Dois em um

Por Luiz Schwarcz

Uma viagem de quase três semanas para Lisboa e Nova York me fez ter tanto assunto neste início de mês que quem não quiser ler o meu texto terá que treinar salto duplo em distância. A segunda parte será publicada amanhã no blog.

A gentileza humana fez seu último reduto em Portugal

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Bem, minhas viagens, que estão virando crônicas (em todos os sentidos), desta vez começaram por Lisboa, onde foi lançado o selo da Companhia das Letras — como parte da reorganização da Penguin/Random House de Portugal. A estreia ficou por conta do livro O irmão alemão, e, como de costume, Chico Buarque confirmou sua ausência. Este, aliás, era o slogan que Washington Olivetto queria usar numa campanha publicitária da W/Brasil para o lançamento de Estorvo, primeiro romance do escritor lançado pela Companhia das Letras em 1991. A campanha, apesar de divertida, obviamente nunca foi ao ar. É importante respeitar e entender os autores — a obrigação de um escritor é escrever, já a tarefa de promover os livros cabe ao editor, com ou sem a participação dos escritores. Alguns autores se sentem à vontade para falar dos próprios livros; outros preferem deixar a leitura correr independentemente de suas próprias palavras.

Assim, lá fui eu falar do novo romance de Chico Buarque e dos livros brasileiros que aportarão na nossa antiga metrópole este ano, com os mesmos meios de locomoção que compõe o logo da Companhia estampados na capa lusa, pois — sim, senhor — eles lá estarão! Fui feliz e voltei ainda mais.

A gentileza dos portugueses é ímpar, comparável apenas com a sua discrição e timidez, que beiram o complexo de inferioridade, neste último caso totalmente despropositado. Nas entrevistas, os jornalistas portugueses me perguntavam sempre se não era temerário investir em Portugal, se eu não achava que os livros brasileiros iriam vender mal na terrinha, já que o histórico era tradicionalmente negativo. Respondi com entusiasmo, dizendo que o próprio caso do Chico é um exemplo contrário, já que seu sucesso em Portugal chega ao número dos grandes best-sellers e que outros autores poderão também seguir esse caminho. Na futura linha da Companhia das Letras em Portugal estão também Fernanda Torres, Raphael Montes, Sérgio Rodrigues, Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade. A escolha é da equipa de Portugal, o pequeno e voluntarioso time de sete pessoas comandado por Clara Capitão.

Disse também que todos os que fazem parte desta equipa, assim como os brasileiros e espanhóis envolvidos na operação da Penguin/Random House Portugal, acreditam em Portugal — só falta o público português acreditar. Depois desse meu depoimento fiquei preocupado com uma possível compreensão literal do que disse, mas os jornais saíram, e como os dias acabam logo, o que falei se foi com a noite, e deixei de me preocupar com minha declaração destrambelhada.

Minha estada foi curta, de um dia e meio apenas — como da outra vez, quando recentemente tomei parte do lançamento de Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, de José Saramago —, e por isso intensa. Tive reuniões de trabalho, encontros com jornalistas e fui visitar um amigo, o André Fernandes Jorge da Cotovia, que luta contra uma grave doença, assim como para manter sua editora, uma joia antiga em meio à parafernália da modernidade que alcança até Portugal.

O lançamento da editora e do livro do Chico ocorreu na primeira noite, em evento ciceroneado por Pilar del Rio, na Fundação Saramago. Fiquei muito sem jeito com os discursos que antecederam o meu. Estou mais preparado para falar dos outros do que para ouvir o que falam de mim. Assim, comecei tentando relativizar o que escutei de meus colegas, da generosa Pilar, e chamar atenção para o livro do Chico, o centro da noite e minha principal razão para subir num púlpito. No final, li um poema de Drummond dedicado a Camões, que o leitor pode ler aqui, e uma canção de Vinicius chamada “Saudades do Brasil em Portugal”. Os dois textos, que o craque Leandro Sarmatz me ajudou a selecionar, disfarçaram um pouco a timidez, também suplantada por um bom treino nas horas em que não lia ou dormia no voo da ida, quando, em vez de preparar o que falar, reli para mim mesmo, inúmeras vezes, o poema de Drummond — uma obra-prima sobre a alma portuguesa através de considerações poéticas acerca de Camões. Terminei com a frase que intitula este post, também de Vinicius de Moraes, lembrando para mim mesmo que o papel do editor é fazer os autores se pronunciarem através dos livros e manter-se, o máximo possível, em silêncio. Foi o que fiz em certa medida, deixando-me representar por estes grandes poetas, num momento em que, além de tudo, eu tinha que representar um outro grande escritor. Tarefa impossível, mas Chico se fez de fato presente pela leitura de seu livro, na voz de dois amigos portugueses, Miguel Sousa Tavares e Eugénia Melo e Castro, e pela publicação cuidadosa da equipa portuguesa.

Estive em Portugal, no fundo, para me emocionar com os nossos veículos cruzando o Atlântico, ouvir o doce sotaque português, a língua falada com gosto disfarçado em melancolia, ler alguns poemas brasileiros e lembrar. Agora e sempre.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

O fim do capítulo

Por Gabriel Bá

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 “A minha maior falha foi ter mandado o Yaqub sozinho para a aldeia dos meu parentes”, disse com uma voz sussurrante. “Mas Zana quis assim… ela decidiu.”

Ao escritor cabe a difícil escolha de onde e como terminar um capítulo. Aquelas palavras, aquela frase que precisa ter cara de fim de capítulo, deixando uma impressão maior que as outras daquela página, incitando a curiosidade do leitor, introduzindo uma breve pausa para reflexão e o chamando para continuar a leitura. O fim de capítulo tem este desafio, esta responsabilidade.

Quando você escreve um texto em prosa, você não se preocupa com o espaço na página que o texto vai ocupar, somente com as palavras, com a forma da escrita, com o conteúdo; sai escrevendo, narrando, linha após linha, até o fim do seu capítulo, onde termina o texto. O fim do capítulo de um romance tem a ajuda do espaço em branco que restou na página para dar o respiro e a importância que ele precisa.

Numa história em Quadrinhos, a história é pensada espacialmente, pois você sempre tem o espaço físico da página pra considerar. Você escolhe a quantidade de informação que vai em cada página, em cada quadro, em cada balão. Assim como o desenho, o texto ocupa um espaço físico e tem diferentes pesos e importâncias dependendo do seu posicionamento na página. Todo fim de página tem a responsabilidade de chamar o leitor para a próxima página. O último quadro das páginas ímpares, da direita, têm uma importância maior ainda, pois eles precisam fazer o leitor virar a página para continuar a história. Normalmente é colocado neste quadro um “cliffhanger”, ou gancho, uma informação mais forte que agarre o leitor.

Uma HQ também pode ser dividida em capítulos, e o fim do capítulo precisa ser tão marcante quanto num romance, acumulando ainda as funções de fim de página, normalmente fim de página ímpar, com um bom gancho.

Quando pensamos no roteiro do Dois irmãos, fizemos tudo na forma de layout (como vimos no texto do dia 11 de fevereiro), assim já pensando ao mesmo tempo nos textos que entrariam, nos quadros, nas páginas. Fazíamos escolhas o tempo todo, em toda página, todo capítulo. Qual palavra vai entrar, qual será criada, modificada, onde vai entrar, qual imagem vai junto, onde acaba a página, onde vira a página, onde acaba o capítulo. Todas estas escolhas feitas neste estágio de roteiro, de layout, são, no final, as escolhas mais difíceis e as mais importantes. Depois disso, as escolhas mais específicas do desenho são mais técnicas, trabalham em função de tudo que já foi decidido no roteiro.

Ele advertia a esposa sobre o excesso de mimo com o Caçula, a criança delicada que por pouco não morrera de pneumonia.

(…)

“Fez os diabos, o Omar… mas não quero falar sobre isso”, disse ele, fechando as mãos. “Me dá raiva comentar certos episódios. E, para um velho como eu, o melhor é recordar outras coisas, tudo o que me deu prazer. É melhor assim: lembrar o que me faz viver mais um pouco.”

No trabalho de adaptação, reviramos, reorganizamos e recontamos a história. E em alguns momentos, o fim de um capítulo da HQ coincidia com o fim do capítulo no livro, podendo aproveitar a força que o texto já tinha. No fim do capítulo dois do Quadrinho, começamos a última página com um texto da última página do capítulo três do romance, terminando com as últimas palavras do capítulo dois (reproduzidas aqui, no início deste texto).

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Quando eu já estava desenhando o capítulo dois, a poucas páginas do fim do capítulo, o Fábio olhou com calma para o layout e achou que o capítulo não terminava bem. Mais especificamente, que o último Quadro não tinha cara de último quadro, de fim de capítulo. A composição não ajudava, os textos não ajudavam, a página não funcionava. Esta é a melhor parte de trabalhar com outra pessoa, pois ela vê as coisas de outro ângulo, enxerga outros caminhos. E a melhor parte de trabalhar com o Fábio, meu irmão gêmeo, é que nós podemos sempre ser honestos e dizer quando algo não funciona, quando algo podia ficar melhor, sabendo que não vamos magoar sentimentos ou ferir egos. Sabemos que o mais importante é a história. E, quase sempre, sabemos que as mudanças que o outro enxerga e pede são necessárias. Eu já sabia antes dele falar que aquele fim não estava ótimo, não tinha a força que ele podia ter, que o livro tinha.

Nessa cena, Halim está contando sua história para alguém que aparece de longe no quadro 2 e de costas no último quadro. Este outro personagem ocupa muito espaço do último quadro para alguém que não é importante nesse momento. Estamos gastando espaço à toa.

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Mudei a página, sem mudar nada no texto. O texto já era ótimo, já havia sido escolhido para terminar o capítulo. Os enquadramentos também permaneceram quase todos os mesmos, era a organização, a diagramação que podia melhorar. Principalmente, o último quadro não estava bom. Dividi o primeiro quadro, reorganizei as falas do segundo e dividi o quinto quadro, deixando as duas últimas falas sozinhas num novo último quadro, com mais respiro, o espaço para o leitor receber a informação e refletir. Foi como editar um filme, cortando alguns planos para incluir um plano que estava faltando. O último quadro era super importante para que a página tivesse cara de fim de capítulo.

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Antes, no último quadro, tínhamos um texto longo, de remorso e arrependimento, junto somente com o foco na expressão amargurada de Halim e um vulto cortado ocupando o primeiro plano. Agora, temos os dois personagens mais ao longe, de costas para o leitor, misteriosos, mirando o rio Negro, a revoada de pássaros, o sol se pondo no horizonte entre as gordas nuvens de Manaus, tudo isso acompanhado somente das duas últimas frases curtas se referindo à Zana, cuja importância na história é tão grande quanto seu poder sobre o Halim, e sua beleza, vontade e decisão são tão fortes quanto toda esta natureza sem fim que nos engole.

* * * * *

Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo. Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá vai escrever para o blog contando mais detalhes sobre a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
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Companhia apresenta: Brasil: uma biografia

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No começo de maio, a Companhia das Letras lança Brasil: uma biografia, de Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Starling. Com acesso a documentação inédita e vasta pesquisa, as autoras traçam um retrato de corpo inteiro do país. Nessa viagem de mais de quinhentos anos, se debruçam não somente sobre a “grande história” mas também sobre o cotidiano, a expressão artística e a cultura, as minorias, os ciclos econômicos e os conflitos sociais.

Inaugurando esta nova seção no blog, que apresentará com mais profundidade os futuros lançamentos da editora, entrevistamos Lilia e Heloisa sobre o livro, que já está em pré-venda. Leia o que elas dizem sobre o método escolhido, o recorte temporal, as inspirações e afiliações na historiografia e a necessidade de uma nova obra acessível ao público geral sobre a história do Brasil.

Por que fazer uma nova história geral do Brasil em 2015?

Existem muito boas histórias gerais do Brasil, mas poucas delas, arriscamos dizer, carregam as características que queremos perseguir nesse livro, como um todo.

Em primeiro lugar, mais do que apenas cronológico, o livro sustenta um argumento geral. Procura entender como o caminho para a democracia foi difícil e singular num país marcado pelo sistema escravocrata. Aliás, é bom lembrar que o Brasil contou com o mais duradouro sistema escravista da era moderna; aquele que absorveu a maior diáspora compulsória de africanos, e o único que tomou o território todo. Isso sem esquecer que o país foi o último a abolir a escravidão e sente suas consequências até hoje nas práticas clientelísticas, nos paternalismos, no preconceito ao trabalho, na corrupção interna.

Também cabe insistir em outra marca que encontramos no caminho e decidimos sublinhar. Ao longo da nossa história, a palavra liberdade foi expressa em épocas diferentes nas mais diversas circunstâncias e pelos mais diferentes personagens. Compreender o poder da palavra liberdade e o modo como ela se manifesta na origem dos caminhos da democracia brasileira ajuda a entender a longa jornada das lutas sociais do povo brasileiro. A democracia é hoje um dos mais fortes consensos no Brasil e sua consolidação constitui um dos nossos maiores legados para as próximas gerações de brasileiros. Mas de tanto ser banalizada, a ideia de democracia, e o longo processo de lutas que garantiu sua construção no país, é hoje mal conhecida por nosso povo, sobretudo pelos jovens.

Vale destacar, ainda, que recuamos ao período anterior à chegada dos portugueses, incorporando as novas teorias e pesquisas da etnologia, da história e da antropologia, que mostram as riquezas das sociedades ameríndias, em termos de mitologia e filosofias.

Outra novidade é o uso crítico das imagens, não como ilustrações, mas como documentos. Nós tentamos ressaltar a importância das narrativas contidas nas imagens, os significados que elas trazem e os efeitos que podem produzir sobre a realidade. Por exemplo: a fotografia de um treinamento de tortura realizado por um batalhão da Guarda Presidencial do Exército, em Brasília, afeta o curso da história oficial sobre o período da ditadura militar — revela que a versão das Forças Armadas não corresponde ao que aconteceu. Nós gostaríamos de convidar o leitor a também ler as imagens e descobrir junto conosco que elas falam de maneira eloquente sobre as circunstâncias e os motivos que fazem do Brasil, Brasil. Foi realizada, também, uma ampla pesquisa iconográfica, de maneira a ampliar o nosso acervo visual e não apenas devolver o que se conhece.

Quem sabe vale a pena destacar a relevância dessa escrita em diálogo. Nossa formação é comum, e também distinta (aliando história, mas também antropologia e ciência política), e nos especializamos em períodos e abordagens bastante diferentes. Heloisa é especialista na história de Minas, nas concepções de república e do republicanismo e no período contemporâneo: em particular a ditadura militar. Lilia trabalha com temas do final do período colonial, do império e primeira república. Também especializou-se em discutir a imagem como linguagem visual. Além do mais, se ambas trafegam pelos mesmos mares, Lilia sempre acentua a questão cultural e a antropologia, e Heloisa não se esquece da ciência política. Por conta dessa escrita mestiça (não como acomodação, mas sim diálogo) o livro introduz sempre cultura e política; política e cultura.

Por fim, é explícito no projeto a ideia de que não há como contar “a” história, mas, sim, “uma” história sobre o Brasil; ou melhor, algumas histórias sobre o Brasil. Ou ainda: tentamos fazer do Brasil uma história. Um projeto como esse é um convite ao leitor para embarcar conosco numa aventura, mas essa é uma viagem com roteiro explícito. Afinal, não se consegue escrever uma história exaustiva do Brasil — e é possível escrever um número interminável de histórias sobre o Brasil.

Qual é o recorte temporal?

O livro segue sistematicamente até a primeira eleição de FHC, a despeito de na sua conclusão avançar até o momento presente — o governo Dilma Rousseff —, alcançando as manifestações de junho de 2014, o processo de consolidação da nossa experiência democrática e os riscos que ela corre — daí as referências ao mensalão ou ao escândalo da Petrobrás. A ideia é que os governos de FHC e Lula, de alguma maneira, ainda estão em curso, até porque os dois líderes continuam atuantes e suas políticas permanecem presentes na nossa agenda. A primeira eleição de FHC e sua posse em 1995 marcam o fim do período de redemocratização e daqui para frente está tudo em aberto. Nossa aposta é que uma novíssima história do Brasil está — ou deveria estar — começando, e nós brasileiros temos grandes tarefas pela frente: recuperar a República, sustentar o desenvolvimento, ampliar a igualdade, acentuar a democracia… O tempo presente e os homens do presente são um pouco de cada um de nós e essa nova história ainda está em seu início.

Quais foram as principais inspirações para este livro?

Há muitas boas histórias gerais do Brasil e citamos apenas algumas. O grande projeto em vários volumes — História Geral das Civilizações —, organizado por Sergio Buarque de Holanda e depois por Boris Fausto, é sem dúvida um grande modelo ao unir os maiores estudiosos brasileiros e recortar temas gerais da nossa agenda. Mas a coleção, como toda coletânea de ensaios, tem altos e baixos, e os diferentes capítulos não obrigatoriamente dialogam entre si. Há também o livro de História do Brasil, de Boris Fausto, da Edusp, que representou um avanço imenso em termos de documentação, de crítica e de coerência historiográfica. Não há como se esquecer dos bons livros de colegas e jornalistas — Laurentino Gomes, Eduardo Bueno — que têm nos ajudado a refletir e aceitar o desafio de alcançar um público mais amplo.  No nosso caso, porém, o desafio era, igualmente, incluir pesquisa original e documental. É preciso destacar, ainda, que um livro como esse só poderia ser feito por conta da excelente qualidade e maturidade da historiografia brasileira, internacionalmente reconhecida, que tem produzido investigação de ponta acerca dos mais diversos períodos da nossa formação nacional. Sem ela esse livro não existiria e a produção está toda referenciada nas notas e na bibliografia em anexo.

Não há como esquecer das coleções estrangeiras — História da vida privadaHistória da família —, por autores como Eric Hobsbawm, Jacques Le Goff, Georges Duby, Robert Darnton, Simon Schama, Carlo Ginzburg que vêm mostrando como é possível narrar a história com charme, saber e diversão. Tudo isso sem perder o rigor

Vale destacar ainda que Lilia, particularmente, se valeu de sua experiência em alguns projetos. Um deles, a coleção História da vida privada no Brasil, que reuniu uma grande equipe de historiadores brasileiros buscando reconstituir aspectos da vida cotidiana no processo histórico de nossa formação nacional. O outro, na coleção Virando os séculos — ambas editadas pela Companhia das Letras. Mais recentemente, Lilia foi diretora da coleção em 6 volumes História do Brasil Nação, pela Mapfre/Objetiva. Essa é uma coleção que conta com os mais importantes especialistas em história do Brasil moderno, faz um amplo levantamento documental e de imagens fundamental e perseguiu um público mais amplo, aliás como esse livro que lançamos agora. Lilia também está preparando para a Ducke University Press (junto com James Green e Victoria Langland) um novo Brazil reader: coletânea cronológica de documentos e respectivos comentários.

Podem comentar a escolha do subtítulo do livro, “uma biografia”?

A história do Brasil, por suposto, não cabe em um único livro. Até porque não há nação que possa ser contada de forma linear, progressiva ou mesmo de uma só maneira. Sendo assim, este livro não pretende contar uma história do Brasil, mas fazer do Brasil uma história. Ao contar uma história, tanto o historiador quanto o leitor aprendem a “treinar a imaginação para que ela faça uma visita”, como diria Hannah Arendt. E é por levar a sério essa noção de “visita” que este livro deixará de lado a meta de construir uma espécie de “história geral dos brasileiros” para se concentrar na ideia de que a biografia talvez seja outro bom caminho para tentar compreender o Brasil em perspectiva histórica: conhecer os muitos eventos que afetaram nossas vidas, e, de tal maneira, que continuam presentes na agenda atual.

Uma biografia é a evidência mais elementar da profunda conexão entre as esferas pública e privada — somente quando estão articuladas, essas esferas conseguem compor o tecido de uma vida, tornando-a real para sempre. Escrever sobre a vida do nosso país implica interrogar os episódios que formam sua trajetória no tempo, e ouvir o que eles têm a dizer sobre as coisas públicas, sobre o mundo e o Brasil onde vivemos — para compreendermos os brasileiros que fomos e que deveríamos ou poderíamos ser.

A imaginação e a multiplicidade das fontes são dois predicados importantes na composição da biografia. Nela, cabem os grandes tipos, os homens públicos, as celebridades; cabem igualmente personagens miúdos, quase anônimos. Em todos os casos, porém, não cabe tarefa fácil: é muito difícil reconstituir o momento que inspirou o gesto. É preciso calçar os sapatos do morto, na definição preciosa de Evaldo Cabral, conectar o público ao privado, para penetrar num tempo que não é o seu, abrir portas que não lhe pertencem, sentir com sentimentos de outras pessoas e tentar compreender a trajetória dos protagonistas dessa biografia — os brasileiros — no tempo que lhes foi dado viver; as intervenções que protagonizaram no mundo público de cada época com os recursos de que dispunham; a disposição de viverem segundo as exigências de seu tempo e não de acordo com as exigências do nosso tempo. É também não ser indiferente à dor ou à alegria do brasileiro comum, invadir o espaço da intimidade de personagens importantes e escutar o som das vozes sem fama. O historiador anda sempre às voltas com a linha difusa entre resgatar a experiência daqueles que viveram os fatos, reconhecer nessa experiência seu caráter quebradiço e inconcluso, interpelar seu sentido e, por estar atenta a tudo isso, a biografia é, também, um gênero da historiografia.

Brasil: uma biografia será lançado no dia 4 de maio e já está em pré-venda nas principais livrarias.

Samsara

Por Juan Pablo Villalobos

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I

Na minha próxima vida, eu serei um pinguim macho que veraneia na Patagônia. Tomarei sol sem me preocupar e quando tiver muita fome entrarei bem fundo no mar gelado pra capturar peixinhos. Não me complicarei demais com a comida. Terei uma dieta muito japonesa. Depois, quando o outono chegar, partirei em grupo pra Antártida brincando com minha namorada. Serão só os preâmbulos do que acontecerá quando estivermos terra adentro. Aí, minha namorada parirá um ovo gigante e perfeito que abrigarei na minha bolsa enquanto ela viaja pra nos trazer comida. Cuidarei muito bem de nosso ovo. Bem demais. Usando os conhecimentos aprendidos por ter sido humano nesta vida farei uma armadilha pra me beneficiar do sistema coletivo de climatização. Ficarei o tempo todo no centro do grupo tremendo, mesmo que eu esteja quentinho, pra que o resto dos pinguins achem que acabei de voltar da barreira perimetral. Ninguém perceberá o engano. Pássaros bobos. Minha namorada voltará a tempo pro nascimento de nossa cria. Vomitará purê de peixes pra nos alimentar e agora eu terei que partir pra trazer o sustento. Caminharei e caminharei em cima do gelo rumo à costa, inchando o peito, ridiculamente, com andar de pinguim. Irei rodeado de meus camaradas. Ficaremos em silêncio, contemplando a paisagem branca, branca, com lampejos de um azul enigmático. Haverá pores-do-sol belíssimos que não poderemos apreciar. Às vezes lembraremos dos que nos aguardam. Sem melancolia. Alguns dias teremos falsos agouros sobre os perigos que nos ameaçam. Pássaros gigantes, tubarões, orcas, focas-leopardo. Nossas penas ficarão arrepiadas, mas nunca confessaremos.

E assim serão os ciclos, ano após ano, sempre a mesma coisa. Até que um dia o falso agouro será verdadeiro. E não haverá mais verões na Patagônia, nem viagens pra Antártida, nem excursões pra trazer comida. Será meu último instante como pinguim. Sentirei uma tristeza ligeira, mas não saberei interpretá-la.

Nesse dia, tenho certeza, estarei muito elegante.

II

Depois, na minha seguinte vida, voltarei a ser humano. Mas o mais importante é que a minha vestimenta cotidiana será uma sainha polinésia terrivelmente sexy. Serei Paufi Vakai, o último tuvaluano de Tuvalu. Meu nascimento coincidirá com o ditame oficial sobre a desaparição das ilhas. Num máximo de trinta anos não sobrará nada de nossa terra. Nada. Nem um pedacinho de Funafuti, a ilha onde eu morarei, com seus imponentes cinco metros de altura. O oceano Pacífico apagará nossas ilhas do mapa. Durante anos verei toda a população partir. Uns rumo a Nova Zelândia. Outros pra Austrália ou Fiji. Eu ficarei ali até o final, porque meu pai será o responsável pelo programa de evacuação. Taniela será o nome de meu pai. Taniela, filho de Manatu e Lita. Minha família escolherá como destino Fiji, onde meu pai trabalhará organizando outro plano de evacuação. Quando o dia definitivo se aproximar, urdirei uma confusão administrativa. Naquele tempo, eu terei aproximadamente vinte e sete anos. Haverei tido tempo demais pra decidir meus objetivos na vida. Meus planos serão absurdos e impossíveis. Enganarei meu pai e me ocultarei muito bem num cantinho inacessível. E assim viverei por uns dias, meses ou anos, quem sabe, como um náufrago voluntário. Pegarei peixes. Manterei algum dos pequenos cultivos de arroz. A produção inteira de cocos será minha. Ficarei sentado no lugar mais alto da ilha pra aguardar a maré. Por enquanto, comerei sushi. Quando estiver contente dançarei uma fakaseasea. Quando ficar entediado jogarei partidas de kilikiti. E nunca perderei. Quando estiver triste analisarei se o afundamento dessas ilhas significa alguma coisa pro Universo. Com raiva concluirei que só será uma tediosa constatação. No final, quando o oceano começar a me rodear, procurarei o coqueiro mais alto. Treparei nele carregando víveres e me instalarei na copa. Ficarei ali, quietinho, olhando minha terra — vinte e seis quilômetros quadrados somando a superfície das nove ilhas — se afundar pra sempre. Sem rancor. Suspendido magicamente sobre a água verde, azulíssima, azul, verdíssima. Com certeza terei pensamentos muito profundos. Logo se esgotarão os víveres. Mas conseguirei sobreviver. Usando a experiência de ter sido pinguim na minha vida anterior, produzirei com o esôfago uma substância leitosa que me servirá de sustento. E assim passarão os dias, um após outro, sem grandes novidades. Até que um dia o coqueiro caia, ou o sol me fulmine, ou o oceano me cubra. Não oporei resistência.

Anos mais tarde virão os turistas. Com sorte meu cadáver ficará aderido ao coral e por fim atingirei o nirvana.

A eternidade me encontrará transformado numa atração fascinante pros mergulhadores.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou durante uns anos no Brasil. É autor de Festa no covil Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Drauzio Entrevista com Laerte
Segunda-feira, 2 de março, às 19h30
No primeiro Drauzio Entrevista de 2015, Drauzio Varella vai conversar com Laerte! As senhas para o evento serão distribuídas a partir das 18h30 do dia do evento na entrada do auditório.
Local: Livraria Cultura do Shopping Bourbon — Rua Turiassu, 2100 — São Paulo, SP

Encontro com Mariana Castro
Terça-feira, 3 de março, às 19h
Mariana Castro, autora de Empreendedorismo criativo, e convidados participam do Encontros Criativos na Livraria Cultura.
Local: Loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura — Av. Paulista, 2073 — São Paulo, SP

Workshop Pão nosso
Sexta-feira, 6 de março, às 19h
Luiz Américo Camargo comanda o workshop do livro Pão nosso, onde ensina os segredos do fermento natural e da produção caseira de diversos tipos de pães.
Local: Livraria Fnac do RibeirãoShopping — Av. Cel. Fernando Ferreira Leite, 1540 — Ribeirão Preto, SP

Bate-papo “A dieta ideal para a saúde da mulher”
Segunda-feira, 9 de março, às 19h30
Marcio Atalla e Desire Coelho, autores do livro A dieta ideal, fazem um bate-papo especial para o Dia Internacional da Mulher com sessão de autógrafos.
Local: Livraria Cultura do Shopping Iguatemi — Av. Brigadeiro Faria Lima, 2232, Jardim Paulistano — São Paulo, SP

Bate-papo “A mulher no mundo Muçulmano e o caso Malala”
Terça-feira, 10 de março, às 19h30
Em homenagem ao Dia da Mulher, a Companhia das Letras promove o bate-papo “A mulher no mundo Muçulmano e o caso Malala“, com Adriana Carranca, repórter especial de O Estado de S.Paulo e autora de Malala: a menina que queria ir para escola, que será lançado em breve pela Companhia das Letrinhas.
Local: Livraria Cultura do Shopping Iguatemi — Av. Brigadeiro Faria Lima, 2232, Jardim Paulistano — São Paulo, SP