
Salman Rushdie com seus filhos Milan (centro) e Zafar (à direita). (Foto por Paul Hampartsoumian)
Luka tem doze anos e sonha em seguir os passos do pai, famoso contador de histórias, e do irmão mais velho, que já se aventuraram pelo mundo da magia. É então que, sem querer, ele roga uma maldição contra um circo que visita a cidade, cujos animais são maltratados pelo dono, o Capitão Aag. Naquela noite, o circo é destruído por um incêndio.
Mas o Capitão Aag se vinga, enfeitiçando o pai de Luka e fazendo-o cair num sono profundo, que acabará por matá-lo se o feitiço não for quebrado. Luka então descobre que o único jeito de salvar o pai é roubando o Fogo da Vida do topo da Montanha do Conhecimento.
Essa é a história de Luka e o fogo da vida (tradução de José Rubens Siqueira), livro que faz uso de diversas mitologias e que chega às livrarias no final desta semana. Abaixo você lê uma carta escrita por Salman Rushdie, na qual ele fala sobre os motivos que o levaram a retomar os personagens de Haroun e o mar de histórias. O autor vem para o Brasil semana que vem para participar da Flip.
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Em St. Judy’s Comet, uma espécie de canção de ninar de Paul Simon, há um verso sobre o motivo de a ter escrito. “Se não consigo fazer meu menino dormir”, ele canta, “seu pai fica parecendo tão bobo.” Mais de vinte anos atrás, quando meu filho mais velho, Zafar, me disse que eu devia escrever um livro que ele pudesse ler, pensei exatamente nesse verso. O resultado disso foi Haroun e o mar de histórias, escrito em 1989-90, uma época sombria para mim. Tentei encher o livro de luz e até fazer um final feliz. Finais felizes eram coisas que tinham se tornado muito interessantes para mim naquela época.
Quando meu filho mais novo, Milan, leu Haroun, ele imediatamente começou a insistir comigo que também merecia um livro. Luka e o fogo da vida nasceu dessa insistência. Não é exatamente uma sequência do livro anterior, mas é um companheiro dele. No coração de ambos os livros está a mesma família, em ambos um filho tem de resgatar um pai. Apesar dessas semelhanças, porém, os dois livros ocupam ambientes imaginários muito diferentes.
Uma das coisas que admiro em Através de um espelho de Lewis Carroll é que muito enfaticamente o livro não é um “de volta ao País das Maravilhas”. Alice é Alice, mas seu criador encontrou uma nova realidade para ela explorar. Isso me pareceu o jeito certo de fazer as coisas. Eu tinha de criar um mundo novo e dar ao novo livro uma nova razão para ir até lá.
Haroun e o mar de histórias nasceu numa época de crise na vida de seu autor e a missão ficcional de Haroun, resgatar a capacidade de contar de histórias perdida por seu pai num mundo em que as próprias histórias estavam sendo envenenadas, era uma fábula que respondia a essa crise.
Luka e o fogo da vida é uma resposta a um perigo diferente, mas igualmente grande: o de um pai mais velho que pode não viver o suficiente para ver seu filho crescer. No livro anterior, o contar histórias é que estava ameaçado; neste, é o contador de histórias que está em perigo. Mais uma vez o livro brota da realidade de minha vida e de meu relacionamento com um filho muito particular. Luka é o nome do meio de meu filho Milan, assim como Haroun é o de Zafar.
Ao lado do tema central de vida e morte, Luka examina, de forma adequadamente fabulosa e aventureira, coisas sobre as quais pensei toda minha vida: as relações entre o mundo da imaginação e o mundo “real”, entre o autoritarismo e a liberdade, entre o que é verdadeiro e o que é falso, e entre nós mesmos e os deuses que criamos. Leitores mais jovens não precisam se deter nessas questões. (Os leitores mais jovens de Lewis Carrol não se preocupam com a filosofia, a matemática e o xadrez que fornecem os fundamentos de suas magníficas bobagens.) Leitores mais velhos poderão, porém, considerá-las satisfatórias.
Em Luka, assim como em Haroun, meu objetivo foi escrever uma história que demolisse as fronteiras entre a literatura “adulta” e a “infantil”. O cinema livrou-se dessa distinção há muito tempo com toda uma galáxia de filmes de Star wars até Avatar, de Uma cilada para Roger Rabbit até O fantástico Sr. Raposo. Uma das formas como pensei em Luka e Haroun era que ambos fossem uma mensagem numa garrafa. Uma criança pode ler esses livros e, espero, encontrar neles os prazeres e satisfações que crianças procuram em livros. A mesma criança pode ler os dois de novo quando crescer e encontrar livros diferentes, com satisfações adultas em lugar das (ou ao lado das) satisfações anteriores.
Não quero terminar sem agradecer aos dois rapazes para quem esses livros foram escritos e que me ajudaram em sua criação com inúmeras sugestões editoriais inestimáveis. Luka e o fogo da vida foi a experiência literária mais prazerosa que tive desde que escrevi Haroun e o mar de histórias. Espero que se mostre tão prazerosa de ler como foi de escrever.
Salman Rushdie
Junho de 2010









[...] Luka e o fogo da vida [...]
“meu objetivo foi escrever uma história que demolisse as fronteiras entre a literatura “adulta” e a “infantil”.
Tolkien já dizia que só escreveria livros que (ele) gostaria de ler. Escreveu livros lidos tanto por crianças quanto, adultos.
Valeu demais esse texto do Salman.
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