Do que eu falo quando eu falo de natação

Por Tony Bellotto

Jogging on a bright November morning
(Foto por Ed Yourdon)

Para não parecer que só falo de escritores bêbados, vou falar de um escritor atleta, que corre em média algo em torno de 300km por mês: Haruki Murakami.

Sim, o homem é um maratonista obcecado que corre 15 quilômetros por dia, chova ou faça sol, sete vezes por semana (ok, em algumas semanas ele dá uma desleixada e corre apenas seis). Invariavelmente ele escuta rock durante suas corridas, e bandas como Lovin’ Spoonful, Red Hot Chili Peppers, Gorillaz, Credence e Beach Boys estão entre as suas favoritas.

Fiquei sabendo disso lendo um livro de Murakami, que tem o saboroso título Do que eu falo quando eu falo de corrida. Eu mesmo um corredor apaixonado — tive de diminuir o ritmo por conta de uma hérnia de disco, mas substituí a corrida pela natação — e eventualmente também um escritor dedicado, além de um inveterado fã de bandas de rock (acabei até criando uma em que pudesse tocar), fiquei curioso ao esbarrar no relato do escritor japonês durante uma flanância por livrarias, e acabei comprando-o pelo título.

Confesso de cara que nunca tinha lido nada de Murakami. Ouvira falar de vários de seus livros, especialmente Norwegian wood, que é um best-seller, e também de Minha querida Sputnik, que minha filha Nina leu e me recomendou. Sei que é um escritor popular e muito influenciado pela cultura pop ocidental, mas nunca tinha sentido o “chamado” (abrir o livro e atravessar a zona da arrebentação da primeira página). Notem que eu TENHO Norwegian wood em algum ponto não habitado da minha caótica biblioteca e o Minha querida Sputnik — que igualmente não sei exatamente por onde anda, mas está na área, embora fora da zona de alcance do radar — foi emprestado por mim à minha filha (e devolvido em excelente estado).

O que me pegou em Do que eu falo quando eu falo de corrida é que logo que li o título, entendi o que Murakami tinha a dizer. E me identifiquei imediatamente. É claro que não se trata de um livro de auto-ajuda (embora seja também), nem de um compêndio para maratonistas iniciantes (que podem encontrar valiosas dicas ali) ou um manual de como entrar em forma e perder peso (o que o livro definitivamente não deixa de ser). Não é também um volume sobre meditação (e é), tampouco um apanhado de conselhos para escritores iniciantes ou não (conquanto os bons conselhos para escritores iniciantes ou não abundem em suas páginas).

O que me pegou no livro de Murakami, e com o que imediatamente me identifiquei, foi a importância que ele atribui à corrida no seu ofício de escrever. E o interessante é que essa relação não é direta, óbvia, como se enquanto corresse ele pensasse em suas histórias, ou as inventasse, ou mesmo se lembrasse delas. Não. Murakami é o primeiro a dizer que, enquanto corre, não pensa em nada. Ou pensa em tanta coisa que é como se não pensasse em nada (e nós, que corremos ou nadamos ou pedalamos, sabemos o que ele quer dizer com isso).

A corrida cria na mente de Murakami o vazio necessário para que ali dentro, em algum momento quando ele NÃO estiver correndo, alguma coisa realmente interessante — e como diria Hemingway, verdadeira — surja. Mas esta é só uma entre as muitas revelações encontráveis no belo relato de Murakami.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro.

15 Comentários

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