O futuro do livro

Por Erico Assis


(Foto por Colemama)

Eu sei por que o livro não vai acabar. A culpa é minha.

Por “livro” eu me refiro a todos esses pedaços de papel, tinta, às vezes cola, às vezes grampos, verniz, papelão etc. que reúnem letrinhas, desenhos, fotos e ideias. E pode colocar na minha conta também a continuidade das revistas, dos jornais e dos fanzines.

Estou longe de ser luddita. Leio bastante no iPad (como já comentei em outra coluna) e tem alguns anos que quadrinhos e literatura chegam aos meus olhos pela tela do computador. Mas sofro de uma compulsão por comprar tudo que li na tela — ou tudo aquilo que gostei quando li na tela — na versão de verdade. Em papel. Na prateleira, com as lombadas viradas para mim.

Faz algumas semanas que o correio me entregou uma caixona contendo as 70 edições de Sandman Mystery Theatre, uma série em quadrinhos dos anos 1990. O fato de eu ter comprado a coleção num leilão do eBay onde fui o único interessado talvez seja reflexo da sua falta de popularidade. Ou talvez de que, em época de graphic novels e edições digitais, ninguém mais quer setenta gibis fininhos matando espaço em casa.

Cheguei a fazer as contas e vi que essa oferta do eBay sairia mais barata que comprar todos os encadernados da série. Essa conta, claro, é uma grande contradição: seria infinitamente mais barato — e portátil, e resistente, e não teria peso, e não ocuparia prateleiras, nem teria frete — baixar versões digitais. E a leitura seria a mesma.

Aliás, me parece um critério bom: sempre que a experiência da leitura não estiver dependente da materialidade do livro, comprar versão digital. Sempre volto ao exemplo do Jimmy Corrigan, ou de qualquer outro álbum do Chris Ware: você precisa ver o formato, sentir o peso, tocar o papel, pois tudo aquilo faz parte da leitura. Breakdowns, do Art Spiegelman, mesma coisa. Os livrinhos quadradinhos da Renee French, outros dois que achei na livraria esses tempos: Poor Sailor, de Sammy Harkham, e Set to Sea, de Drew Weing. Merecem.

Por outro lado, nos livros em que o que importa é o conteúdo, esteja onde estiver impresso — a grande maioria —, é mais barato, é mais ecológico, é mais racional e não ocupa espaço ter a versão digital.

Voltando às contradições: ainda não li (pelo menos em papel) essas Sandman Mystery Theatre, nem sei quando vou ter tempo de ler. Quando começar, quero conseguir ler todas sem interrupção, e não vejo possibilidade de agenda para isso antes da aposentadoria. Obviamente, não é o único caso na minha biblioteca. A pilha de “coisas a ler” vai do chão ao teto. Três vezes.

Fora minha esposa, sempre mencionada no rodapé das colunas, essas contradições também batem de frente com meu carteiro. Quatro vezes por semana atendo-o na portaria e ele está bufando por conta das caixas e sacos (a Amazon também manda coisas para vocês em sacos?) que carrega até meu prédio. Pois é, sr. Carteiro, aquele pacote de natal que deu início à sua lordose, em 2006, foi direto para a estante e ainda não saiu de lá. Não me odeie.

O estágio atual é o de recriminação. Quando botei o pé fora da livraria na semana passada, olhei para a sacola e me deprimi pensando que metade das coisas podiam ter vindo via Kindle, com todas suas vantagens.

Por fim, meu apego ao papel será posto à prova esta semana: mudança. Encaixotar e desencaixotar tudo, torcendo para que caiba no novo espaço. Torça comigo. Ou não. Em jogo, o futuro do livro.

* * * * *

Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.

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10 Comentários

  1. [...] Faz algumas semanas que o correio me entregou uma caixona contendo as 70 edições de Sandman Mystery Theatre, uma série em quadrinhos dos anos 1990. O fato de eu ter comprado a coleção num leilão do eBay onde fui o único interessado talvez seja reflexo da sua falta de popularidade. Ou talvez de que, em época de graphic novels e edições digitais, ninguém mais quer setenta gibis fininhos matando espaço em casa. Continue a leitura [...]

  2. [...] Crédito da imagem: http://www.blogdacompanhia.com.br/2010/11/o-futuro-do-livro/ [...]

  3. Nina Horta disse:

    Êrico, chegam em sacos, sim. Alguns. Não sei o que deu na Amazon e quando atrasa demais mete os livros nuns plásticos brancos, fortes e com uma textura de saco. Fico roxa de vergonha quando o infeliz que atende a campaínha chega curvado, verdade, como um Papai Noel. Não será o Correio que está aprontando esta confusão?
    Queria te contar que na minha idade a chegada do primeiro livro no meu Ipad foi como um milagre muito emocionante. Jamais imaginei que viveria para ver o dia de precisar de um livro, apertar um botão e ele me aparecer IMEDIATAMENTE na tela. Milagre dos bons.
    Não sei a tua idade mas ė quase certo que eu seja umas três vezes mais velha. Já imaginou o problema de espaço daqui a quarenta anos de compras, de pacotes, de sacos noelinos? Por mais que se ame o papel, um dia a casa cai, a casa cai….
    O futuro qual será? Nāo quero nem saber, por enquanto. E mil desculpas pelo estilo. O veículo tem esta propriedade. Odeio escrever em Ipad, fico bem burra. Abraço. Nina
    PS Esqueci de comentar o perigo da Ebay para os compulsivos. Haja…

  4. Ótimo texto, Érico – aliás, como sempre.

    Comigo acontece a mesma coisa, só que com os discos.

    Abraço, e boa mudança.

  5. Joelma De Riz disse:

    Erico,

    Tem coisa mais gostosa que deitar na rede (sou praticamente uma Dorival Caymi), pegar aquele monte de folhas juntadas por cola, costuradas, para os mais antigos, e passear uma a uma, já imerso numa história que veio de longe, de outra mente, trazida pelo carteiro? Melhor ainda se for com um café fresquinho… Bem, já deu prá ver que sou fã de histórias em papel, mesmo gostando muito de ler na tela. Mas ler na tela, por exemplo, não me dá sono. E eu gosto demais de ler pro sono chegar… Abraço!

  6. Adriana de Godoy disse:

    O livro nunca morre, mesmo porque a maioria dos leitores digitais não se enquadravam antes na categoria de leitores propriamente dita. Somente alguns. A grande maioria vai fascinada pela tecnologia e pelo status.
    Então, com os leitores que já são leitores toda vida, o fascínio do formato livro será eterno, é uma tecnologia que sempre se renova.
    Pra mim, é um consolo olhar minhas estantes abarrotadas.

  7. Daniel Gisé disse:

    Erico assino embaixo, funciono de maneira parecida. Sou viciado em livros já há mais de 10 anos e cheguei aqui achando que você ia desvendar este mito sobre o fim do livro.

    Tenho uma biblioteca digital considerável também, que só volto a ler quando comprar meu próprio Ipad. Baixei quadrinhos raros do final da “era de ouro dos quadrinhos” e sou apaixonado pelos títulos da EC comics do começo dos anos 1950. Estão guardados em Backups só aguardando o Ipad que espero torne a leitura da versão digital mais fácil.

    Mesmo assim gastei uma grana em quadrinhos dessa época(quando eram vendidos a 10 centavos)que eu encontrei sendo vendidos em uma banca por 15 reais. Guardo eles como pequenas obras de arte. Tomara que saiam versões facsimiles dessas revistas para eu poder mexer nelas sem medo de que desmontem.

    Também estou na lista de doação!

  8. [...] This post was mentioned on Twitter by Taize Odelli, Diego Alves, Umberto Neto, juju_gomes, Companhia das Letras and others. Companhia das Letras said: .@ericoassis enfrenta as consequências de seu apego ao papel. Hoje, no blog da @cialetras: http://bit.ly/cow18q [...]

  9. Arthur disse:

    Entendo perfeitamente o que você disse sobre o carteiro tendo dores na coluna por sua causa e você sequer ler os livros. Apesar de eu não comprar tantos livros assim, tenho uma teoria pra minhas compras de livros tão bons e que ficam não lidos por longos períodos (alguns por mais de 6 anos): como leio muita coisa emprestada (de bibliotecas, de amigos), os que comprei estão guardados prum eventual acidente de carro que não me permita sair de casa e pegar novos livros.

    Recentemente houve alguma mudança com os livros de autores contemporâneos brasileiros (impossíveis de encontrar na maior parte das bibliotecas), como o Galera, o Xerxenesky, o Cuenca. E também com as HQs: Memória de Elefante e Scott Pilgrim v.2 já estão vindo aqui pra casa. Talvez por os primeiros não serem livros tão grossos e por os últimos serem uma narrativa envolvente que flui rapidamente é que estou conseguindo lê-los assim que ponho as mãos neles.

    Os outros, a maioria, se acumulam pra, entre outras coisas, dificultar minha vida quando finalmente me mudar. =)

    Ótimo texto!

  10. Acredito, Erico, que apesar da praticidade do kindle e de toda a tecnologia disponível, há algo no livro impresso que ultrapassa em muitos patamares qualquer aspiração: o desejo humano de conseguir algo que manifeste a sua inclinação ao não efêmero. O romantismo do livro impresso não pode ser contraposto ao pragmatismo. A nossa sociedade vive um momento de crença quase absoluta no valor da tecnologia, mas a primeira coisa que descobrimos é que ela é toda efêmera, é toda passageira. Ano que vem ou daqui há três anos você trocará o seu kindle por um kingle melhor, assim como trocamos nossos nossos notebooks todo ano. Mas os seus livros impressos continuarão lá. Como alguns livros do seu pai que agora são seus e como alguns de seus livros, que serão herdados por seus filhos. O livro impresso é a memória permanentemente preservada do sonho humano. Não se preocupe, você vai encontrar espaço, no novo espaço, para o seu campo de sonhos. E se não encontrar, ótimo, doe. Um livro usado para quem não o leu é sempre novo. Posso ser o primeiro da lista, no caso da falta de espaço e de aceitar a ideia da doação. :) Abraços.

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