Por Luiz Schwarcz


Carimbos humorísticos sobre recusa de manuscritos.
Recusar um livro é das situações mais delicadas na vida de um editor. Mas infelizmente é bastante comum. Quando se trata de autor desconhecido, cujo texto foi enviado espontaneamente à editora, é um pouco menos difícil. As editoras recebem um número grande de originais, e têm que enfrentar a crença comum de que todos já nascemos autores, poetas, romancistas — é só achar um tempinho em meio a nossos afazeres e escrever. Entre nós grassa a maldita ideia de que literatura é feita basicamente de inspiração — e não de trabalho, muito trabalho.
No começo da Companhia das Letras, eu mesmo lia todos os textos enviados à editora. Naquela época, o volume de autores que nos procurava não era muito grande. Aos poucos as editoras estão sendo obrigadas a desistir dessa tarefa, e receber apenas originais que já tenham sido lidos e recomendados. É pena. Há também a noção de que os editores devem prestar um serviço de auxílio a jovens autores, o que em tese seria muito simpático, porém se mostra inviável. Num mercado como o dos Estados Unidos, as editoras só recebem livros enviados por agentes literários, que fazem o filtro que nós, editores, em meio a tantos originais, não conseguimos realizar por nossa conta.
No caso de autores conhecidos, jovens ou consagrados, de quem já publicamos outros livros, o momento da recusa de um novo trabalho é ainda mais sensível. No entanto faz parte da profissão e aprendemos a fazê-lo com a delicadeza necessária. O editor deve, na verdade, preservar a carreira do escritor, lutar por um casamento duradouro, no qual o parceiro cresça sempre, um casamento desequilibrado propositalmente, onde o destaque está sempre voltado para o autor. No entanto, nos momentos em que algo está muito errado, o editor deve dizer não, ser franco e firme. A situação extrema é pouco comum. Na maior parte dos casos, as sugestões do editor não implicam em recusa, mas em dizer “siga outro caminho, assim não dá”.
Durante minha experiência na Brasiliense, com livros encomendados às pencas para as coleções de bolso, aprendi que a interferência do editor é fundamental. O Caio Graco tinha muita facilidade em falar o que achava sobre os livros, e sofria pouco ao ter que recusar, na lata, algo que encomendara. Eu era bem jovem, e pelo meu temperamento mais pacato sofria muito.
No caso de trabalhos literários, dos autores com quem vim a conviver mais intimamente na Companhia das Letras, as sugestões e recusas sempre foram um pouco mais pesarosas do que nos textos de divulgação que eu costumava encomendar na Brasiliense. Ainda lá, a cada dia que passava, maior era o número de autores com quem eu trabalhava, escritores que começaram a me ver como o editor que acompanharia seus livros futuros. Ao mesmo tempo, a literatura de qualidade ganhara espaço em meio a tantas coleções. As salas da Barão de Itapetininga e depois da rua General Jardim foram uma boa escola para mim, mas quando tive, já na minha editora, que recusar um livro de um autor de obra vasta, que eu admirava, e com quem tinha relação íntima, passei várias noites insone.
Ele morava longe. Fui à sua casa relendo as minhas sugestões e anotações, presentes em quase todas as páginas do original. O fato de termos marcado a conversa fora da editora, aliado à certeza de que o escritor nunca tinha vivenciado nada parecido, agravava a situação. Foi constrangedor, mas alguns dias depois ele me ligou agradecendo. Não desistiu do livro, como eu propusera, mas melhorou o que pôde, após meses de trabalho.
Sabendo que uma carreira é feita de acertos e erros, aceitei a nova versão, como se nada houvesse acontecido, e editei o livro da melhor maneira que pude. Era um momento menor na carreira do escritor, mas meu papel passara a ser o de defender o seu romance, com unhas e dentes, sabendo que era o melhor que ele pudera fazer, naquele momento.
Passei por essa situação muitas vezes. Na maior parte delas, contava com a vantagem de já ter ganhado a confiança do autor, o que facilitava a minha tarefa. Alguns livros nunca saíram, outros foram publicados com muitas modificações, e poucos foram os que procuraram outras editoras para publicá-los, sem edição.
Vivi essa experiência recentemente, do outro lado da mesa. O livro que acabo de publicar, Linguagem de sinais, foi inicialmente recusado em coro pelos editores da Companhia. Como no caso de Discurso sobre o capim, Linguagem de sinais nasceu como romance. Só que diferentemente do primeiro livro, neste caso eu fui em frente e não percebi que estava equivocado antes de entregá-lo à leitura dos meus colegas. Depois de quase quatro anos de trabalho, achei que tinha feito um bom livro, de cento e vinte páginas, onde havia um bocado de erudição, informações biográficas sobre meninos selvagens e seres que viveram em isolamento, como Joseph Merrick — o Homem elefante —, Kaspar Hauser, Alexander Selkirk — o marinheiro que foi achado depois de viver isolado numa ilha por quatro anos, e cuja história originou o clássico de Daniel Defoe, Robinson Crusoé. Eu estava errado. Sofri do mesmo mal que diagnostiquei tantas vezes em outros escritores: o fascínio exagerado pelo tema do romance. A fluência entre ficção e não ficção, que na verdade deveria ser a força do livro, não ocorria como o planejado, e era na verdade o ponto fraco do finado romance.
Não cheguei a deletar o texto integralmente, graças à minha mulher Lilia e minha filha Júlia, que acreditavam que eu poderia refazê-lo. Em Discurso sobre o capim, das mais de cem páginas do romance, sobreviveram apenas onze linhas. No novo livro restaram mais, umas trinta a quarenta páginas, completamente modificadas.
A versão que vingou de Linguagem de sinais resulta numa forma narrativa mista. Sob o formato de contos, seis narrativas possuem um mesmo narrador, fazem parte da mesma história (o tal romance). Os outros cinco capítulos, intercalados com os anteriores, são de fato contos, mas mantêm uma estranha semelhança com o resto. Sem a crítica severa de Maria Emília, Marta, Thyago, Heloísa, André e Paula, no lugar da sensação de alívio que hoje sinto, depois de mais de cinco anos de idas e vindas, de revisões ininterruptas, eu provavelmente sentiria uma preocupação difusa, e me recriminaria por, mais uma vez, tentar ser o romancista que não sou.
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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.









Prezado Luiz Schwarcz,
Li com atenção seu texto, apreendendo a sutileza dos “recados” e os delicados conselhos a quem ousa arvorar-se escritor”, até porque, concordo, conquistar esse título demanda muito trabalho, persistência e vocação literária. Mas o que me motiva a escrever-lhe é a dúvida que me surgiu ao avaliar suas ponderações. Se não estou equivocado, você desencoraja quem pretenda enviar originais para avaliação editorial, considerando que, via de regra, os trabalhos enviados são amadorísticos, fato com que concordo, refletindo minha experiência de jornalista e autor. Ocorre que, no site da Companhia das Letras, por exemplo, há um ícone incentivando o envio de originais à editora. Não me cabe entrar no mérito da questão, mas peço-lhe que avalie minha situação. Tenho 40 anos dedicados à literatura, período no qual tentei me aperfeiçoar no que considero vocação literária. Autodidata, li e continuo lendo muito, por prazer e gosto, decerto, mas principalmente para aprender e me qualificar como autor, escrevendo quase que diariamente, nas horas roubadas do descanso e do lazer. Portanto, trabalhei e continuo trabalhando para atender primeiro à minha vocação e depois a necessidade de publicar minhas obras, no sentido de compartilhá-las com os leitores que possa ter. Em resumo: embora tenha publicado cinco obras, mais como experiência e para atender à vaidade, hoje, após 40 anos de aprendizado ainda não estou pronto – isso ninguém consegue -, mas sinto-me preparado para apresentar algumas de minhas para avaliação de editoras sérias, como é o caso da Companhia das Letras. No entanto, ao ler o seu texto e deparar com a informação de que os originais não são devidamente avaliados, ou desrcartados, pergunto-lhe: Vale a pena gastar tempo e dinheiro para enviar alguma de minhas obras à sua editora, conforme orientação do site da mesma? Posso ter certeza de que, seguindo as regras do site, a minha obra será avaliada, mesmo que não tenha valor literário algum? Perdoe-me expressar-lhe minhas dúvidas, mas ao contrário de você, apenas estou tentando defender os interesses do romancista que, creio, me tornei, após – reafirmo – décadas de muita leitura e aperfeiçoamento do estilo e da escrita. Era isso, senhor Luiz. Agradeço-lhe pela atenção, certo de que receberei sua resposta, senão em consideração ao autor, certamente em respeito ao cliente e admirador.
Atenciosamente,
Luiz Carlos Freitas
Vc é gentil, recebe palavras delicadas.
Boa sorte, também.
Elianne
PS: Raduan Nassar, que é meu amigo, leu este conto e disse que era muito bonito e angustiante, quer ler? é curtinho…
Não ousaria perturbar meu querido amigo com mais
contos neste momento.
Aqui: http://lauradiz.blogspot.com/2010/09/miniconto-o-homem-menos-estranho.html