Semana duzento e quarenta e seis

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Despertar, de Sam Harris (tradução de Laura Teixeira Motta)
Além de filósofo da moral e célebre ateísta, Sam Harris é um praticante entusiasmado de meditação, tendo viajado o mundo para estudar com diversos gurus. Neste livro, ele concilia os dois aspectos de sua vida e comprova como a meditação e a prática contemplativa não têm como pré-requisito qualquer tipo de crença “mística” ou “espiritual”; pelo contrário, para ele a meditação provaria que esses conceitos não existem. Harris se vale de seu próprio envolvimento com a prática e de aspectos da neurociência e da filosofia para provar seu argumento.

Mundo escrito e mundo não escrito, de Italo Calvino (tradução de Maurício Santana Dias)
Ler, escrever, traduzir; a vanguarda e a tradição; a forma do romance — eis os temas de Mundo escrito e mundo não escrito, coletânea de textos em que Italo Calvino, um dos maiores autores do século XX, investiga o significado da experiência literária. Nos ensaios produzidos ao longo de sua vida, o que se nota é uma atenção constante para a fronteira entre o universo escrito e o não escrito, para o limite entre o real e o que é possível expressar por meio da linguagem.

Seguinte

A aliança – Crônicas de Salicanda Vol.3, de Pauline Alphen (tradução de Dorothée de Bruchard)
Depois de passar um tempo na ilha, Claris volta para esse mundo quase irreconhecível e caminha sozinha em direção ao Nomadstério, para cumprir o que acredita ser seu destino: tornar-se uma Nômade da Escrita. Jad, por sua vez, é guiado por Gabriel e continua suas explorações no limbo. Em Salicanda, os moradores se reúnem: Ugh, que se torna herói sem querer; Blaise, que chega acompanhado do enigmático Povo das Árvores; e Maya, que está na cidade junto com Ellel e Falcão Branco. Juntos, eles farão tudo para compreender os diversos mistérios daquele lugar.

Paralela

Acesso aos bastidores, de Olivia Cunning (tradução de Juliana Romeiro)
Myrna é professora de psicologia e uma fã ardorosa da pela banda Sinners. Especialmente por Brian Sinclair, o guitarrista e compositor que, além de talentoso, é deliciosamente lindo. Ela se surpreende ao encontrar a banda no mesmo hotel em que está hospedada para participar de uma conferência de psicologia. Mais surpreendente ainda é despertar o desejo de Brian após alguns drinques juntos. Ela sabe que essa vida de astro de rock tem um preço e estaria feliz deixando essa paixão para trás. Mas será que Brian e Myrna conseguirão ficar separados?

Companhia das Letrinhas

Isso é meu!, de Blandina Franco (ilustrações de José Carlos Lollo)
Dividir as coisas nem sempre é fácil, especialmente para as crianças pequenas. Essa é a dificuldade enfrentada pela menina desta história, que deixa bem claro para o leitor: o boneco é dela e de mais ninguém! Afinal, ela merece mais que as outras pessoas… Mas será mesmo? Neste diálogo muito bem arquitetado entre personagem e leitor, o que fica evidente no final é que ser egoísta não leva a nada.

Meu vizinho é chato pra cachorro, de Maria Amália Camargo (ilustrações de Silvana Rando)
Quem nunca ficou irritado com o vizinho? Seja pelo barulho, a sujeira na calçada, algum comentário inadequado, mais cedo ou mais tarde surge algum desentendimento. O fato é que não é fácil conviver com outras pessoas — cada uma em um ritmo, com suas manias e aqueles dias de mau humor. Para o vizinho desta história, a vida é um verdadeiro pesadelo. Mas por culpa dele, que implica com tudo o que se possa imaginar. Ainda bem que, ali no fundo do peito, todo mundo tem um coração pronto para entrar em ação — e acabar com as brigas, deixando todos por perto mais felizes…

“Sem título” ou “Do pesadelo de dar nome às histórias”

Por Raphael Montes

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Escolher o título de uma história (seja um conto, um romance ou um longa) sempre foi, para mim, um pesadelo. Como este pesadelo me atingiu em cheio nos últimos dias, resolvi escrever um texto sobre o assunto. Ao final, quem sabe eu consiga dormir em paz.

Pessoalmente, tenho predileção por títulos curtos, fáceis de memorizar, genéricos, que tragam o espírito da história sem entregar muita coisa. Sempre que possível, acho interessante que o título contenha alguma ironia ou mensagem subliminar. Aos doze, quando comecei a escrever, tinha a regra de só desenvolver uma história quando já tivesse um título para ela. Levava isso muito a sério e cheguei a desistir de algumas narrativas apenas porque não tinha um título.

Após Suicidas, meu romance de estreia, comecei a escrever um chamado Rua dos Crimes, um policial-enigma clássico, bem ao estilo Agatha Christie. Havia chegado à metade do livro quando comentei a história com uma amiga e ela retrucou: “Legal, mas é juvenil, né? Rua dos Crimes é nome de livro juvenil”. Pronto, não consegui mais mexer no arquivo. O título não me convencia e eu não conseguia avançar sem saber que nome dar para aquela história.

Felizmente, essa mania doida é passado. Hoje consigo escrever sem ter um título. Mas sempre que me pego deitado na cama, distraído, estou pensando: “caramba, que título vou dar para essa história?”. Um bom título é importantíssimo. Além de cumprir a difícil missão de apresentar o livro, deixar entrever seu conteúdo, o título é responsável por cativar, atrair alguém que nunca tenha ouvido falar dele, o livro, ou de você, o escritor. Numa consideração comercial, o título — junto com a capa — convence o potencial leitor a comprar o livro: é a primeira impressão que ele tem do seu trabalho.

Com o tempo, a gente aprende algumas coisas. Se escrevesse Suicidas hoje, acho que eu mudaria o título. Optaria, talvez, por algo mais abstrato: “A reunião”, “O porão” ou ainda “Roleta russa”. Gosto do nome que escolhi, sei que resume bem o livro e chama atenção de alguns, mas também sei que muita gente torceu o nariz e deixou de ler o livro apenas porque se chama Suicidas.

Em Dias perfeitos foi diferente. Enquanto escrevia, todos meus leitores-beta reclamavam do título: era muito vago, muito simples, parecia história de amor. Eu bem sabia que era um título arriscado — dependia de uma boa capa para passar sua ironia. Ainda assim, fui em frente. Agora, publicado, quase todos os dias recebo e-mails ou inboxs de pessoas que compraram o livro iludidas pelo título (“achava que era um livro fofo”) e se surpreenderam positivamente com o conteúdo. Pessoas que nunca leram um livro de suspense acabaram lendo o livro por causa do título “romântico” e descobriram os prazeres da literatura policial e de mistério. Quer coisa mais legal? Além disso, em todas as traduções, o título original tem sido mantido. Sinal de que funcionou, a meu ver.

Agora escrevo meu terceiro romance adulto. Quando tive a ideia, o título era Cortes exóticos. No Programa do Jô, incentivado a antecipar a notícia, disse que o título provisório era Jantar no matadouro. Já passei por diversas opções: “Carne de caça”, “Mesa para dez”, “A delicadeza do corte” e “Anatomia de um jantar”. Atualmente, encolhi: o livro se chama apenas Jantar. Até a publicação, só Deus sabe.

Nesses momentos de conflito interno, sempre me lembro de uma história que o Marçal Aquino costuma contar. Na época, ele escrevia Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios e todo mundo dizia que era um título ruim, longo demais. Em uma Flip, o mediador soube do título do original nos bastidores e, durante a mesa, insistiu que Marçal revelasse ao público. Ele disse: “Olha, é provisório… Nenhum editor vai querer publicar um livro com esse nome”. Quando Marçal revelou o título, Luiz Schwarcz chamou da primeira fileira: “eu publico!”. Hoje, Eu receberia… é um dos títulos que mais elogiam na literatura brasileira contemporânea, além de ser um livraço.

Ainda atormentado por pesadelos com títulos, lanço a pergunta a vocês: escritores, como escolhem os títulos de seus trabalhos? Leitores, quais seus títulos favoritos? Além disso, claro, se alguma alma caridosa quiser palpitar nos títulos possíveis do meu terceiro romance, aceito de bom grado. Daqui, continuo pensando e escrevendo. Enquanto isso, não durmo.

* * * * *

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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A arte de escrever para TV, segundo Matthew Weiner

Por Ana Maria Bahiana

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Uns anos atrás, nem tanto tempo assim, passei um mês dentro da cabeça de Matthew Weiner. Ou quase. Foram semanas maravilhosas no sítio de uma amiga querida, na serra fluminense, estudando, desconstruindo e remontando Mad Men, a joia suprema da criação de Weiner. Não foi adiante, mas me valeu um momento de intensa e concentrada criatividade, e o privilégio de aprender diretamente na fonte.

Dois anos depois dessa aventura — que hoje mora num grosso caderno enfurnado num depósito, como tantos projetos que não encarnaram — encontrei Matthew Weiner em pessoa, no set de Mad Men, aqui no centro de Los Angeles. Ele riu muito quando disse que eu tinha passado um bom tempo dentro da cabeça dele, e que versões de seus personagens agora assombravam meus sonhos. Conversamos um tanto e, desde então, tive o prazer de entrevistá-lo algumas vezes. Weiner tem fama de difícil, perfeccionista, exigente. Imagino que seja mesmo. Mas nossas conversas sempre foram deliciosas, e sempre terminaram com ele me desejando boa sorte com um projeto que, para mim, acho, jamais sairá do papel. “Sou um otimista nato”, ele me disse da última vez. “Esperei sete anos para Mad Men ser realizado. É impossível manter a sanidade sem ser otimista.”

Nosso último encontro foi no dia da estreia dos derradeiros episódios de Mad Men. Weiner tinha seu smoking pendurado no quarto de hotel que servia de base para o dia — entrevistas e sessões de foto de manhã e de tarde, festa de gala comemorando o final da série à noite, no Dorothy Chandler Pavillion. A conversa, apropriadamente, foi em tom de memória e história — olhando no espelho retrovisor para a arte de escrever para TV.

Este é um adeus definitivo? Você contemplaria a hipótese de voltar à série?

Quem sabe? Hollywood vive de roubar a si mesma e a voltar e voltar e voltar às mesmas coisas, então não me surpreenderia… Pessoalmente, agora, não tenho a menor vontade de revisitar essa história. De nenhum modo. Eu me orgulho do fato de que cada episódio foi construído um a um, representando algo claro dentro de cada temporada, que também foi construída uma a uma. 92 horas de televisão. Sopranos tem 85 horas. É muita coisa. Esgotamos tudo o que queríamos dizer sobre os personagens, sobre um pedaço imenso das vidas deles. Vamos deixá-los na hora certa, para ficarem flutuando na memória e na imaginação do público.

No coração de Mad Men está um anti-herói por excelência: Don Draper, um narcisista, enganador, manipulador, que bebe demais, fuma demais, tem mil casos ao mesmo tempo… Qual foi sua inspiração para compor esse personagem?

Ele é um poço de contradições, e é preciso uma habilidade sobre-humana para ser tudo isso. Ele foi modelado a partir de pessoas que realmente existiram, pessoas importantes do século 20, que influenciaram e ainda influenciam nossas vidas. Nem todos os nossos líderes e inovadores são Steve Jobs, veganos, austeros. Jobs era isso e também tinha uma personalidade singular, um pique, uma determinação imensa. E do outro lado do espectro você vê essa mesma determinação em indivíduos com apetites extraordinários que são, na verdade, as pessoas que decidem e moldam nossas vidas como uma sociedade. Quantas horas essa pessoas dormem? Eu acho que não aguentaria o ritmo de vida deles. Quando escrevo um personagem eu não tenho, eu não posso ter, julgamentos morais. Eu acredito neles como são, por inteiro.

Mad Men é com certeza um marco na história da TV. Será que esta era tão produtiva vai continuar?

A TV é e sempre foi um veículo de escritores. Enquanto houver interesse em narrativa, a TV vai existir. Mas também vão existir o livro, o cinema. Foi o que aprendi estudando história nos últimos 10 anos. Lembra quando disseram que a palavra escrita ia morrer? E hoje escrevemos e lemos mais mensagens do que nunca — é e-mail mas, fora isso, é palavra escrita. No coração da TV estão escritores — desde o princípio você tem Norman Lear, James Brooks, Garry Marshall, Carl Reiner, Sheldon Leonard. O showrunner existe desde sempre na TV, é a pessoa que garante a entrega do material com o nível de qualidade necessário. Os prazos é que eram brutais, o ritmo de produção dos primórdios da TV era absolutamente insano. E isso continua com Steven Bochco e David Milch e David Kelley. O que mudou foi a possibilidade de um modelo financeiro que permitisse uma produção para fatias de mercado em vez de um produto para um mercado genérico. No momento em que a HBO mostrou que era possível fazer bilhões de dólares atendendo um segmento pequeno do público, abriram-se as portas da criatividade para os criadores. Mas é leviano dizer que a grande produção da TV começou agora, recentemente. Quem faz uma lista de 30 grandes séries de TV e não inclui Além da Imaginação não sabe o que está fazendo. O que temos hoje são mais oportunidades para falar com o público de modos diferentes. Quem sabe… Se Charles Dickens aparecesse por aqui hoje, acho que ele ia querer escrever para a TV… e seria sensacional.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Crianças x Adultos

Por José Roberto Torero 

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Uma pergunta que as crianças sempre me fazem quando visito escolas é esta:

“Você gosta mais de escrever para adultos ou para crianças?”

Minha resposta automática é “Dá empate”. E penso que estou dizendo a verdade. Mas talvez esteja enganado.

Há um senso comum de que na chamada literatura para adultos podemos contar histórias mais duras e cruéis, usar um vocabulário mais vasto e tentar inovações formais. Enquanto isso, na literatura infantil, a graça seria deixar a imaginação mais solta e escrever num estilo mais livre.

Mas não é verdade. Nos livros para crianças também podemos contar histórias terríveis (é só ver os contos de fadas, em que meninas são devoradas por lobos, garotas são obrigadas a hibernar por um século e meninos são colocados em gaiolas para engordarem e serem comidos), usar palavras doidas e, principalmente, fazer inovações formais.

Por exemplo, em literatura infantil já consegui fazer uma história com onze finais, várias versões de uma mesma fábula (sei que o Novo Testamento já tem isso, mas ainda acho algo novo) e um livro cortado em tiras, em que narrativas e personagens podem ser misturados.

Além disso, o livro infantil, como objeto, permite — e talvez até exija — mais liberdade e criatividade.

Explico:

Os livros para adultos têm uma diagramação incrivelmente monótona. É sempre uma única coluna e raramente traz uma reles capitular diferente. Mas não pense que sempre foi assim. Se você der uma olhada nos manuscritos da Idade Média ou em alguns incunábulos, vai ver que a diagramação e a ilustração já estão lá. Exuberantes, criativas, valorizando e interagindo com o texto.

Enquanto o livro adulto tem uma história contada de forma totalmente verbal, o infantil pede algo mais. Ele é mais coisa, é mais objeto, exige mais integração entre suporte e texto.

O escritor de livro adulto geralmente pensa seu texto como algo imaterial, como uma história que se passa apenas no cérebro do leitor, e não também na página do livro. No livro infantil é diferente. Temos que pensar no tamanho da página, se uma ilustração pode entrar ali e substituir o texto, no tipo de letra, na diagramação, etc… E isso faz muita diferença.

Na literatura infantil, talvez mais áreas do cérebro tenham que estar ligadas. Não basta ligar o verbômetro. Há que pensar no texto espacialmente.

Enfim, quando escrevo para adultos, me concentro no texto. E isso é bom.

Mas, quando escrevo para crianças, já penso no livro como um todo. E isso talvez seja mais divertido.

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José Roberto Torero é escritor, roteirista e jornalista. Em parceria com Marcus Aurelius Pimenta, é autor da coleção Fábrica de Fábulas, com seis títulos já publicados pela Objetiva. É autor dos romances O Chalaça, O evangelho de Barrabás e Nove contra o 9 e do livro de contos Papis et circenses, vencedor do Prêmio Paraná de 2012. E também corroteirista do curta-metragem Uma história de futebol, indicado ao Oscar em 2001. Seu último livro lançado foi Entre raios e caranguejos, em coautoria com Marcus Aurelius Pimenta.

Minha videolocadora

Por Carol Bensimon 

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Minha família tinha (tem?) uma videolocadora. Ela nasceu só uns aninhos depois de mim e carregava o apelido da minha tia, Vivi Vídeo. Minha vó, que pintava um pouco por hobby, havia desenhado o logotipo. Passei muitas tardes naquele lugar, que às vezes parecia a loja de roupas que tinha sido antes de virar a Vivi Vídeo, com um friso dourado estranho e um revestimento meio impermeável cobrindo a lateral do balcão (eu gostava de passar as unhas nessa superfície). Lembro da pecinha dos fundos onde os funcionários comiam o lanche, da porta vai-e-vem que separava o público dos bastidores (fitas armazenadas, impressoras matriciais, borrachinhas, um milhão de canetas Bic) e de como os clientes gostavam de conversar com a minha tia precisamente nesse cantinho. A Vivi Vídeo foi uma verdadeira instituição em Porto Alegre durante os anos oitenta e parte dos noventa. O catálogo era gigantesco e o amor (pelo cinema) se aliava a uma capacidade respeitável em indicar, comentar, lembrar-se de detalhes, desvendar as preferências de cada cliente por parte de toda a equipe. Acho que filmes como O balconista e Alta fidelidade (adaptado do clássico de Nick Hornby) falam um pouco dessa gente maravilhosa que viveu atrás do balcão.

Minha tia morreu ano passado, mas, muito antes disso, o mundo já tinha decidido que as videolocadoras deviam sair de cena. A primeira crise aconteceu com a chegada da TV por assinatura. A segunda crise veio com a possibilidade de baixar de graça quase qualquer filme que vier à sua cabeça. Ainda assim, a loja enorme continuou lá, quase invisível, em frente ao Parcão. Talvez o mais intrigante para mim é que a Vivi Vídeo não exatamente venceu os rumos da tecnologia, encontrando uma maneira digna de sobreviver em um mundo em transformação, mas que essa sobrevivência tenha acontecido por pura insistência insana misturada a um pouco de desorganização e uma certa dificuldade em deixar as coisas irem embora.

Talvez eu não tenha entendido isso muito bem enquanto minha tia ainda era viva. Nos últimos anos, eu carregava um certo constrangimento em perceber ou imaginar a decadência da loja, como se essa fosse a maior e a mais concreta prova de um fracasso familiar generalizado. Pra piorar, eu me sentia completamente impotente. Só queria que a loja fechasse. Aquilo era um elefante branco na minha vida. Enquanto isso, minha tia havia começado a trabalhar em outra área e era muito competente no que fazia, mas, à despeito da menor dedicação com a videolocadora, a Vivi Vídeo continuava viva, e minha tia continuava assistindo de maneira quase compulsiva filmes e séries naquele sofá rosa antigo da cobertura na Anita Garibaldi. Por mais irônico que pareça, ela baixava uma porção de lançamentos via torrent para então decidir o que deveria ser comprado para a loja.

Escrevo isso no momento em que todo o acervo da loja (cerca de 17.000 fitas VHS e 5.600 DVDs) está sendo vendido. Pedi pro meu pai me separar alguns filmes, que agora organizei em um dos nichos da minha biblioteca. Fico pensando no quanto fui privilegiada por ter conhecido ainda criança a obra do Jacques Tati, do Peter Greenaway, do Woody Allen. Também é engraçado como a simples menção a títulos de filmes célebres dos anos oitenta e noventa (alguns dos quais eu sequer assisti) me fazem voltar no tempo instantaneamente: Bagda Café, Um peixe chamado Wanda, Dormindo com o inimigo, Harry & Sally, Shirley Valentine, Dança com lobos, Mississippi em chamas, Tomates verdes fritos.

É um sábado ensolarado, a Vivi Vídeo vai fechar nas próximas semanas e eu estou indo a pé em direção a uma feira de vinis (ironia detectada). Desde agosto do ano passado, quando minha tia sucumbiu a um câncer, é a segunda vez que a família toma a decisão de desmanchar algo que fazia parte dela há décadas; a primeira foi no fim do ano passado, quando “nos livramos” de tudo que havia dentro do apartamento dos meus falecidos avós (roupas, quadros, cadeiras, tapetes, panelas, bottons, colares). Ainda que estivesse mais do que na hora de isso acontecer, tenho a sensação de que minha tia, com aquela aparência de pessoa prática e direta, tinha por outro lado uma imensa dificuldade em desfazer-se desse passado no qual a gente podia andar, sentir o cheiro e viver o filminho de nossas vidas um milhão de vezes.

Acho, enfim, que também vou chorar quando não tiver mais o meu elefante branco a um quilômetro de casa.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.