Por Mariana Mendes
Não demorou para eu descobrir que havia caído no departamento que lidava com um público especial para a editora, o dos professores. Sobretudo pelo fato de que eles leem os títulos que lançamos. Claro, a Companhia tem leitores em todas as áreas, mas os professores fazem parte de uma classe bibliomaníaca. É transparente, vê-se nos olhos a paixão. Divirto-me quando um dos muitos que costumam visitar a casa comenta: “deve ser maravilhoso estar diante de tantos livros!”, referindo-se à parede coberta deles que vai do chão ao teto, para a qual eu sento de frente. Respondo, sempre: “é muito bom trabalhar aqui”, tentando provocar mais inveja!
Infelizmente não passo o dia lendo as obras que a editora publica. Esta seria a condição ideal: segunda a sexta, todo o expediente dedicado à leitura. Impossível, claro. Conformada por não acreditar em condição perfeita para o trabalho, deixo-me levar por rotinas que cercam o processo de edição e produção do livro. Ler a programação é uma delas. É a vez de meus olhos brilharem.
Semanalmente, às quartas ou quintas no período da tarde, recebo das mãos do Thiago Diniz a cópia impressa da programação. Imagine uma tabela do Excel em uma página A4, configurada no modo paisagem. Povoe essa página com milhões de letrinhas e números formando um exército de informações precisas sobre a publicação de todos os livros da editora.
Os números que constam no resumo falam por si: no primeiro semestre do ano, a editora acumulou 123 livros lançados. Daqui até o final do ano, serão publicados mais 124. Resulta em uma média de 20,5 livros a cada 30 dias. Se fossem apenas 247, mas somam-se as reimpressões e os livros comprados pelo governo, para os alunos ou bibliotecas, além da venda para empresas ou instituições financeiras. Ainda que segmentados entre obras para adultos, quadrinhos, infantojuvenis, bolso, o selo claroenigma e o filhote com jeito de gente grande, o selo penguin-companhia, é um mundo de livros, não se pode negar.
Nas linhas estão dispostos títulos e autores, nas colunas, dados diversos resgatam a história do livro, como, por exemplo, a célula que é preenchida pela data em que o original “desceu” do editorial para a produção — o verbo empregado se deve ao fato de o editorial ficar no quarto andar e a produção no terceiro. Além de traçar a trajetória de cada livro, a programação fornece desde as características físicas, como altura e largura, até os nomes próprios que se relacionam com o processo, como os editores responsáveis, identificados pelas iniciais: BE é Maria Emilia Bender, MG é Marta Garcia e JS é Júlia Schwarcz, só para ficar nas mulheres. O mesmo para os capistas: KF é Kiko Farkas, WL é Warrak Loureiro, RA é Rita Aguiar. A programação também mostra as tiragens. Se serão três, como O menino que odiava mentira, ou trinta mil: O Palácio de Inverno. Confesso ainda não ter domínio sobre as siglas das gráficas, sei menos ainda sobre os códigos do papel. Já me disseram que há uma coluna que informa se vai verniz na capa, mas como só consta na programação que fica na rede, não na impressa, não lembro qual coluna é…
A programação no papel apresenta o futuro próximo, já que nela constam apenas os títulos a serem publicados nos próximos seis meses. A programação disponível na rede, acessível para muitos funcionários, possui livro programado até agosto de 2013. Nela os anos acumulam-se sem pudor, e os livros se multiplicam. No quarto andar, semanalmente, às terças de manhã, a equipe editorial se reúne para discuti-la. O que entra, o que altera e por quê? E sempre há mudanças de uma semana para outra. A programação é orgânica, viva. Ao final, o tempo se dissipa e temos uma “canja” dos livros que compõem as sobras, os contratados, apalavrados, o pré-limbo, o limbo e, por fim, os cancelados.
Hora de voltar à superfície, respirar fundo e retomar de onde parei.
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Mariana Mendes trabalha na Companhia das Letras desde 1998 e é supervisora de divulgação escolar.










Mariana,
nas linhas e entrelinhas de sua bonita crônica, encontro sempre a mesma profissional competentíssima, apaixonada pelos livros e pela literatura. Lendo o texto, não pude deixar de me lembrar também do tratamento respeitoso (cordial, inteligente e bem-humorado!) que você e seus colegas Rafaela e Arthur dispensam aos professores. Muito obrigado! Continuarei a ler o seu blog!
Marcos Moraes
Que delícia de texto e de tarefa…
Um beijo. Júlia
é mari, a vida da editora não são só letras né?! adorei o texto e me lem brei de te ver analisando uma dessas planilhas na época em que fiz estágio na companhia. delícia de lembrança porque estava perto de você e delícia de leitura, leve, informativa e com um toque etnográfico de quebra.
parabéns!
beijos da lu.
Olá! Estou me formando em jornalismo, mas pretendo, a partir do próximo ano, começar um curso de letras e uma pós em ciências da linguagem.
Meu sonho é ter uma editora, um dia, num futuro ainda um pouco distante. Antes disso, gostaria de adquirir conhecimentos do mercado editorial, e trabalhar numa editora é fundamental para isso. Está em meus planos.
Mas é legal ver alguém falando de seus trabalho nesse setor. Além de me deixar mais curiosa, aumenta o meu interesse e a minha certeza de que esse é o caminho que pretendo percorrer.
Ótimo texto, parabéns!
Que bom o texto! dá uma noção dos bastidores de uma editora. Imagine que ainda há tantas outras lançando livros no mercado. Haja espaço pra tudo isso nas prateleiras … menos mal que podemos ler quando quisermos, onde estivermos e ainda há tanto para se conhecer! infinito saber.
oba, mari, adorei.
um texto divertidíssimo e super instrutivo.
pelo menos pra mim. rs.
Oi, Mariana
Que emoção ler suas palavras molhadas de leituras, livros!
A meu ver, é o melhor dos mundos pra gente ficar mergulhada por muitas horas, dias.
Isso aí, menina, navegue sempre por esses trabalhos.
Carinhos da
tia Pitita