Por Júlia Moritz Schwarcz
(No estacionamento do prédio, às 9h20)
Bom dia.
Bom dia, Júlia. Foi pra praia? Seu rosto tá vermelho.
Não, comecei a passar um creme novo pra pele.
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(Na sala do editorial, dois minutos depois)
E aí, viu que o meu post no blog é o segundo mais lido?
Puxa, parabéns. (Ódio mortal)
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(Tem uma prova em cima da mesa, onde leio:)
O rei e a nuvem
— Ei, vocês aí! — o rei chamou as nuvens. — Já vão indo? Não tenho como convencer vocês a ficar? Meu reino é o mais belo de toda a região. Aqui, o verde é viçoso, temos lindos relvados e terra fértil. Nossas torres são tão altas como…
Mas as nuvens já haviam passado.
— Eu compreendo — disse o rei, baixinho.
E suspirou.
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(Um dos meus e-mails, com o título “Livros do exterior”)
NASCIMENTO DO DRAGÃO — Aguardando o contrato para efetuar o pagamento, só depois os arquivos vão ser liberados.
OS 3 FANTASMAS — Contrato está ok, mas ainda mas não chegou, a Paula já cobrou.
BAFINHACA — Os arquivos estão aqui.
THE ORCHARD BOOK OF AESOP’S FABLES — Contrato ok, mas eles ainda não mandaram de volta, a Paula já cobrou.
CONTOS DO ARCO DA VELHA — Os arquivos estão ok.
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(Toca o telefone, 10h)
Oi, Ju, tudo bem? E o nosso Bocejo?
Chegaram dois bonecos e não ficaram nada bons, as dobras amassaram muito o livro. O pessoal da gráfica ficou de achar outra saída. Quem sabe não dá pra usar aquele papel de plástico.
Meu deus, não é possível não conseguirmos fazer o livro. E sabia que no Rio eles dizem “boneca”?
Eu sabia. Beijos, boneca.
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(10h30, e-mail novo)
amigos,
um e-mail da márcia esclarecendo o uso da pontuação quando há colchetes para marcar supressão de texto.
me ajudou, quem sabe ajuda vcs também.
bjs, bia
—– Original Message —–
From: XXX
To: YYY
Sent: Wednesday, June 12, 2010 6:11 PM
Subject: Re: dúvida – colchetes e pontuação
Bia,
Nesse caso, se no original não há ponto, costumo manter sem ponto, já que não sabemos se no trecho citado o ponto está antes ou depois de “pena”.
Ou seja, o [...] indica a supressão do ponto, também.
Nos casos em que há possibilidade de checar, aí sim costumo botar o ponto onde ele existe realmente.
E escreva quando quiser, não é incômodo nenhum; se eu puder te ajudar, será ótimo.
Beijo,
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(Um colaborador vem almoçar com um colega. Nos vimos uma vez só, mas trocamos muitos e-mails de trabalho)
Oi, Mariana. Quer dizer, Júlia! Desculpa, é que conheço uma Mariana que também é judia.
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(Entro no elevador com um companheiro de labuta, que reclama de seus atrasos; estou tentando acalmá-lo, sem perceber que a nossa diretora de produção adentrou o mesmo recinto)
Calma, André. A programação não é tão importante assim.
Ah tá, vou pensar assim também a partir de hoje. (Comentário da diretora, responsável por toda a logística da editora)
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(Começo de tarde, na sala dos meus colegas da produção, equipe Letrinhas)
O que você acha dessa capa?
Você clareou o laranja, né?
Não, na verdade ficou mais escuro, pra não confundir com o bege da cara do personagem.
Ué, mas olha essa prova aqui no computador, tá bem mais escuro aqui.
Esquece o monitor. Exercício de abstração, por favor!
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(No caminho de volta à minha mesa, 14h50)
Marie, tô escrevendo um texto sobre o meu dia aqui, estilo bastidores, pro blog. Se você lembrar de alguma história interessante…
Vixe, não lembro de nada, tenho nove livros em agosto. É só disso que eu lembro. (E imediatamente cola os olhos de volta na prova aberta à sua frente)
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(Toca o telefone, corro pra mesa)
Alô.
Alô, por favor, o setor de produção de livros infantis?
Sou eu.
Então, fiz um livrinho e meus filhos adoraram. Vai ser um sucesso. Mas preciso publicar em dois meses no máximo porque vou para os Estados Unidos no começo de setembro e pretendo divulgar o livro no programa da Oprah.
Puxa, sinto muito, mas infelizmente a edição de um livro infantil leva necessariamente mais de dois meses.
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(O Renan vem até a minha mesa)
Júlia, desculpa te encher, mas preciso urgente daquela frase sobre o jogo.
Mil desculpas, que tal: “Acompanha o livro tal e não pode ser vendido separadamente”?
Legal, me manda por arquivo eletrônico, por favor? Vou aplicar e te mostro. Obrigado.
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(Na sala da produção, às 15h30)
Fabi, precisamos encomendar um projeto gráfico novo para esta coleção. Quem sabe alguma coisa mais pro moderno, que associe os heróis gregos aos super-heróis.
Mas a gente comprou as ilustrações originais, já pagamos e até já recebemos.
P.q.p.! Que mancada a minha, esse projeto dos franceses não tem nada a ver com a gente. Tem que dar pra voltar atrás, vou lá na Ana agora.
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(Ainda na sala da produção, toca o telefone em uma das mesas)
Liga mais tarde, seu dom João, a Gisela não tá na mesa. (É o bisneto do d. João mesmo, também conhecido como d. Joãozinho)
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(Na sala do editorial, às 16h15)
Pessoal, é “a ponto” ou “ao ponto”?
É só trocar por “prestes a”. Lembra da seguinte frase que você não erra mais: “estive a ponto de me jogar, mas não ao ponto de me matar”.
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(Outro e-mail)
júlia
a geane me passou o pdf. já vi e está tudo mais que certo. acho que o errinho que eu tinha pegado da outra vez foi corrigido.
mas escrevo é pra agradecer esse tratamento que vocês deram pro meu livro. fiquei comovido — vocês foram adoráveis. muito obrigado.
e as ilustrações ficaram geniais! por favor, diga isso isso pra marcela. diga que da próxima vez tentarei escrever um livro à altura do trabalho dela.
um beijo,
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(Final de tarde, momento ideal para o “papinho”)
E aí, como foi a limpeza de pele?
Muito cara, mas ela passa milhões de cremes e produtos mil.
Ela te espremeu?
Muito, não tô parecendo um pijama de bolinhas?
Mas ela te colocou naquele bafinho?
Que bafinho?
É que antes de espremer ela coloca uma loção X e te deixa uns trinta minutos com um vapor na cara, assim shhhhhhhhhhhh.
Adoro trabalhar aqui. (Declaração do único colega do sexo masculino presente na sala no momento)
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Vou pra casa, enfrentar as tarefas familiares e — não, ainda não acabou a minha vida de editora — uma certa pilha no meu criado-mudo.
Boa noite e até a minha próxima segunda.
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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.










Aqui em Belo Horizonte também se fala “boneca”. rsrsrs
Adorei conhecer os bastidores !!!!!!!!!
júlia, que delícia acompanhar seu dia!
bom trabalho aí nessa editora que eu tanto amo!
o blog é ótimo, virei habitué.
beijos,
t
Que legal!
Agora que também comecei a trabalhar numa editora (de livros técnicos, blá, nada tão legal quanto a Letrinhas) me identifiquei direitinho com algumas situações.
Vamo lá ler a parte 2 do texto.
[...] [Leia o 1º "Profissão: Editor"] [...]
Julia,
Muito bom ler o seu dia de trabalho. Não é tarefa fácil fazer, refazer, e ser, tudo ao mesmo tempo. Às vezes, ficamos em suspenso. Afinal, é um dia de trabalho.
Um abraço
Falou e disse! Parabéns pela descrição do dia de trabalho… nossa vida é sempre assim, corrida e cheia de (literais) provas. Abraço.
Bom dia, Julia! Adorei o post. O que mais me chamou a atenção foi a pessoa que pedia para o livro ser feito antes da viagem aos EUA para que fosse divulgado no programa da Oprah.
Estou escrevendo um romance sobre democracia e ia enviar às editoras com um aviso, talvez uma tarja vermelha em torno o manuscrito: “ler na frente, pode ser publicado antes das eleições”, ou algo do gênero… Rs…
O ser humano é um barato… rs… Como é comum que cada um tenha uma visão limitada sobre algo. Estamos falando de escritores, editores e livros, mas em tudo analisamos somente o nosso lado e exigimos do outro de acordo com aquilo que nos é conveninente.
É muito bom ter um canal como este e conhecer um pouco mais de como as coisas realmente funcionam!
Abraço,
Camila Lopes Pigato
Muito legal sua trajetória no trabalho. Chame-se segunda vida.
Quanta gente que dá “um pitaco” no livro ou nos livros… Tudo ao mesmo tempo. Que agitação. Experiências de vida é uma maravilha, mesmo que seja ela a de um Editor. Se parece muito com a geografia, a boa geografia. O sujeito tem que estar próximo ao objeto para poder captar sua essencia e aprender.
Sucesso.
Quando fui editora tive que encarar uma autora que, antes de mostrar o original, já anunciara para os amigos e família que o livro seria publicado, sim, e já com data e local de lançamento!
- Mas como não vai publicar? E com que cara eu vou ficar agora depois de ter avisado a todo mundo que o livro sairia por aqui? E minha família, minha mãe que vem de outra cidade?
Eu não sabia como explicar àquela senhora que o livro só é publicado depois que os editores aprovam o texto. Antes, é impossível.
Editores são seres de coragem e muita paciência.
Eu, nunca mais!
Bjs
Socorro Acioli