Um holograma para o rei

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Em uma próspera cidade da Arábia Saudita, longe da complicada realidade da recessão que assola os Estados Unidos, um empresário em apuros financeiros realiza uma última e desesperada tentativa de evitar a falência completa, pagar a caríssima faculdade da filha e, talvez, fazer algo de bom e surpreendente com sua vida.

Um holograma para o rei é o novo livro de Dave Eggers publicado aqui no Brasil. O autor de O Círculo nos conduz por uma viagem pelo outro lado do mundo e pela comovente e por vezes cômica jornada de um homem para manter a família unida e a vida nos eixos diante da crise que devasta todos como uma tempestade. Nesse deserto insólito, ele irá se deparar com uma estranha e fascinante galeria de personagens, gente vinda do mundo inteiro para cumprir todo tipo de ambição, como se convergissem para lá os pontos de uma realidade que parece se esfacelar. É nesse espelho quebrado de nacionalidades e aspirações que o protagonista tentará juntar os cacos de sua própria vida e recriar sua existência.

Leia a seguir um trecho de Um holograma para o rei, com tradução de Jorio Dauster, que já está nas livrarias.

* * *

Alan sempre tivera um fraco por maquetes desse tipo, visões como aquela, planos de trinta anos, algo criado do nada — embora suas próprias experiências em concretizar tais visões não tivessem sido tão bem-sucedidas.

Certa vez ele encomendara uma maquete. Só de pensar nisso sentia uma pontada de tristeza. Aquela fábrica em Budapeste não tinha sido sua ideia, mas ele aceitara prazerosamente a tarefa achando que lhe proporcionaria voos mais altos. Mas converter uma fábrica da era soviética num modelo de eficiência capitalista sob o controle da Schwinn tinha sido uma loucura total. Ele fora mandado para a Hungria a fim de tocar o projeto, introduzir os métodos americanos de fabricação de bicicletas no Leste Europeu, abrir todo o continente para a Schwinn.

Alan tinha encomendado a maquete e organizara uma inauguração festiva marcada por grandes esperanças. Talvez pudessem exportar as bicicletas húngaras para fora da Europa. Talvez até para os Estados Unidos. Os custos de mão de obra seriam ínfimos, a capacitação técnica, de primeira. Essas eram as premissas.

Mas foi um fracasso total. A fábrica nunca atingiu a capacidade prevista, nunca foi possível treinar os trabalhadores, que continuaram ineficientes, e a Schwinn não tinha capital suficiente para modernizar o equipamento. Um fracasso colossal, e desde então os dias de Alan na Schwinn — onde antes era visto como um homem capaz de fazer as coisas acontecerem — estavam contados.

No entanto, vendo agora aquela maquete, Alan tinha a sensação de que a cidade realmente podia ser construída, que com o dinheiro de Abdullah isso ocorreria. Sayed e Mujaddid contemplavam a maquete, pelo jeito com igual fascínio, enquanto explicavam as várias etapas da construção. A cidade, disseram, ficaria pronta em 2025, com uma população de um milhão e meio de habitantes.

“Muito impressionante”, disse Alan. Procurou por Yousef, que vagava pelo vestíbulo. Alan captou seu olhar e fez sinal para que ele se aproximasse, porém Yousef sacudiu a cabeça rapidamente, rejeitando a coisa toda.

“Estamos aqui”, disse Mujaddid.

Indicou com a cabeça um prédio bem abaixo de seu nariz, idêntico àquele em que se encontravam, embora do tamanho de uma uva. Na maquete, estava situado à beira de um extenso passeio que corria ao longo da costa. De repente, apareceu um ponto de laser vermelho no seu segundo andar, como se uma nave espacial o tivesse assinalado como alvo para ser desintegrado.

Alan terminou o suco mas não viu onde depositar o copo. Não havia nenhuma mesa, o homem com a bandeja tinha desaparecido. Com a manga do paletó, secou o fundo do copo e o colocou na superfície do que parecia ser o mar Vermelho, a uns oitocentos metros da costa. Sayed sorriu educadamente, pegou o copo e saiu do aposento.

Mujaddid deu um riso amarelo. “Podemos ver um filme?”

Alan e Yousef foram conduzidos a um salão de baile de teto alto, resplandecente de espelhos e folhas de ouro, onde uma série de sofás amarelos, dispostos em fileiras, ficava de frente para uma tela gigantesca que cobria toda a parede. Sentaram-se e a sala foi escurecida.

Uma voz feminina começou a falar com o típico sotaque inglês, rápido e esmerado.

“Inspirado pela liderança exemplar e visão audaciosa do rei Abdullah…” Apareceu uma versão da maquete gerada no computador, mostrando a cidade à noite. A câmera mergulhou sobre uma cordilheira de vidros escuros e luzes. “Apresentamos o despertar da próxima grande cidade econômica do mundo…”

Alan olhou na direção de Yousef. Queria que ele ficasse impressionado. O filme devia ter custado milhões de dólares. Yousef lia as mensagens em seu celular.

“… para diversificar a maior economia do Oriente Médio…”

Logo depois já era dia na cera, ao nível da rua, com lanchas cruzando os canais, homens de negócio trocando apertos de mão junto ao mar, navios porta-contêineres chegando aos portos, presumivelmente transportando os muitos produtos fabricados
na CERA.

“… cooperação financeira entre os países árabes…”

Apareceu uma série de bandeiras, representando a Jordânia, a Síria, o Líbano, os Emirados Árabes Unidos. Um segmento exibiu a mesquita capaz de acomodar duzentos mil fiéis de uma vez. Em breve tomada, mulheres de um lado e homens do outro numa sala de aula da universidade.

“… uma cidade ativa durante vinte e quatro horas…”

Um porto capaz de processar dez milhões de contêineres por ano. Um terminal dedicado à hajj que poderia receber trezentos mil peregrinos na temporada. Um gigantesco complexo esportivo que se abriria como uma concha!

Agora Yousef se interessou. Curvou-se na direção de Alan. Alan não achou graça. Estava convencido. O filme era espetacular. Parecia ser a maior cidade depois de Paris. Alan anteviu o papel da Reliant em tudo aquilo: tráfego de informações,
vídeos, telefones, transporte em redes, etiquetas rfid para os contêineres marítimos, tecnologia nos hospitais, escolas, tribunais. As possibilidades eram infinitas, muito além do que até mesmo ele, Ingvall ou qualquer um tivesse imaginado. Finalmente, o filme alcançou seu clímax, com a câmera se elevando a fim de mostrar toda a Cidade Econômica Rei Abdullah à noite, coruscante, fogos de artifício pipocando por cima de toda a área.“Um estádio em forma de vagina. Nada mau.”

O melhor dos mundos possíveis

Por Juan Pablo Villalobos

candido

A coluna deste mês fala sobre um clássico da literatura em comemoração aos 80 anos da Penguin.

1. Na sexta-feira passada, eu estava no melhor dos mundos possíveis: tinha dedicado a semana a ler, escrever e a rabiscar ideias e frases soltas para meu novo livro. No final da tarde, fui caminhando até uma livraria para comprar uma nova edição de um dos meus livros favoritos, Cândido, ou o otimismo, de Voltaire. Tinha prometido escrever sobre esse livro para este blog e meu plano era levá-lo comigo para a praia, onde eu passaria o fim de semana com a família e uns amigos.

2. O melhor dos mundos possíveis continuou no sábado: passei o dia na praia e na piscina, lendo devagarinho oCândido. Eu devo ter lido esse livro pela primeira vez há pelo menos uns 25 anos, em algum momento entre os meus 15 e 17, e voltei a lê-lo duas ou três vezes nestes anos. De novo, como em cada releitura, as aventuras de Cândido, nas quais Voltaire reflete sobre os temas mais caros aos filósofos do Século das Luzes – religião, fanatismo, liberdade, opressão, obscurantismo, felicidade, infortúnio –, me encantaram.

3. Cândido é um jovem “reto de juízo e simples de espírito” que mora no castelo de um barão na Vestfália. Apaixonado pela filha dos barões, chamada Cunegundes, de dezessete anos, “corada, fresca, rechonchuda, apetitosa”, tem um preceptor, Pangloss, que ensina “metafísico-teólogo-cosmolonigologia” e acha que “este é o melhor dos mundos possíveis” e que “as coisas não podem ser de outra maneira”. Pangloss é um otimista que afirma o tempo todo que tudo está bem, que tudo está da melhor maneira possível e que não poderia ser de outra maneira. No decorrer do livro, Cândido, depois de ser expulso do castelo e sofrer inúmeras desgraças, irá conhecer o pessimismo e terminar acreditando que o otimismo é a mania de garantir que tudo está bem quando tudo está errado.

4. Acordei o domingo no melhor dos mundos possíveis e o projeto para o dia era ler mais Cândidona praia e na piscina. Porém, apareceu uma trinca no melhor dos mundos possíveis: notícias do México. Li a reportagem no celular, na beira do mar. O jornalista Rubén Espinosa, que tinha fugido de Veracruz ameaçado de morte, acabava de ser assassinado na Cidade do México. O corpo dele e de quatro mulheres foram encontrados com sinais de tortura e tiro de misericórdia num endereço da Colonia Narvarte.

5. Pensei, com raiva e tristeza, na descoberta de Cândido dos horrores do mundo – assassinatos, estupros, o terremoto de Lisboa, que inspirou Voltaire a escrever o Cândido– e na decepção que o leva a repudiar os ensinamentos do seu preceptor: “Ó Pangloss. Não tinhas imaginado esta abominação; não há remédio, acabo renegando o teu otimismo”.

6. Uma das mulheres assassinadas era uma amiga do Rubén, Nadia Vera, 32 anos, ativista que defendia a liberdade de expressão, antropóloga formada na Universidade Veracruzana, na mesma Faculdade de Humanas onde eu estudei Letras Espanholas. Fui procurá-la no Facebook: tínhamos dois amigos em comum.

7. Continuei a ler o Cândido durante o domingo, mas tudo tinha mudado: eu voltei a ser aquele leitor adolescente ansioso que exigia dos livros uma resposta ou, pelo menos, uma esperança. Também, de certo modo, me sentia culpado pela frivolidade da minha vidinha cheia de livros enquanto o meu país afunda.

8. Voltaire escreveu contra o otimismo porque queria atacar as ideias de Leibniz, que ele achava simplórias, mas também não se identificava com o pessimismo porque ele leva à inação. Uma das contribuições mais importantes do Iluminismo foi, justamente, a proposta de que temos que procurar a felicidade neste mundo e não, como propunha a religião, no além. O mundo, diz Voltaire noCândido, é horrível e o único lugar perfeito é o Eldorado, uma região tão rica e maravilhosa que se torna inacreditável. Não devemos procurar o Eldorado. O Eldorado não existe.

9. Ou, para ser exato, o Eldorado só existe como manipulação: é aquele lugar perfeito que só existe na mente dos governos corruptos e assassinos que falam que tudo está maravilhosamente bem quando está terrivelmente errado.

10. Entre o otimismo e o pessimismo, oCândidopropõe a ação modesta do trabalho pessoal e comunitário, resumido na frase final do livro, que já virou um lema famoso: “devemos cultivar nosso jardim”.

Devemos cultivar nosso jardim.

Cada um na sua própria trincheira.

Os livros e a escrita são também uma trincheira.

Não devemos nos render.

Descansem em paz Rubén, Nadia, Yesenia, Alejandra e Nicole.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Frei Betto lança Um Deus muito humano
Frei Betto autografa seu novo livro, Um Deus muito humano, em São Paulo no Rio de Janeiro.

  • Segunda-feira, 3 de agosto, às 18h
    Local: Esch Café — Rua Dias Ferreira, 78A, Leblon — Rio de Janeiro, RJ
  • Segunda-feira, 10 de agosto, às 18h
    Local: Esch Café — Alameda Lorena, 1899 — São Paulo, SP

Sempre um Papo com Frei Betto
Terça-feira, 4 de agosto, às 19h
Para marcar o lançamento de Um Deus muito humano, Frei Betto é o convidado da edição de agosto do Sempre um Papo.
Local: Museu das Minas e Metais — Praça da Liberdade, s/nº — Belo Horizonte, MG

Lançamento de Agora aqui ninguém precisa de si
Quarta-feira, 5 de agosto, às 19h
No lançamento de Agora aqui ninguém precisa de si no Rio de Janeiro, Arnaldo Antunes bate um papo com André Vallias e autografa seu novo livro.
Local: Livraria da Travessa do Shopping Leblon — Av. Afrânio de Melo Franco — Rio de Janeiro, RJ

Encontro em Quadrinhos
Quarta-feira, 5 de agosto, às 19h
DW Ribatski, autor de Campo em branco, participa do Encontro em Quadrinhos em Goiânia.
Local: Fnac do Flamboyant Shopping Center — Avenida Jamel Cecílio, 3300, Jardim Goiás — Goiânia, G

Bate-papo Empreendedorismo criativo
Sexta-feira, 7 de agosto, às 11h30
Mariana Castro conversa sobre o livro Empreendedorismo criativo no Mútua Coworking.
Local: Mútua Coworking — Rua Dona Maria Dulce Nogueira Garcez, 55, Pinheiros — São Paulo,SP

Encontro com Tércia Montenegro
Sexta-feira, 7 de agosto, às 18h
Autora de Turismo para cegos conversa com leitores e autografa o livro.
Local: Casa de Leitura Dirce Cortes Riedel — Rua das Palmeiras, 82, Botafogo — Rio de Janeiro, RJ

Lançamento de Malala, a menina que queria ir para a escola
Sábado, 8 de agosto, às 16h
Adriana Carranca e a ilustradora Bruna Assis Brasil conversam sobre Malala, a menina que queria ir para a escola e autografam o livro.
Local: Livraria Cultura do Shopping Curitiba — Rua Brigadeiro Franco, 2300 — Curitiba, PR

Lançamento de Jeito de matar lagartas
Sábado, 8 de agosto, às 16h
Antonio Carlos Viana autografa Jeito de matar lagartas em Aracaju.
Local: Livraria Escariz do Shopping Jardins — Av. Ministro Geraldo Barreto Sobral, 215, Jardins — Aracaju, SE

Lançamento de Os nada-a-ver
Sábado, 8 de agosto, às 15h
Participe do lançamento de Os nada-a-ver, de Jean-Claude R. Alphen e ilustrado por Juliana Bollini, em São Paulo.
Local: Blooks Livraria no Frei Caneca Shopping — Rua Frei Caneca, 569 — São Paulo, SP

Carol Brown Janeway

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É com tristeza que informamos que acaba de falecer Carol Brown Janeway, uma das maiores amigas de Luiz Schwarcz e da Companhia das Letras.

Carol Brown foi editora e vice-presidente da Knopf, além de ser uma tradutora premiada, conhecida por difundir a literatura estrangeira nos EUA. Traduziu trabalhos de Bernhard Schlink, Thomas Bernhard, Daniel Kehlmann, Sándor Marai, entre outros, e publicou autores como José Donoso, do Chile, Ivan Klima, da República Tcheca, e Margriet de Moor, da Holanda. Ganhou os prêmios Friedrich Ulfers Prize pela sua contribuição à literatura alemã e o Ottaway Award 2014 pela promoção da literatura internacional, prêmio que foi entregue por Luiz Schwarcz.

“Carol Brown Janeway é uma das minhas melhores amigas pessoais e da área editorial. Quem conhece seu trabalho entende por que eu digo que não há muitas Carols Janeways no mundo. Ela tem um dos maiores corações que conheci”, disse Schwarcz no discurso de entrega do prêmio, publicado no blog em outubro de 2014 e que você pode ler aqui novamente — ou ler na íntegra a seguir.

* * *

Há um tempo, fui convidado para participar da cerimônia de um prêmio completamente diferente deste. Foi uma cerimônia para premiar alguém como o “homem do ano”, e o vencedor foi um importante empresário brasileiro, amigo meu. O evento correu muito bem, até o momento no qual ele deveria fazer o discurso. Quando o “homem do ano” foi ao microfone e começou a falar, tivemos uma surpresa. Em vez de mencionar todas as suas conquistas nas companhias por onde passou, começou a descrever o primeiro quadro de arte que comprou para sua coleção pessoal. Ele é um importante colecionador da arte modernista brasileira. O quadro, que descreveu em detalhes, era uma paisagem deslumbrante do mar, do artista Pancetti, pintor e marinheiro um homem simples, que fazia parte do partido comunista brasileiro. Suas obras são vistas como um tesouro da arte brasileira modernista figurativa.

A pintura é, sem dúvida, incrível: o mar ocupa a parte inferior do quadro, cerca de um terço, ou mesmo um quarto da tela. Alguns pequenos barquinhos são vistos no horizonte do oceano, e o mar, azul esverdeado, combinado com a luz do azul puro do céu; causam uma forte impressão no observador. Um pouco abaixo, vemos uma extensão de areia que ocupa o restante da obra. O artista sabiamente levou em consideração o que é realmente especial nas praias do Brasil: a areia. Em primeiro plano, muito maior que os barcos e navios, mas ao mesmo tempo com discrição, uma vez que se trata de uma pintura minimalista, vemos algumas pequenas folhas de capim que cresceram na extensão da areia.

Pois bem: ninguém estava entendendo qual era o sentido daquele discurso, especialmente quando ele começou, evidentemente emocionado, a perguntar ao público: “Por que aquele capim cresceu na areia? Alguém poderia me explicar? Capim em terreno árido… como? Por quê?”. A esta altura da noite, o apresentador precisou intervir e retirar o microfone da mão do meu amigo. Começou a fazer o discurso que se esperava do homenageado, listando as empresas que ele comprou, os resultados de seus trabalhos – chegando até mesmo a mencionar sua coleção de arte, mas apenas como resultado de uma vida bem sucedida, possível graças ao mundo dos negócios e de sua dedicação a ele.

Creio que nunca conheci ninguém que ama tanto a literatura como este meu amigo. Então, possivelmente, fui o único a entender o que o “homem do ano” dizia. A importância de coisas que são inesperadas, num mundo onde tentamos constantemente prever tudo, desde o tempo até as emoções. O capim que nasceu na areia seria, para meu amigo, uma metáfora sobre as coisas que realmente importavam a ele. Uma metáfora sobre arte, e especialmente sobre literatura, paixão que carrega até hoje.

Se o discurso era totalmente fora de lugar, acho que isso só reforça a minha interpretação de onde meu amigo gostaria de chegar. A força da arte e, principalmente, da literatura, reside na possibilidade de nos levar para lugares distantes, diferentes daquele onde devemos estar. Através da da liberdade de expressão e da criatividade dos escritores quebramos obstáculos, saltamos fronteiras. Com eles podemos nos transformar em outras pessoas, com eles nos unimos para, ao ler um livro, sermos um só narrador. O verde encontrado na areia da tela e aquele discurso talvez representem a melhor metáfora para a literatura que já pude ouvir. Metáfora que teria sido bem melhor interpretada e compreendida hoje à noite, quando tenho a enorme honra de entregar o Ottawa Award para minha querida amiga Carol Brown Janeway.

Carol Janeway é uma das melhores editoras e tradutoras do mercado editorial contemporâneo. Por conta de seu trabalho, leitores tiveram acesso a obras de diversos países, culturas e línguas. Ela própria traduziu trabalhos de Bernhard Schlink, Thomas Bernhard (curiosamente a grande diatribe contra prêmios literários), Daniel Kehlmann, Sándor Marai, entre outros. Ela publicou autores como José Donoso, do Chile, Ivan Klima, da República Tcheca, e Margriet de Moor, da Holanda.

Se eu disse que uma das principais razões para a existência da literatura é a capacidade de nos fazer viajar dentro de nós, e também para outros países, tempos e culturas, então a importância de Carol no mercado editorial de hoje é inimaginável. Não há outras como ela por aí, e nem mesmo pessoas que são metade do que Carol é. Poucos tradutores ou editores chegam perto de sua mente, uma das mais abertas que conheço. Poucos conseguiram nos levar a praias tão distantes, onde um capim cresce, inesperadamente.

Se tenho razão quando digo que, ao ler um livro, autor e leitor tornam-se um único narrador da história, e que ficção depende, talvez na mesma proporção, da imaginação do leitor tanto como do autor, reconheço a tarefa de um tradutor que precisa lidar com línguas estrangeiras, e de um editor, assim como de todos os mediadores dessa união entre o autor e o leitor, que abrem caminhos para preciosidades que parecem tão distantes. Sim, tradutores e editores de literatura estrangeira possuem uma tarefa gigantesca. Sem o trabalho de pessoas como Carol, nossa jornada a locais áridos, onde o milagre do verde acontece, não seria possível. Um tradutor e editor precisa ter um grande coração. Um coração aberto a surpresas, um coração que está sempre disposto a levar outra pessoa a um lugar diferente.

Comecei a minha editora brasileira há exatos 28 anos e um dia, na minha primeira visita a Knopf, em 1986, acho que Carol ainda não estava lá. Eu fui a Nova York e me encontrei com a ex-responsável pelo setor de venda de direitos de tradução. Disse a ela que iria abrir a minha própria editora. Tinha 30 anos na época. A mulher, muito gentil e que veio a tornar-se uma grande amiga, me fez algumas perguntas:

Há algum livro de nosso catálogo que você gostaria de comprar?

Sim respondi , gostaria de publicar uma coleção de poemas de Wallace Stevens.

COMO? ela respondeu. Você deve ter muito dinheiro para jogar pela janela. Ou é maluco!

O livro de Wallace Stevens foi publicado e acho que está na quarta reimpressão. Imagino que Carol, no nosso primeiro encontro em Frankfurt, alguns anos depois do ocorrido, foi checar os livros que comprei da Knopf e, em vez de questionar o dinheiro que desperdicei, me adotou. Passei a fazer parte de um grupo privilegiado de pessoas que a encontram duas ou três vezes por ano, editores que a procuram para saber onde podem achar novas surpresas, quais fronteiras podem cruzar juntos, quais limites não devem respeitar.

Carol Brown Janeway é uma das minhas melhores amigas pessoais e da área editorial. Quem conhece seu trabalho entende por que eu digo que não há muitas Carols Janeways no mundo. Ela tem um dos maiores corações que conheci. Ela merece este e todos os prêmios do mundo. Estou emocionado e me sinto honrado em ser a pessoa que lhe entrega este prêmio. Obrigado, Carol, por ser a pessoa que é e por me acolher entre os seus amigos. Por favor, continue a nos mostrar o caminho para o inesperado.

Semana duzentos e sessenta

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Sempre em movimento — uma vida, Oliver Sacks (Tradução de Denise Bottmann)
Quando Oliver Sacks tinha doze anos, um professor bastante sagaz escreveu num relatório: “Sacks vai longe, se não for longe demais”. Hoje está absolutamente claro que Sacks jamais parou de ir. Desde as primeiras páginas deste comovente livro de memórias, em que relata sua paixão de juventude pelas motos e pela velocidade, Sempre em movimento parece estar carregado dessa energia. Conforme fala de sua experiência como jovem neurologista no início dos anos 1960 — primeiro na Califórnia, onde lutou contra o vício em drogas, e depois em Nova York, onde começa a despontar como pesquisador —, vemos como sua relação com os pacientes veio a definir sua vida. Com a honestidade e o humor que lhe são característicos, Sacks nos mostra como a mesma energia que motiva suas paixões “físicas” — levantamento de peso e natação — alimenta suas paixões cerebrais. Sempre em movimento é a história de um pensador brilhante e nada convencional, o homem que iluminou as muitas formas com que o cérebro nos faz humanos.

Um céu mais perfeito, Dava Sobel (Tradução de Ana Claudia Ferrari)
Em 1514, Nicolau Copérnico desenvolveu o esboço da teoria que desafiava as crenças da época, colocando o Sol, e não a Terra, no centro do universo. Ao longo das duas décadas seguintes, ele compilou seu trabalho num manuscrito secreto, o qual se recusava a publicar. Em 1539, o alemão Georg Joachim Rheticus, atraído pelos rumores de uma revolução científica, viajou à Polônia para procurar Copérnico. Dois anos depois, o jovem publicou As revoluções dos orbes celestes, com os trabalhos que transformaram o lugar do homem no Universo. Com elegância, Dava Sobel descreve as personalidades conflitantes dos dois e cria uma peça teatral que imagina a luta de Rheticus para convencer o mestre a publicar seu manuscrito.

O poder ultrajovem, Carlos Drummond de Andrade
O poder ultrajovem reúne textos publicados por Carlos Drummond de Andrade na imprensa entre o final da década de 1960 e o início da década de 1970. Trata-se de um poderoso conjunto de prosa e verso — sempre pendendo para os domínios da crônica, gênero que o grande escritor mineiro praticou como poucos —, em que o olhar maduro e algo desencantado (mas com muita ironia) do autor se debruça sobre os mais diversos aspectos da vida e da sociedade daquela época. Com posfácio do crítico Alcir Pécora, esta nova edição de um dos mais cativantes livros de Drummond é um brinde à vivacidade e à inteligência sutil de um dos nossos mais estimados escritores.

Companhia das Letrinhas

Nove monstros perigosos poderosos fabulosos do Brasil, Flavio de Souza
Este livro é um desafio! Dentro dele há figuras de nove monstros brasileiros, que estão camuflados em meio a traços coloridos. Encontrar todos eles não será fácil, e o leitor vai precisar superar o pavor. Quem conseguir encarar os monstrengos terá acesso, como prêmio por sua coragem, a informações interessantíssimas sobre cada uma das aberrações: aspecto físico, categoria, lugar de origem, lendas a seu respeito, tipos de poder e — o mais importante — dicas sobre como vencê-las.

Seguinte

O círculo rubi — Bloodlines vol.6, Richelle Mead (Tradução de Guilherme Miranda)
Depois que Sydney Sage escapou das garras dos alquimistas, que a torturaram por viver um romance proibido com Adrian Ivashkov, o casal se exilou na Corte Moroi. Hostilizada por todos ao seu redor por ser uma humana casada com um vampiro, a garota quase não sai de casa e perde a noção do tempo, trocando o dia pela noite. Mas logo Sydney se vê obrigada a abandonar seu refúgio, já que seu coração continua apertado desde que Jill Dragomir desapareceu. O sumiço da jovem princesa vampira coloca em risco toda a estabilidade política dos Moroi… Agora Sydney precisa descobrir quem está por trás desse sequestro para dar um jeito de trazer a amiga de volta — e ao mesmo tempo alcançar sua própria liberdade.

Paralela

Cidade mágica, Lizzie Mary Cullen (Tradução de Renata Moritz)
Viaje ao redor do mundo na ponta do lápis! Agora é possível pintar Londres, Paris e Rio de Janeiro. Vistas com o olhar único e divertido de Lizzie Mary Cullen.