Escombros e caprichos: os meandros e afetos de A casa cai

Por Marcelo Backes


Dizem que reformar a casa é tão traumático quanto perder um parente próximo.

Existem até estatísticas a respeito.

Algum depoimento?

Eu surtei.

A ideia veio.

E foi se transformando.

Inventei meu joão-de-barro casmurro, meu construtor autista.

Qual era o significado de, num tempo em que ninguém mais cozinha pra ninguém, erguer uma casa, e erguer essa casa pra alguém?

Meu joão-de-barro é um homem que fugiu da vida a vida inteira e de repente perde o pai, com quem nunca conseguiu se entender direito. Sem nem saber como o mundo funciona, ele recebe uma herança vultosa, mas pantanosa, com a qual é obrigado a lidar e que conta inclusive a paradigmática história imobiliária do Leblon e do Rio de Janeiro. Por que um metro quadrado pode custar oitenta mil reais?

Ao mesmo tempo, esse homem constrói uma casa pra sua mulher, a mulher que também herdou de seu pai. Se quisesse, ele poderia ter escolhido um apartamento na orla, em plena Delfim Moreira, mas não. Por humildade e antigos pruridos cristãos, ele prefere justamente o pior lugar do pântano paterno, a ainda um tanto democrática Selva de Pedra, erguida sobre os destroços daquilo que um dia foi a Praia do Pinto, uma das favelas horizontais da Zona Sul do Rio de Janeiro, aniquilada como todas as outras. O homem reforma a casa escolhida e aos poucos descobre que o pai construiu a cidade, e que sem derramar sangue talvez não seja possível despejar argamassa num lugar que um dia foi tão naturalmente idílico como o Leblon das baleias, a Lagoa dos índios. Enquanto desvenda seu passado mesquinho, o passado terrível de seu pai e o pretérito ainda mais cabeludo de sua cidade e de seu país, esse homem é obrigado a perceber que a verdadeira construção nada tem a ver com concreto armado, mas se dá por dentro, no fundo daquilo que alguns ainda insistem em chamar de alma.

Sem contar o trauma que fica, os vícios da reforma.

“Agora eu não conseguia mais entrar no apartamento de ninguém, no banheiro de um restaurante e até na cozinha da minha sogra sem dizer, pedra prime, a pia do banheiro deve ter custado uns seis mil reais, mármore italiano, uma bancada pelo preço de um carro popular, granito são gabriel, barato e bonito, vaso deca linha link, dois mil e quinhentos reais, espelho veneziano, sim, um toque clássico garimpado em antiquário, certamente, preço imprevisível, torneiras deca linha twist com misturador, novecentos cada, chuveiro de teto deca linha chromo, bem mais de mil reais.”

Na trajetória em meio aos escombros de aposentos botados ao chão, muitos caprichos pouco sólidos e a descoberta de que não se rola assim no mais pra longe da árvore de um pai, de uma família. A Bíblia dá as caras em toda sua ancestralidade e ainda sobra espaço pra um passeio abrangente pelas artes, as do Brasil contemporâneo e as do universo clássico. As tripas saem das paredes, um apartamento expõe suas vísceras, e Adriana Varejão vira realidade no cotidiano de todos que avaliam uma casa, mexendo ou não em sua estrutura. O homem acaba aprendendo que a hipótese da ruína está incrustada a ferro e fogo em toda construção e se tornou lei num país em que qualquer reforma, seja de uma rua seja de um prédio, significa só mais um excremento à beira da estrada.

Uma mulher chora, ela é o que os outros chamam de a outra sem saber o que é uma. Agarrada ao travesseiro como se fosse uma tábua de salvação no mar da cama, a mulher se afoga em suas próprias lágrimas. Na verdade ela nem chora, tudo se passa em silêncio, e os lamentos rolam por suas faces como se ela tivesse engolido metade do oceano logo abaixo da janela, há alguns metros, e agora usasse os olhos pra botar pra fora aquela água toda, enquanto tenta catar em vão, angustiada, as flores azuis tecidas na colcha. Quando o homem começa a lamber suas faces como um cão sarnento, ela joga a colcha de lado, diz que escondeu todas as flores debaixo da cama e em seguida ergue o lençol vermelho sobre os dois como se fosse uma tenda.

Vamos brincar de casinha?

É assim.

Enquanto a casa é levantada, a alma vai desmoronando. O quarto recebe o último retoque e o amor acaba. O que jamais se acreditou que ficaria pronto, termina em pé. Aquilo que se achava eterno, simplesmente tomba.

* * *

A CASA CAI
Sinopse:
Em A casa cai os espectros rondam por toda parte. Eles vêm do passado, atuam no presente, confundem o futuro. No Rio de Janeiro, um homem que fugiu da vida se internando num seminário, recebe de repente uma missão para a qual não está preparado: administrar a herança física e metafísica de seu pai, que acaba de morrer. Incapaz e sozinho, ele busca consolo junto a amigos distantes, que lhe concedem a ternura de um já antigo calor de estábulo, e encontra uma mulher que talvez esteja um pouco próxima demais. Enquanto o afeto pela cidade aumenta, o homem acaba descobrindo que sua opção foi a mais sanguinária imaginável: o apartamento foi construído sobre os escombros da Praia do Pinto, uma das favelas horizontais da Zona Sul do Rio de Janeiro, aniquilada como todas as outras. Com sua prosa exuberante, marcada pelo lirismo, Backes dá feição poética à explosão do mercado imobiliário, com todas suas consequências para as metrópoles brasileiras, sobretudo a gentrificação de regiões inteiras e o desterro dos economicamente incapazes para áreas cada vez mais afastadas.

A casa cai chega nas livrarias no dia 6 de outubro.

Evento de lançamento:

Rio de Janeiro — Quinta-feira, 23 de outubro, às 19h, na Livraria da Travessa Ipanema — Rua Visconde de Pirajá, 572. 

* * * * *

Marcelo Backes nasceu em Campina das Missões (RS), em 1973. Em sua obra, destacam-se os romances O último minuto (2013) e Três traidores e uns outros (2010). Doutor em germanística e romanística pela Universidade de Friburgo, Backes é tradutor de obras de Arthur Schnitzler, Franz Kafka e Hermann Broch, entre outros.

E aconteceu a primavera

Daqui a algumas horas, começa oficialmente a primavera, estação das flores e do desabrochar de um lirismo menos comedido. Para saudar a chegada de um dos momentos mais luminosos e coloridos do ano, apresentamos o poema “E aconteceu a primavera”, que integra o recém-lançado Discurso de primavera e algumas sombras, de Carlos Drummond de Andrade. Genial, o poeta mineiro trabalha aqui contra o clichê associado à estação, polinizando com versos o Brasil e um mundo cada vez menos colorido e verde. Um grande poema.

* * *

E aconteceu a primavera
Por Carlos Drummond de Andrade

 

I

Que alguém te cante e te descante,
ficou urgente, Primavera,
para que a menos em cantiga,
neste papel aberto às gentes,
a flor antiga se restaure.

 

Te cantarei em Pernambuco,
onde és cidade, e no Pará,
onde mulheres plantam malva
sob o título municipal,
e em Rondônia cantarei
a corredeira Primavera,
pois nesses nomes de lugares
e num acidente geográfico
tu pousaste como um pássaro,
modesto pássaro cinzento
de asas pretas e cauda preta,
só a lembrar, no pano branco,
extintas primaveridades.

 

Primavera que tanto habitas
a bráctea rósea da buganvília
(em que jardins à vista ocultos
sob a fumaça que é nosso azul
residual?),
como habitavas, parnasiana,
o soneto crônico e clássico
dos poetas consumidores
de velhos tópicos europeus,
é forçoso que alguém celebre
o ímpeto juvenil da Terra
mesmo poluída, desossada,
Terra assim mesmo, seiva nossa.

 

E te ofereço, Primavera,
a arvorezinha de brinquedo
em pátio escolar plantada,
enquanto lá fora se ensina
como derrubar, como queimar,
como secar fontes de vida
para erigir a nova ordem
do Homem Artificial.

 

Ah, Primavera, me desculpa
se corto em meio uma floresta
latifoliada, pois tenho pressa
de correr na estrada de Santos.
Não te zangues se já não vês
em teu perene séquito lírico
aquele sininho-flor, descoberto
em longes tempos por George Gardner
e que soava só no Brasil:
foi preciso (teria sido?)
matar o verde, substituí-lo
pela neutra cor uniforme
que é uniforme do Progresso.

 

Primavera, primula veris,
em palavra quedas intacta,
em palavra pois te deponho
a minha culpa coletiva,
o meu citadino remorso,
minha saudade de água, bicho,
terra encharcada de promessas,
e visões e asas e vozes
primitivas e eternas, como
eterno (e amoroso) é o homem
ligado ao quadro natural.

 

Primavera, fiz um discurso?
Primavera, tu me perdoas?…

 

II

— 22 de setembro, mina minha.
Vamos curtir a primavera
em compact cassete tape, meu morango?
Bota aí o Botticelli
estereoutransfigurado em Debussy
e vê (primeiro fecha os olhos) Simonetta
Vespucci toda flor
florentil florindamente
(bulcão?) entre corolas e resinas
da flora da Tijuca…

 

— Não. Prefiro o Sacré du Printemps
que transa a primavera mais primeva.
Assim, no sala-e-escuro
dos sala-e-quarto conjugados
os dois ficamos respeitando
um princípio de seiva e de nenúfar,
enquanto a chuva — plic — tamborina
seu samba de uma nota só
na área de serviço.

 

É primavera, broto-brinco:
saiu no jornal,
a TV anunciou,
o Governo consentiu,
o Congresso aplaudiu
o comércio vendeu
arranjos de ikebana
e em algum lugar florescem três-marias
que são muitas marias, muitos nomes.

 

Vamos também curtir os nomes
(são presentes do povo à gente-bem):
riso-do-prado
(cadê o prado?),
amor-de-estudante
(pobre! No cursinho
que vira cursão
e invade o Brasil),
unha-de-gato
(envenenado
no Passeio Público?),
sempre-viçosa…
isto! A esperança
pousa na balança
o seu peso-pluma.

 

— Você tá esquecido
da maria-branca,
da pombinha-das-almas
e da noivinha…
Asas-pseudônimos
de primavera.

 

(Ah, vero barato
esse de brincar
de estação das flores
de concreto-objeto!)

 

— Oi, depressa, vamos
semear canteiros,
preparar estacas
e mergulhões,
plantar tubérculos
de cromo-gladíolos,
túberas de dálias
e tinhorões,
repicar sementeiras,
0controlar lagartas,
ácaros e trips,
dizimar pulgões.

 

(Ui, primavera é fogo
se levada a sério!)

 

— Vamos pintar de verde
as áreas crestadas,
pôr na parede
a árvore genealógica,
comprar um sabiá
mecânico,
sortear
o beija-flor de beijar cimento?

 

É primavera, escuta o Burle Marx:
diz que havia jardins
em torno das casas,
havia matas
a cavaleiro das cidades,
florestas
onde o jacarandá e o mogno conversavam
a conversa de séculos.
(Fecharam o bico,
chegado o eucalipto.)

 

Broto gentil, a primavera
será um sonho de sonhar-se
na fumaça
no grito
no sem azul deserto
das cidades mortas que se julgam vivas?

 

Marque na agenda

Drauzio Entrevista com Sérgio Sant’Anna
Segunda-feira, 22 de setembro, às 19h30
No evento do lançamento de O homem-mulher, Sérgio Sant’Anna participa de mais uma edição de Drauzio Entrevista, com sessão de autógrafos logo após o bate-papo.
Local: Teatro Eva Herz na Livraria Cultura do Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073 – São Paulo, SP

Simone Campos autografa em Porto Alegre
Segunda-feira, 22 de setembro, às 18h30
Lançamento de A vez de morrer e sessão de autógrafos com Simone Campos.
Local: Palavraria Livros & Cafés – Rua Vasco da Gama, 165 – Porto Alegre, RS

Lançamento de Tribunos, profetas e sacerdotes
Terça-feira, 23 de setembro, às 19h
Bolívar Lamounier autografa Tribunos, profetas e sacerdotes logo após o debate com Mario Brockmann e Yvonne Maggie.
Local: Livraria da Travessa Shopping Leblon – Avenida Afrânio de Melo Franco, 290, Leblon – Rio de Janeiro, RJ

Ruy Castro no Primeira Página
Terça-feira, 23 de setembro, às 20h
Ruy Castro é recebido pelos curadores Candida Morales e Clovys Torres, acompanhados dos atores Mel Lisboa e André Garolli e da jornalista Mona Dorf, para um bate-papo sobre literatura, jornalismo, música e  biografia, e também sobre os desafios atuais da profissão de escritor e sobre o seu  processo criativo. Veja mais informações sobre ingressos no site.
Local: Teatro do TUCA – Rua Monte Alegre, 1024 – São Paulo, SP

Luiz Ruffato no Festival Literário e Cultural de Feira de Santana
Quarta-feira, 24 de setembro
Autor de Flores artificiais participa da Feira do Livro de Feira de Santana.
Local: Praça João Barbosa de Carvalho – Feira de Santana, BA

Tarrafa Literária
Autores da Companhia das Letras participam da 6ª edição do evento que acontece de 25 a 28 de setembro em Santos.
Local: Teatro Guarany – Praça dos Andradas, 10, Centro – Santos, SP

  • Joca Reiners Terron na mesa “Livros que habitam livros”
    Sexta-feira, 26 de setembro, às 14h
    Autor de A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves divide mesa com Carlos María Domínguez e Ignacio de Loyola Brandão.
  • Ruy Castro participa da mesa “Canções sobre papel”
    Sexta-feira, 26 de setembro, às 18h
    Ruy Castro, Zuza Homem de Mello e Jorge Oliveira conversam sobre MPB, jazz e bossa nova.
  • Mauro Ventura na mesa “Memórias de subsolos”
    Sexta-feira, 26 de setembro, às 20h
    A mesa reúne Mauro Ventura, autor de O espetáculo mais triste da terra, Antonio Altarriba e Sérgio Dávila.
  • Raphael Montes e Marçal Aquino na mesa “Quando o crime compensa?”
    Sábado, 27 de setembro, às 14h
    Literatura policial e de mistério é tema da mesa com Raphael Montes, Marçal Aquino e Vitor Knijnik
  • Lira Neto e Mário Magalhães participam de mesa sobre biografias
    Sábado, 27 de setembro, às 16h
    Na mesa “A vida dos outros”, Mário Magalhães, Lira Neto e Marcus Vinicius Batista discutem o interesse na vida de personalidades públicas.
  • Marcelo Backes na mesa “Bola de papel”
    Sábado, 27 de setembro, às 18h
    Autor de O último minuto e A casa cai fala sobre literatura e futebol com Rui Zink e Vladir Lemos.
  • Amyr Klink participa da mesa “Vista pro mar”
    Domingo, 28 de setembro, às 20h
    Memória é o tema da mesa que reúne Amyr Klink, Alan Pauls e Robinson Borges.

Lançamento do livro #VQD – Vai que dá
Sexta-feira, 26 de setembro, às 18h
Juliano Seabra, diretor-geral da Endeavor Brasil, Leonardo Lima de Carvalho e Carlos Lima participam do talk show CBN Young Professional, com Roberto Nonato.
Local: Teatro Eva Herz na Livraria Cultura do Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073 – São Paulo, SP

Café com Poesia especial Elizabeth Bishop
Sábado, 27 de setembro, às 10h30
Participe de mais um Café com Poesia da Companhia das Letras. Nesta edição, será discutida a obra de Elizabeth Bishop.
Local: Loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura – Av. Paulista, 2073 – São Paulo, SP

Contação de histórias com Kiara Terra
Domingo, 28 de setembro, às 15h
Kiara Terra faz a contação do livro Uma amizade (Im)possível, de Lilia Moritz Schwarcz e ilustrações de Spacca.
Local: Livraria Cultura do Shopping Bourbon – Rua Tiriassú, 2100, Pompéia – São Paulo, SP

Lançamento de Vida e obra de Terêncio Horto
Terça-feira, 30 de setembro, às 18h30
André Dahmer autografa Vida e obra de Terêncio Horto no Rio de Janeiro.
Local: Livraria da Travessa – Rua Voluntários da Pátria, 97, Botafogo – Rio de Janeiro, RJ

Tony Bellotto autografa no Rio
Terça-feira, 30 de setembro, às 19h
Tony Bellotto lança seu novo livro, Bellini e o Labirinto, com sessão de autógrafos.
Local: Pub Escondido – Rua Aires Saldanha, 98, Copacabana – Rio de Janeiro, RJ

 

Semana duzentos e vinte e dois

Os lançamentos desta semana são:

Vida e obra de Terêncio Horto, de André Dahmer
Artista plástico e desenhista, André Dahmer tomou de assalto os quadrinhos brasileiros da última década. O ponto de partida foi, é claro, a internet. Ao se apropriar da linguagem, das técnicas e da cultura da rede, Dahmer pôde subvertê-las com ironia fina, acidez e uma capacidade infinita de se valer de um discurso conhecido e observá-lo por ângulos incomuns e reveladores. Em Vida e obra de Terêncio Horto, é outra das obsessões de Dahmer que vai para o primeiro plano: a arte. Escritor eternamente frustrado, tão ambicioso quanto amargurado, Terêncio passa os dias em frente a uma máquina de escrever, seja redigindo suas memórias, seja dando vida a personagens cínicos, desiludidos e de um pessimismo assombroso. É a partir desse esqueleto enganosamente simples que Dahmer vai dar vazão a impressões sobre literatura, pintura, música e, por que não, sobre a vida em geral.

Diário da Dilma, de Renato Terra
Diário da Dilma começou como uma seção da revista piauí. Todos os meses, a publicação trazia uma página de sátira sobre a rotina da chefe do Executivo. A ideia partiu do então editor da revista, Mario Sergio Conti, mas coube ao jornalista Renato Terra dar forma à seção e assumir a função de “ghost writer” da presidente.
A Dilma criada por Renato Terra é atenta aos mínimos detalhes do penteado, adora jogar tranca, paparica o neto, faz fofoca com amigas da Casa Civil e da Petrobras e vive a suspirar por seu príncipe encantado, o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão. A seção é inspirada numa coluna sobre a ex-primeira dama francesa Carla Bruni, criada pelo jornal humorístico francês Le Canard Enchaîné. Para compor o diário, Terra mergulha no noticiário nacional, descobre cores de esmalte e tendências fashion em revistas femininas, capricha no vocabulário cafona e fica de olho na agenda cumprida pela presidente na vida real. Muitas informações de bastidores servem de material: há histórias que parecem brincadeira, mas são dados exclusivos recebidos pelo jornalista. De todo modo, a mistura entre fato e ficção não deixa dúvida sobre o traço que predomina em todos os textos: o humor corrosivo e escrachado.

Portfolio Penguin

#VQD - Vai que dá!, de Joaquim Castanheira (org.)
Qual seria o melhor sinônimo para “empreender”? Quando ouve essa pergunta, Jorge Paulo Lemann, talvez o mais bem-sucedido empresário brasileiro, costuma responder:“Vai que dá!” . Essas três palavras traduzem o espírito dos empreendedores de alto impacto: um otimismo incurável, a paixão pelo negócio que criaram e a vontade contagiante de fazer acontecer. Este livro reúne a origem de dez empreendedores que estão transformando o Brasil com o impacto dos seus negócios. Suas histórias, comentadas por mentores que acompanharam de perto seus desafios, mostram que não há um trilho definido para o sucesso que possa ser explicado por teorias e manuais. As trajetórias de cada um deles seguem um caminho próprio, que se cruzam apenas no brilho nos olhos com que cada um fala de sua jornada e de sua capacidade para resolver problemas da sociedade.O exemplo desses empreendedores tem o enorme poder de inspirar e motivar aqueles que querem encontrar os seus próprios caminhos no mundo do empreendedorismo. Para essas pessoas, Vai que dá! é leitura obrigatória.

Seguinte

Mundo novo, de Chris Weitz (trad. de Álvaro Hattnher)
Depois que um misterioso vírus erradicou toda a população, exceto os adolescentes, os jovens dividem-se em tribos para sobreviver. Jefferson, o inseguro líder da tribo da Washington Square, e Donna, a garota por quem ele está apaixonado, se estabelecem precariamente em meio ao caos. Porém, quando outro integrante do bando descobre uma pista que pode levar à cura da Doença, eles partem em uma viagem arriscada para salvar o que restou da humanidade. Enquanto isso, Jeff tenta criar coragem para se declarar para Donna, e a garota luta para entender seus próprios sentimentos – afinal, conforme os dias passam, a adolescência vai ficando para trás e a Doença está cada vez mais próxima.

 

“A professora”, um conto da infância

Por Raphael Montes


Eu tinha 12 anos quando resolvi que seria escritor e comecei a rascunhar um conto nas últimas folhas de um caderno de português. Recentemente, arrumando tralhas, encontrei o tal caderno. Percebi dezenas de defeitos no texto, claro, mas resolvi transcrevê-lo com fidelidade, corrigindo apenas os erros de português, que eram muitos. A releitura do conto foi marcante para mim: não só me espantou a morbidez da história (que reitera minha teoria de que crianças têm lá sua dose de maldade) como notei que o conto visita temas explorados mais tarde em meu primeiro romance publicado, Suicidas (escrito aos 16). Enfim, achei pertinente — ao menos curioso, vai — compartilhar esse meu primeiro conto da infância com vocês. Nos comentários, me digam o que acharam!

* * *

A professora

Ela já havia tentado o suicídio antes. Cinco vezes. Mas acabava desistindo. O revólver Magnum 608, oito tiros, devolvido à gaveta do esquecimento. Às vezes, ela sentia necessidade de pegá-lo novamente, de testar seu peso, o tato frio com o metal. Em momentos íntimos, levava o revólver à cabeça, o cano massageava a têmpora, sabendo que bastava puxar o gatilho para dar fim àquilo tudo.

Então, ela pensava em seus alunos. Ah, seus alunos! Como ela os amava! Eram a única coisa que realmente tinha de valioso: suas mentes infantis, abertas ao saber oferecido em cada lição. Deus!, era tão fácil encenar para eles! Sobre o tablado, mascarar sua vida deprimente com sorrisos de simpatia e uma felicidade sublimável. Eles a adoravam, a professora sabia. De certa forma, era isso que a mantinha viva, sem coragem de acionar o revólver no momento decisivo. Eles a chamavam de volta. Chamavam-na para a vida, para a aula no dia seguinte… E, nesses segundos, ela se sentia muito feliz e amada. Eles — seus alunos — não a julgavam. Ao contrário dos adultos com quem convivia, eles não a encaravam com desdém, um olhar reprovador, ou, pior, um olhar de piedade só porque ela era gorda.

Sim, ela era gorda! E Deus sabe como era difícil admitir isso… Tantas horas na academia, tantas dietas, tantos livros de autoajuda… Para quê? Ela continuava a suportar os comentários furtivos, as perguntas ofensivas — Onde está aquele seu namorado da última festa, querida? — e o jogo de aparências. Tinha certeza de que era o assunto principal nas rodas quando não estava presente; motivo de risinhos escondidos. Podia imaginá-los gargalhando dela, rindo a valer de cada parte de seu corpo; podia imaginá-los à mesa do café da manhã, comentando a noite anterior, comentando que ela engordara ainda mais e que, desse jeito, nunca conseguiria um marido e estaria fadada à solidão. Criariam alcunhas, comparações e apelidos… Tudo para se divertir na próxima vez em que a vissem.

Por isso, ela precisava da arma. Precisava tê-la ali, ao alcance das mãos. Quando a comprara, três anos antes, estava com medo de assaltos a residências do bairro. Era uma forma de se defender dos bandidos, caso invadissem sua casa. Agora, a arma tinha outra função. Servia para defendê-la do mundo, o mundo nocivo lá fora, o mundo que a desprezava por ser gorda, por não ter atrativos físicos, por não ser bonita. A arma era a fuga para quando ela se sentia sufocada. Bastava puxar o gatilho. Deixar para trás os amigos fofoqueiros, a preocupação com o corpo, a busca por um amor que nunca viria… Tão simples, tão fácil!

Naquela manhã, ela acordou com vontade de comer pão doce. E se condenou por isso. Ah, ela adorava pão doce! Mas não podia, não podia mesmo! Ficaria mais gorda, mais feia, mais, mais e mais. Para saciar-se, correu até a gaveta — sua gaveta mágica. Pegou a arma num resfolegar e se acalmou ao senti-la em suas mãos. Carregou o revólver com uma única bala e levou-o à cabeça, esperando a sensação passar. A adrenalina percorria suas veias, expelida pelos poros.

A professora esperou vinte minutos, mas a sensação não passou. Diferente das outras vezes, continuou lá, insistindo para que ela completasse o serviço. Em alguns momentos, ela chegou a pressionar levemente o gatilho; uma força um pouco maior explodiria sua cabeça. Mas o que viria depois? Teria um mundo melhor para viver? Nesse mundo, as pessoas não ligariam para o peso umas das outras? Lá, ela encontraria alguém que a amasse como seus alunos?

Seus alunos!

Viu no relógio da cozinha que estava atrasada. Dali a vinte minutos deveria estar na sala de aula, aplicando a prova bimestral para as crianças. Pensou em correr, vestir uma roupa qualquer, buscar o carro na garagem para chegar o mais rápido possível à escola, mas não se moveu. A sensação ainda era muito forte. Estava paralisada, a arma em punho.

Teve uma ideia; um flash que invadiu sua mente trazendo a solução exata. Como não tinha pensado nisso antes!? Era tão óbvio: levar seus alunos com ela! Matar alguns deles e depois cometer suicídio. A garantia de que continuaria a ser amada por eles onde quer que fossem depois da morte. Era perfeito! O revólver suportava oito balas. Uma para ela. O restante para sete alunos que ela escolheria na hora; alunos que adorariam morrer com ela porque a amavam!

Extasiada, a professora carregou o tambor com oito balas e se arrepiou ao ouvir o clique metálico da arma. Guardou-a na pasta, junto do envelope com as provas. Saiu de casa assoviando uma canção que inventou na hora.

 

“Desculpem o atraso, crianças. Tive alguns problemas antes de sair de casa.”

Entrou na sala, ofegante. O relógio acima do quadro-negro registrava os dez minutos de atraso.

“Vamos sentar! Vou começar a prova! Guardem os estojos, apenas lápis e caneta em cima da mesa!”

Todos obedeceram. Eram tão bonzinhos! Seria muito difícil escolher apenas sete. Distribuiu as provas e observou-os, com um sorriso. Tão dedicados e inteligentes! Nenhum deles viu quando a professora tirou a arma da bolsa. Não viram quando ela mirou o revólver em direção a suas cabecinhas, passando um por um.

Artur, Clara, Lucas, Bruno, Carol, Mário, Vera…

Todos tão queridos! Tão especiais!

Caminhou pela sala, o revólver escondido nas costas.

Parou ao lado de Caio. Os cabelos loiros caindo sobre a testa, os argutos olhinhos azuis que acompanhavam as explicações dela no quadro. Ele era adorável. Sem dúvida, seria um dos sete…

E Joana? Os cabelos ruivinhos encobrindo a prova sobre a carteira. A Joana a amava! Gostava dela como uma mãe… Trazia presentinhos e chocolates quase todo mês! Era hora de retribuir tanto carinho. Ah sim, ela também estava escolhida!

Anabela levantou o braço e a professora se aproximou. Pobre Anabela, bela apenas no nome. A menina tinha uma personalidade forte para seus onze anos, era comunicativa e talentosamente persuasiva. Daria uma ótima advogada. Ou, talvez, uma ótima professora. Assim como ela: uma mulher inteligente, profissional; mas feia. Feia e gorda. Acabaria exatamente como ela… Cometendo suicídio, percebendo que acabar com a própria vida é a melhor solução nesse mundo de pessoas magras.

Decidiu que também levaria Anabela. Não porque gostasse especialmente dela — preferia os alunos magros e bonitos —, mas para fazer um favor à menina. Poupá-la dos anos de tortura e recusa, poupá-la dos risinhos sacanas a suas costas, poupá-la da dor…

Encostou-se na parede do final da sala. Faltava pouco. Estudou as cabecinhas pensantes, inocentes, dedicadas a tirar uma nota dez para alegrar a mãe no fim do mês.

Escolheu os outros quatro sem muita dificuldade.

Sete alunos. Quatro meninos e três meninas.

Caio, Victor, Rafael, Pedro, Joana, Clara e Anabela.

Sete amigos que partiriam com ela.

Os tiros causariam grande alvoroço no colégio. Sem dúvida, poderiam ouvir os estampidos a quilômetros de distância. A polícia chegaria logo. Ela teria que agir depressa. Respirando fundo, mirou na cabeça de Anabela. Sem chances de erro.

Sentiu a alavanca do gatilho brincar com seu indicador, provocativa. Fechou os olhos ao puxar o gatilho, deixando que os gritos infantis lhe dessem respostas. Ouviu passos, o ranger das carteiras, correria… Eles estavam fugindo! Malditos! Estavam fugindo! Como podiam fazer isso com ela?!

Deu outro tiro ao léu.

Abriu os olhos e viu diante dela a menina Anabela, morta. A cabeça empapava de sangue a prova sobre a carteira. O corpo rechonchudo era um monte de carne fria e flácida. A sala estava vazia. Os outros a tinham abandonado. Traidores! Medrosos! Haviam optado por continuar nesse mundo de dietas. Apenas Anabela estava ao seu lado. Apenas Anabela não a havia traído. Tinha ficado ali, morta, sua imagem e semelhança quando criança. Gorducha e inteligente.

Eram como mãe e filha…

Teve vontade de chorar. Mas não havia tempo. Não lhe restava mais nem um segundo. Logo a polícia chegaria.

Caminhou pesadamente em direção ao tablado, seus quarenta e nove quilos dificultando cada passo. Ela era gorda. Sabia disso. E ninguém haveria de lhe dizer o contrário. O espelho não a deixava mentir. Bastava comparar com as mulheres esguias nas revistas, com as modelos na televisão… Era gorda. Deveria seguir seu destino junto de Anabela. Calar os comentários, as críticas e as piadinhas que faziam dela…

Lançou um último olhar a Anabela. Gorda e feia.

Então, puxou o gatilho.

* * * * *

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.

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