Tirar as barbas do molho

Por Lilia Moritz Schwarcz

Esboço de Spacca para As barbas do imperador em quadrinhos

Durante oito anos convivi diariamente com d. Pedro II. Nessa época, fazia uma pesquisa que resultaria na minha livre-docência, que em 1998 se converteu por sua vez no livro As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca tropical. O Barbas ganhou vida própria, merecendo o Jabuti de “Livro do ano” e já vendeu até hoje mais de 70.000 cópias. Depois da publicação, e durante um bom tempo, me tornei uma espécie de “dom pedróloga de plantão”, sendo chamada para reconhecer cartas, destrinchar a caligrafia terrível de nosso soberano e validar todo tipo de documento: uma assinatura, um pedido, uma resposta anônima. Por vezes era fácil reconhecer seus garranchos, em outros momentos era preciso procurar traços de sua personalidade para validar, ou não, a fonte. Em alguns momentos me orgulhava de d. Pedro, em outros ficava sinceramente decepcionada. O fato é que eu parecia viver ao lado dele; estava sempre em sua companhia.

De fato, estudar a biografia de uma pessoa como essa, uma espécie de ícone da nação, um espelho do Império brasileiro, implica um plano de vida. Significa entrar na intimidade do biografado concordar e discordar, aproximar-se dos amigos, mostrar predileção por essa ou aquela amante, brincar com as filhas, costurar com a esposa, ou mesmo perseguir propósitos ou ideias que constituíram a vida daqueles que resolvemos revolver e estudar. Como diz o historiador e embaixador Evaldo Cabral de Melo, certas vezes “é preciso calçar os sapatos do morto”.

E com Pedro II não seria diferente: li os seus diários (que pouco diziam sobre sua vida privada, já que eram sempre peças públicas), xeretei os documentos que encontrei em acervos brasileiros e do exterior, revolvi notícias, avaliei documentos de políticos e aos poucos fui me tornando uma amiga oculta e, à minha maneira distanciada no tempo, íntima.

Na época, estava interessada em entender como esse monarca trabalhou na construção de sua própria imagem através do financiamento de literatos, historiadores, e também fotógrafos, escultores e pintores. Com esse objetivo, levantei todo o material visual que pude encontrar e, apesar de estar escrevendo uma tese acadêmica, quase conseguia imaginar, como num filme, o cotidiano de d. Pedro, em meio a seus afazeres, viagens e jogos políticos.

De tanto conviver com a representação desse monarca, descobri como a barba era um símbolo fundamental na construção e fortalecimento da sua figura de estadista. Ela faltava na época do Golpe da Maioridade, em 1840; apareceu, meio rala (como que por milagre e obra dos retratistas do rei), na época do casamento; ficou branca por ocasião da guerra do Paraguai e foi expressamente engomada, para parecer ainda mais branca e imponente, no retrato póstumo de d. Pedro, feito pelo famoso fotógrafo Nadar. Enfim, por cada ângulo que observasse, surgia uma espécie de fantasma capilar de d. Pedro, ao mesmo tempo em que crescia a minha familiaridade com ele.

O imperador entrou de tal maneira na minha vida que quando fiz 40 anos ganhei uma festa surpresa e um lindo bolo. Melhor do que o chocolate era a imagem de d. Pedro que vinha junto dele, em um balão, com uma mensagem sintomática de minha identificação com o personagem: “por razões históricas não posso estar presente no aniversário dessa pesquisadora que tem mexido tanto nas minhas barbas”! A biografia é mesmo um gênero híbrido que joga com temporalidades, embaralha esferas públicas e privadas; tanto do biografado como daquele que escreve a biografia.

Ademais, não há historiador que não desenhe mentalmente seus personagens, como não há investigador que nunca tenha imaginado viver um pouco ao lado das cenas e dos protagonistas que tanto analisou. É como viver junto: bem ou mal acompanhado.

Pois no meu caso, a vontade virou uma espécie de realidade — em quadrinhos. Spacca e eu já trabalhamos juntos faz tempo. Com ele publiquei D. João Carioca em 2008, HQ que conta a história de outro monarca português quando em terras brasileiras. A pesquisa, a erudição e a seriedade são características que Spacca traz consigo e divide com sua imensa criatividade. Cada página foi investigada, cada uniforme pautado num modelo de época, cada paisagem inspirada em telas produzidas no contexto. Daquela vez, escrevemos juntos o roteiro. A despeito de termos nos pautado no livro que escrevi em coautoria com Paulo Cezar Azevedo e Angela Marques da Costa, A longa viagem da biblioteca dos reis, de uma maneira ou de outra o que fazíamos nascia ali, do nosso trabalho comum.

No caso deste nosso novo livro As barbas do imperador. D Pedro II, a história de um monarca em quadrinhos , a história foi a mesma, mas de certa maneira outra. Spacca animou-se com a ideia de transformar em quadrinhos o que era antes uma tese e depois um livro de quase 400 páginas. E ele simplesmente traduziu palavras em imagens, sem abrir mão da velha e boa seriedade e do compromisso com a documentação e a linguagem do século XIX. Se todo biógrafo sabe que ao fazer não ficção nunca escapa da ficção, nesse caso realidade e construção da realidade ocupam as mesmas páginas.

Se não satisfiz minha velha fantasia de viver um pouco ao lado da família imperial, pelo menos dei um jeito de, bem acompanhada pelo Spacca, satisfazer a curiosidade e chegar mais perto das “barbas”.

Dizem que parceria boa sempre deixa saudades. Pois vocês que nos aguardem. Passado o susto do lançamento desse livro já estamos (quase) prontos para a trilogia. Está chegando a hora de avançarmos até a Primeira República, que terá como protagonista outro grande personagem: Lima Barreto. Claro que isso é só um plano. Mas, de tanto imaginar, acabei acreditando.

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AS BARBAS DO IMPERADOR D. PEDRO II, A HISTÓRIA DE UM MONARCA EM QUADRINHOS
Sinopse:
Misto de ensaio interpretativo e biografia de d. Pedro II, As barbas do imperador, de Lilia Moritz Schwarcz, foi um marco na historiografia brasileira, apresentando uma visão nova e reveladora de nosso passado. Nesta edição, Spacca conduz o leitor a um verdadeiro passeio pelos temas do livro, transpondo a linguagem do ensaio e da biografia ao universo das HQs de forma vibrante e esclarecedora.

Evento de lançamento:

São Paulo Sábado, 26 de abril, às 11h no Teatro Eva Herz na Livraria Cultura do Conjunto Nacional Avenida Paulista, 2073
Confirme a sua presença pelo e-mail professores@companhiadasletras.com.br até o dia 23 de abril. Evento com certificado de participação.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros.

Quem é quem na Companhia das Letras

Nome: Nestor Turano Jr.

Há quanto tempo trabalha na editora? Iniciei na Companhia em janeiro deste ano.

Função: Trabalho no Departamento de Produção, na equipe da Fabiana, juntamente com a Tomoe, Patrícia, Bruno, Daniela e Olívia. Dentro do que tange a produção dos livros, faço de tudo um pouco, porém minhas principais atividades consistem em auxiliar nas reimpressões, na revisão das provas, e no controle do backup.

Um livro: O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

Uma citação ou passagem de livro:

“— Papai! Que bom que você veio! O vovô disse que você ia me contar uma história.

— Disse, é?

— É, mas ele não disse sobre o que era. Ele falou que só você sabia.

— Bom, acho… acho que é uma história sobre a morte.

— ‘A morte’?

— Na verdade é sobre a vida… mas a morte tem um papel importante.

— Eu não gosto da morte.

— Ninguém gosta. Mas a verdade, goste ou não… é que todo mundo morre. A vida é como um livro, filho. E todo livro tem um fim. Não importa o quanto você goste do livro… você vai chegar na última página… e ele vai terminar. Nenhum livro é completo sem o fim. E quando você chega lá… somente quando você lê as últimas palavras… é que você vê como o livro é bom. Ele parece mais real.” – Daytripper, de Gabriel Bá e Fábio Moon

“Voz que vem de todos os peitos esfomeados da cidade, de todos os peitos explorados da cidade. Voz que traz o bem maior do mundo, bem que é igual ao sol, mesmo maior que o sol: a liberdade.” – Capitães da areia, de Jorge Amado.

Sua parte favorita do trabalho: Acho muito bacana ver as provas de capa e de miolo circulando pelo departamento, pela minha mesa, e, dali a um tempo, estarem elas na forma de um livro — devidamente editado e produzido.

Por que você decidiu seguir essa carreira? Quando era bem mais jovem, gostava de criar histórias em quadrinhos para minha família ler. Dali para frente o gosto pela leitura, escrita e artes gráficas só aumentou. Tanto que na escolha da carreira, busquei uma que fosse capaz de abraçar texto e arte e trazê-los para o meu dia a dia, mas só bem depois descobri que existe uma formação acadêmica inteiramente voltada para esse objeto que sempre reuniu todos aqueles gostos — o livro. E do livro não quero sair mais.

 

Jacaré que nāo se mexe vira bolsa

Por Alexandre Vidal Porto


Há alguns anos, escrevia duas histórias ao mesmo tempo. A primeira era sobre uma psiquiatra que se apaixonava por um paciente; a segunda, sobre o assassinato brutal de uma travesti brasileira na Espanha.

Como a busca existencial de um adolescente paulista derivou dessas duas histórias é um mistério para mim. Muitas vezes os filhos não se parecem com os pais. Acho que foi esse o caso.  A única coisa de que me lembro é que o processo misterioso de transubstanciação se iniciou na Cidade do México, lá para os lados do Bosque de Chapultepec.

Eu sempre admirei pessoas que abandonaram uma vida insatisfatória pela esperança de algo melhor em outro lugar. Tenho curiosidade por quem saiu do Paquistão para dirigir um táxi em Nova York. Olho com interesse para o boliviano que vende brinquedos nos sinais de trânsito de São Paulo. De quanta coragem eles precisaram para recomeçar em um país estrangeiro?

O tal adolescente paulista Sergio Y. considera-se fadado à infelicidade. Para tentar mudar esse destino, procura Dr. Armando, um dos melhores psicoterapeutas da cidade. É este o ponto de partida da viagem que empreende.

A necessidade potencializa a coragem. Mas a coragem só se executa com otimismo. Quem abandona onde está acredita na possibilidade de a vida melhorar. Sergio Y. partilha a herança de otimismo do seu bisavô, Areg Yacoubian, de que a felicidade existe e de que vale a pena buscá-la.

Dr. Armando não sabia que Sergio Y. era corajoso e que sairia do Brasil para se reinventar em outro país. Anos depois da terapia, quando descobre os caminhos insuspeitos que a vida de seu ex-paciente tomou, fica chocado e demora a entender o que aconteceu.

Para Sergio Y. e os motoristas de táxi paquistaneses em Nova York e os ambulantes bolivianos em São Paulo a geografia, física ou social, impedia uma vida feliz. Para eles, “o que sou” e “ o que posso ser” eram limitados pelo “onde estou”. Quando o local em que estavam não permitiu felicidade, o deslocamento lhes surgiu como possibilidade existencial.

Essa história é para quem acredita nessa possibilidade e sente que tem toda a vida e todos os lugares do mundo para tentar ser mais feliz. Sergio Y. foi à América. Areg Yacoubian veio ao Brasil, mas a viagem dos dois foi a mesma.

Escrevi Sergio Y. vai à América entre Cidade do México, Brasília, Washington e Tóquio. Para ajudar na promoção do livro e acabar de escrever o próximo, resolvi me mudar para São Paulo.

É que o impulso do deslocamento é contagioso; e a vontade de ser feliz, também.

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SERGIO Y. VAI À AMÉRICA
Sinopse:
O jovem Sergio Y., bem-nascido e aparentemente sem grandes dramas na sua ainda curta existência embora se considere infeliz , é um “paciente interessante”, como diz o narrador. Frequenta o consultório regularmente, rememora aspectos da sua formação familiar, mas um dia desaparece para sempre, abandonando o tratamento. A esse mistério se acrescenta outro, acachapante, que tira a aparente serenidade do psiquiatra e o faz incursionar em uma busca que tem tanto de detetivesca quanto de psicanalítica.

Evento de lançamento:

São Paulo: Segunda-feira, 28 de abril, no Teatro Eva Herz na Livraria Cultura do Conjunto Nacional Av. Paulista, 2073
19h30 Drauzio entrevista Alexandre Vidal Porto
20h30 Sessão de autógrafos e coquetel

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Alexandre Vidal Porto nasceu em São Paulo, em 1965. Diplomata e mestre em direito pela Universidade Harvard, é colunista do jornal Folha de S.Paulo e autor de Matias na cidade (2005) e Sergio Y. vai à América (2014).

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Um tijolo de estreia

Por Carol Bensimon


No último encontro do clube de leitura, parece que fizemos de tudo para que esse esquema de reuniões nem tão mensais assim sucumbisse de vez, esmagado pela rotina de cada um dos integrantes do grupo: escolhemos como próxima leitura um livro de mais de 500 páginas e esgotado na editora. Eu estou falando de Dentes brancos, romance de estreia de Zadie Smith. Não sei de quem foi a ideia. Na hora, pareceu excelente. Aham, vamos lá, Zadie Smith, Dentes brancos. Então saímos à cata do livro, mas já com alguma preguiça. Veio o verão. Mais preguiça e desordem, e cada um com suas próprias leituras muito particulares, que vão da teoria do romance policial, passam pelo planejamento urbano de Los Angeles e chegam em Louis-Ferdinand Céline. Depois, extraviaram os Dentes brancos de uma integrante do grupo. Outra viajou ao Egito e me trouxe de presente um retrato de Gamal Abdel Nasser. O tempo, enfim, foi passando desse jeito.

Quase maio, e nós finalmente marcamos o encontro. Estou terminando o livro. Zadie Smith tinha 21 anos quando o escreveu, isso não sai da minha cabeça. 21 anos! A questão é que é bom e, como eu disse antes, enorme. Tudo começou com um conto e se transformou nesse romance que abrange quase 100 anos de história. Quer dizer que a menina, além de tudo, ainda fez alguma pesquisa. Daí a gente fica, assim, pensando. Por que o brasileiro raramente escreve um tijolão? As ideias dos brasileiros por acaso já nascem compactas? Ou, outra hipótese: as ideias que gerariam romances caudalosos são infelizmente tolhidas por um mercado que talvez não esteja tão interessado assim em romances nacionais de 500 páginas? Ou ainda: o escritor brasileiro está pouco disposto a se debruçar sobre uma história que exigiria tanto de seu tempo e dedicação, seja por questões práticas (é preciso pagar o aluguel, etc.), seja por motivações bem menos nobres (o que se quer no fim com essa carreira é certo poder simbólico, se der pra ser rápido então, melhor, a parte chata é sentar a bunda e escrever, mais vale sair no jornal e rodar festival disso e daquilo)?

Há também a hipótese mais ampla: tijolões seriam uma espécie de prova de “maturidade literária nacional” e, nesse caso, a literatura brasileira ainda se comportaria como uma adolescente birrenta, impulsiva e impaciente.

O sucesso de público e crítica de Dentes brancos jogou todos os holofotes pra cima da menina Zadie. Em uma entrevista para o Guardian em 2000, ela parece ofuscada e atrapalhada com as próprias palavras. O que ela odeia nessa história de falar, relata o entrevistador, é que ela não pode se editar (me abraça, Zadie Smith). E daí ela se lembra de repente de uma citação de Nabokov: “Escrevia como um gênio, pensava como um homem das letras, falava como uma criança”.

Há pelo menos mais dois ótimos momentos nessa entrevista: 1) quando ela conta que foi a uma sessão de fotos para uma revista, e que havia todo esse exército de maquiadores e pequenos vestidos Prada para ela vestir. “Eu não me importaria se eu visse uma sessão de fotos de 5 horas com Martin Amis, mas isso não acontece. Se você é uma mulher, (…) então precisa se apresentar como alguém atraente, mesmo que você seja uma cientista espacial”. 2) Zadie Smith dizendo que oficinas literárias lhe causam horror, porque a maioria delas funciona como um grupo de apoio ao tipo de pessoa que acha que escrever é terapêutico. “Escrever é exatamente o oposto de terapia.”

Se for difícil achar Dentes brancos, confie em Sobre a beleza. Belo livro. De 448 páginas.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu novo livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Definições (1)

Por Érico Assis


Imagem: Austin Kleon

“Histórias em quadrinhos são palavras e imagens. Você faz de tudo com palavras e imagens.” A definição de quadrinhos do Harvey Pekar é bastante repetida. Também é sonhadora, tocante, bonita. Basta para 99,9% das pessoas que já pensaram o que é uma HQ. Eu, porém, acabo de cair no mundo dos 0,01% para quem ela não basta: o mundo acadêmico. Nos próximos 3 ou 4 (ou 10, ou 40) anos, sou pesquisador de quadrinhos, mais especificamente de tradução de HQ. E uma das primeiras coisas que um pesquisador tem que fazer é definir a coisa que está estudando.

Definir uma coisa é separar essa coisa do resto do mundo: encontrar uma forma sucinta de dizer tudo que a coisa não é. No 0,01% acadêmico já se viu muita gente definindo quadrinhos, cada um de um jeito, muitos deles reconhecendo a briga que é defini-los. Aí entram picuinhas políticas, culturais e também pessoais que os autores puxam para dizer que não querem que tal coisa seja quadrinhos.

Há os que dizem que, para ser quadrinho, tem que haver pelo menos duas imagens formando uma sequência. Outros veem narrativa quadrinística em histórias de um quadro só. Tem os que se recusam a ver fotonovela como quadrinhos, e os que veem fotonovela, livros infantis e as estações da via sacra como quadrinhos. Alguns vinculam quadrinhos à reprodução impressa, o que exclui não só as HQs digitais mas também os que veem HQ na Coluna de Trajano (séc. II), na Tapeçaria de Bayeux (séc. XI) e algumas iluminuras. Mas se estas forem aceitas como quadrinhos, então toda escrita ideogramática ou cuneiforme também seria HQ? E quando se usa recurso de animação, como os gifs animados de algumas webcomics, aí a HQ deixa de ser HQ? Há quem diga que, se o movimento/tempo não acontece na cabeça do leitor, não é uma HQ. E aí?

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O livro que estou lendo no momento, A Comics Studies Reader, tem uma seção dedicada a textos sobre definição de HQ. Embora não componha o livro, a definição de Scott McCloud – que não é exatamente uma definição acadêmica, mas é muito usada nos EUA e no Brasil – paira sobre os outros autores: as “imagens pictóricas justapostas em sequência deliberada”. A abordagem de McCloud busca transformar a definição num problema de engenharia. Nos seus livros, ele até ajuda o leitor ao explicá-la em forma de quadrinhos. Só que ela se choca com o povo que diz que pode existir quadrinho em uma imagem solo (ou seja, não justaposta a outra). Os próprios organizadores do Comics Studies Reader, entre outros, dizem que ela “carece de sofisticação”.

Sofisticados, claro, seriam os franceses, aquele povo que ama e cultua quadrinhos. Ou melhor, um belga: Thierry Groensteen, que escreve teoricamente sobre HQs há três décadas e vez por outra também ataca de quadrinista. Fazia anos que eu ouvia falar da principal obra dele, Système de la bande dessinée, mas só resolvi encarar a leitura há uns dias. Digamos que ainda estamos nos acertando, com dificuldades. Groensteen toma o caminho da semiótica e cria alguns conceitos interessantes, como o de solidariedade icônica (a essência seria ter duas imagens separadas, mas no mesmo espaço e com alguma conexão semântica ou formal) e de artrologia (a articulação entre as imagens). Mas aí entro em meus problemas pessoais com a semiótica: sempre lembro de um professor da graduação que me dizia que, passando de ícone-índice-símbolo, tudo na semiótica é masturbação mental.

Embora ainda esteja brigando com o texto de Groensteen, um dos meus achados queridos foi a remissão que ele faz a um ensaio de Alain Rey – linguista e personalidade literária na França como editor do Le Robert. Rey diz que “o intercâmbio entre os valores textual e pictórico cria a essência dos quadrinhos”, e que falar somente em imagem e texto é superficial, pois o que acontece nas HQs é “uma batalha entre figuração e narratividade”. O que, por mais que bata com o que o Harvey Pekar disse, é tão bonito quanto a definição pekariana. E voltamos ao problema: frases que não definem nada, mas que não deixam de ser lindas.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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