Recentemente, o Conselho Nacional de Educação (CNE) recomendou que o clássico As caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, não fosse distribuído pelo governo nas escolas públicas brasileiras*, por suposto conteúdo racista. Lygia Fagundes Telles, indignada com a acusação, mencionou este texto que escreveu sobre o autor que tanto admira. Propus a ela que o publicássemos no blog, o que muito a entusiasmou. Aí vai ele.
— Marta Garcia, editora
* A equipe do Blog da Companhia gostaria de se retratar por essa informação: o Conselho Nacional de Educação, partindo de processo que pedia que As caçadas de Pedrinho deixasse de ser usado nas escolas, optou por exigir que essa obra, e qualquer outra que apresente situações racistas, inclua nota de esclarecimento sobre esse tipo de conteúdo. O parecer completo do CNE pode ser lido aqui.
Gostaríamos de ressaltar, entretanto, que em momento nenhum a editora Marta Garcia ou a escritora Lygia Fagundes Telles fizeram referência a censura ou banimento da obra.
Agradecemos a todos que comentaram e se interessaram pelo texto.
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Lobato com alguns de seus personagens (Caricatura por Belmonte)
Monteiro Lobato
Por Lygia Fagundes Telles
Quando cheguei para a primeira aula na Faculdade de Direito, um colega aproximou-se sacudindo na mão o jornal, “Olha aí, o Monteiro Lobato foi preso por causa da carta que escreveu com aquela denúncia sobre o petróleo, lembra? O Getúlio Vargas aprontando outra vez; ele foi preso por crime de opinião, contrariar o presidente dá cadeia!”.
Enquanto eu lia a notícia, o meu colega esbravejava lembrando da nossa passeata, saímos levando na frente o estandarte do Centro XI de Agosto e a bandeira brasileira, todos na maior ordem e silêncio, quando de repente veio por trás a cavalaria já atirando! Um morto, feridos, presos…
“Ele está no presídio da Avenida Tiradentes. Vou lá fazer minha visita”, avisei guardando os livros e cadernos na sacola que dependurei no ombro.
O colega enfiou o jornal no bolso, “Não vão deixar você entrar, é claro!”. Fui saindo rapidamente, “Não custa tentar”. Ele me acompanhou até o ponto de ônibus, não podia ir porque tinha um exame nessa manhã, “E se deixássemos para depois?”. Despedi-me. “Tem que ser agora”.
Quando desci do ônibus, fiquei na calçada olhando o velho prédio encardido e frio. Subi a escada. Um guarda veio e pediu meus documentos. Entreguei-lhe a minha carteirinha de estudante e disse que viera fazer uma visita de solidariedade ao escritor. O guarda vistoriou a minha sacola, “Nenhuma arma?”. Olhou-me com uma expressão meio divertida e ordenou que o acompanhasse. No longo corredor que me pareceu sombrio ele avisou, a visita teria que ser breve mesmo porque já tinha um visitante lá dentro. Entrei na saleta fria. Uma mesa tosca, algumas cadeiras de palhinha. Em torno da mesa, Monteiro Lobato de sobretudo preto, um longo cachecol de tricô enrolado no pescoço. Sentado ao lado, o visitante de terno e gravata, calvo, os olhos azuis. Monteiro Lobato levantou-se abotoando o sobretudo e veio ao meu encontro com um largo sorriso. Era mais franzino e mais baixo do que eu imaginava. Tinha os cabelos grisalhos bem penteados e o tom da pele era de uma palidez meio esverdinhada, mas os olhos brilhavam joviais sob as grossas sobrancelhas negras. Ofereceu-me a cadeira que estava entre ambos. “Este aqui é um caro editor”, apresentou-o e disse o nome do editor, que não guardei. Sem saber o que dizer, fui logo enumerando os seus livros que já tinha lido e que ocupavam uma prateleira da minha estante, ah! as paixões da minha adolescência! Narizinho Arrebitado, Tia Nastácia, o Jeca Tatu, as memórias daquela boneca de pano, a Emília, o Saci-Pererê…
Ele interrompeu-me com um gesto afetuoso, eu sabia que era avesso às homenagens e assim entendi a razão pela qual desviou a conversa, afinal seus personagens não eram culpados pela sua prisão, mas sim as cartas que andou escrevendo, ou melhor, as denúncias que andou fazendo através dessas cartas, porque os livros os governantes não liam mesmo. Deviam ler mas não liam, e daí a ideia das cartas curtas e diretas. “Estou aqui no meio de bandidos, tinha que me calar ao invés de avisar que o petróleo é nosso, a mocinha já entendeu, hein? Sei que é estudante, mas o que está estudando?” Quando contei que estava na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ele abriu os braços num gesto radiante, “Pois foi lá que eu me formei! Só que na nossa turma não tinha meninas, só marmanjos. Ah! se tivesse aqui um vinho a gente poderia brindar estes doutores! Quer dizer que a mocinha vai advogar?”. Comecei gaguejando, bem, era difícil explicar, era uma estudante pobre, queria me formar para ter um diploma e assim arrumar um bom emprego. Na realidade queria ser escritora, escrever contos, romances…
Monteiro Lobato voltou-se para o editor e tocou-lhe no ombro, “Olha aí a mocinha é vidente! Já está sabendo que escrever neste país não dá dinheiro, escritor morre pobre e ignorado. Então ela é uma vidente!” disse e tirou do bolso do sobretudo um pequeno bloco e uma caneta, “Vamos, deixe o seu nome e endereço, o meu amigo aqui vai lhe enviar algumas reedições dos meus livros, vamos, diga logo antes que o carcereiro apareça”.
Ele debruçou-se na mesa para escrever e quando lhe disse o meu primeiro nome ele perguntou, “É com y, não?”. Contei-lhe que escrevia com i porque assim achava mais fácil, mas minha mãe queria que eu escrevesse meu nome com y… Ele me olhou com severidade, “A sua mãe está certa, mocinha! Você acha mais fácil com i, mas desconfie sempre das facilidades, escrevendo com y o nome fica com duas pernas porque ali está o g, melhor para as andanças essas duas pernas, está me compreendendo? As facilidades são sempre sedutoras, mas superficiais, indague a origem do nome e veja se lá longe ele aparece com y”.
Chegou o carcereiro, que ficou em silêncio, rodando na mão a maçaneta da porta. Monteiro Lobato passou para o amigo a folha do bloco, levantou-se e me abraçou. Dirigiu-se ao carcereiro: “A doutora vai sair na frente, peço mais cinco minutos para tratar aqui com o amigo de um assunto urgente, é possível?”.
Fui na direção do carcereiro e saí sem olhar para trás.
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O apartamento onde eu morava com minha mãe era pequeno, e ainda assim ela resolveu convidar alguns colegas e amigos para um vermute, era o meu aniversário. Saiu para comprar pão e presunto para o sanduíche e quando voltou veio anunciar toda satisfeita que tinha encontrado ali na Rua 7 de Abril um escritor importante, o nome? Ah! não podia dizer, era uma surpresa, ele ficou de aparecer. Estava anoitecendo quando a campainha tocou. Abri a porta e ali estava Monteiro Lobato com um ramo de flores: “Vim pagar a visita que a mocinha me fez lá no presídio”.
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Lygia Fagundes Telles nasceu e vive em São Paulo. Considerada pela crítica uma das mais importantes escritoras brasileiras, publicou ainda na adolescência o seu primeiro livro de contos, Porão e sobrado (1938). Estudou direito e educação física antes de se dedicar exclusivamente à literatura. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 1985 e em 2005 recebeu o Prêmio Camões, o mais importante da literatura de língua portuguesa.









Quer dizer então que é um absurdo a a obra dele ser acusada de racista porque ele foi simpático com Lygia Fagundes Telles?
É lamentável que o blog de uma de nossas melhores editoras esteja, simplesmente, traficando informação falsa. Não me refiro ao belo texto de Lygia Fagundes Telles. Refiro-me ao cabeçalho da editora.
A Companhia das Letras realmente não sabe que não houve, no parecer do CNE, absolutamente nenhuma recomendação de que a obra “não fosse distribuída”? A editora Marta Garcia não leu o parecer, que está amplamente disponível na internet? Por que uma editora da qualidade da Companhia não se informou melhor?
Para quem quiser se informar, em vez reproduzir os escândalos fabricados, deixo o link ao (razoabilíssimo) parecer do CNE: http://docs.google.com/viewer?a=v&pid=explorer&chrome=true&srcid=1Qo8RXEXQpqfe6nHVQRF6NxUnCTvLJuphsJDniLZy5XjpGcmoKZezesgvshM2&hl=en
Dona Benta me repreenderia pelo acento agudo que escapou na crase do último comentário. Emília talvez fizesse troça, e o defendesse, como mais simpático que o acento grave, que _ o nome já diz _ é coisa para gramático cocoroca, sério, de pince nez no naris manchado de rapé. Perdão pela má datilografia.
“Suposto conteúdo racista”? Suponho que seria interessante reler Lobato, sem preconceitos.
O lindo texto de Lygia sobre o maravilhoso Lobato ajuda a propalar a confusão entre o que fez o CNE e o que as pessoas pensam que fez. Não houve uma condenação a Lobato (pelo contr´rio, reconhece-se seu papel fundamental na literatura brasileira), nem uma caça ás bruxas, nem julgamento moral. Trata-se de levar livros a crianças de 11 anos. E o que era preconceito corrente nos anos 30 hoje é até punido com prisão por lei.
Sugiro que leiam para a querida Lygia esses trechos da obra do genial e corajoso escritor paulista:
“Só tomo leite”, explicou a linda princesa.”Tenho medo de que o café me deixe morena”.
“Faz muito bem”, dise Emília. “Foi de tanto tomar café que tia Nastácia ficou preta assim”
“A negra pendurou o beiço. “Credo, parece feitiçaria”. (Reinações, página 40, Ed. Urupês, 1964). Três páginas adiante, Emília discute com Narizinho, diz que ela lambeu os beiços ao comer a traíra e a menina responde: “Lábio; aliás, beiço é de boi”.
“Insisti, e ela com esse beição todo: ‘não tenho coragem… é sacrilégio’… Sacrilégio é esse nariz chato”.
“Bem se vê que é preta e beiçuda! Não tem a menor filosofia essa diaba”.
Tenho uma coleção com mais 300 dessas citações, algumas bem piores, isso para não citar análises acadêmcias sobre o appel do negro na composição dos personagens do autor, uma marca de seu tempo.
Emília, em geral, é quem vocaliza o racismo nas obras de Lobato. É repreendida, não pelo racismo, mas pelo “desrespeito aos mais velhos”. O livro que o MEC recomenda só distribuir em sala com texto de orientação e preparo do professor (é disso que trata o parecer do CNE) é até dos que menos têm esses trechos, mas teve o cuidado de introduzir, no prefácio, um alerta para o fto de que não se pode mais fazer caçada como as de Pedrinho, porque a lei _ e a consciência _ ambiental não permite. Qual o probblema de querer esse tipo de alerta para o racismo?
Não se trata de um parecer sobre a publicação, distribuição ou venda de LObato. É de seu uso em sala de aula, para crianças, nos dias de hoje, quando o bullying contra os negrinhos finalmente é visto como coisa inaceitável. É tão difícil aceitar isso?
Belo relato, me comoveu- solidariedade é o gesto que mais me comove.
Bom que postaram aqui- vou repassar.
Abs, Elianne
Poderia escrever tantas e mais tantas coisas aqui, sobre a polêmica da proibição (que acho absurda). Enfim, que lindo presente você recebeu em seu aniversário!
Não sou fã de Monteiro Lobato, assumo logo. Mas tem um trecho que amo muito e sempre me faz refletir, em que o capitão Gancho diz para a Emília “Os livros mentem tanto quanto os homens”.
Os que se dizem intelectuais, tem que entender que nâo só a parte tecnologica muda a todo instante, mas também os valores sociais. Não cabe mais saudosismos,nem mencionar fatos passados para justificar novos conceitos. Fui alfabetizado lendo livros de Monteiro Lobato, e me lembro de um amigo negro nao gostava, quando dizíamos que ele era filho da vovó Benta e que nós irmãos do Pedrinho. Sem esta de máscaras Monteiro Lobato tinha sim um lado racista bem acentuado
O governo não lê livros, verdade. Pior é que manda uns técnicos cri-cri ler.
Logo, logo, esses politicamente correto vão começar a exigir que branco não escreva livro com personagens pretos. Gente de olhos azuis não escrevam personagens com olhos castanhos.
O politicamente correto inspirou a célebre frase: tudo que eu faço é imoral, ilegal ou engorda.
Viva as Caçadas de Pedrinho.
Muito bonito, Lygia sempre com seu texto firme e gostoso.
Sou professora e saí em defesa de Lobato, mas, como posso ver, ele mesmo sabia que autoridade não lê livro bom.
É um absurdo censurá-lo, no contexto em que está é perfeitamente aceitável e muito mais rico lê-lo do que ignorá-lo por suprema ignorância.
E temos que ler as cartilhas obrigatórias para se usar em sala de aula, cartilhas onde já vimos dois Paraguais.
Recomendo sempre a boa e velha literatura, como escreveu aqui Júlia Moritz Schwarcz.
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