Com a palavra, o divulgador

Por Júlia Moritz Schwarcz


Ilustrações de Rui de Oliveira para o livro Chapeuzinho Vermelho e outros contos por imagem.

Semana passada participei, como ouvinte, de uma convenção com todos os divulgadores da Companhia das Letras. Tinha gente da Bahia, do Rio, Paraná, Espírito Santo, Goiás, Piauí, Rio Grande do Sul, São Paulo (capital e interior) e espero não ter esquecido de muitos. Esses são os profissionais que visitam as escolas para apresentar o catálogo da Companhia (e de outras editoras), trabalhando em busca de adoções e mais adoções.

Ouvi ideias e sugestões bem interessantes, com as quais jamais tinha topado. E parei para pensar no mundo das salas de aula e dos livros didáticos (ou dos chamados sistemas de ensino, espécie de apostilas, grandes rivais dos didáticos), um pouco afastados, infelizmente, aqui do escritório da Companhia e do meu cotidiano. Se é difícil demais tentar entrar na cabeça das crianças, imagine na cabeça dos professores, cujas realidades são muitas e ainda por cima distantes para quem não está lidando com o ensino. O que cada um busca na literatura, e o que lê no livro que tem em mãos, é mesmo uma incógnita, mas o meu papel é, de alguma forma, adivinhar as necessidades dos diferentes públicos.

Muitos pais, professores, pedagogos e editores se preocupam com a abordagem de temas espinhudos — como a homossexualidade, por exemplo — nos livros destinados às crianças, e muitas vezes carregam seus próprios julgamentos, traumas e complicações nessa leitura. Tendem também a evitar que as crianças enfrentem sentimentos fortes e situações desafiadoras — como o terror e o medo — na leitura de histórias. Felizmente, as crianças não reagem a esses sentimentos da mesma maneira, e, no mais das vezes, sentem-se mesmo atraídas a eles. Bruxas, lobos e monstros são tão apetitosos quanto as cenas em que essas criaturas são mortas, com requintes de crueldade, para nunca mais voltar (ou melhor, até a próxima leitura). O ponto entre o quanto de medo e violência as crianças suportam enfrentar é bastante sutil, mas tendo a achar que a inteligência infantil poupa anos de análise ao exorcizar o medo através da imaginação. Quando encontram uma história que lhes desafie ou atraia por um motivo qualquer, as crianças costumam pedir que a contemos algumas dezenas de vezes, semanas a fio. A repetição seria, nesse caso, mais uma forma de exorcismo. Saudável demais.

Por isso me preocupo com a importância da censura adulta na edição de um livro para crianças. Com tantos “não se deve” ditando as normas, e uma boa dose de superproteção, muito dessa função da narrativa, a de aliviar a alma humana, vai se perdendo. Hoje essa barreira é menos significativa do que costumava ser, mas livros polêmicos em sala de aula, hum… complicado.

Professores são fundamentais na vida de um livro. Os infantis, salvo algumas exceções, vendem pouco nas livrarias e por isso dependem bem das adoções. Os livros com mais truques e recursos gráficos ou eletrônicos têm um comportamento diferente, assunto sobre o qual tratei em outro texto.

Nessa mesma convenção, foram apresentadas as adoções dos livros da Letrinhas — conhecemos os colégios que adotaram cada livro, e até mesmo o número de alunos de cada adoção: 32, 54, 128… Lembro de um ou outro caso de adoções maiores, de turmas de mil alunos, mas em geral predominaram os números picados e bem baixos. Um autor da Companhia que acabou de lançar um livro pelo selo Letras havia sido convidado a participar do evento e estava sentado ao meu lado. Ficou um tanto espantado com os números e ainda lembrou que nem todos os alunos cujos professores haviam adotado os livros os comprariam. Mas a realidade do livro infantojuvenil no Brasil envolve cifras nada astronômicas, em geral, e sua participação nas vendas da editora é de fato menor, em quantidade, se comparada à dos outros selos.

(Queria esclarecer que não faço coro àquele discurso derrotista que acha que as pessoas veem a literatura infantil como inferior, pobre e recheada de diminutivos. Acho que o posto de “coisa séria” já foi alcançado há algumas décadas, com autores consagrados e muitos de grande qualidade. Isso sem falar na realidade dos planos de governo — que são estáveis há quase dez anos e não param de crescer, com compras não só do governo federal como dos estaduais, das prefeituras, secretarias e demais órgãos.)

Claro que as vendas, adoções e planos de governo importam demais, mas tento me pautar não só pela qualidade como também por outros critérios, como o envolvimento passional com os livros (tudo bem, eu sei que isso vale para qualquer profissão e que não é nenhuma novidade para ninguém).

O melhor de encontros “convencionais” como esse de que tive a honra de participar é poder se internar por dois dias no Hotel Tryp Itaim (por favor, leiam com o devido sotaque para dar alguma leveza a um texto que está ficando chato, apesar do meu esforço) para tomar café com pão de queijo e falar, sempre com muito gosto, sobre o que o autor Ilan Brenman definiu por lá como “carne de língua” (ou, se preferirem, histórias; contadas por nossas línguas, daí a expressão). Só mesmo com muita carne de língua para sobreviver. E você, freguês, quantos quilos vai querer?

* * * * *

Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

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4 Comentários

  1. Gostei muito do blog.
    E acheii a imagem da chapeuzinho vermelho muito interessante.

  2. Neusa Maria Mendes Borges

    Júlia,
    Pelas minhas andanças feitas recentemente nas escolas públicas da Região Norte do nosso país, percebo que é preciso se criar muitos “açougues” (leia-se bibliotecas escolares) para que realmente nossos alunos se deleitem com a leitura, com a “carne de língua”.

  3. Júlia,

    Gostaria de provar um bom medalhão de filé lobatiano, mal passado (à inglesa), com tempero argentino ou espanhol mediterrãneo (sal de alecrim com pimenta calabreza), acompanhado de uma salada de rúcula, tomate e grandes azeitonas negras. E um vinho provençal, tinto e bem encorpado.
    Chega de fastfoods tudo igual.

  4. “carne de língua”!
    amei!
    texto ótemo. bjon

    (esse blog é uma delícia!)

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