Pelotas (2)

Por Erico Assis


(Ilustração por Odyr)

O motivo pelo qual o Casseta & Planeta tem piadas prontas com Pelotas começa no século XIX, quando a cidade era uma das mais ricas do Brasil, com o comércio de charque (carne seca) em alta. Filhos de charqueadores estudavam na França. Voltavam com moral, roupas, pompas e ideias europeias, que contrastavam com a tradicional figura do gaúcho. O Banco Pelotense tinha escritórios em todo o Rio Grande do Sul, além de Rio de Janeiro, Belo Horizonte e, é claro, Paris.

A bonança financiava as artes. O Theatro Sete de Abril foi fundado em 1823, um dos mais antigos do Brasil. A primeira faculdade, de Agronomia, foi inaugurada em 1883. Mais de 20 jornais locais surgiram na segunda metade do século XIX, e um deles ainda é ativo. O primeiro longa-metragem brasileiro, O Crime de Banhados, foi rodado em Pelotas em 1913. A terceira emissora de rádio do Brasil foi inaugurada lá em 1925. Literatos como João Simões Lopes Neto, autor de Contos Gauchescos, viveram nessa época de pujança. E a arquitetura pomposa da cidade permanece até hoje, tombada como patrimônio histórico.

O Banco Pelotense quebrou na década de 1920, quando a economia do charque veio abaixo. A riqueza continua até hoje, mas só nas aparências dos nomes de família e em alguns hábitos, como o descaso com horários e a dedicação a ensino, pesquisa e artes (ao invés de “trabalho de verdade”). Boa parte da economia gira em torno de duas universidades, que trazem alunos de todo o país. Ainda há referências da cidade que chegam ao reconhecimento nacional, como o músico/romancista Vitor Ramil e a trupe circense Tholl. Um dos fenômenos mais recentes tem a ver com estas habilidades artístico-comerciais na internet: duas agências web fundadas em Pelotas foram compradas por grupos internacionais, em negócios milionários, em 2010.

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Como eu vinha falando na coluna passada, tem alguma coisa em Pelotas que gera um fluxo de bons quadrinistas. A melhor teoria veio do Odyr, numa conversa depois do primeiro texto. E vem da perspectiva de quem já é quadrinista, assim como pelotense:

Talvez a resposta seja a seguinte: o estado como um todo, tão próximo de Uruguai e da Argentina, sofreu essa influência mútua. A coisa do desenho e da gravura, as artes gráficas em geral, são muito fortes no Sul como um todo. Talvez tenha uma estética do frio aí – o desenho como pensamento, versus a pintura-cor como visualização instintiva e solar. Se você olhar, de fato, subindo o Brasil se vê mais pintura. O Rio Grande do Sul tem um patrimônio de artistas gráficos acachapante. Se você fizer a lista dos melhores desenhistas/cartunistas brasileiros, uma porcentagem considerável deles mora no estado. Considerável. Porto Alegre deve ter mais cartunista do que qualquer outra capital no Brasil. Talvez, Pelotas, por ser uma cidade com esse perfil cultural, tenha se beneficiado dessa tendência geral, somado com um flair para a literatura.

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Quadrinhos são chamados de mídia bastarda. Surgiram com a explosão gráfica do século XIX, mas estavam abaixo do folhetim na hierarquia artística — apesar de que, para bons quadrinhos, era (e é) necessária habilidade dupla: a mesma técnica narrativa-comunicacional para fazer bons folhetins, combinada à habilidade no desenho.

Os quadrinhos têm algo de teatral, no exagero da representação (gráfica) e na narrativa dramática. Têm também algo de circense, pelos mesmos motivos (os primeiros uniformes de super-herói eram inspirados em roupas de circo). Têm algo de cinema, e a narrativa cinematográfica tanto influenciou quanto foi influenciada pela narrativa em quadrinhos no último século. Têm algo de música, no sentido do quadrinista ter que construir tempo com imagem e texto, como letra e melodia. Têm algo da arquitetura, no virtuosismo, no design, naquela velha comparação da página cheia de quadradinhos ao prédio e suas janelas. Têm algo de literatura e de artes plásticas, por motivos mais óbvios.

A partir daí, dá para arriscar uma teoria: os quadrinhos são um cruzamento (bastardo) de aspectos de tantas artes que, tradicionalmente, cidades com um impulso às artes grande e difuso vão gerar bons quadrinistas. Não há como fazer bons quadrinhos sem beber de todas essas influências de outros modos de fazer artísticos. Viver em meio a elas é o primeiro passo. É o caso de Pelotas. É o caso de Paris. É o caso de Nova York, Cleveland, Tóquio, Bruxelas, Amsterdam, São Paulo, Rio de Janeiro e algumas outras, metrópoles ou não.

É toda essa história que gera o Ordinário, do Sica, O Instrumento, do Odyr, os Toscomics, da Samanta, e tantos outros quadrinhos e quadrinistas que vêm e virão de Pelotas. O divertido é ver uma cidadezinha destas, um dos pontinhos na ponta sul do Brasil, ter influência artística no cenário nacional e internacional. E saber que quadrinhos não podem ficar lá embaixo na hierarquia das artes — são justamente o resultado da soma de todas elas.

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.

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11 Comentários

  1. [...] no auge da gravidez, ele fez a gente ver esta foto. Também ronda os comentários aqui do blog, causando discórdia. É um cinismo divertido, assim como o do Wilson. Mas, diferente do Wilson, ele faz alguma coisa. [...]

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