Sobre uma poeta que só conhece o mar pelo rumor que faz um livro

Por Victor da Rosa

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Este livro recente de Ana Martins Marques, O livro das semelhanças, entre outras coisas, poderia ser comparado a um espelho, ou melhor, devemos ler seus poemas como se estivéssemos em uma sala de espelhos, sempre desconfiando das suas pistas e mesmo das imagens que eles nos indicam — e que tanto nos surpreendem. Além disso, o livro também se parece com ele próprio, embora não possamos ter certeza se o livro a que o título se refere é realmente este que temos em mãos… Em suma, toda semelhança é também uma forma de armadilha, já que toda armadilha, por sua vez, deve se parecer com algo diferente daquilo que manifesta, para lembrar do livro anterior da poeta, Da arte das armadilhas.

Conforme escreveu Michel Foucault em As palavras e as coisas, obra que poderia ser considerada o grande tratado do século XX sobre o assunto, uma semelhança é o que há de “mais manifesto e mais oculto na linguagem”. Quer dizer, uma semelhança precisa ser assinalada na linguagem, criando vínculos entre a palavra e o mundo, tornando o mundo assim inteligível, mas a mesma semelhança não será jamais transparente, e sim um ziguezague indefinido e um pouco secreto, ou então um “biombo”, já citando uma das primeiras peças do livro da poeta, “Capa”: “Um biombo/ entre o mundo/ e o livro”. Enfim, semelhança é tudo aquilo que permanece instável entre duas regiões, não justamente nas palavras ou nas coisas, e sim entre elas. O poema anuncia que as palavras e as coisas — o livro e o mundo — vão se separar.

Antes ainda de “Capa”, o livro de Ana Martins se inicia com o poema “Ideias para um livro”, que ao todo são seis, entre as quais “Uma antologia de poemas escritos/ por personagens de romance”, sendo a sua última ideia, aí sim, a do livro que temos em mãos: “Este livro/ de poemas”. Mas qual? O procedimento do poema mais uma vez é ambíguo, evasivo: além de ser um modo de anunciar o próprio livro, é também de retardá-lo, ainda mais por se tratar de uma espécie de anti-poema, e esse efeito de retardamento é confirmado com a série de poemas “Livro”, que vem na sequência e lembram a melhor poesia de Joan Brossa — a rigor, aliás, é como se o livro começasse só na última parte, intitulada “O livro de semelhanças”. De resto, quanto à maneira como “Ideias para um livro” termina, de modo abrupto, seco talvez, lançando mão, embora de um jeito meio venenoso, de um recurso que os pré-modernistas chamavam de “chave de ouro”, enfim, a poeta na verdade esconde muito mais do que diz.

Uma das consequências de leitura sugerida por esse modo um pouco evasivo de composição é que, como escreve Foucault a respeito da pintura de Velásquez, o livro de Ana Martins nos lança em “uma rede complexa de incertezas”. Não se trata de incertezas apenas sobre o fazer literário, tão recorrentes nos poemas metalinguísticos, mas também sobre o amor e, como queira, sobre o mundo, ou seja, as coisas, os objetos, as praias, os percursos dos mapas, os lugares-comuns. Na poesia de Ana Martins, em todo caso, todos esses saberes se parecem: são costurados por pequenos fios — firmes, frágeis. Mais do que isso, o livro nasce e se completa somente para que possa se desfazer depois, seja enquanto poeira ou luz, como na imagem sugerida em “Poema de trás pra frente”, o último de todo o livro: “acendo um poema em outro poema/ como quem acende um cigarro no outro/ que vestígio deixamos/ do que não fizemos? (…)”.

É óbvio até que a poesia de Ana Martins, desde o primeiro livro, A vida submarina, testemunha sobre um mundo que não existe fora do poema, e por isso seus textos são repletos de pontos cegos, recomeços, soluções às vezes enigmáticas de tão abruptas, movimentos em torno deles próprios, e por isso também a poeta (por meio, por exemplo, dos títulos) nos lembra a todo momento que estamos lendo poemas: “Primeiro poema”, “Segundo poema”, “Boa ideia para um poema”, “Não sei fazer poemas sobre gatos” etc. O mundo da poesia de Ana Martins é como se fosse dobrado sobre si mesmo, conforme a imagem de um mapa sendo fechado, que a poeta sugere no último poema da série “Cartografias”. Por isso é que, ao tratar da vida, Ana Martins se refere a uma vida submarina. É como se os poemas estancassem as palavras.

Por fim, O livro das semelhanças é também semelhante aos dois livros anteriores da poeta. Afinal, Ana Martins se dedica a um percurso circular, além de traçado lentamente, seja por meio da investigação sobre a aparência das coisas, à maneira de Francis Ponge; de uma tentativa de juntar os cacos da poesia lírica; ou de interrogações sobre a natureza do encontro, ou do tempo. Por outro lado, neste livro, é possível notar uma poeta que, além de experimentar recursos novos — e é notável perceber como já domina a técnica do enjambement, associada aos versos mais longos, outra novidade nos poemas da autora, que sempre tiveram uma métrica tão alinhada —, também parece ainda mais à vontade em seus textos, dona de uma ironia sempre sutil, só que agora mais franca também. Enfim, seguimos acompanhando os passos dessa poeta singular, mesmo que seja para encontrá-la “na esquina das nossas ruas/ que não se cruzam”. Afinal, parafraseando outro de seus poemas, todas as palavras deste livro, mesmo que elas não sejam, parecem escritas para você.

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Sinopse: Esta nova reunião dos poemas de Ana Martins Marques parece ser a culminação de um dos caminhos mais relevantes da lírica brasileira dos últimos anos. Estão aqui, com uma força que já podia ser antecipada em seus livros anteriores, peças que versam, sobretudo, a respeito da tentativa — sempre temerária, mas também desafiadora — de recuperar o mundo e as coisas por meio da palavra. Porém, a autora sabe que vivemos tempos fraturados, em que experimentamos aquilo que poderia ser nomeado como uma certa falência da mimese, pois traduzir o real literariamente é deparar com o abismo que se interpõe entre o mundo sensível e a folha em branco. E Ana desconfia do quanto isso tem de frágil, de problemático — e de igualmente fascinante.

Evento de lançamento:

Belo Horizonte — Sábado, 29 de agosto, às 11h, na Livraria e Editora Scriptum (Rua Fernandes Tourinho, 99, Savassi).

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Victor da Rosa é crítico literário e doutor em literatura.

Lisbeth está de volta

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Depois de muita espera, finalmente A garota na teia de aranha chega às livrarias.

Hoje, 27 de agosto, é o dia do lançamento mundial do quarto livro da série Millennium, escrito por David Lagercrantz, que dá continuidade às histórias de Stieg Larsson publicadas há 10 anos. Na entrevista coletiva realizada ontem na Suécia, Lagercrantz confessou que “sentia medo de não estar à altura” dos três livros da série escritos por Larsson, mas a recepção, como mostram as resenhas do The New York TimesUSA Today The Guardian, garantem que a nova aventura de Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist vai agradar aos novos e antigos leitores de Millennium. Quem se encantou com as personagens fortes e polêmicas em Os homens que não amavam as mulheresA menina que brincava com fogoA rainha do castelo de ar, com certeza não vai perder este novo capítulo da série.

Neste novo livro, Lisbeth e Mikael estão presos a uma teia de aranha mortífera e terão mais uma vez que unir forças, agora contra uma perigosa conspiração internacional. É tarde da noite quando Blomkvist recebe o telefonema de uma fonte confiável, dizendo que tem informações vitais aos Estados Unidos. A fonte está em contato com uma jovem e brilhante hacker — parecida com alguém que ele conhece. Blomkvist, que precisa de um furo para a revista Millennium, pede ajuda a Lisbeth. Ela, porém, tem objetivos próprios.

A seguir, leia a tradução da resenha publicada ontem no The New York Times, por Michiko Kakutani.

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A garota na teia de aranha traz de volta a dupla de detetives de Stieg Larsson

Os fãs do cativante e estranho casal da ficção policial moderna criado por Stieg Larsson — a genial hacker punk Lisbeth Salander e o seu parceiro ocasional, o determinado jornalista investigativo Mikael Blomkvist — não ficarão desapontados com suas aventuras mais recentes, escritas não pelo criador dos personagens, Stieg Larsson (que morreu de um ataque cardíaco aos cinquenta anos, em 2004), mas por um jornalista e escritor sueco chamado David Lagercrantz. Apesar de haver alguns sobressaltos ao longo do romance, Salander e Blomkvist sobreviveram intactos à transição de autores e continuam tão atraentes quanto sempre foram.

Em A garota na teia de aranha, a dupla se envolve no caso do enigmático cientista da computação Frans Balder: um proeminente especialista em inteligência artificial que se vê enredado em uma trama global envolvendo a Polícia de Segurança Sueca, a máfia russa, espiões industriais do vale do Silício e interesses de segurança nacional dos Estados Unidos.

Os esforços de Lagercrantz para conectar crimes na Suécia a maquinações dentro da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA) são confusos e forçados — uma tentativa óbvia de capitalizar em cima das revelações de Edward Snowden sobre a agência e do debate a respeito dos seus métodos de vigilância. Por outro lado, os leitores de Os homens que não amavam as mulheres não foram arrebatados por conta da trama (fortemente baseada em clichês cinematográficos de serial killers), de sua plausibilidade ou da visão política anti-autoritarista de Larsson. Eles foram arrebatados pelo livro e pelos dois subsequentes — A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo de ar — por causa do charme rude de Salander e Blomkvist e da química improvável entre os dois. E também porque Larsson foi tão hábil em retratar uma Suécia taciturna e com ares noir que transformou o estereótipo de uma Escandinávia limpa e resplandecente (onde as pessoas dirigem Volvos e compram móveis da Ikea) em uma terra de invernos longos, assombrada pelos fantasmas de Strindberg e Bergman.

Em A garota na teia de aranha, Langercrantz parece entender instintivamente o mundo que Larsson criou e os seus dois investigadores nada convencionais: Blomkvist, o repórter dedicado e honrado (e improvável sedutor de mulheres de meia-idade), e Salander, a garota hostil e machucada que parece uma versão raivosa e punk de Audrey Hepburn (se você conseguir imaginar Holly Golightly com tatuagens e piercings em vez da tiara), que luta com as habilidades arrasadoras da Lara Croft nos videogames.

Lagercrantz captura o cansaço, e até a vulnerabilidade, que se esconde por detrás da aparência de força desses dois personagens, e entende que eles são motivados por uma sede de justiça — Blomkvist por causa de um idealismo combativo, e Salander, de uma determinação para vingar o abuso que sofreu quando criança nas mãos do pai, Zala, um ex-agente da União Soviética que desertou e virou o comandante de uma vasta organização criminosa.

Assim como os romances anteriores, A garota na teia de aranha dá mais pistas sobre o passado de Salander, que lançam nova luz sobre como essa antiga vítima se tornou uma sobrevivente determinada e impiedosa, e foi capaz de se reinventar como uma espécie de super-heroína vingadora. De fato, a sua misteriosa gêmea Camilla, há muito desaparecida, ressurge aqui em algumas cenas exageradamente melodramáticas como sua arqui-inimiga, uma mulher bonita e perigosa que parece mais uma vilã de um filme de James Bond do que um ser humano de verdade.

Um personagem bem mais interessante e comovente é August, filho de Balder, um menino autista de oito anos de idade: um savant extraordinariamente talentoso como artista e matemático, mas severamente traumatizado pelos maus-tratos que sofreu do amante violento da mãe e quase incapaz de falar. August, que testemunhou o assassinato do pai e desempenha um papel crucial na busca pelo assassino, fará com que alguns leitores se lembrem do narrador autista do emocionante romance de 2003, O curioso incidente do cão a meia-noite, de Mark Haddon (posteriormente adaptado para o teatro e vencedor do Tony Award). Lagercrantz faz desse menino um personagem cativante. Seu sofrimento e suas habilidades excepcionais o transformam numa espécie de alter-ego de Lisbeth Salander, que usará toda a sua habilidade, toda a sua engenhosidade — em hackear, coletar informações e em sobreviver — para protegê-lo, quando os inimigos do pai do menino se lançam em sua caçada.

A garota na teia de aranha é menos sangrento e aterrorizante que os livros anteriores. Em outros aspectos, Lagercrantz parece ter canalizado — de maneira bastante hábil, em sua maior parte — o estilo narrativo de Larsson, misturando clichês do gênero com detalhes investigativos e originais, e concebe reviravoltas que lembram cenas dos romances de Larsson, com descrições muito bem pesquisadas sobre essa terra sem lei que é o lado obscuro da internet. É provável que a NSA tenha entrado na história em parte como um meio de prestar homenagem ao anti-autoritarismo de Larsson e sua visão sombria do poder do estado (desenvolvida de maneira mais completa em A rainha do castelo de ar, que abordava a corrupção política na Suécia e a conduta ilegal da Polícia Secreta).

E, ainda que o envolvimento da NSA com o caso investigado por Salander e Blomkvist nem sempre seja descrito por Lagercrantz de forma totalmente convincente, sua narrativa demonstra tanta segurança e agilidade nas sequências finas do livro que ele supera facilmente essas passagens mais dúbias.

Em vez de parar e analisar a plausibilidade de parte das conspirações interligadas em A garota na teia de aranha, o leitor vira as páginas com rapidez para ver como Salander e Blomkvist montarão as peças do quebra-cabeça do caso Balder (com grande ajuda de August). Nos perguntamos como as decisões tomadas por eles no calor do momento — em plena fuga ou sob ataque — lançam nova luz sobre quem eles são a esta altura de suas vidas. E, se a missão de cada um — no caso dele, desvendar a história de Balder; no dela, rastrear a organização criminosa comandada por seu pai odiado — os colocará em rota de colisão ou os irá transformar num par, romântico ou não, mais uma vez.

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Leia um trecho exclusivo de A garota na teia de aranha

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Autoironia fina: a maior forma do humor

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Para o colega Jaguar, com quem trabalhou em O Pasquim no fim dos anos 60, o diretor de fotografia de cinema Edgar Moura e o cartunista Demo — codinome que o mesmo Edgar usava para rabiscar nas páginas do tabloide carioca — são “dois caras muito vivos que se juntaram numa só pessoa física para não pagar dois impostos de renda”. Na época, Edgar assinava a direção de fotografia do clássico Bar Esperança, de Hugo Carvana, e, segundo relata o mestre do humor na continuação da piada, “nas horas vagas de fotógrafo Edgar desenhava ‘nas coxas’ em guardanapos do Bar.

Quatro décadas, dois livros emblemáticos publicados sobre fotografia de cinema e uma considerável coleção de rabiscos e elogios humorísticos depois, o mesmo Demo e o mesmo Edgar Moura na mesma pessoa física são — é — o mais novo colaborador do Blog da Companhia das Letras. Para a estreia, tema mais contemporâneo impossível: as selfies na sua melhor forma. Como definiu outro padrinho, Millôr Fernandes, no prefácio do livro Apresentações, de seu pupilo também dos tempos áureos do Pasquim, o traço de Edgar “por tudo perpassa (?) o mais fino humor, em sua forma melhor, a ironia, em sua forma maior — autoironia. Sem explicitar, Edgar deixa claro que não pretende salvar o mundo com a sua profissão. Nem com seu livro. Acho bom. (…) Bom de traço e de significado, o Edgar. Quase menino, não chegou a amadurecer desenhos e legendas, se mandou para artes e ofícios mais importantes. Cinema, iluminação, direção de fotografia, estudos dessas habilidades urbe et orbi. De longe eu o acompanhava. Em nossas profissões, apaixonantes, jornalismo, ciclismo, tiro ao alvo, cinema, roleta russa, todos, mais ou menos, nos acompanhamos. Vi Edgar crescer — inclusive em tamanho, acho que chegou aí a um e noventa — pelas ruas de Paris, Bruxelas, Michigan, e até Moçambique (até por que, Millôr?)”.

Em roda de conversa com o mesmo Millôr, ao ser indagado pelo ídolo se ele achava que tinha uma profissão inusitada, Edgar respondeu, resumindo na mais fina autoironia: “Eu?.. tenho… a-acho que é… porque não precisei estudar para fazer o que faço”. Eis Edgar Moura, agora todo mês aqui no Blog.

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Edgar Moura é diretor de fotografia e autor de Câmera na mão — Som direto e informação (Funarte, 1985), Coleção de fotografia (Senac, 2008) e 50 anos luz: câmera ação (Senac, 2009). É o novo colunista mensal do Blog da Companhia das Letras.

Os seis livros que estou sempre lendo (parte 1)

Por Luisa Geisler

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Chuto que o “hábito de leitura” (muitas aspas) em geral envolve mais de um livro. Pelo menos, das pessoas que conheço e que leem, essa amostra de gente privilegiada. Após cuidadosa análise do meu perfil na rede social Goodreads, comecei a perceber um certo padrão de quais livros eu lia ao mesmo tempo, porque sempre estava lendo mais de um livro ao mesmo tempo. E são seis (mínimo três): a graphic novel, a não ficção, o livro parado, o audiobook, o livro aleatório e o clássico.

Decidi postar a respeito, porque o único lugar onde me deixam fazer pseudoteorias sobre os livros que leio é aqui, no Blog da Companhia.

Obrigada, Blog da Companhia.

Resolvi dividir isso em mais de um post porque não quero ficar correndo e cortando e mudando caracteres. O post de hoje é a introdução às categorias (a seguir) e a categoria clássicos (mais a seguir). Provavelmente, teremos mais dois posts. Talvez mais um só. Talvez nenhum. Provavelmente mais um. A ver.

Vamos às categorias.

6 — A graphic novel.
Tudo que tem figurinhas. Tudo que não entra no tradicional livro cheio de palavras. Eu nem sei a terminologia correta: HQ, graphic novel, livro interativo, livro infantil pop-up que leio pra minha irmã de dois anos.

No momento, é Haarmann, de Peer Meter e Isabel Kreitz (2010, Carlsen Verlag).

5 – A não ficção
O termo é horrível. Mas envolve tudo que não é poesia, nem prosa. É/foi uma leitura particularmente comum na faculdade, em que fui bolsista de pesquisa em economia e, depois, viciada no próprio TCC em antropologia. Muitas vezes misturado com a categoria #4.

No momento, é Pode o subalterno falar?, da Gayatri Chakravorty Spivak (2010, Editora UFMG).

4 — O livro parado
Esse eu já vou voltar a ler, ainda não me esqueci da história, mas devia retomar logo. Está numa espécie de limbo em que eu devia seguir a leitura logo ou recolocar na estante (trilha sonora dramática). Fica numa pilha entre a estante e a escrivaninha.

No momento, é Sábado, do Ian McEwan (2005, Companhia de Bolso).

3 – O audiobook
São livros que deixo em áudio enquanto arrumo as coisas, faço as unhas, cozinho e outras atividades femininas que baseiam minha personalidade. Em geral, precisam ser livros mais conhecidos e best-sellers (sem juízo de valor aqui), de maneira que exista o audiobook. Ou isso, ou são clássicos-clássicos, já disponíveis na internet gravados por vozes de celebridades.

No momento, é Gone Girl, da Gillian Flynn (2012, Random House Audio).

2 — O livro aleatório
O livro por acaso. O livro que alguém me emprestou e que furou a fila. O livro que estava na estante há anos.

No momento, é Respiração artificial, do Ricardo Piglia (2010, Companhia de Bolso). Eu o achei no balaio de uma grande magazine por cinco reais (!) enquanto comprava grafite pré-aula.

1 — O clássico
É o livro que me desafia, de onde roubo ideias. É o livro que rabisco demais. Muitas vezes misturado à categoria #3.

No momento, é A Room of One’s Own, da Virginia Woolf (Penguin Modern Classics, 2002).

Essas categorias se intercruzam e se completam, e nada é muito normativo. Às vezes, tenho três livros aleatórios e nenhum clássico. É a vida, segue em frente, tem outros livros, já diria o meme.

Os clássicos têm importância pra mim porque compõem uma biblioteca que eu mesma construí. Fui criada numa família de classe média educada e leitora, mas não o tipo de leitora que eu me tornei. Não que isso seja ruim (ou bom), mas a primeira edição de Madame Bovary eu comprei aos dezessete anos num sebo. Não quero dizer que sou a pobre menina que juntou o troco do pão pra comprar Dublinenses, mas vocês entenderam.

Conto isso várias vezes, mas aos doze anos, tentei ler Grande SertãoVeredas. Entendi droga nenhuma (eufemismo). Fui relendo e crescendo com esse livro. A leitura de um clássico não é necessariamente prazerosa como o audiobook, que posso ouvir enquanto faço lasanha. Mas é uma leitura de desvendar e ir encaixando o livro com outras experiências, até formar algo que faça sentido. É esse tipo de satisfação, esse pequeno quebra-cabeça particular. Eventualmente, fiz uma tatuagem de Travessia, um livro que leio anualmente. Sei que nem aos oitenta anos vou entendê-lo totalmente. E que nem aos oitenta vou entendê-lo como o entendi aos trinta.

E esses clássicos — esses que eu estou sempre lendo de fato — são os livros que são só meus.

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Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

O Vilarejo: Processo criativo

Por Raphael Montes

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Uma das ilustrações de Marcelo Damm para O Vilarejo.

Nesta semana chega às livrarias meu novo livro, O Vilarejo, pelo selo Suma de Letras. Trata-se de um romance de terror, com catorze ilustrações incríveis que complementam a narrativa, feitas pelo Marcelo Damm. Normalmente, sou bastante organizado e metódico ao escrever meus livros. No entanto, o processo criativo de O Vilarejo foi inusitado, totalmente sensorial e despretensioso.

Suicidas, meu romance de estreia, foi escrito dos 16 aos 19 anos. Dias perfeitos, escrito entre os 20 e 23 anos. O que eu escrevi entre os 19 e 20 anos? A resposta é O Vilarejo. Em 2010, enquanto procurava uma editora para publicar Suicidas e rascunhava os primeiros capítulos de Dias perfeitos, eu estava devorando as obras de Poe, de Lovecraft, dos irmãos Grimm e de Stephen King. Todo esse mergulho na literatura de horror gótico e de suspense me levou a escrever histórias situadas em um vilarejo distante, incrustado num vale isolado pela neve. Queria explorar a vida daquelas pessoas em situações extremas, passando fome, lutando pela sobrevivência e desprovendo-se de sua racionalidade e moralidade.

Escrevi as histórias sem qualquer desejo de publicá-las — fui fazendo conforme tinha as ideias, sem saber exatamente onde queria chegar. Com o tempo, elegi uma linha mestra: o romance se baseia na teoria do padre e demonologista Peter Binsfeld, que, em 1589, fez a ligação de cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente responsável por invocar aquele respectivo pecado nos seres humanos. Assim, cada história do livro explora um pecado capital, apresentando gradualmente a degradação dos moradores do lugar. Ao longo das páginas, o próprio vilarejo vai sendo dizimado, maculado pelo frio e pela fome.

Quando terminei de escrever as sete histórias, mostrei ao meu amigo Marcelo Damm, desenhista talentoso. Decidimos fazer um livro com ilustrações, ao estilo de alguns trabalhos de Lovecraft e Neil Gaiman. Ao longo do ano seguinte, pensamos, discutimos e elegemos as catorze ilustrações que agora figuram em O Vilarejo. De posse delas, optei por reescrever partes do romance e por alterar os tempos verbais, trazendo-os para o presente — assim, a história ganha um tom de imediaticidade e perturbação real. Por fim, antes de mostrar ao editor, escrevi um prefácio e um posfácio.

Ao tentar entender em que “modelo” se encaixava O Vilarejo, percebi que se tratava de um romance fix up. Criado nos Estados Unidos nos anos 1950, o romance fix up é composto por histórias independentes que se inter-relacionam num todo coerente, de tamanho e complexidade semelhantes ao romance. O livro não foca em nenhum personagem, contando sobre todos de um universo em comum; no caso, o vilarejo. Trata-se de um estilo pouco explorado na literatura brasileira e que merece atenção não só por seu caráter híbrido (algo tênue entre livro de contos e romance), como também pelas possibilidades que traz de agilidade e fluidez à narrativa.

Assim, em O Vilarejo, as histórias podem ser lidas em qualquer ordem, sem prejuízo de sua compreensão, mas se relacionam de maneira complexa, de modo que uma personagem de passado misterioso tem sua história explicada em outro conto e, por vezes, um conto esclarece — ou ainda modifica — o final de outro. Ao término da leitura, as sete histórias convergem em uma única e surpreendente conclusão.

Semana passada, recebi o primeiro exemplar do livro. Ficou lindo! Espero que todos se aventurem no vilarejo. Antes, no entanto, recomendo vestir um bom casaco e levar consigo uma faca bem afiada. A gente nunca sabe o que vai encontrar pelo caminho…

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Eventos de lançamento de O Vilarejo: 

São Paulo — Terça-feira, 25 de agosto, às 18h30, na Loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura (Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional).

Rio de Janeiro — Sábado, 5 de setembro, às 18h30, no Estande da Companhia das Letras na Bienal Internacional do Livro do Rio (Pavilhão Azul, G08/H07).

Rio de Janeiro — Domingo, 13 de setembro, às 16h, no Estande da Companhia das Letras na Bienal Internacional do Livro do Rio (Pavilhão Azul, G08/H07).

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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