Por Tony Bellotto

Tony Bellotto no show em Vitória da Conquista (Foto por Laécio Lacerda)
Vitória da Conquista é a terceira maior cidade baiana e possui um dos PIBs que mais crescem no interior do estado. Nesta época do ano lá se realiza anualmente o Festival de Inverno, um grande evento em que se apresentam artistas e bandas de projeção nacional. Estávamos, os Titãs, escalados para tocar no Festival no ano passado, mas uma sequência de contratempos e acontecimentos inesperados — e a velha falta de infra-estrutura de nossos aeroportos e estradas — impossibilitaram que chegássemos a Vitória da Conquista daquela feita.
O aeroporto de Ilhéus — de onde pegaríamos um ônibus que nos levaria a Vitória, 260 quilômetros distante — estava fechado, e depois de três sinistras arremetidas em meio a uma bruma densa e cega, o comandante finalmente decidiu rumar para Salvador — ufa! —, onde nos metemos em alguns táxis e tentamos fazer nosso caminho até Vitória por terra (509 quilômetros no lombo, ai, ai). Qual o quê! Em determinado trecho da estrada, o asfalto sofreu uma ruptura, e um imenso buraco negro brotou em nosso caminho, como se a falha de San Andreas, ela mesma, tivesse se deslocado direto da Califórnia para o interior da Bahia. Claro, a culpa não era do San Andreas, mas da já citada velha falta de infra-estrutura de nossas estradas — mas isso não vem ao caso agora.
Sim, tinha um buraco no meio do caminho, e não conseguimos chegar a Vitória da Conquista (que, naquele momento, já se transformara em Confirmação da Derrota). Cancelar um show em cima da hora é dos piores dissabores da profissão. A culpa, como dizia um velho e safado empresário que conheci no começo da carreira, é sempre dos artistas, mesmo quando não é, como era o caso ali. Nos comprometemos então a voltar e fazer o show para pagar a dívida com os conquistenses.
Bem, no festival deste ano, mais precisamente no sábado passado, conseguimos finalmente quitar nossa dívida com o surpreendente e ensandecido público do festival, que parecia ter permanecido ali por um ano a nossa espera, impávido, e realizamos um show muito animado na madrugada especialmente fria. Para quem, como eu, acha que não faz frio na Bahia, a temperatura durante o show era de inacreditáveis 7 graus centígrados. Inacreditáveis para mim, que sou um ignorante, mas não para o povo lá, que estava bem agasalhado. A nós, músicos, só restou botar os yás-yás pra fora e aquecer e balançar os esqueletos enregelados. Valeu a pena. O show foi dos melhores que fizemos nos últimos tempos. Antes de cantar a última música, “Aluga-se”, do baiano Raul Seixas, Sergio Britto lembrou que o grande (e meio subestimado) Raulzito declarou uma vez que os Titãs eram a única banda metafísica do rock brasileiro. E em seguida entoou: “fala, Raul, que a gente precisa ouvir!”, a deixa para que o batera Mário Fabre contasse “um, dois, três” e atacássemos a intro do clássico do rock brazuca e a plateia começasse a pular como se não houvesse amanhã. Haja metafísica.
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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu próximo livro, No buraco, será lançado pela Companhia das Letras em outubro.









Acabei de descobrir esse blog!
Saudades destes Shows,Quem sabem pro ano que vou ao Brasil possa matar as saudades abço Tony
lembro do problema no ano passado. muitos foram ao blog do Britto questiona-lo pelo não-show.
ele logicamente enfatizava o fato de terem tentado ao maximo, mas o buraco não saiu do caminho
(em questão de buraco… só espero encontar o “no buraco” literario de sua autoria)
não se diga ignorante, ja estive no nordeste e não sei por qual motivo não acreditei quando me vi totalmente molhada pela chuva, da mesma forma você com o frio!
sim, haja metafisica… embora em alguns aspectos, tanto Raulzito como Titãs estajam mais para dieléticos brasileiro da música americana!
ah, bela homenagem no multishow! grande beijo