, os tiras encontraram dois sonetos de autoria de certo “Dr. Carijó”, como Marighella os assinara.

Os poemas tripudiavam sobre os ativistas da AIB (Ação Integralista Brasileira), fascistoides que haviam sido colocados fora da lei pelo governo do ditador Getúlio Vargas, chamado de “Gegê” por Marighella. Os integralistas eram espinafrados como “galinhas verdes” pelos contendores ideológicos. Seu líder era o jornalista e escritor Plínio Salgado.

Um dos sonetos se intitulava “Verde ilusão”. Garimpei-o no processo judicial preservado pelo Arquivo Nacional:

 

Olá! Meu caro Plínio, estás salgado

Com a baiana mestraça do Gegê!

Parecias o Príncipe Esperado

E agora, de AIB, és ABC!

Eu te supunha cabra quilotado

E és mais arisco que um zabelê!

Hoje, que o teu balão está furado,

Que fazes? Ninguém te ouve, ninguém te lê?

Quem dantes via a crista que sustinhas

Juravas que eras trunfo e bambambão,

Peso pesado, braço, trinca-espinhas!

Calcula que tremenda decepção

Quando o femeaço verde dos galinhas

Viu que tu não és galo e sim… capão!”

* * *

O jornalista Claudio Leal me enviou em dezembro de 2013 um e-mail com o assunto “Marighelliana” e contou: “Topei com algo que pode lhe interessar. É um poemeto de circunstância de Marighella, dos tempos do veranico legal dos comunistas, em 1947, pouco antes da cassação do registro do PCB. Encontrei-o num caderno de mensagens de uma ex-auxiliar da Câmara Federal chamada Helena Prado”.

O generoso Claudio, um dos maiores talentos da sua (jovem) geração, fotografou os versos manuscritos de Marighella — a letra inconfundível era mesmo dele. Observou: “Pelas mensagens [de deputados como Nelson Carneiro, Jorge Amado e Marighella], depreende-se que Helena era loira e superlativamente bonita”.

O deputado federal Marighella versejou, em 28 de janeiro de 1947:

 

Cantar o que é belo, sim,

mas numa quadra pequena,

que tem somente por fim

falar do seu nome, Helena.

Mesmo assim…

Muita gente com certeza

afirmará que os “comunas”

não rendem culto à beleza.

* * * * *

Mário Magalhães é jornalista, blogueiro do UOL e ex-ombudsman da Folha de S. Paulo. Recebeu 25 prêmios jornalísticos e literários no Brasil e no exterior. É autor da biografia Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras, 2012). A obra foi agraciada com o Prêmio Jabuti, o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, o Prêmio Brasília de Literatura, o Prêmio Botequim Cultural, o Prêmio Direitos Humanos e o Prêmio Casa de las Américas. Seu próximo livro, cujo tema ainda é segredo, sairá pela Companhia das Letras em 2016.

A trajetória do novo ganhador do Camões

Por Lilia Moritz Schwarcz


Hoje, dia 29, Alberto da Costa e Silva recebe o Prêmio Camões, o maior reconhecimento a um autor da língua portuguesa. Imortal da Academia Brasileira de Letras, Costa e Silva é especialista na cultura e na história da África além de ficcionista. Abaixo, leia a versão original do texto de Lilia Moritz Schwarcz publicado no último domingo, dia 26, no caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo.

* * *

“Cuide bem de suas neuroses”. Esse foi um dos inúmeros conselhos que recebi do acadêmico, poeta, ensaísta, memorialista, historiador, africanista, diplomata e o mais recente ganhador do prêmio Camões: Alberto Vasconcellos da Costa e Silva, ou simplesmente Alberto, como gosta de ser chamado. Nessa ocasião, almoçava com ele no restaurante Villarino, localizado bem em frente à Academia Brasileira de Letras, espécie de quartel general de Alberto, a despeito de ele agir e andar por lá como se fosse um mero desconhecido; o que, com certeza, não é. Todos o chamam pelo primeiro nome, o saúdam na entrada e na saída, assim como empurram cadeiras para que ele possa melhor se locomover pelo local, que não é propriamente generoso nos seus espaços internos. O referido diálogo foi motivado por conta da tarefa, nada banal, de selecionar o prato que iríamos degustar no almoço. Alberto, que, como ele bem define, foi criado e mimado por mulheres, e assim ganhou um ar de “senhorzinho” sem casa grande, logo escolheu para nós dois: “Para ela o frango (que é o que há de melhor), para mim um salmão”. Frente a meu espanto, ele foi logo explicando: “Minha filha, não como nada que voe ou ameace voar”, e arrematou com a conclusão que dá início a esse artigo.

Pois Alberto da Costa e Silva é assim: sempre ele mesmo, cuidando bem de suas neuroses, dono de histórias impagáveis retiradas de causos da sua vida, de relatos de família, de episódios envolvendo políticos e personalidades que conheceu, ou colhidos nos inúmeros livros que leu e que, com sua erudição humanista, vem divulgando nas suas obras.

Alberto nasceu em São Paulo, em 12 de maio de 1931, mas ficou pouco na cidade. Filho de Creusa Fontenelle de Vasconcellos da Costa e Silva mulher forte como, aliás, são todas na família –, seria ela a cuidar de boa parte da educação dos filhos. Seu pai, o poeta Da Costa e Silva (Antônio Francisco da Costa e Silva), foi também presença marcante e paradoxal para o filho. Nascido em Amarante, no Piauí, Da Costa e Silva publicou seu primeiro livro, Sangue, em 1908. Ele também foi autor da letra do Hino do Piauí, em comemoração ao centenário da adesão dessa província à independência do país, em 1823. Nas estrofes, o poeta saudava o “Piauí, terra querida, filha do sol do Equador”, lugar presente no imaginário do filho, que aprendeu a apreciar esse “céu de imortal claridade”.

Da Costa e Silva pertenceu à Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 21, mas não conseguiu adentrar a carreira diplomática. Conta a lenda que a falta de sucesso do pai nessa empreitada teve causa, hoje, suspeita. Nos tempos do Barão de Rio Branco não havia concurso para ingressar na carreira, sendo a seleção feita por meio de uma entrevista pessoal. Era o barão quem conversava com os candidatos em geral relacionados a famílias próximas, bonitos e fluentes em idiomas estrangeiros. Já Da Costa e Silva, apesar de exímio poeta, falhou no critério físico. Foi esse o veredito do Barão: “olha, o senhor é um homem inteligente, admiro-o como poeta, contudo não vou nomeá-lo porque o senhor é muito feio e não quero gente feia no Itamaraty”.

Entre 1931 e 1945, durante os anos de Getúlio Vargas, o pai serviu junto à Presidência da República e, com o novo cargo, a família passa a viver no Rio de Janeiro. Porém, uma estranha doença contraída por Da Costa e Silva mudaria o destino e faria com que todos fossem morar no Ceará, onde a mãe contava com o amparo familiar e levava consigo a aposentadoria do marido. O poeta praticamente parou de falar, desligou-se do mundo e se deixou ficar, na mesma poltrona, ausente do mundo dos outros. Já o menino, guardou a imagem desse pai, sempre em casa, com um livro nas mãos. Em certos momentos declamava poesias, em outros apenas folheava lentamente os exemplares alheio a tudo e a todos.

No primeiro volume de memórias de nosso autor, Espelho de príncipe (1994), conhecemos um pouco da infância do menino Alberto, em Sobral – cidade cearense em que morou até os 12 anos de idade. O relato chega até a adolescência do garoto, quando, já de volta ao Rio, descreve sua família, o colégio marista onde fez  amigos de vida inteira, registra as repercussões da Segunda Guerra Mundial, o Brasil da Revolução de 30, bem como as características desse mundo mais largo que passava a conhecer e desfrutar, na então capital do país.

Mais de dez anos depois, em 2007, Alberto publica um segundo volume de memórias. O novo título Invenção de desenho — é quase uma brincadeira acerca do gosto por garatujas que herdou do pai. Nunca quis tomar aulas de desenho e sempre disse desconhecer “tal invenção”. Por isso achava que qualquer desenho não passava de uma cópia inspirada por outra mão. Esse é justamente o truque do memorialista, que faz do gênero uma prática dos outros. Por suas páginas desfilam intelectuais — Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, José Lins do Rego, Josué Montelo, Jorge de Lima, Lygia Fagundes Telles, Alceu de Amoroso Lima —, personagens e amigos, todos entrevistados pelo “repórter Alberto”.

O memorialista conta, como quem joga conversa fora, acerca de uma série de eventos políticos, todos lembrados com a mesma intimidade: Getúlio Vargas e seu suicídio, Juscelino Kubitschek e a crise da sua eleição; as revelações de Kruchev. Por meio de seus escritos de memória ficamos conhecendo melhor sua formação, as primeiras leituras de Manuel Querino e de Nina Rodrigues, sua guinada para o materialismo histórico, seu amor súbito por Deus; paixão que passadas duas semanas seria substituída por outras: Camus, Sartre, Marx do 18 Brumário, logo Nietzsche e ainda Freud. Isso sem esquecer do cinema, do teatro e dos suplementos literários.

Começava a se delinear, então, essa pena de estilo próprio e facilmente reconhecível. Por meio dela, diferentes personagens da nossa história são descritos a partir de marcas pessoais, perdendo a soberba para aparecerem como gente do seu tempo. O memorialista não os castiga nem os veste de piedade, apresentando diversas personalidades como parece que foram: contraditórias, exuberantes, mesquinhas ou visionárias.

Aliás, Alberto logo experimentaria nova carreira de escritor, como poeta e historiador africanista. Enquanto a faculdade de Direito se revelava uma decepção a ser percorrida como um fardo, a presença ausente do pai, que “morria mansa e serenamente, como mansa e serenamente passara os longos anos de exílio de si mesmo”, surge sempre como sensível melancolia. Diziam que o pai poeta “pusera em palavras uma lagartixa ou um caramujo como ninguém”, assim como descrevia um ipê ou uma queimada sem paralelo. Mas, vítima de uma “enfermidade sem nome”, que lhe tomou quinze longos anos, Da Costa e Silva viraria uma “casca vazia”. Talvez por conta da história do pai, Alberto sempre pareceu ter pressa. Tanto que publica, logo em 1957, uma antologia de lendas indígenas, preparada para o Instituto Nacional do Livro, assim como trata de reunir em livro os poemas do pai.

No entanto, talvez inspirado pelos heróis que lia nas suas obras de cabeceira, ou reconhecia em seu pai na poltrona, o jovem autor pareceu não se espantar ao saber que seu rito de passagem para a vida adulta se daria nos sanatórios de Campos do Jordão, onde sua alma conheceria a “sonolência e a preguiça”. Julgou que morreria cedo, como seus mestres românticos ou os personagens de T. Mann da  Montanha Mágica. Entretanto, como nada disso aconteceu, Alberto fez do exílio involuntário, dessa doença dos pulmões, um outro recomeço. Por sinal, foi por lá que conheceu sua musa Verinha, que naquela época também curava-se do mesmo problema de saúde. Vera tinha voz de soprano lírico, mas a doença a afastaria durante algum tempo do canto. Ela seria a companheira de vida toda e inspiraria um livro de poemas premiado, chamado Ao lado de Vera (1997).

Com os pulmões em ordem, Alberto volta ao Rio de Janeiro e se prepara para começar a “vingar o pai”, investindo na carreira diplomática. O aluno se forma pelo Instituto Rio Branco em 1957 e atua como diplomata em Lisboa, Caracas, Washington, Madrid, Roma, isso tudo antes de ser embaixador na Nigéria, no Benim, em Portugal, na Colômbia e no Paraguai. O diplomata ia, assim, construindo seu mapa interno e simbólico; particularmente marcado por sua experiência como embaixador em países africanos. A atuação nesse continente — local, a essas alturas, pouco disputado entre os demais diplomatas — lhe daria gás, experiência, erudição e sensibilidade suficientes para fazer dele um dos nossos grandes especialistas em África, que, sobretudo em sua época, era pouco conhecido e estudado entre nós. O desafio era de monta: “lidar com pessoas que muitas vezes parecem ver, ouvir, sentir e pensar diferentemente de nós”.

Seria esse olhar pousado sobre a “diferença” que formataria esse pensador original e atento a outras faces de uma mesma realidade. O diplomata se faria historiador e escreveria uma série de obras, hoje clássicas: A Enxada e a Lança: a África antes dos Portugueses. (1992); As Relações entre o Brasil e a África Negra, de 1822 à 1ª Guerra Mundial. (1996); 
A Manilha e o Libambo: a África e a Escravidão, de 1500 a 1700. (2002); Um Rio Chamado Atlântico. A África no Brasil e o Brasil na África (2003); 
Francisco Félix de Souza, Mercador de Escravos. (2004) e Imagens da África (2012). Nesses livros Alberto mostra a importância da diversidade cultural presente nos povos desse continente, as formas complexas de organização familiar e política dos nativos, os elaborados costumes religiosos, as engenhosas produções artísticas. Como demonstra de maneira clara, e não menos entristecida, essa inestimável riqueza humana e cultural seria em parte dizimada pelos horrores do sistema escravocrata, que acabou por marcar e estereotipar os povos africanos.

O fato é que o conjunto dos livros de história de Alberto da Costa e Silva mostra o vigor desse intelectual que explorou a história pregressa da África, reviu costumes, estudou a escravidão aqui e acolá, bem como seus traficantes — caso de Xaxá, talvez o maior de todos —, analisou as relações circulares entre os dois continentes, bem como suas influências recíprocas. Em seu texto “O Brasil, o Atlântico e a África no século XIX”, de 1989, Alberto fecha questão: “O Brasil é um país extraordinariamente africanizado. E só a quem não conhece a África pode escapar o quanto há de africano nos gestos, nas maneiras de ser e de viver e no sentimento estético do brasileiro. Por sua vez, em toda a costa atlântica, podem-se facilmente reconhecer os brasileirismos. Há comidas brasileiras na África, como há comidas africanas no Brasil. Danças, tradições, técnicas de trabalho, instrumentos de música, palavras e comportamentos sociais brasileiros insinuaram-se no dia-a-dia africano. É comum que lá se ignore que certo prato ou determinado costume veio do Brasil. Como, entre nós, esquecemos quanto nossa vida é impregnada de África (…) O escravo ficou dentro de nós, qualquer que seja nossa origem. Afinal, sem a escravidão o Brasil não existiria como hoje é, não teria sequer ocupado os imensos espaços que os portugueses lhe desenharam. Com ou sem remorsos, a escravidão é o processo mais longe e mais importante de nossa história”. Como se pode notar, Alberto agrega competência literária ao texto de história, e escreve matéria acadêmica como poesia.

Ciente da nossa ignorância acerca desse continente, da onde veio parte significativa de nossa população nacional, nosso pesquisador atuaria em muitas frentes, recuperando valores comuns inscritos nos lugares mais insuspeitos. Mas também duvidaria das convenções. No seu livro Castro Alves, um Poeta sempre Jovem (2006), Alberto lê os poemas com a sensibilidade de quem entende do ofício, mas com igual desconfiança de quem conhece como ninguém os legados africanos. Tanto que desafia (e prova) que a África do autor de “Navio Negreiro” é antes um continente projetivo, mais próximo da visão romântica de Delacroix e dos orientalismos europeus, do que dos escravizados que o poeta podia encontrar nas ruas da Bahia. Irrequieto, quem sabe mirando o lado oposto e convexo de seu pai, Alberto também ensinaria África para as crianças em dois livros Um Passeio pela África (2006) e 
A África explicada aos meus filhos (2008).

Reconhecido como nosso maior africanista, Alberto tem compromisso com a liberdade, não escrevendo sobre esse continente e acerca da escravidão por mera coincidência. No caso de Castro Alves, constrói um personagem ainda mais comovente quando inserido em seu contexto, que pedia um poeta capaz de denunciar injustiças e desacertos. O tempo do poeta pedia por liberdade., quem sabe aquela mesma que faz parte da pauta interna de Alberto, que defende autonomia como uma agenda pessoal.

Foi um tipo de aposta social semelhante que fez com que nosso autor encarnasse, junto com sua Verinha, o papel de tradutor das línguas e costumes dos locais onde atuou como embaixador. Tamanha coerência e compromisso acabou por incutir na família o prazer de servir ao país em lugares tão diferentes e tão comuns. Seus filhos, de uma maneira ou de outra, tal qual sina familiar, seguiriam-no ou ficariam por perto do Itamaraty. Elza Maria casou-se com João André Pinto Dias Lima, embaixador do Brasil na Nigéria. Antônio Francisco, embaixador na Jamaica, é casado com Sylvia Ruschel de Leoni Ramos, também ela diplomata. Pedro Miguel, o caçula, é casado com Ana Maria de Abreu Ladeira da Costa e Silva e serve como Ministro Conselheiro da Embaixada do Brasil no Canadá. Aliás, outra ocupação de Alberto é a de avô/ pai, com uma penca de netos disputando um lugar no apartamento do Rio de Janeiro; repleto de  máscaras africanas, livros, fotos dos países em que serviu como diplomata e quadros de pintores amigos. Cada canto com sua recordação.

Como cronista, Alberto publicaria O Quadrado Amarelo em 2009. Nesse livro, o africanista se faz intérprete social e recolhe telas, livros, poemas e romances, que vai delicadamente entrelaçando. Talvez a melhor definição desta obra esteja em uma de suas frases: “perseguir um texto no outro, reencontrar nesse autor outros autores”. Aquilo que nosso ensaísta alega encontrar nos “outros” pode ser também vislumbrado nessa sua obra de maturidade. Alberto da Costa e Silva é um colecionador de memórias afetivas, recheadas por romances eleitos, artistas consagrados ou populares, amigos ou desconhecidos. Escreve ele que “o desígnio de todo grande colecionador é formar uma antologia pessoal do mundo [...] ou do fragmento de mundo que foi lhe dado viver”.

É possível arriscar que esse é o verdadeiro argumento não só desta coletânea de ensaios, como da obra de Alberto como um todo. Na capa da requintada edição, nota-se um despretensioso quadrado amarelo, disposto no lado esquerdo da imagem; retirado da obra de Waldemar Costa. Mas o amarelo que aparece bem à frente na capa é também o fundo que dá forma ao tocante retrato feito por Antonello da Messina. Conforme narra Alberto: “qualquer que seja o assunto, a extensão e a textura de uma prosa, é preciso nela descobrir o lugar perfeito para um quadrado amarelo”. A princípio desimportantes, título e capa indicam um método; uma forma  de olhar.

O lugar perfeito e a palavra justa são também desafios de Alberto, que é poeta de mão cheia, a exemplo do pai. São muitos os livros do poeta, mas talvez o mais conhecido, e aquele que ganhou um dos vários Jabutis que o autor recebeu vida afora, seja Poemas reunidos (publicado no ano 2000). Poetava Alberto em A linha da mão: “Respiro e vejo. A noite e cada sol vão rompendo de mim a todo o instante, tarde e manhã que são tecido tempo, chuva e colheita. O céu, repouso e vento …”

O poeta embaixador carrega, assim, uma valise cultural pesada um “tecido do tempo, chuva e colheita”. Nascido em São Paulo quase sem querer, Alberto ganhou o mundo e fez da viagem, da história, da poesia e da memória “mala e passaporte”. Aí está um percurso construído a partir de muitos deslocamentos, não só geográficos como temporais e culturais. Segundo Fernando Pessoa “a memória e os poetas têm seus truques, e muitas vezes eles esquecem para melhor lembrar”. O poeta português tinha por hábito omitir de maneira inconsciente para depois citar, como o próprio Alberto volta sempre a seu pai, mesmo sem se dar conta. Basta dizer que foi eleito para a Academia Brasileira em julho de 2000, e assumiu a cadeira 9, em mais uma boa revanche familiar.

Não há como resumir uma obra de vida toda, como essa, feita de tantos livros, traduções, memórias, coletâneas, antologias, trocas intelectuais, políticas e afetivas. Impressiona que, como revela em seu ensaio chamado “Lembranças de Lagos”, Alberto nunca colecionou diários íntimos guardou tudo na memória; único recurso, segundo ele, para garantir a permanência.

Disse Ortega que “a alma de um autor só é inteligível quando se confrontam suas palavras e obras”. Pensada nesses termos, a obra de Alberto da Costa e Silva mais se parece com uma estrada sem pedágios entre o intelectual e o habitante do mesmo e tradicional edifício no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Quem entra no apartamento de Alberto logo se depara com sua imagem inscrita nos objetos e artefatos acumulados. Visitar a Academia Brasileira ou participar de uma seção no Instituto Histórico e Geográfico é como tomar café na própria morada e intimidade de nosso autor. E é assim por todo lugar. Aliás, ler um livro de Alberto é como tomar um gole de cachaça, roubar do tempo, e degustar de uma boa prosa.

Grandes intérpretes do Brasil permaneceram boa parte de sua vida no exterior. Já Alberto da Costa e Silva viu de longe, mas voltou para se certificar de tudo, bem de perto. No seu retorno ao Brasil, inverteu o lado do binóculo, destacou o detalhe, pinçou o caricatural, deslocou o tempo e conferiu a tudo um sabor igualado com cheiro, textura e sensibilidade de poesia. Com vocês, o vencedor do prêmio Camões de 2014: “Um casulo de tempo, o centro e o sopro da cisma do outro ser que de mim fala e que, sonhando o mundo, em mim se acaba”.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros.


Seis Propostas para o Quadrinho Brasileiro

Por Érico Assis


Que não são propostas taxativas, nem exigências, nem garantias de um mercado melhor. Já escrevi aqui que ninguém sabe nada do mercado e que o quadrinista deve fazer o que bem entender. Não quero vir de diretrizes, nem receita de bolo, nem plano de governo. Também não entenda como reclamação. Se você quiser, pode chamar de Seis Coisas Que Eu Gostaria de Ver no Quadrinho Brasileiro, Mesmo Que Eu Já Goste do Quadrinho Brasileiro e Só Quero Mais Mais Mais.

Acima de tudo, eu gostaria mesmo é de mais gente gostando de ler quadrinho.

1) Primeiro histórias, depois quadrinhos. Puro experimento formal, ironia autorreferencial, piscadelas para os entendidos, metalinguagem, revolucionar a narrativa quadrinística. Tudo isso é muito legal, agrada os críticos e rende pontos entre os coleguinhas. Eu, é óbvio, curto muito. Mas um mercado em que as opções são majoritariamente estas é um mercado que fica fechado em si mesmo e que não dá pontos de entrada a quem quer começar por uma boa história. Uma boa história, antes de uma boa história em quadrinhos.

É questão de voltar ao feijão com arroz: premissa chamativa, personagem intrigante, trama clara e desenho foda. Com curry, com shoyu, com quiabo, com gelatina de caviar, enfim, a pirueta que se quiser. Mas sem esquecer o feijão com arroz.

Inclui-se aí vender (na capa, no título, no marketing) estas HQs antes como histórias, depois como “a nova obra do autor de”, “a HQ que mudou as HQs”, “um mestre do desenho em seu auge”, “impressa em papel acetinado por mãos virgens”. Ao invés disso: Qual é a história? O que você quer contar? Por que eu me interesso por esse personagem?

2) Que valha o quanto pesa. Me corrijam se eu estiver enganado, mas acho que a HQ brasileira com o maior número de páginas (e publicada originalmente nesse tamanho) é Cachalote, que tem 320. É possível que seja a única que passou das 300. Há poucas com mais de 200 e me parece que a média das gréfic nóvels estacionou aí pelas 100. A grandessíssima parte da produção brasileira ainda segue em histórias de 8 a 20 páginas, quando não em tiras.

Cadê as nossas HQs de 600 páginas? De 400? Ou mais exemplos na faixa dos 300? Cadê as HQs que tomam tanto tempo de leitura quanto um romance? Pelo menos tanto quanto um longa-metragem? É óbvio que soa mais como vaidade do que validade produzir um tijolão. A lista de contras é comprida: anos de produção, grana, gráfica, editora que se interesse. Nem temos as antologias para desovar capítulos, como têm outros países. Mas, seguindo a primeira proposta, envolver um leitor numa história tem a ver com manter sua atenção por um tempo considerável, o que nos quadrinhos significa ocupar mais espaço. Há HQs de 3 páginas tão profundas quanto as de 800, mas a petulância da de 800 fica mais na cara. Um pouco mais de petulância, de pretensão, de megalomania — atentando para a proposta 1.

3) Fale sobre as histórias, depois fale sobre quadrinhos. Quadrinhos não são, mas tendem a ser vistos como gênero literário. E pior, um gênero restrito, fechado, que só consegue ler quem vive lá desde criancinha, que faz bullying com quem não conhece o (impreciso) cânone. É um discurso que trava ou desmotiva novos leitores. Por melhor que seja a intenção do leitor que tenta evangelizar novos adeptos, geralmente o discurso fica no tom do leia-quadrinho-porque-quadrinho-é-massa.

Sim, quadrinho é massa, mas volto à primeira proposta: novos leitores tenderão para histórias, depois para quadrinhos. Se as primeiras propostas eram para quadrinistas e editores, esta é para você que os lê: fale das histórias. Fale da tragicomédia do cara que se apaixona pela enfermeira da mãe em Aos Cuidados de Rafaela, fale dos personagens da Salvador contemporânea em rota de colisão de Tungstênio, de quanta gente se encaixa no perfil do Terêncio Horto.

4) Consumismo. Compre mais quadrinhos. Para si (e se as estantes acabarem, distribua entre os amigos) ou para os outros (dê quadrinhos de presente). Se você gosta do autor ou da autora, seja generoso no Catarse ou micromecene-o(a) no Patreon. Pague ou doe o que achar justo por quadrinhos digitais.

5) Leia mais. Desistência do Azul, Cumbe, Yeshuah, Mesmo Delivery, Daytripper. Sabor Brasilis, Fim do Mundo, A Vida de Jonas. O Dom Quixote do Caco Galhardo, O Alienista de Moon e Bá, o Vestido de Noiva de Gabriel Góes, a Clara dos Anjos de Wander Antunes e Lélis. Ordinário, Muchacha, Diomedes, Guadalupe, Cachalote, A Máquina de Goldberg, Monstros! e Deus, Essa Gostosa. Robô Esmaga, Valente, Bear, Muzinga, Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo e Harmatã. Xampu, Bando de Dois, O Beijo Adolescente e Friquinique.

6) Categoria Quadrinhos no Jabuti. Demorou.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site — Twitter — Outros Quadrinhos


Marque na agenda

Sessão de autógrafos com Tony Bellotto
Segunda-feira, 27 de outubro, às 12h
Tony Bellotto autografa em São Paulo seu novo livro, Bellini e o labirinto. A distribuição de senha será feita uma hora antes do evento.
Local: Livraria Saraiva do Shopping Pátio Higienópolis – Av. Higienópolis, 618 – São Paulo, SP

Drauzio Entrevista Tony Bellotto
Segunda-feira, 27 de outubro, às 19h30
Em mais uma edição do Drauzio Entrevista, Drauzio Varella encontra Tony Bellotto para falar de sua carreira literária e musical. Após o evento, haverá coquetel e sessão de autógrafos de Bellini e o labirinto.
Local: Teatro Eva Herz na Livraria Cultura do Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073 – São Paulo, SP

Sempre um Papo com Lira Neto
Segunda-feira, 27 de outubro, às 19h30
Debate com Lira Neto e lançamento de Getúlio – Da volta pela consagração popular ao suicídio. Para mais informações sobre o evento, acesse o site do Sempre um Papo.
Local: Auditório do Hospital Mater Dei – Rua Gonçalves Dias, 2700, Barro Preto – Belo Horizonte, MG

Bate-papo sobre o livro Jerusalém
Terça-feira, 28 de outubro, às 19h
Rita Lobo e Andrea Kaufmann conversam sobre o livro de Yotam Ottolenghi e Sami Tamimi, Jerusalém, vencedor do mais concorrido prêmio de culinária, o James Beard Award.
Local: Livraria da Vila – Alameda Lorena, 1731 – São Paulo, SP

Fórum das Letras
De 29 de outubro a 2 de novembro
Autores da Companhia das Letras participam da décima edição do Fórum das Letras em Ouro Preto.

  • Mesa com Frei Betto e Mário Magalhães
    Quinta-feira, 30 de outubro, às 16h
    Debate “Revelações à margem da história”, com Mário Magalhães, Frei Betto,  Cláudio Aguiar e mediação de Alessandra Vannucci.
    Local: Cine Vila Rica – Praça Reinaldo Alves de Brito, 47, Centro – Ouro Preto, MG
  • Debate com Fernando Morais
    Quinta-feira, 30 de outubro, às 20h
    Fernando Morais participa da mesa “O Brado Retumbante: a reconquista da democracia no Brasil”, com Geneton Moraes Neto, Paulo Markun e mediação de Manuel da Costa Pinto.
    Local: Cine Vila Rica – Praça Reinaldo Alves de Brito, 47, Centro – Ouro Preto, MG
  • Debate com Simone Campos e Raphael Montes
    Sexta-feira, 31 de outubro, às 14h
    Autores de A vez de morrer e Dias perfeitos participam do debate “Escritas de si, escritas dos outros”, com Júlio Ludemir e mediação de Santiago Nazarian.
    Local: Cine Vila Rica – Praça Reinaldo Alves de Brito, 47, Centro – Ouro Preto, MG
  • Mário Magalhães participa do Ciclo Jornalismo e Literatura
    Sexta-feira, 31 de outubro, às 10h30
    Autor de Marighella participa de ciclo de Jornalismo e Literatura com Audálio Dantas, Luiza Villaméa e mediação de Marta Maia.
    Local: Grêmio Literário Tristão de Ataíde – Rua Paraná, 136, Centro – Ouro Preto, MG
  • Debate com Lira Neto
    Sábado, 1 de novembro, às 10h30
    Lira Neto participa do debate “Escritas da Experiência”, com Paulo Markun, Ricardo Kotscho e mediação de Audálio Dantas.
    Local: Grêmio Literário Tristão de Ataíde – Rua Paraná, 136, Centro – Ouro Preto, MG

Consuelo Dieguez participa da Flica
Quinta-feira, 30 de outubro, às 10h
Autora de Bilhões e lágrimas, Consuelo Dieguez participa da mesa “O país do compadrio”, com Wilson Gomes e  mediação de Aurélio Schommer.
Local: Cachoeira, BA

Dia D – Carlos Drummond de Andrade
Sexta-feira, 31 de outubro
Para o dia de Carlos Drummond de Andrade, preparamos uma série de eventos com exibição de filme, leituras e aulas sobre o poeta. Confira a programação:

  • Exibição do longa Vida e verso de Carlos Drummond de Andrade
    Às 15h
    Produzido pelo Instituto Moreira Salles, o documentário tem direção de Eucanaã Ferraz e fotografia de Walter Carvalho
    Local: Livraria da Travessa do Shopping Leblon –Av. Afrânio de Melo Franco, 290, loja 205 A – Rio de Janeiro, RJ
  • Aula Dia D, com Ivone Dare
    Às 18h
    Com exibição do filme Vida e verso de Carlos Drummond de Andrade, Ivone Dare ministra aula aberta sobre o livro O sentimento do mundo. Inscrições pelo e-mail auditorio@martinsfontespaulista.com.br.
    Local: Livraria Martins Fontes Paulista – Av. Paulista, 509 – São Paulo, SP
  • Leitura de Poemas – Paixão/Sexo/Amor
    Com roteiro e direção de André Acioli, Ana Cecília Costa, Daniel Maias, Elias Andreato, Tuna Dwek e convidados fazem a leitura de poemas de Carlos Drummond de Andrade.
    Local: Teatro Eva Herz na Livraria Cultura do Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073 – São Paulo, SP

Lançamento de Vamos brincar de estátua?
Sábado, 1 de novembro, às 14h
Lúcia Barros lança livro em co-autoria com Márcia de Luca que ensina ioga para crianças.
Local: Livraria Cultura do Shopping Iguatemi – Av. Brigadeiro Faria Lima, 2232 – São Paulo, SP

Encontro de leitores de Cartas de amor aos mortos
Sábado, 1 de novembro, às 13h
Participe do encontro de leitores de Cartas de amor aos mortos, de Ava Dellaira, e conheça as novidades da Editora Seguinte.
Local: Livraria Cultura do Cine Vitória – Rua Senadora Dantas, 45, Centro – Rio de Janeiro, RJ

Semana duzentos e vinte e seis

Os lançamentos desta semana são:

Sete anos, de Fernanda Torres
A entrada em cena de Fernanda Torres no mundo das letras foi apoteótica. Seu primeiro romance, Fim, lançado em novembro de 2013, cativou centenas de milhares de leitores pelo Brasil, atraiu a atenção e diversas editoras ao redor do mundo e ainda foi elogiado pelos críticos mais prestigiados do país. Era de esperar que suas crônicas não demorassem a sair. Desde 2007, Fernanda tem mantido assídua relação com a imprensa. Estreou na revista piauí, assumi uma página quinzenal na Veja Rio e em seguida uma coluna mensal na Folha de S.Paulo. Sete anos reúne parte dessa contribuição. São pensamentos divertidos e reveladores sobre cinema, teatro, política, família e assuntos do cotidiano. Há ainda um texto inédito: o pungente “Despedida”, que trata da morte de seu pai. Os leitores de seu romance e de suas colunas na imprensa, seu público na TV e no teatro, todos encontram neste livro o tom confessional, o carisma a inteligência aguda e o olhar irônico que fazem de Fernanda Torres uma das artistas mais brilhantes de nosso tempo.

A neve estava suja, de Georges Simenon
Além das dezenas de histórias protagonizadas pelo Comissário Maigret, Georges Simenon é autor de um conjunto de romances que ficaram conhecidos por sua dimensão psicológica, análoga à de obras de ficção escritas por seus contemporâneos Albert Camus e Jean-Paul Sartre.
A neve estava suja, de 1942, figura entre os mais celebrados livros desse conjunto. Aos dezenove anos, Frank Friedmaier vive na França sob a ocupação nazista, no início dos anos 1940. Todos lutam para sobreviver. Ele mora na casa da mãe, um prostíbulo que serve aos oficiais alemães, mas busca um sentido para sua vida.
Friedmaier é um cafetão, um bandido, um ladrão. Assim que o livro começa, ele acaba de cometer seu primeiro assassinato. Pela escuridão de um inverno interminável, o protagonista se afundará na abjeção até que não haja mais saída.