Semana duzentos e vinte e seis

Os lançamentos desta semana são:

Sete anos, de Fernanda Torres
A entrada em cena de Fernanda Torres no mundo das letras foi apoteótica. Seu primeiro romance, Fim, lançado em novembro de 2013, cativou centenas de milhares de leitores pelo Brasil, atraiu a atenção e diversas editoras ao redor do mundo e ainda foi elogiado pelos críticos mais prestigiados do país. Era de esperar que suas crônicas não demorassem a sair. Desde 2007, Fernanda tem mantido assídua relação com a imprensa. Estreou na revista piauí, assumi uma página quinzenal na Veja Rio e em seguida uma coluna mensal na Folha de S.Paulo. Sete anos reúne parte dessa contribuição. São pensamentos divertidos e reveladores sobre cinema, teatro, política, família e assuntos do cotidiano. Há ainda um texto inédito: o pungente “Despedida”, que trata da morte de seu pai. Os leitores de seu romance e de suas colunas na imprensa, seu público na TV e no teatro, todos encontram neste livro o tom confessional, o carisma a inteligência aguda e o olhar irônico que fazem de Fernanda Torres uma das artistas mais brilhantes de nosso tempo.

A neve estava suja, de Georges Simenon
Além das dezenas de histórias protagonizadas pelo Comissário Maigret, Georges Simenon é autor de um conjunto de romances que ficaram conhecidos por sua dimensão psicológica, análoga à de obras de ficção escritas por seus contemporâneos Albert Camus e Jean-Paul Sartre.
A neve estava suja, de 1942, figura entre os mais celebrados livros desse conjunto. Aos dezenove anos, Frank Friedmaier vive na França sob a ocupação nazista, no início dos anos 1940. Todos lutam para sobreviver. Ele mora na casa da mãe, um prostíbulo que serve aos oficiais alemães, mas busca um sentido para sua vida.
Friedmaier é um cafetão, um bandido, um ladrão. Assim que o livro começa, ele acaba de cometer seu primeiro assassinato. Pela escuridão de um inverno interminável, o protagonista se afundará na abjeção até que não haja mais saída.

Breve história da internet

Por Gregorio Duvivier


Ligue os pontos mostrou que Gregorio Duviver tem talento não só no humor, mas também na poesia. Com sua coluna semanal na Folha de S.Paulo, o ator, roteirista, comediante, cronista e poeta atingiu com seus textos quem ainda não havia tido contato com seu trabalho no Porta dos Fundos. Sendo no YouTube ou no jornal, Gregorio se espalha pela internet – às vezes até parando num veículo do exterior. E agora está de volta nos livros.

Put some farofa reúne as principais crônicas publicadas no jornal, roteiros das melhores esquetes do Porta dos Fundos e textos inéditos do autor para esta edição, uma mistura entre ficções, memórias de infância, ensaios sobre artistas que o influenciaram, artigos panfletários, exercícios de linguagem e outras experimentações. Abaixo, leia uma das crônicas do livro que chega nas livrarias em novembro.

* * *

Agosto de 2013

Conheceram-se na sala ‘10 a 15 anos’ do bate-papo UOL. De onde teclas? Ele teclava de Belo Horizonte, ela de Caxias do Sul. Ele deu um número de ICQ. Passaram dias ao som de oh-ou e navios partindo. Ele pediu uma foto. Ela não tinha foto. Descreveu-se ruiva (não era). Ele se apaixonou perdidamente. Pediu o e-mail dela: era do iG, por causa do cachorrinho. O dele era Zipmail, por causa da Luana Piovani. Mandou um poema. Ela respondeu dez minutos depois. Trocaram todo tipo de poemas e cartas de amor. Até a caixa postal dele lotar, na semana seguinte. Ele apagou todos os e-mails que não eram dela (ou pra ela). Não eram muitos. Logo lotou de novo. Migraram para o Hotmail. A caixa postal era um pouco maior. Conheceram o MSN. Ele pediu uma foto. Ela pintou o cabelo de vermelho só pra foto. Mandou. Ele gostou mais ainda. Ela fez um Fotolog só com fotos dela. Pra ele. O Fotolog fez sucesso, não só com ele. Combinaram de se encontrar em São Paulo. Ele foi, ela não. Pararam de se falar por um tempo. No Orkut, se encontraram dois anos mais velhos. Ela pediu desculpas em um lindo testimonial. Ele aceitou. As desculpas, não o testimonial. Não era pra aceitar. Passaram a trocar scraps. Ele era um figura popular, tinha criado a comunidade do Pearl Jam. Ela criou “Adoro banho quente”, comunidade popular mas não tanto quanto sua rival “Odeio banho gelado”. Combinaram de se encontrar em São Paulo. Os dois foram. Beijaram-se assistindo A era do gelo. Ou não assistindo. Começaram um namoro à distância. Foram meses difíceis de MSN, até que inventaram o Skype. A vida mudou. Beijavam a tela, dormiam abraçados com ela. Ele fez uma música para ela e postou no YouTube. Ganhou seguidores no Twitter. A caixa postal do Hotmail lotou. Migraram para o Gmail e sua caixa infinita (ou quase). Ela foi pro Rio de Janeiro fazer faculdade. Ele foi atrás. Entraram no Facebook quando ainda não tinha quase ninguém. A foto de um era a cara do outro. Moravam juntos, dividiam o mesmo computador, compartilhavam os mesmos vídeos. O Gmail e sua estranha mania de não dar logout automaticamente fizeram com que ela lesse toda a correspondência dele. Ele ficou puto com o que ela leu. Ela ficou puta com o que ele tinha escrito. Quase terminaram. Preferiram comprar outro computador. E cada um passou a ter uma senha. Riram muito no 9Gag. Recusaram-se a entrar para o Google Plus. Hoje se falam o dia inteiro pelo WhatsApp. E o Instagram deles está cheio de fotos do bebê.

 

 

 

* * * * *

Gregorio Duvivier nasceu no Rio de Janeiro, em 1986. É formado em letras pela PUC-Rio. Participou de séries de televisão como A grande família, de filmes como Apenas o fim(2009) e encenou diversas peças, entre elas Uma noite na Lua, pela qual venceu o prêmio APTR de melhor ator em 2012. É um dos idealizadores do coletivo Porta dos Fundos, em que trabalha como roteirista e ator. Antes de lançar seu primeiro livro, A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora(2008, 7Letras), teve poemas publicados na revista piauí e no jornal O Globo. Gregorio colabora com a Folha de S.Paulo, assinando uma coluna semanal na Ilustrada. Publicou pela Companhia das Letras o livro de poemasLigue os pontos.

Twitter – Facebook

A presença do poeta

Por Elisa von Randow


Foto: Paulo Ricardo

Toda poesia alcançou os 100 mil exemplares vendidos. Desde seu lançamento, em fevereiro de 2013, esse catatau que reuniu pela primeira vez a obra poética completa de Paulo Leminski está entre os livros mais procurados nas livrarias brasileiras. O que está por trás desse fenômeno que surpreendeu o mundo editorial? A excelência dos versos é inegável, assim como seu alcance pop. A carência das edições originais nas livrarias é um fator que, sem dúvida, deu fôlego às vendas. Por mais que especulemos, contudo, é impossível dar conta do sucesso estrondoso de uma obra que, até então, era associada à cultura marginal. “Leminski é um mistério. Não sei o que ele fez lá em cima. Não consigo entender, poesia vender 100 mil exemplares é uma loucura”, disse Charles Peixoto, colega de geração do Leminski, durante uma mesa da última FLIP. Sim, uma parcela da responsabilidade deixamos reservada aos poderes transcendentes do samurai malandro. E outra parcela gostaríamos de dedicar à Elisa von Randow, que emprestou sua genialidade ao projeto gráfico e conquistou a todos com o “bigodón”. Leia abaixo o depoimento da capista de Toda poesia, que conta em detalhes como foi esse processo de criação.

(Sofia Mariutti, editora da Companhia das Letras)

* * *

Quando recebi o convite para desenhar o livro de poemas reunidos de Paulo Leminski, fiquei super entusiasmada. Teria a oportunidade de conhecer melhor a obra do poeta e reler os tão queridos versos.

Gosto de dizer que as ideias para se fazer uma capa partem do próprio livro. Durante a leitura, as imagens vão surgindo e a cabeça começa a trabalhar. O estilo do autor, a trama e o tom da narrativa inspiram uma cor, uma tipografia própria; uma passagem do livro faz lembrar uma fotografia, outra dá vontade de desenhar e, assim, a imaginação vai trabalhando, fazendo layouts imaginários.

Ao ler e reler os poemas, duas ideias visuais dominavam a minha tela mental: a letraset e o nanquim. Uma das características notáveis desta geração de escritores era a urgência da autopublicação, o faça você mesmo, a limitação gráfica usada com criatividade e liberdade. Resgatei da gaveta uma cartela vintage de letraset, adquirida há alguns anos na fabulosa papelaria Hilsco, e comecei a brincar. A própria cartela seria o partido gráfico da capa. Fiquei super feliz com o resultado.

Mas o retorno dos editores foi: “Gostamos, mas falta alguma coisa”.

De volta à folha em branco, hora de fazer a festa do nanquim. Grandes manchas transparentes e coloridas aproximavam o livro à paixão de Leminski pelo oriente e pela beleza que as coisas mais cotidianas podem ostentar. Achei o resultado bonito e fresco. Escolhi uma tipografia delicada, ao mesmo tempo forte e clara, que valorizava o nome do poeta

E de novo, a resposta foi: “Está legal, gostamos, mas falta alguma coisa. Você poderia fazer mais alguns estudos?”.

Nessa hora, a gente fica sem saber o que fazer… Testar novas cores? Rever a tipografia? Fazer uma nova pesquisa de imagens?

Logo no começo deste processo, como sempre faço, pesquisei algumas imagens relacionadas ao autor. Escolhi e imprimi dois retratos do poeta curitibano e colei-os na parede, ao lado da minha mesa de trabalho. Ali estava Leminski, observando tudo quietinho….

Entre idas e vindas, quase dois meses se passaram desde a primeira reunião, um tempo longo, já que o prazo normal para desenhar uma capa seria algo entre 15 e 20 dias… “E agora, Leminski? Por onde sigo?” Perguntei àquele cara de flor na orelha e bigodão espetacular…

B I G O D Ã O !!! E foi aí que Leminski me deu uma piscadela!

Pronto: foi pegar o pincel e a tinta nanquim e, da forma mais espontânea possível, nasceu o desenho e o lettering. Em poucos minutos, ali estava a capa pronta.

Era o que faltava, a presença carismática do próprio poeta, o samurai malandro. Daí foi vestir a capa de laranja e o resto da história vocês já conhecem!

Por fim, o nanquim invadiu também o miolo do livro. Posicionados um a um, respingos de tinta separam delicadamente um poema do outro.

* * * * *

Elisa von Randow é designer e ilustradora, trabalha com projetos editoriais e culturais. Entre 2001 e 2008 integrou a equipe da Máquina Estúdio, na qual produziu capas e livros premiados. Em 2009, inaugurou sua primeira exposição individual, Nada está em seu lugar, com desenhos, fotos, colagens e gravuras.

Eu e o delegado Espinosa — uma investigação afetiva

Por Raphael Montes


Tenho passado as últimas noites na companhia de Vicente, misterioso ex-professor universitário que protagoniza Um lugar perigoso, romance recém-publicado de Luiz Alfredo Garcia-Roza. É a décima primeira ficção policial do autor e a décima com participação do querido delegado Espinosa. O passeio pelas páginas do romance me fez empreender uma investigação afetiva de minha história com o personagem.

Conheci o delegado Espinosa lá pelos idos de 2003, quando comecei a me interessar por ficção policial brasileira. Eu tinha 13 anos. Nessa época, eu já havia investigado ao lado de Sherlock Holmes, me aventurado em casas vitorianas ao lado do belga Hercule Poirot e trancafiado criminosos ao lado do Inspetor Maigret. Descobri que havia histórias de detetive passadas no Rio de Janeiro escritas por um tal Luiz Alfredo, formado em psicologia e filosofia, professor da UFRJ que abandonou a carreira acadêmica para se dedicar à ficção policial. Fui conferir.

Comecei por O silêncio da chuva, o primeiro da série. O delegado Espinosa ainda era inspetor e ficava na 1ª DP, na Praça Mauá, centro do Rio de Janeiro, mas já desenhava traços da personalidade peculiar que eu conheceria profundamente nos demais livros: um sujeito com nome de filósofo, calmo, introspectivo, honesto, de hábitos simples, com gosto para boa música e boa literatura e de uma integridade pessoal inesperada para o leitor que traz no imaginário a truculência da polícia carioca.

A trama do livro era complexa e apaixonante: um executivo encontrado morto com um tiro, sentado ao volante de seu carro num prédio-garagem no centro do Rio. Trata-se de suicídio, mas a morte do homem leva a outras, o que prende o leitor nas páginas do romance. Em 2003, já havia quatro livros com Espinosa: além de O silêncio da chuvaAchados e perdidos, Vento sudoeste e Uma janela em Copacabana. Aventurei-me nestes também. Conheci Irene, a companheira com quem Espinosa mantém um relacionamento invejável (um dia, hei de ter um igual). Conheci os inspetores Welber e Ramiro. Conheci a torradeira defeituosa, a estante de livros feita só de livros (inclusive as prateleiras) e as comidas de microondas que habitam a rotina do delegado. Conheci até o filho dele, que volta do exterior para morar com o pai em Céu de origamis. Foi só mais tarde que conheci pessoalmente Luiz Alfredo Garcia-Roza.

Era 2008, fui a um evento literário ouvir o que o homem que havia criado meu amigo Espinosa tinha para dizer. Ao final da mesa, conversei pessoalmente com o autor, um sujeito alto, cabeleira branca, voz grave e sorriso simpático. Quase perguntei: Espinosa, é você? Em vez disso, parabenizei pelos livros e, no auge dos meus abusados dezessete anos, critiquei os finais — muito abertos, a meu ver — de alguns de seus livros. Ali, Garcia-Roza me apresentou sua teoria de romance policial:

“Existe quem é cartesiano, cerebralista, que acha que o romance policial é um tratado de matemática com certa ação. Essa é a perspectiva que vê no crime um problema a ser resolvido. Uma vez resolvido, é afastada a causa do crime e evidentemente o criminoso, é o ‘whodunit’. O outro tipo de narrativa policial é quando o crime não é um problema a ser resolvido, mas um enigma a ser decifrado. A diferença é enorme: no primeiro caso, uma vez o problema enunciado, ele está resolvido. É só uma questão de proceder lógico-dedutivamente. No enigma, não. O enigma não tem essa transparência, essa clareza, ele não é feito de ideias claras e distintas como o problema. O enigma tem uma parte da verdade que te revela, te insinua, e uma parte que ele oculta. A parte oculta do enigma é o que faz com que o enigma seja reinventado, ou redito, ou reeditado, em suma: o enigma é como o sonho. Você interpreta uma vez, outra vez, outra vez…”

Ô, Garcia-Roza, você me perdoa, eu estava aprendendo. Passei a entender — e a gostar — dos finais abertos que o autor costuma propor. E continuei a ser leitor fiel das aventuras do delegado Espinosa: Perseguido, Espinosa sem saída, Na multidão e Fantasma. Enquanto isso, avançava nas páginas de escrita do meu romance policial de estreia, Suicidas.

Moro em Copacabana há muitos anos, pertinho da 12ª DP, a delegacia de onde Espinosa investiga a maioria de seus casos. Espinosa almoça na Trattoria (um dos meus restaurantes favoritos), no árabe da Galeria Menescal e encontra corpos na Praça do Lido e em ruas sem saída a poucos minutos do meu apartamento. Se, enquanto leitor, esse cenário me fazia sentir em casa; como escritor, sempre me soou desafiador criar histórias policiais no bairro. Anos depois, numa entrevista a O Globo, brinquei: “Quase desisti de ser escritor policial. O Garcia-Roza chegou antes e dominou minha área.”

Acabei insistindo e publiquei Suicidas. Depois, Dias perfeitos. Ambos com muitos momentos em Copacabana, passeando por lugares semelhantes — mas meus personagens nunca tiveram a sorte de esbarrar com o delegado Espinosa nas ruas do bairro. Em fevereiro deste ano, o Flávio Moura, editor da Companhia, me contou que o Garcia-Roza havia lido meu livro e me mandou seu parecer: “A tensão interna, a fluência narrativa e a qualidade literária de Dias perfeitos capturam o leitor. Raphael Montes nos presenteia com um thriller digno de um veterano da cena do crime”. Imagina, fiquei todo bobo. A frase aparece na contracapa do livro. É como receber um aval do Conan Doyle brasileiro, o escritor que tem a mais sólida série policial já escrita no país.

Hoje à noite (22/10), acontece a noite de autógrafos do livro Um lugar perigoso na Livraria Travessa Ipanema, no Rio de Janeiro. Sem dúvida, irei dar um abraço no Luiz Alfredo Garcia-Roza. E aproveito para dar um abraço no delegado Espinosa se ele estiver por lá também.

* * * * *

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.

Site — Facebook — Twitter

 

A questão dos superdotados

Por Joca Reiners Terron


A expressão ESSAS CRIANÇAS DE HOJE EM DIA…, que geralmente demarca o espanto de gente mais velha diante de um bom exemplo de esperteza infantil, tem encontrado eco nos livros de ficção. Uma verdadeira febre de narradores adolescentes superdotados tem afetado a literatura mundial. Esse espanto em relação à agilidade sináptica dos pimpolhos remonta a alguns espertinhos do passado, como as histórias de Pedro Malasartes, por exemplo, ou nosso Pedrinho do Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato. Na literatura de língua inglesa a ocorrência é ainda maior, do Tom Sawyer, de Mark Twain, ou Jim Hawkins, o protagonista de A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, ao Peter Pan, de J. M. Barrie.

Em livros mais recentes, entretanto, esses heróis adolescentes evoluíram de meramente espertinhos a verdadeiras sumidades intelectuais. Será um sinal dos tempos e da evolução da tecnologia e das ciências? Em O Último Samurai, da norte-americana Helen Dewitt, Ludo é um menino órfão de pai que aprende a ler aos 2 anos de idade; aos 4 ele já fala diversas línguas estrangeiras, entre elas japonês; por causa disso, desenvolve uma obsessão por Os sete samurais, filme de Kurosawa, e a partir daí segue uma peregrinação em busca do paradeiro de seu verdadeiro pai. Apesar de sua inteligência aguda, Ludo não passa de uma criança com todas as suas carências. Carência, porém, não é algo que exista no fabuloso livro de Hellen Dewitt, entre as grandes narradoras de língua inglesa da ficção contemporânea.

Em City, do italiano Alessandro Baricco, o garoto Gould, de 13 anos, está na universidade. Superdotado, ele constrói uma cidade onde pretende encenar um bangue bangue, gênero pelo qual é fissurado, e novamente — como acontece com Ludo — o cinema alimenta o cérebro do garoto. Aos poucos o leitor descobre (ou desconfia) que nenhum dos personagens malucos que atravessam a história “existem” de verdade, a não ser na poderosa imaginação de Gould, um menino solitário que preenche o vazio de sua existência com amigos imaginários.

Diário Absolutamente Verdadeiro de Um Índio de Meio Expediente, de Sherman Alexie, ganhou o National Book Award e conta a história de Arnold Spirit Junior, um menino de 14 anos que tem uma cabeça gigante, nasceu com 42 dentes e com água no cérebro e mesmo assim descobre ser um grande lutador. Nascido numa tribo spokane, ele lutará por uma educação melhor para si e para seus iguais. Arnold representa nesta seleção de supercérebros a variação que apresenta narradores adolescentes que sofrem de doenças raras, um outro fenômeno da ficção recente que também pode ser conferido em Afluentes do Rio Silencioso, de John Wray, que conta a história de William Heller, jovem esquizofrênico de 16 anos que desenvolve um fascínio pelos subterrâneos do metrô, onde se perde após um surto.

Já Oliver Tate, o narrador de Submarino, de Joe Dunthorne, é um típico representante da geração Google. Curioso e esperto, ele usa todas as suas habilidades aliadas à infinita curiosidade para investigar a depressão enfrentada pelo pai desde que sua mãe resolveu tomar aulas de surfe com um antigo namorado. Conhecedor de todos os becos possíveis e impossíveis da internet, Oliver descobre aos poucos os descaminhos da vida sentimental dos adultos.

Todos esses personagens ultraespertos e inteligentíssimos parecem ter se originado na figura de Holden Caulfield, o moleque boca suja criado por J.D. Salinger em O Apanhador no Campo de Centeio. Pioneiro em retratar um menino que enfrenta os dilemas do amadurecimento ao desenvolver sua singular visão de mundo, Salinger inaugurou uma tradição na ficção moderna que culminaria em Hal Incandenza, uma jovem promessa do tênis e herói de Graça Infinita, o clássico contemporâneo de David Foster Wallace (a ser lançado em novembro pela Companhia das Letras), ele próprio um escritor de capacidade mental trocentos mil pontos acima da média que se suicidou aos 43 anos de idade em 2008, após um forte período de depressão.

Sinal dos tempos ou não — afinal seguidas gerações foram saudadas com a espantada expressão ESSAS CRIANÇAS DE HOJE EM DIA… —, os narradores adolescentes de romances, por mais superdotados que sejam, uma hora ou outra são obrigados a enfrentar a realidade e seus dilemas. Nesse embate a inteligência é essencial, mas também é fácil perceber através desses destinos literários que não é a única arma de sobrevivência, além de nem sempre ser uma bênção.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
Site – Twitter – Facebook