RL

Por Érico Assis

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Capa de RL

as piradices que te ocorrem quando você vai desenhar a cena em que sua filha morre.

a- não usar a palavra “morrer”. deixe em branco e depois você cola as letras de outra parte da página

2- desenhe só alguns quadros — o quadro em que você toca nas costas dela para acordar, de manhã —  desenhe em outra folha e depois você cola. se você desenhar na prancha mesmo pode ser que aconteça

3- trabalhe em camadas e torça que depois elas fechem

4- faça tudo que for possível para não ser literal. faça tudo ter mais de um sentido. se tiver que ficar um rabisco só é porque você está no caminho certo. porque aí de repente sempre dá pra voltar atrás

5-deixar o lápis no arquivo do photoshop. Se precisar…

* * *

Tom Hart e Leela Corman são um casal de quadrinistas. Ele apareceu na cena independente dos EUA no início dos anos 1990 e ficou conhecido principalmente pelo personagem Hutch Owen. É um quadrinista para quadrinistas — Craig Thompson, de Retalhos e Habibi, é grande fã —  e durante alguns anos foi professor de quadrinhos em Nova York. Corman, que se identifica “ilustradora, cartunista e dançarina estilo Oriente Médio”, lançou uma graphic novel bem comentada em 2012, Unterzakhn, sobre garotas judias crescendo na Nova York de cem anos atrás. Seus trabalhos atuais tendem para o documental: a história da dança do ventre, o Egito pós-revolução, músicos viajantes na Europa medieval.

Hart e Corman estavam morando em Nova York, e cansando de Nova York, quando a economia mundial veio abaixo. Em meio aos planos de mudar para a Flórida, onde haviam se conhecido, tiveram uma filha: Rosalie Lightning. O primeiro nome veio de uma música de Brian Eno. “Lightning”, relâmpago, porque ela era filha de quadrinistas.

Eles mudaram-se para a Flórida. Estavam tentando vender o apartamento em Nova York, mas nada dava certo. O dinheiro estava curto. O carro deles pifou. Estavam com trabalho atrasado. Tentavam distrair Rosalie com a nova casa, a nova vizinhança, os novos brinquedos. Enfim: vida, como é pra quase todo mundo.

Só que, um dia, Rosalie não acordou.

* * *

Não sabemos por que escolheram essa vida pra gente, e com certeza nem sei se essas são as palavras que se usa para quem somos e o que fazemos. Tem muita coisa que não sabemos.

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Tenho uma filha que está com três anos. Quando a Olivia tinha um ano, talvez antes, doutrinei ela a gostar de Meu Amigo Totoro. Antes de falar direito, a Olivia imitava os personagens levantando os braços naquela cena em que eles fazem as sementinhas virarem uma árvore gigante.

RL, a HQ autobiográfica de Tom Hart, começa com esta cena. Rosalie Lightning adorava Totoro e também ficava levantando os braços junto a Totoro, Satsuki, Mei e os mini-Totorinhos. Ela também ficava juntando acorns, as bolotas que caem das árvores, lembrando do filme.

* * *

Faz poucos dias que perdemos Rosalie. Parece que uma bomba explodiu. “Explodiu no meu coração”, diz Leela.

Caminhamos.

Caminhamos em círculos no bairro do meu amigo Travis. Faz sol.

Assombramos as ruas.

Juntamos bolotas.

Nos escondemos. Choramos. Desabamos.

* * *

Não ouso, de forma alguma, comparar o que eu sinto ao “desabar” de Hart. Mas RL me amassa por dentro. Não é pela coincidência do Totoro, mas com certeza é por ter uma filha e, como todo pai (ou não?), viver nessa iminência de que a coisa mais importante que você ajudou a criar pode sumir de um dia para o outro. Ou melhor: viver tentando não pensar nessa iminência.

RL é uma das HQs mais lindas que já li. Mas fico pensando se ela tem algum significado para quem não tem filhos, ou quem não encara a paternidade como eu. Ou como eu leria RL se ela existisse quatro anos atrás, antes da Olivia. Nossas histórias preferidas têm algo a ver com a nossa experiência pessoal, não tenho dúvida. Mas será que isso não invalida toda crítica, no sentido de a crítica propor a outros formas de ler algo — como estou fazendo agora — que eu só consigo ler assim porque eu sou eu?

* * *

A gente diz “saudade dela” como outros casais se dizem “te amo”.

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RL deve virar uma graphic novel nos próximos anos. Por enquanto, Hart publicou dois capítulos em versão digital, aqui. Descobri a história lendo o Best American Comics 2014. Depois tive algumas horas de insônia — que usei para me amassar um pouco mais lendo o Tumblr e o blog de Hart.

Ele e Corman tiveram uma segunda filha em 2013. Ela se chama Molly Rose.

 * * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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A questão do controle

Por Joca Reiners Terron

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Este foi o ano do centenário de William S. Burroughs (1914-1997), embora a efeméride pouco tenha repercutido no Brasil, na exata proporção em que sua obra mal é difundida e reconhecida entre nós. De sua vasta bibliografia, foram traduzidos apenas Junky, Almoço Nu, Cartas do Yage (com Allen Ginsberg), Cidades da Noite Escarlate, O Gato por Dentro e Os Hipopótamos foram Cozidos em seus Tanques (com Jack Kerouac).

Mas ninguém deve ser recriminado pelo lapso, pois a produção do escritor norte-americano é informe, no sentido de que lhe falta aparência reconhecível que satisfaça a maioria dos editores e o leitor tradicional (sempre tão afeitos ao familiar), resultando em leituras descontínuas e difíceis. Remetendo às cenas do Coiote com focinho chamuscado nos desenhos do Papa-Léguas, os livros de WSB são experimentos artísticos que invariavelmente explodem na cara do leitor, mas o fato de explodirem significa que o experimento deu certo, não o contrário.

Os textos de Burroughs não chegam a ser contos, nem poemas, e seus romances se estruturam (não creio que o termo se aplique ao resultado final) sobre uma alta frequência de justaposições. Almoço Nu, por exemplo, foi escrito em cartas enviadas a Ginsberg quando Burroughs vivia em Tânger nos anos 50, e batizado por Kerouac, suscitando anos depois em Martin Amis a crítica burlona de que WSB não passava de “um autor de bons trechos” (ou de boas passagens). De parágrafo a parágrafo de Almoço Nu, o leitor (como se o lesse sentado em um touro mecânico) quica dos antros de Interzona ao espaço sideral com uma mera quebra de linha.

(“Um escritor só consegue escrever sobre uma única coisa: aquilo que se apresenta aos seus sentidos no momento da escrita… Sou um instrumento de registro… Não tenho intenção alguma de impor ‘história’ ‘enredo’ ‘continuidade’… Na medida em que for bem-sucedido no registro Direto de certas áreas do processo psíquico, ainda posso desempenhar alguma função limitada… Não estou aqui para oferecer entretenimento…”, Almoço Nu, pg. 227, trad. Daniel Pellizzari.)

A paranoia junky de Burroughs e suas leituras de filosofia aliadas às ficções baratas que devorou em revistas pulp, mais dois anos de estudos de medicina em Viena o levaram a criar (assim que conseguiu se livrar da heroína) uma literatura de alta voltagem política e satírica: WSB compreendia a linguagem como um mecanismo de controle, desconfiava dela (Nietzsche embebido em morfina), e com sua técnica de colagem e montagem (o cut-up aprendido com Brion Gysin), para além de procurar desmontar essa bomba, inventou uma realidade.

(“Para viajar no espaço temos que deixar para trás o velho lixo verbal: Deus, pátria, família, amor, partido. Liberar-se por completo do condicionamento do passado é estar no espaço”, WSB.)

Daí que a forma literária em Burroughs se dá melhor com a miscelânea, pois seus romances se assemelham a panfletos anárquicos com ritmo e compasso ditados pelo combate ao inimigo (os fascistas, os comunistas, a direita, a esquerda, a mulher, o homem, o gay, o hétero, Deus e o Diabo, aliens e terráqueos, os viciados, os traficantes, a polícia, os bandidos). Algumas dessas melhores antologias (The Job, The Burroughs File, The Adding Machine) devem ser lidas como manuais de guerrilha escritos com “uma voz dura, zombeteira, inventiva, livre, cômica, grave, poética, inequivocamente americana, uma voz na qual é possível ouvir rádios transistorizados e filmes antigos e todos os clichês e todas as teorias conspiratórias e todos os jornais, um otimismo todo peculiar, o fracasso completo”, segundo Joan Didion.

(“Reparem no estado de coisas — investiguem do estado até o autor — Quem monopolizou o Amor, o Sexo e o Sonho? — Quem tirou o que é de vocês? — Alguma vez eles deram alguma coisa a troco de nada? — Não voltaram a se apossar daquilo que haviam dado a cada vez que foi possível e sempre o foi? — Ouçam: o Jardim das Delícias que lhes prometem é uma cloaca”, WSB.)

Grande admirador de Burroughs, J.G. Ballard afirmou que “ele via o mundo como uma perigosa conspiração dos grandes conglomerados de mídia, dos grandes establishments políticos de sua época, da medicina corrupta, na qual enxergava uma grande conspiração. Ele compreendia a maioria das profissões, a jurídica em particular, mas também a submissão da lei, tudo fazendo parte de uma enorme conspiração para nos manter sob controle, para nos manter para baixo. E os livros dele são uma tentativa de explodir com essa cômoda conspiração, de permitir que vejamos o que está na ponta do garfo.”

A propósito, um de seus ensaios mais provocadores se chama Control (está em The Job) e procura compreender como a antiga civilização Maia através de sacerdotes utilizou seu calendário como um eficaz método de manipulação das castas agrárias da sociedade utilizando-se de policiamento mínimo. Por meio da comparação da psicologia pavloviana com os métodos da Mente Reativa postulados por L. Ron Hubbard, o criador da Cientologia, WSB promove um arrazoado contra esta religião, além de estender os fundamentos do controle exercidos pelo calendário maia para a atualidade das grandes corporações midiáticas dos anos 70, onde os períodos cíclicos de colheitas e festivais maias (“Todos os sistemas de controle se baseiam no binômio castigo-recompensa”) são substituídos pelo complexo sistema de emissão de notícias ou ordens subliminares (“Do ponto de vista de um sistema de controle, a finalidade destas ordens é limitar e confinar”) compreendidos pelo jogo de mostra-esconde do processo editorial dos jornais e da publicidade.

Não é difícil imaginar para que alvo Burroughs apontaria seu rifle, se vivo fosse nos dias de hoje: com a derrocada de circulação da imprensa tradicional, o sistema de controle se transfere para novos setores mais aptos a praticar o jogo de castigo-recompensa, a internet e suas mídias sociais como forma de reclusão espacial e cadeias de previsibilidade, enquanto simultaneamente disfarça-se sob a promessa de liberdade temporal (pois, afinal, o computador pessoal é um aparelho que reúne em si ferramentas de trabalho e dispositivos de entretenimento, como professou Nicholas Negroponte).

Tomada por sua paranoia, a obra de William S. Burroughs é oracular. Nela, demonstrou que a pandemia da droga não é um problema policial, mas de saúde, e a Álgebra da Necessidade (outro de seus conceitos essenciais) que promove seu uso desenfreado é a mesma que nos conduz pelos caminhos do vício generalizado: em trabalho, informação, consumo, sexo e poder. A droga estaria no centro político de toda a sociedade, sendo o núcleo do verdadeiro sistema que controla este mundo. Nos anos 50, ao viver no caótico México, WSB percebeu a farsa social do American Way of Life. Lá, permaneceu encarcerado apenas 14 dias após meter uma bala no cérebro de sua mulher, Joan Vollmer. Para perceber como sua visão é acertada, basta-nos observar o papel aparentemente inextricável que Estado, políticos, polícia e narcotraficantes cumprem nos 43 assassinatos dos estudantes de Ayotzinapa em setembro de 2014.

(“Depois de uma só olhada neste planeta, qualquer visitante do espaço sideral diria: QUERO FALAR COM O GERENTE”, WSB.)

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Lançamento de Luís Carlos Prestes
Segunda-feira, 15 de dezembro, às 19h
Daniel Aarão Reis autografa hoje a biografia de Luís Carlos Prestes no Rio de Janeiro.
Local: Livraria da Travessa Ipanema – Rua Visconde de Pirajá , 572 – Rio de Janeiro, RJ

Gustavo Duarte autografa Có & Birds
Participe das sessões de autógrafos de Có & Birds, a nova HQ de Gustavo Duarte.

  • Terça-feira, 16 de dezembro, às 20h
    Local: São Cristóvão Bar – Rua Aspicuelta, 533 – São Paulo, SP
  • Sábado, 20 de dezembro, às 15h
    Local: Itiban Comic Shop – Av. Silva Jardim, 845, Rebouças – Curitiba, PR

Sempre um Papo
Terça-feira, 16 de dezembro, às 20h
O último Sempre um Papo de 2014 recebe Zuenir Ventura e Mauro Ventura para o bate-papo “Influências e desafios, de pai para filho. E vice-versa”.
Local: SESC Vila Mariana – Rua Pelotas, 141 – São Paulo, SP

Zero zero zero: visão penetrante, conclusiva, e que não autoriza ilusões

Por Luiz Eduardo Soares

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Leia a seguir a versão completa da resenha de Luiz Eduardo Soares de Zero zero zero, publicada hoje no Caderno Prosa do jornal O Globo.

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Cada um de nós tem suas admirações particulares. Roberto Saviano é um dos meus heróis desde que li Gomorra e soube de sua saga pessoal. Agora, em Zero zero zero, seu livro mais recente, ele foi ainda mais longe. Saviano atua em um gênero que pinça o nervo de nosso tempo: convencionou-se denominá-lo jornalismo literário. Para os céticos, esse título significa nem literatura, nem jornalismo. Uma espécie de dupla traição: à autonomia estética do discurso literário e à objetividade neutra do jornalismo, supostamente desapaixonado, livre da força poética das palavras e refratário à imaginação. Prefiro virar esses argumentos pelo avesso: sem o encantamento da linguagem, que requer ourivesaria estética, os relatos, por mais comprometidos que fossem com a descrição fiel da experiência, perderiam a voz, consumidos numa aridez opaca. Sem o toque da imaginação, o que seria das narrativas? Sem fantasia, o que seria do realismo? Sem a arquitetura formal que dá à literatura a dignidade da arte, o que seria da verossimilhança documental? Sem afeto, sedução, empatia e compaixão, como celebrar o pacto da objetividade com o leitor? E sem o cascalho do cotidiano, e seus odores, o que seria da ficção? Além disso, Saviano é um desses exemplos raros e comoventes de bravura cívica que o cinismo militante da opinião pública costuma recusar-se a reconhecer, depois de uma salva de palmas protocolar n’alguma premiação para apaziguar nossa consciência. Afinal, reconhecer suas opções, sua trajetória e os riscos que alguém assim aceita correr em nome do que um dia chamamos “bem comum” nos envolveria a todos, nos mobilizaria, nos obrigaria moralmente a dar-lhe as mãos, chamá-lo irmão, abrir-lhe nossas casas, engajando-nos na mesma cruzada cidadã. Melhor tocar a vida. Já são muitos os nossos problemas privados. Vamos então à obra.

Zero zero zero é um grande livro cuja leitura será indispensável para quem tiver coragem de olhar nos olhos a barbárie contemporânea e de repensar o que supomos saber sobre nosso tempo — e talvez sobre nós mesmos. Parece exagero? Explico meu entusiasmo. Os grandes livros, em minha opinião, são os que nos transformam, incidindo sobre a visão de mundo e os sentimentos dos leitores. Iria mais longe: são aqueles que também transformaram seus autores.

Impacto dessa magnitude existe quando se lê Gomorra, a obra sobre máfias italianas que tornou seu autor mundialmente conhecido e respeitado — menos pelos criminosos, que reagiram fazendo de sua vida um inferno, obrigando-o a exilar-se e a cercar-se de escolta, dia e noite. Esse mesmo efeito transformador, em voltagem ainda mais intensa, é provocado por seu livro mais recente, que a Companhia das Letras acaba de lançar no Brasil, em excelente tradução de Frederico Carotti, Joana Angélica d’Avila Melo, Marcello Lino e Maurício Santana Dias. Entre os dois, Roberto Saviano explorou o universo literário, dialogando de outra forma com seus fantasmas. Em Zero zero zero, apelido da cocaína pura, Saviano deixa a ficção de lado, mergulha no osso do real, e retoma o fio da meada maldita, seguindo o rastro de sangue e pólvora mundo afora, identificando os vestígios da crueldade mais assombrosa e desnudando o processo econômico e político que fez da cocaína o segundo negócio mais lucrativo do planeta, abaixo apenas do petróleo.

“Ah! Eu sei, eu sei, mais um livro sobre drogas e violência, dinheiro sujo, corrupção, essas coisas…”, talvez você resmungue, atribuindo à obra de Saviano a redundância que há tempos o afastaram das tediosas páginas policiais dos jornais, que lhe servem a ração diária de miséria humana. Mas antes que você desista desta resenha e do livro, pergunto-lhe o seguinte: você estaria disposto a suspender sua crença de que as práticas comerciais ilegais de substâncias ilícitas constituem apenas o lado B da economia global, uma espécie de margem ou sombra da qual não há como livrar-se inteiramente, mas que não participa das decisões que definem nosso destino coletivo? E se eu lhe disser que não é assim que as coisas funcionam, que o lado B já se fundiu ao lado A, e que o poder que a margem mobiliza anula essa topografia antiquada e ingênua? E se eu lhe afirmar que suas noções de Estado, soberania, justiça, legitimidade democrática, monopólio do uso da força, instituições da ordem e valores republicanos talvez precisem de um banho de realidade, um mergulho no ácido da evidência que as deformará?

Pronto, agora que conquistei sua atenção e suspendi sua expectativa a respeito do que provavelmente seria um livro sobre cocaína e suas tramas transnacionais, compartilho com você alguns dados que abalam qualquer pessoa sensata e inteligente. Em 2009, como sabemos, o mundo entrou em colapso. As dívidas eram negociadas em fluxo contínuo e a moeda eram outras dívidas, numa cadeia infinita, cuja confiabilidade residia no suposto poder inabalável das instituições financeiras. Pois a hora da verdade chegou: não havia terra firme sob as vaporosas expectativas de pagamento. A bolha revelou-se o que era, e desmanchou no ar. Ou o governo americano (e logo os demais) emitia moeda e traía o dogma do livre mercado, ou outras torres tombariam: os bancos quebrariam, drenando para o ralo a economia global. O buraco inicial representava algo em torno de U$ 1 trilhão. Naquele momento, só um setor da economia continuava a girar sem problema de liquidez: o tráfico de cocaína, que lavou de imediato 352 bilhões de dólares, injetando-os nas instituições financeiras desidratadas. Cerca de um terço da liquidez mundial era dinheiro sujo de sangue. A crise demonstrou a pujança da cocaína e a vulnerabilidade do capitalismo financeiro desregulado.

São produzidas, anualmente, entre 788 e 1060 toneladas de cocaína, segundo dados do World Drug Report, de 2012. A maior fonte de exportação continua sendo a Colômbia, responsável por cerca de 60% da coca que circula no mundo, a despeito do desmantelamento dos cartéis de Medellin e Cali, e também das FARC, que se tornaram agentes do narcotráfico. A política de erradicação das plantações aplicada por sucessivos governos colombianos, em aliança com os EUA, solapou as bases tradicionais da economia camponesa e devastou o meio-ambiente, o que promoveu a dispersão de comunidades rurais e o fracionamento da produção, tornando os pequenos produtores mais vulneráveis aos barões da droga, os quais intensificaram a exploração, investiram nas intermediações e elevaram a margem de lucro. O resultado tem sido o êxito de centenas de micro-cartéis e o fortalecimento de um deles, o Norte del Vale. A crise colombiana não eliminou a produção, mas deslocou as disputas por mediações comerciais para o México, onde mais de 70 mil pessoas já foram assassinadas na guerra interna ao narcotráfico. Aproximadamente 20 milhões de cidadãos cruzam todo ano os três mil quilômetros de fronteiras que separam o país dos Estados Unidos, principal consumidor. Impossível conter os fluxos que se adaptam a todas as circunstâncias e driblam as tentativas de controle. A situação do México é particularmente dramática, porque a proliferação de grupos criminosos ampliou e agravou a disputa por domínio territorial, que corresponde ao poder sobre canais de exportação para o formidável mercado norte-americano. A partir de determinado ponto, o dinheiro não é mais contado, mas pesado, e se desloca com tanta rapidez e facilidade que as narcomáfias mexicanas não têm tido dificuldade em recrutar mercenários e cooptar militares, policiais e políticos, ou em armar-se com tecnologia sofisticada e equipamentos de última geração. Essa, aliás, é a marca que se generaliza no universo da cocaína: grana e armas, poder para corromper, chantagear e matar. Em meados dos anos 1980, Pablo Escobar, líder do cartel de Medellin, lucrava meio milhão de dólares por dia. O capo foi morto, seu cartel liquidado, mas os negócios só prosperaram, em escala global, envolvendo empreendedores das mais distintas nacionalidades e organizações criminosas de todos os continentes.

Entre 2005 e 2007, a Marinha colombiana apreendeu 18 submarinos, identificou 30 e estimou que outros 100 estivessem em operação, transportando a droga pela costa do Pacífico até a Califórnia. O narcotráfico transnacional já acumulou capacidade técnica, acesso a componentes e capital suficientes para produzir seus próprios submarinos, muitos dos quais em fibra de vidro. Seu arsenal inclui helicópteros M18, do exército soviético, aeronaves mais novas, aviões de todas as dimensões, inclusive Boeings, e embarcações dos mais variados tipos.

Falamos em armas e guerras com a superficialidade dos que não as vivenciam, diretamente, ainda que no Rio de Janeiro esta seja uma experiência diária para muita gente. A narrativa forte de Saviano não admite a indiferença e o tom blasé. O autor nos leva pela mão aos mais variados cenários da tortura perpetrada por narcotraficantes em todo o mundo ao longo do livro. Faz questão de nos conduzir aos escombros da modernidade, o outro lado da moeda, a face perversa da economia civilizadora: a crueldade extrema. O leitor talvez tente virar os olhos, como eu fiz tantas vezes, mas há ali, em cada capítulo, uma espécie de imperativo ético que nos impele a não abandonar a vítima, a acompanhar o relato com os olhos bem abertos. As cenas se prolongam além da leitura, eu lhe asseguro. A crueldade não é regida pelo cálculo utilitário ou pelas paixões ordinárias. Há algo mais, ou menos, um excesso, ou uma falta. Não se trata de atavismo animal ou apego à natureza selvagem. Os animais matam para sobreviver. O universo selvagem busca a vida, e por isso elimina o concorrente que ameaça. Não se compraz com  a dor alheia. A crueldade é código exclusivamente humano. Saviano, nesse ponto, nos dá uma lição preciosa: não procurem na natureza humana essa brutalidade assombrosa. Ela se ensina e se aprende. Por isso, o crime organizado em todo o mundo, das máfias ao terrorismo, quando adota a violência como linguagem, inventa assinaturas em seus assassinatos, disputa com grupos rivais a intensidade dos tormentos a que submete suas vítimas e se mede pela habilidade em transformar seu poder em dor, medo e humilhação. Na verdade, os grupos imitam-se uns aos outros para diferenciar-se e quanto mais se esforçam por distinguir-se e afirmar suas marcas singulares, mais se constituem em espelhos de seus inimigos. Esta é a lógica mimética e paradoxal que rege a cultura da violência. A intensificação da brutalidade é o reconhecimento prático da própria impotência: gira-se em falso e a energia deposita-se no mesmo, por isso só resta elevar a voltagem até o limite da própria força, atestando sua subordinação à órbita do outro — do qual procurava afastar-se e distinguir-se para o suplantar.

E o Brasil com isso? Nosso país é o segundo maior consumidor mundial, atrás apenas dos Estados Unidos. Passam por aqui, anualmente, entre 80 e 110 toneladas de pó. Metade cheira-se aqui mesmo — estima-se em 2,8 milhões o número de consumidores brasileiros. O resto segue para a Europa e outros destinos. O aumento do consumo de cocaína verificado na sociedade brasileira tem as mesmas causas do crescimento das vendas de automóveis, cosméticos, pacotes turísticos, cerveja, carne, smartphones e viagra: a elevação da renda média. O mercado europeu também tem crescido bastante, ainda que por lá, de um modo geral, a situação econômica não favoreça a elevação do consumo. Este é o paradoxal milagre dessa mercadoria única: ela dá lucro quando tudo vai bem, porque, afinal, tudo vai bem, e há mais dinheiro para saciar os desejos individuais. E ela vai bem quando tudo vai mal, porque ninguém é de ferro e é preciso turbinar o ânimo para compensar o baixo-astral ambiente e enfrentar mais horas de trabalho ou mais tempo ocioso — e angustiante, deprimente. Observe que não se paga um papelote de cocaína a prazo, com cheque ou cartão de crédito. Essa economia gira velozmente porque seu combustível é a liquidez imediata e sempre disponível. Se a demanda aumenta, nenhum problema: a oferta é elástica. Um quilo pode facilmente converter-se em dois ou três ou quatro. A mágica está na mistura. Cheira-se pouquíssima cocaína no pó que se inala em Londres, Nova York, Paris, Moscou, Roma, Rio ou São Paulo. Salvo nos salões abastados, que recebem o petróleo branco em condições especiais, e pagam por isso. A pureza média da cocaína na Europa varia entre 25% e 43%. Em minha pesquisa pessoal, da qual resultou o livro, Tudo ou nada: a história do brasileiro preso em Londres por associação ao tráfico de duas toneladas de cocaína (Nova Fronteira, 2012), constatei que a coca sai da Amazônia colombiana com 85% de pureza (não pode ser 100% porque é necessária a adição de produtos químicos para proteger a coca da umidade e dos efeitos de algumas condições extremas) e é vendida no varejo, na Inglaterra, com apenas 15% de pureza. Ou seja, o ganho é de 600%, considerando-se o preço da mercadoria no atacado, adquirida na matriz. Claro que há os custos do transporte, da corrupção de agentes, a taxa média de perda etc. Ainda assim, a margem de lucro é considerável. Registra-se que a saúde dos consumidores abusivos é afetada muito mais pelos componentes misturados à coca do que pela própria substância que dá nome à mercadoria

Em todo lugar, o consumo de cocaína democratizou-se. Enquanto as Américas ficam com 450 toneladas a cada ano, a Europa consome 300 toneladas, anualmente. Treze milhões de europeus já usaram a droga, 7,5 milhões entre 15 e 34 anos. No Reino Unido, o número de usuários quadruplicou na última década. Na França, dobrou, entre 2002 e 2006. Estima-se que entre 20% e 30% da produção de cocaína pura destinam-se ao mercado europeu.

As multinacionais da cocaína ramificaram-se por todas as regiões, aproveitando cada oportunidade para explorar a demanda potencial e imiscuir-se nas redes políticas, sociais e econômicas institucionalizadas. A promiscuidade com o mundo legal é seu método de autoproteção, torna-se tática de reprodução e fortalecimento, até converter-se em sua própria natureza, porque, a partir de determinado ponto, não é mais possível distinguir os elos legais dos ilegais, as dinâmicas lícitas das criminosas. Os narcoempresários cercam-se de PhDs, gestores tarimbados que trabalham com metas e esquemas meritocráticos, operadores financeiros de primeira qualidade, sócios bem situados na arena transnacional, conselheiros econômicos e políticos refinados, com trânsito irrestrito no universo empresarial, jurídico-político e na grande mídia. O capital errante lava-se na aquisição de hotéis, restaurantes, redes de supermercados e shopping centers, revendedoras de automóveis, instituições financeiras e indústrias, ou associando-se a empreiteiras e mega-empreendimentos, inclusive nas áreas de energia, em especial petróleo e gás. No passado, o pó corria atrás do dinheiro, dos circuitos do capital para parasitá-lo e fertilizar a fortuna dos cartéis, ainda insulados e territorialmente circunscritos, falando sobretudo espanhol. Hoje, são os mercados que buscam atrair a fortuna dos cartéis e acercar-se dos narconegócios, falando todas as línguas da babel capitalista. Agora, é o dinheiro que gravita em torno do pó. Décadas atrás, o narcotráfico precisava de paraísos fiscais para lavar seus lucros milionários. Hoje, Nova York e Londres, Wall Street e a City são as grandes lavanderias globais, e os lucros são bilionários. O sistema bancário na matriz do capitalismo já deu mostras de que não tem grande interesse em investigar a origem de depósitos, transferências, trocas de papéis e títulos, dívidas e créditos em fluxos financeiros das mais diversas modalidades. Mesmo quando essa identificação, digamos, arqueológica é viável, hipótese cada vez menos provável. A análise de Saviano é penetrante e conclusiva. Não autoriza ilusões.

O exemplo russo talvez seja o mais eloquente e dramático. Enquanto a União Soviética agonizava, máfias preparavam-se para o dia seguinte. Grupos criminosos durante muito tempo abasteceram a dispensa dos membros da Nomenklatura com o contrabando de todo tipo de produto e saciaram o apetite generalizado na população por mercadorias ocidentais inacessíveis. Essa prática duradoura lhes permitiu acumular contatos estratégicos na alta hierarquia do partido comunista e informações confidenciais comprometedoras sobre funcionários poderosos. Contatos e informações, naqueles tempos sombrios, valiam mais que rublos decadentes. Quando o muro finalmente ruiu e a União Soviética desmembrou-se, os empreendedores mafiosos estavam prontos para agir. A riqueza estatal foi rapidamente apropriada por lobos vorazes que monopolizavam o conhecimento relativo a processos decisórios, modos de operação, quais atores estariam dispostos a assumir iniciativa e que regras do jogo seriam aplicadas. Assim, agentes empreendedores da Nomenklatura em aliança com máfias locais herdaram parte expressiva do patrimônio estatal soviético e legaram à etapa capitalista que se instalava um padrão violento e despudoradamente refratário aos princípios supostamente equitativos do mercado. O negócio da cocaína, que já era próspero no período anterior, mostrou-se extraordinariamente promissor. Não por acaso articulou-se com empreendimentos bilionários nas áreas de petróleo e gás. Tal promiscuidade chegou a constituir-se no eixo de conflitos entre Rússia, Ucrânia e Europa, relativos à distribuição de gás, cuja importância é vital para os países europeus. Tampouco é arbitrário o fato de que um agente chave nessa rede estratégica, o mega mafioso Mogilevich, antes de ser desmascarado tenha assumido o controle de um banco russo de prestígio internacional, o Inkombank, entre 1994 e 1998. Sua rede de contas envolvia o Bank of New York, o Bank of China, o suiço UBS e o Deutsche Bank. Outras histórias estão em curso, furando bloqueios e contando com parcerias insuspeitadas. Reitero o ponto: dadas a magnitude, a escala e a complexidade dos fluxos financeiros provenientes do narcotráfico, tornou-se impossível separar o joio do trigo, mesmo quando há interesse em fazê-lo por parte de agentes financeiros, policiais, jurídicos e políticos. A dinâmica do capitalismo financeiro globalizado e a agilidade dos narconegócios, turbinados pela instantânea liquidez de suas operações, gestaram um novelo inextricável. Quanto mais desenvolver-se a economia, mais se potencializará o narcotráfico, seja na ponta do consumo, seja por sua articulação orgânica com a economia legal. Na escala multibilionária dos mercados globais, a diferença legal-ilegal foi condenada à obsolescência, o que nos deixa diante de um dilema do tamanho do planeta: ou legalizamos as drogas e purgamos o veneno letal que infecciona e intoxica governos, instituições e sociedades, ou vamos continuar pavimentando o caminho para a destruição de governos, instituições e sociedades, crescentemente destroçados pela corrupção e a violência.

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Luiz Eduardo Soares é antropólogo e escritor.

Qual narrador?

Por Paulo Scott

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Não acho impossível que, ao pegarmos aleatoriamente a timeline de alguém numa rede social por aí, não se consiga projetar uma narrativa coerente, não se consiga identificar um núcleo dramático principal (mesmo que por conta da mais mundana das empatias), um arco narrativo convincente — a unidade estará lá e, com boa vontade do que editará com a sua leitura e sua tesoura, um desfecho do tipo desfecho inesquecível estará lá também. Portanto a hipótese é: a timeline de um perfil no Twitter, no Facebook, pode ser narrativa poética, narrativa de prosa ficcional.

Saltemos duas casas.

Essa expulsão não seria novela literária — embora alimentada pela mesma pluralidade caótica de núcleos dramáticos em firmamento aparente (constelação?) de uma novela literária —, não seria romance — dificilmente proporcionaria a chance épica do romance, a profundidade do núcleo dramático absorvedor dos demais núcleos dramáticos secundários do romance, a verticalidade psicológica do romance —, não seria conto — dada a visível impossibilidade de chegar à perfeição, ao estranhamento polar flutuante e à brevidade programática, do conto.

Sem cogitar se essa expulsão tangenciaria as peculiaridades de crônica ou de poesia (lembrando que o debate em torno do cercadinho entre gêneros literários está fora de moda desde a primeira metade do século XX), sigamos. Saltemos mais três casas.

Imaginemos uma timeline esculpida com esmero (com entrega real e máscaras, todas as máscaras a que um vivente criativo e na pegada jardim de infância hell house teria direito), uma timeline na era de ouro do Facebook — quando foi a era de ouro do Facebook no Brasil?, Dois mil e dez?, Dois mil e onze?; certo que a resposta variará de usuário para usuário, certo que dependerá da quantidade de sorte narrativa, sucesso e felicidade que o usuário experimentou no Facebook —, e, nessa timeline, muitas interações, cumplicidades, paixões, conflitos e, rufem os tambores, um narrador inevitável. Qual narrador seria esse?

Descansemos uma rodada.

Já se disse que para conseguir hipnotizar alguém, antes você precisa hipnotizar a si mesmo, assumir um poder e uma condição que não estavam ali, convencer-se. Todo processo demanda a fase entrar no clima, no acreditar que você, num momento ou outro, funcionará como o grande misturador de grãos.

Não seria absurdo sustentar que o Facebook é uma grande narrativa em primeira pessoa e o usuário dono do perfil, o motorista, um narrador em primeira pessoa hipnotizado por si mesmo, autoinduzido a achar que é narrador em terceira pessoa (mais do que testemunha do enredo, o próprio motorista do enredo geral; parece que aqui está o truque e a enrascada), um narrador onisciente eventualmente seletivo (seletivo no sentido mais sórdido) e o dono supremo do espaço também.

Joguemos duas vezes.

Que hipótese seria essa em que o dono do espaço (a ilusão de ser o dono do espaço) funcionaria como o próprio espaço? Uma pretensão dessas está longe de ser um extremo impossível. As sentenças jogadas diariamente nas redes sociais (sobretudo se levado em conta o contexto em que a razão da pessoa vestida com o uniforme do usuário de login efetuado difere bastante da razão da pessoa circunstancialmente longe das redes sociais, a do login não efetuado) extrapolam a perspectiva do narrador em primeira pessoa, porque o ânimo, a empresa de se colocar feito bandeirante insano diante do todo imenso, avança ao encontro da tentação de controle dos resultados, dos desdobramentos do todo imenso.

Existe essa tese de que nas redes sociais as pessoas estão falando para elas mesmas, sempre. Um limite desses afastaria a possibilidade mais séria de uma narrativa em terceira pessoa, mas não a da hipnose ou de uma eventual esquizofrenia que, por conta do deleite do usuário de login efetuado — no fundo, no fundo, insisto, o login está continuamente efetuado — remeteria esse usuário (dono do espaço, a persona se confundindo com o próprio espaço) à acumulação de papéis, o que daria no mesmo. O usuário de login efetuado seria o protagonista, mas também o antagonista, as personagens-gatilho, as personagens-escada, as personagens-testemunha, as personagens-solução e por aí segue.

Uma timeline será sempre matéria-prima, isso é fácil perceber; difícil é localizar o narrador, eu insisto, e a posição determinante do resultado expulso que esse narrador ocupa; é um labirinto cujas paredes são edificadas na pretensão descontrolada do usuário (nas suas necessidades afetivas) e também na suposta presença do outro.

Nas redes sociais, o outro (os outros usuários alinhados atrás do véu que na verdade é um design) é o novo deus-instrumento, é o elemento permitido, o elemento aceito na medida em que serve bem para restar absorvido pela auto-hipnose do usuário protagonista. Diante do altar de todas as conveniências narrativas, o outro se tornará, quando muito, um falso protagonista a serviço do protagonista dono do perfil.

E a possibilidade de narrativa continua lá.

Entremos na fase final deste inferno.

Este ano de dois mil catorze foi um ano difícil (lembram quando reclamamos de dois mil e doze e de dois mil e treze?). É cedo para qualquer espécie de atestado de óbito, cedo para decretar se, para além de um ano difícil, este foi também um ano ruim — o diagnóstico vai depender dos anos que estão por vir.

Listei as situações mais perturbadoras de dois mil e catorze antes de começar a escrever o texto desta coluna. Essas situações é que deveriam ter pautado o texto, mas diante da sua extensão considerável veio a preguiça e certo constrangimento, difícil não se constranger com listas. E, além de tudo, surgiu essa vontade de falar de máscaras. De qualquer forma: um ano que termina sempre deixa restos a pagar e algumas sobras lúdicas também.

Para não morrermos na praia (será que no inferno ainda tem praia?), já que o final está mesmo logo ali, e ainda evitando a sangria das listas, divido o seguinte em clima de o que sobrou foi: sensação de que a velocidade que estamos usando como uniforme não está funcionando como deveria dentro das redes sociais; vontade crescente de escrever texto de dramaturgia no qual pessoas agiriam na vida real da mesmíssima forma como agem nas redes sociais, inclusive quanto à manifestação, e concretização, do desejo de fuzilamento, linchamento, enforcamento, estapeamento; torcida incontrolável por imprensa livre e plural, por mais mobilizações populares, por judiciário decente.

Vencemos (jogávamos sozinhos, é sempre assim no inferno, esqueci de avisar).

Não acho impossível. Acho até cabível o quadro de um narrador em segunda pessoa. E não importa se o login está efetuado ou não, porque se vocês têm contas abertas, não duvidem, vocês estão pagando o preço, estão se narrando, usando máscaras — e tudo continua lá se você não se apagou.

Falamos sozinhos. E, como sempre, mais um ano nos mastiga (como bom lanche que somos) e nos expulsa. Não culpemos o pobre do login. Se existe mesmo inferno, esse inferno e seus banhistas somos nós.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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