Dave Eggers fala sobre O círculo

Situado num ponto indefinido do futuro, O círculo conta a história de Mae Holland, uma jovem contratada pela mais poderosa empresa de internet do mundo. Nascida e expandida a partir de um campus na Califórnia, O Círculo absorveu todas as empresas de tecnologia até então conhecidas, unificando e-mails pessoais, redes sociais, transações bancárias e compras virtuais em seu sistema operacional universal, estabelecendo a identidade online e uma nova era de civilidade e transparência. Ao percorrer os amplos espaços da empresa, seus imponentes refeitórios de vidro e os confortáveis dormitórios para os que passam a noite no trabalho, Mae se empolga com a modernidade e com o movimento da empresa. Festas que viram a noite, músicos célebres tocando no jardim, equipes esportivas, clubes, cafés e até mesmo um aquário com peixes raros mandados buscar na Fossa das Marianas pelo próprio CEO. Mae não acredita na própria sorte, em sua grande oportunidade de trabalhar para a mais influente empresa do mundo — mesmo quando seus laços com o campus ficam cada vez mais estremecidos, mesmo quando um inusitado encontro com um colega de trabalho a deixa abalada, mesmo quando o seu papel em O Círculo se torna cada vez mais público.

O que começou como uma cativante história de ambição e idealismo de uma mulher, logo se revela um romance pulsante de suspense, abordando questões como memória, privacidade, democracia e os limites do conhecimento humano.

Dave Eggers respondeu algumas perguntas sobre O círculo, que chega nas livrarias no início de setembro. Leia:

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Seu livro é sobre o Google, o Facebook ou alguma empresa específica?
Não, nada disso. O livro se passa após uma empresa chamada O Círculo ter absorvido todas as grandes empresas de tecnologia existentes hoje em dia, modelando em um só os sistemas de busca e rede social, o que lhe permitiu se expandir de modo muito acelerado, em tamanho e poder.

A descrição do campus é tão vívida. Todos irão concluir que você esteve em todos os campus do Vale do Silício, especialmente no Google.
A certa altura eu pensei que deveria visitar esses campi de tecnologia, mas por desejar um livro independente de quaisquer premissas estabelecidas na vida real, optei por não fazê-lo. Na verdade, nunca passei pelo Google, Facebook, Twitter ou qualquer outro campus da internet, sequer li os livros sobre eles. Não queria ser influenciado por nenhuma empresa ou pessoas existentes. Porém, passei a maior parte dos últimos vinte anos de minha vida no sul da baía de São Francisco, tendo, portanto, vivido muito próximo a tudo isso por um longo período.

Há um bocado de novos programas e sistemas operacionais inventados em O Círculo. Considerando a velocidade com que a tecnologia avança na vida real, foi difícil acompanhar esse movimento?
Por diversas vezes eu imaginava algo que uma empresa como O Círculo poderia conceber, algo meio assustador, somente para ler exatamente sobre aquela invenção, ou mesmo algo mais extremo, no dia seguinte. O mesmo se deu com os nomes com que eu batizava alguns dos programas e sistemas, que tive que alterar por vezes ao descobrir que já existiam de fato. Mas no geral, tentei escrever um livro que não fosse exclusivamente sobre a tecnologia em si, e mais sobre suas implicações para o nosso sentido de humanidade e equilíbrio.

Marque na agenda

Curso com Ana Maria Bahiana
Segunda e terça-feira, 18 e 19 de agosto, às 19h
Autora de Almanaque 1964 ministra o curso “Como ver um filme” na Casa do Saber. Inscrições no site.
Local: Casa do Saber – Rua Dr. Mario Ferraz, 414 – São Paulo, SP

Drauzio Entrevista com Lira Neto
Segunda-feira, 18 de agosto, às 19h
Drauzio Varella entrevista Lira Neto, que autografará Getúlio - Da volta pela consagração popular ao suicídio (1945-1954). As senhas começam a ser distribuídas no dia do evento, às 9h.
Local: Teatro Eva Hertz na Livraria Cultura – Av. Paulista, 2073 – Conjunto Nacional – São Paulo, SP

Lançamento de Obra autobiográfica
Terça-feira, 19 de agosto, às 18h30
Lançamento da autobiografia intelectual de um dos maiores pensadores brasileiros no século XX.
Local: Livraria Cultura Cine Vitória – R. Sen. Dantas, 45, Centro – Rio de Janeiro, RJ

Debate com Jean Wyllys no Rio de Janeiro
Quinta-feira, 21 de agosto, às 18h30
Jean Wyllys participa de debate na UFRJ e autografa o livro Tempo bom, tempo ruim.
Local: Salão Nobre do IFCS da UFRJ – Largo de Francisco de Paula, s/n – Rio de Janeiro, RJ

Ana Maria Bahiana autografa em Recife
Quinta-feira, 21 de agosto, às 19h
Bate-papo com a autora de Almanaque 1964 e sessão de autógrafos do livro que traz uma linha do tempo do ano que mudou tudo.
Local: Livraria Cultura Paço Alfândega – Rua Madre de Deus, s/n, Recife Antigo – Recife, PE

23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
De 22 a 31 de agosto
Confira a programação da semana dos autores da Companhia das Letras na Bienal do Livro de São Paulo.

  • Sexta-feira, 22 de agosto:
    17h – “Cozinhando com Palavras – Pão Nosso“, com Luiz Américo de Camargo (N500, Alameda N – Retire seu ingresso gratuito 30 minutos antes no local)
  • Sábado, 23 de agosto:
    16h – “Criação ilustrada”, com Renata Bueno (Espaço Imaginário – retirar senhas 30 minutos antes no local)
    16h – Lançamento do livro O pirata e o farmacêutico, de Henning Wagenbreth (no Estande do Goethe-Institut São Paulo)
    16h - “Ilustração Brasileira”, com Fernando Vilela, Roger Mello, Odilon Moraes e Renato Moriconi (mediação) (Salão de ideias – L298, Alameda L – Retire seu ingresso gratuito 30 minutos antes do debate, na bilheteria do Salão de Ideias)
    18h - Bate-papo com Kiera Cass (Arena Cultural – H201 – para o bate-papo não é necessário retirar senha)
    19h30 – Sessão de autógrafos com Kiera Cass (Arena Cultural – H201- Senhas a partir das 10h no estande da Companhia das Letras)
  • Domingo, dia 24 de agosto:
    14h – “Narrativas de assalto: o universal no novo gênero policial”, com Pablo De Santis, Raphael Montes e Joca Reiners Terron (mediação) (Salão de ideias – L298, Alameda L – Retire seu ingresso gratuito 30 minutos antes do debate, na bilheteria do Salão de Ideias)
    15h30 – Sessão de autógrafos de Dias perfeitos, com Raphael Montes (Estande da Companhia das Letras)
    16h - “Quase romance, quase memória”, com Carlos Heitor Cony, Heloisa Seixas e Ruy Castro (Salão de ideias – L298, Alameda L – Retire seu ingresso gratuito 30 minutos antes do debate, na bilheteria do Salão de Ideias)
    17h - “Cozinhando com palavras” e sessão de autógrafos de Pitadas da Rita, com Rita Lobo (N500, Alameda N – Retire seu ingresso gratuito 30 minutos antes no local)
    20h - “O lugar da crítica literária”, com Hans Ulrich Gumbrecht, Silviano Santiago e Rogério Pereira (Salão de ideias – L298, Alameda L – Retire seu ingresso gratuito 30 minutos antes do debate, na bilheteria do Salão de Ideias)
    20h - Sarau “70 anos de Paulo Leminski“, com os atores Elias Andreato, Cássio Scapin, Ana Cecília Costa e Leonardo Miggiorin (L700, Alameda L – Retirar senhas 30 minutos antes no local)
  • Segunda-feira, 25 de agosto:
    14h - “São Paulo Metrópole Musa”, com Maria José Silveira, Cristiano Mascaro, Carlos Augusto Calil e Cunha Júnior (mediação) (Salão de ideias – L298, Alameda L – Retire seu ingresso gratuito 30 minutos antes do debate, na bilheteria do Salão de Ideias)
    17h – “Fala sério! #SQN – Games e Literatura”, com Flávia Gasi, David de Oliveira Ramos e Daniel Pelizzari (Espaço Imaginário – retirar senhas 30 minutos antes no local)
    18h – “Ficção e memória na encruzilhada do tempo”, com Mary Del Priore, Alberto Mussa, Cao Hambúrguer e Cassiano Élek Machado (Salão de ideias – L298, Alameda L – Retire seu ingresso gratuito 30 minutos antes do debate, na bilheteria do Salão de Ideias)
    20h – “A música de concerto hoje”, com Arthur Nestrovski e Leonardo Martinelli (Salão de ideias – L298, Alameda L – Retire seu ingresso gratuito 30 minutos antes do debate, na bilheteria do Salão de Ideias)

Contação de histórias com o livro 100 palavras em São Paulo e no Rio
Sábado, 23 de agosto, às 17h
Venha para a contação de história do livro 100 palavras. Em São Paulo, o evento contará com pintura ao vivo do autor e ilustrador Gilles Eduar e participação de Kiara Terra.
Local:

  • São Paulo: Livraria Cultura do Shopping Bourbon – Rua Turiassú, 2100, Pompéia – São Paulo, SP
  • Rio de Janeiro: Local: Livraria da Travessa Botafogo – Rua Voluntários da Pátria, 97 – Rio de Janeiro, RJ

Sessão de autógrafos com Kiera Cass
Segunda-feira, 25 de agosto, às 16h
Kiera Cass está de volta ao Brasil e autografa A escolha em Fortaleza.
Local: Livraria Cultura – Av. Dom Luís, 1010, Meireles – Fortaleza, CE‎

Semana duzentos e dezessete

Por escrito, de Elvira Vigna
A prosa de Elvira Vigna ocupa um lugar único na literatura brasileira. Na contramão de tudo que soa tradicional ou corrente, a autora vem, desde o fim dos anos 1980, trilhando um caminho próprio, na criação de um universo pessoal que parece se expandir a cada romance ou conto que publica. Com uma linguagem cortante e antissentimental, e uma visão de mundo cáustica e desiludida, os personagens de Elvira caminham trôpegos por cenários de devastação afetiva, emocional e pessoal. Este Por escrito é uma história de separação. Mas engana-se quem espera encontrar aqui mulheres chorando pelos cantos da casa. As vidas de Molly, Izildinha, Valderez e das outras personagens do livro são tão inquietantes e inesperadas quanto a prosa da autora. Por escrito é também uma história de desencontros, em que as pessoas parecem não ver quem está à frente delas. E quem está presente na cena vai sumindo devagarinho sem ninguém notar. Ao nos virarmos para o lado, encontramos apenas quem não esperávamos que estivesse lá. Uma história de esperas, sem Ulisses que valham a pena. E de muitos erros.

Editora Paralela

Mulheres francesas não engordam, de Mireille Guiliano (Trad. de Marisa Murray)
As mulheres francesas não engordam, mas comem pão e doce, bebem vinho e fazem três refeições por dia. Ao revelar os segredos desse “paradoxo francês”, Mireille Guiliano nos dá uma fascinante lição sobre como cuidar da saúde e da aparência de forma elegante, convincente, inteligente e engraçada. Depois de passar uma temporada nos Estados Unidos quando garota, Mireille voltou para casa com dez quilos a mais na silhueta. Felizmente, o bom médico de sua família ofereceu-se para ajudá-la a recuperar a boa forma. O segredo? Nada de culpa ou privação, mas tirando o máximo das coisas de que você gosta mais. Agora, em uma simples mas eficiente estratégia, além de dezenas de receitas que você jura que são engordativas, ela revela os ingredientes para uma vida inteira de controle de peso. Uma vida de vinho, pão e até chocolate — sem medidas e sem culpas? Por que não?

A arte da procrastinação, de John Perry (Trad. de Marcelo Brandão)
Pode soar contrário ao senso comum, mas funciona: você pode realizar muitas coisas deixando-as para depois. Essa é a filosofia apresentada no livro A arte da procrastinação. Se você é do tipo que reluta em entregar as coisas no prazo estabelecido, se distrai facilmente, navega na internet em vez de pagar as contas, ou é do tipo que compra o presente do seu amigo a caminho da festa, este livro vai mudar sua vida. Com uma linguagem simples e direta, John Perry nos mostra, por meio de exemplos práticos, como repensar a importância de nossos afazeres e conseguir realizar todos eles (e muito mais!), mesmo quando adiamos aquelas tarefas mais chatas. Prepare-se para descobrir estratégias efetivas e cientificamente testadas contra a procrastinação, mas lembre-se de que, acima de tudo, é necessário aceitar sua tendência a deixar as tarefas para amanhã. Crie coragem, faça o que tem de ser feito, mas não deixe, é claro, de aproveitar o tempo que você perde.

Os contadores de histórias

Por Raphael Montes


Eu estava em um evento em São Paulo quando, na fila de autógrafos, um leitor fez o seguinte comentário: “Seu livro é tão bom que nem parece escrito por um brasileiro”. A frase dá o que pensar, não? Em geral, literatura nacional é ruim, chata, mal escrita?

Parece-me que o leitor brasileiro está redescobrindo o prazer de ler livros nacionais. Não estou falando dos leitores acadêmicos, estudiosos, jornalistas etc. Refiro-me, sim, ao jovem leitor, ao leitor de best-sellers que, antes de reparar na linguagem ou no estilo, quer mesmo é ler uma boa história. Com surpresa, esse público tem se deparado com obras brasileiras com boas histórias, muitas vezes melhores do que algumas estrangeiras que chegam por aqui, sem prejuízo na qualidade literária ou no estilo.

Comigo mesmo foi assim. Comecei o ano com a leitura de Nossos ossos (ed. Record), prosa longa de estreia de Marcelino Freire. Numa linguagem saborosa, quase cantada, Marcelino conta a história de um dramaturgo determinado a entregar o corpo morto de um michê a seus pais. Na trama, há o mistério de quem matou o michê e o dramaturgo vive cheio de angústias. A escrita flui com a densidade de um autor talentoso que atenta para a forma sem prejudicar a trama. Uma delícia de livro.

O mesmo vale para Biofobia (ed. Record), lido logo depois. Eu já conhecia o estilo do Santiago Nazarian de outros trabalhos, mas nesse último romance, ainda que mantidas as experimentações de linguagem, fica evidente sua preocupação em construir não só um romance existencial, mas também um thriller de um cantor de rock decadente sozinho em uma casa, repleto de sugestões obscuras e tensões. Vale dizer, é um romance a ser lido em diversas camadas: diverte na superfície, mas reafirma sua força em reflexões pertinentes ao leitor mais atento.

Continuei minha aventura de nacionais contemporâneos ao ler A cabeça do santo, de Socorro Acioli. A autora, que fez oficina literária com Gabriel Garcia Márquez, esbanja intimidade com a escrita ao narrar a jornada de Samuel, que acaba dormindo na cabeça oca e abandonada de uma estátua de Santo Antônio e consegue ouvir as preces que mulheres fazem ao santo casamenteiro. A premissa é divertida, mas o texto é forte, seco às vezes, num estilo muito próprio que me remeteu à literatura de cordel em alguns momentos.

Por fim, a maior surpresa do ano: Sérgio Y. vai à América, de Alexandre Vidal Porto. Cheguei a esse livro por acaso. Não tinha escutado falar do autor ou da história. Gostei da capa e comecei a ler. É daquele tipo de livro que quanto menos se sabe, melhor. Numa narrativa de linguagem simples, Vidal Porto trata de sexualidade e psicanálise para contar uma bonita história sobre a busca da felicidade. Vale muito a leitura.

Atualmente, estou imerso nas páginas de A vez de morrer, de Simone Campos, outra autora cuja obra eu já conhecia, mas me surpreende pela maturidade com que une qualidade literária e uma história forte e inusitada com uma protagonista feminina.

Aos leitores descrentes com a ficção brasileira contemporânea, chequem as obras dessas pessoas e depois venham me dizer o que acharam.

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.

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Em tradução (tradutores)

Por Caetano Galindo


(Atualização? A Ciça terminou a preparação do Graça Infinita [santa, santa santa!]; reli tudo e fechei o texto. Em produção! Yay! Tudo na mão do grande scefigno André Conti. Estudos de capa adiantados. O que eu vi até agora é, sério, mirabolante! Resta fechar. #WallaceIsComing)

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Então,

depois da copa, e antes da Flip, eu participei da Escola de Inverno de Tradução Literária. Uma ideia genial da UFF com a Biblioteca Nacional e, neste ano, o British Council e o British Centre for Literary Translation. É uma iniciativa de uma galera incrível, sob coordenação da Carolina Paganine e da Giovana Cordeiro Campos, com o mentorato intelectual do i-na-cre-di-tá-vel Johannes Kretschmer.

A ideia, megalômana, é a seguinte. Junte um grupo de tradutores do inglês pro português, some-se a ele um grupo que traduz do português pro inglês. Isso nesse ano. Já houve outras escolas, com outras línguas.

Esses tradutores levam seus projetos atuais, apresentam aos colegas, e todos trabalham juntos pra encontrar soluções melhores ou, na maioria das vezes, pra entender bem a profundidade do dilema dos outros.

Aprende-se muito nessas sessões.

Nesse ano, especialmente, foi muito impressionante ver o quanto a escola inglesa de tradução (havia uma canadense, mas os outros todos eram ingleses) é de saída mais livre que a nossa. Que aquela coisa de criar coragem e se afastar do texto em nome do resultado final, da fidelidade à língua de chegada (sem, claro, entrar numas de corrigir ou melhorar o texto, que até os franceses já pararam de fazer!), aquela coisa de acreditar na tua capacidade de criar literatura a partir do original, que às vezes a gente tem que martelar na cabeça dos alunos, pra eles é um dado.

Eles estavam produzindo traduções maravilhosas, em geral de literatura brasileira contemporânea. Estamos em boas mãos por lá.

Mas a escola de 2014, como eu disse, tinha participação do BCLT, que tem lá o seu modelo próprio de oficina.

E se as atividades vespertinas (essas aí de cima) já teriam sido mais que suficientes pra sacudir todo mundo e melhorar o nível do trabalho de cada um, as da manhã foram, pra mim, uma verdadeira reviravolta.

Era assim: sentávamos só nós, os brasileiros. Seis tradutores (gente com mais, gente com menos estrada que este que vos escreve), sob coordenação do grande Paulo Henriques Britto, pra traduzir, na presença do autor e com a colaboração dele, um trecho inédito do próximo romance de Sam Byers. Enquanto isso, no andar de cima, os ingleses faziam a mesma coisa com Daniel Hahn na presença do meu mais novo irmão adotivo, José Luiz Passos, AKA Joe Steps.

A ideia era produzir, lentamente, ao longo de uma semana (sábado e domingo inclusos) uma tradução de consenso do trecho. Palavra por palavra.

Eu, e todo mundo (depois a gente conversou sobre isso), cheguei lá achando que isso não tinha como dar certo. Que tradutor é tudo control freak. Que cada um tem sua verdade e morre de ciúme da bichinha. Que todos iam ficar defendendo sempre as suas ideias.

Mas não.

Foi incrível. Literalmente.

Foi uma revelação e uma revolução.

A ideia (óbvia, óbvio!) é de que o coletivo é sempre mais inteligente. De que nós acabamos produzindo um texto delicioso, que não teria sido o texto de nenhum de nós. Que era melhor que todos nós.

(E o original era bom pacas!)

E não fui só eu não, viu? Do Britto pra baixo, todo mundo ficou satisfeito, tocado e mudado.

Todo mundo abandonou por uns dias a sua escrivaninha e o seu computador e descobriu que é pior, sempre, do que dois outros juntos. Imagina seis-sete… ou dez! Porque o grupo ia crescendo na medida em que as pessoas iam chegando pra Flip (Lawrence Flores Pereira, Susanna Kampff Lages, Alison Entrekin, a LENDA…).

Todo mundo saiu de casa, saiu de si, saiu do ego, e voltou ao trabalho bem melhor e bem maior. Bem mais informado, mais embasado e mais competente.

Ana Fletcher, Annie McDermott, Jethro Soutar, Rahul “Vilson” Bery, Lucy Greaves, Zoe Perry, Alexandre “Pnin” Hubner, Amarílis Anchieta, Felipe “Felipóvitch” Vidal, Juliana Steil, Natalia Klussmann e eu, o Galinders, mais Danny Hann e seu Britto: os melhores tradutores do eixo Londres-Paraty!

Obrigado pra todo mundo e tomara que eu consiga, daqui por diante, botar nas traduções um mero pedaço do que aprendi com vocês. Porque foda mesmo foi voltar pra tal escrivaninha e ter que traduzir SOZINHO na semana seguinte.

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Graça infinita, que tem lançamento previsto para 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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