Por Ruy Castro*
O formato podia ser de bolso — significando uma edição econômica, popular, “descartável” (ainda não se usava a palavra). Mas a qualidade do objeto estava acima de qualquer suspeita.
As costuras eram reforçadas, a cola era de lei e o livro não se desfazia nem ficava desbeiçado como seus colegas de formato dedicados às peripécias do detetive Shell Scott ou do Dr. Fu Manchu — nada de Shell Scott ou Fu Manchu em seu catálogo.
Na capa, um desenho — clássico ou moderno, mas sempre classudo — ou uma foto tratada com um traço ou uma cor. Cor? Inconfundivelmente laranja, dividida em barras (verticais ou horizontais) e, no alto, à esquerda, lá estava a figurinha do pinguim. Pronto. Era um livro da editora inglesa Penguin.
Mas não era só a identidade visual. Cada Penguin era quase autossuficiente: trazia toda a informação relevante sobre o autor e o livro. Direto, na primeira página, vinha um miniverbete sobre o escritor. No verso do frontispício, a história editorial do livro (“Publicado originalmente em…”) e sua trajetória na Penguin (“Primeira edição em…”, seguindo-se o ano das reimpressões).
Na última página, a lista das outras obras do autor na Penguin, para nos deixar com água na boca. E, na quarta capa, um resumo do próprio livro — enxuto, informativo, irresistível.
O miolo, composto na fonte perfeita, Times New Roman (já nasceu clássica, em 1932), apresentava uma mancha (a parte impressa da página) confortável — ao contrário dos outros livros de bolso, em que, para ganhar espaço, aproveitava-se cada milímetro de papel e tínhamos quase de enfiar o nariz entre as páginas para ler o que estava impresso perto das bordas.
O mesmo quanto ao espacejamento, igual aos dos livros grandes, de capa dura.
A sensação era a de que a Penguin nos tratava como adultos. Ou talvez eu quisesse ser tratado assim porque, ao ser apresentado às suas edições, em 1961, na antiga Livraria Civilização Brasileira, de Enio Silveira, na rua Sete de Setembro, aqui no Rio — um mar laranja, de parede inteira, iluminada, no fundo da loja—, mal completara 13 anos.
E o que havia para ler em Penguins? Todo mundo que um jovem iniciante quisesse conhecer: Hemingway, Faulkner, Fitzgerald (“The Great Gatsby”, meu primeiro Penguin), Henry James, Joseph Conrad, H. G. Wells, Bernard Shaw, Somerset Maugham, George Orwell — os cinco ou seis últimos, autores tipicamente Penguin. Assim como, no futuro, seriam Evelyn Waugh, Graham Greene, P.G. Wodehouse. E os clássicos russos e alemães traduzidos por “scholars” ingleses e americanos, em edições enriquecidas por introduções e uma ou outra nota de rodapé.
Era um capricho que, na época, pensávamos encontrar em certos detalhes das edições da José Olympio ou da própria Civilização Brasileira, mas que — depois se percebeu — ainda levaria quase 30 anos para se materializar nos livros da Companhia das Letras. A mesma que, agora, com a naturalidade de quem foi feito um para o outro, recebe a Penguin em seu catálogo.
* Texto publicado no último sábado, dia 23, no caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo. Reproduzido com permissão.
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Sensacional! O meu priemeiro Penguin também foi o The Great Gatsby.
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