O preparador, esse desconhecido

Por Vanessa Barbara

Se houvesse bom-senso no mundo, “preparador de texto” seria uma afecção mental categorizada pelo CID-10 (Classificação Internacional de Doenças e de Problemas Relacionados a Saúde, Décima Revisão).

Nas editoras, o preparador é aquela pobre alma responsável pela primeira revisão de um livro, ainda no arquivo de Word. É a mais trabalhosa, que busca limpar o texto, corrigi-lo e aperfeiçoá-lo. O trabalho de preparação consiste em adequar o original às normas editoriais, seguindo um gigantesco manual de padronização que dispõe sobre citações, versaletes, colocação pronominal, pontuação, galicismos, siglas, topônimos estrangeiros e coisas como o singular de “gnocchi”, que é “gnocco” e não pode ser aportuguesado para “inhoco”.

Trata-se de uma leitura atenta, escorada por vasto material de apoio e dicionários vernáculos. Inúmeros detalhes devem ser considerados — itens como sintaxe, coerência, ortografia, ambiguidade, repetição desnecessária, vícios de linguagem, ecos de língua estrangeira, falsos cognatos, ritmos frasais e outras questões de cunho literário. O texto deve fluir bem, sem engasgos.

É obrigação do preparador formatar o arquivo original e bater todos os parágrafos (verificando se o tradutor não pulou nenhum trecho). Essa é uma tarefa particularmente apreciada pelos mais neuróticos, que ajeitam quebras de página e formatam títulos com o entusiasmo de quem toma Berlim.

Um bom preparador é caso psiquiátrico. Convém que ele sofra de um leve transtorno obsessivo-compulsivo e seja persistente, perfeccionista e incansável. É preciso gostar de pesquisar minúcias como a composição química do tricofitobezoar, interessar-se por dispositivos bélicos da Segunda Guerra, especializar-se em generais bizantinos, possuir um dicionário de gírias de milicos e ler tudo sobre a moda seiscentista só para checar se a infanta Margarida usava calcinhas de elástico.

O preparador de originais é um xiita vocabular. Em Ser feliz, de Will Ferguson, há uma frase que resume a categoria: “O preparador de texto enlouqueceu”, exclama May. A personagem é editora de livros e até entende que o preparador é pago para ser minucioso, conferir gramática, pontuação e uso do idioma. “Mas esse sujeito passou das medidas. Passou mesmo. Ele assinalou a frase ‘manuscrito escrito à mão’, disse que era redundância, que a raiz em latim é manus, que significa ‘mão’.”

Tem todo o meu apoio.

O preparador é aquele sujeito que chega a sacrificar uma lagartixa só para ver se ela escorre pela parede ou desaba de uma vez no chão. Minha mãe quase chegou a esse ponto — sim, pois a preparação é um ofício que passa de geração em geração, só que ao contrário. Minha avó será a próxima.

Tem alma de preparador aquele que desconfia de tudo e se gaba publicamente ao encontrar algum erro gritante no original, como passagens bíblicas equivocadas num livro sobre São Francisco de Assis ou um tradutor que topou com a expressão “coolie-hating” e, distraído, salpicou um desvairado “ódio aos cães da raça collie”.

Corre a lenda sobre um profissional que achou uma incongruência no enredo de A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares. Desde já, um mito entre seus pares.

Quando o distinto Paulo Werneck (ex-editor da Companhia e hoje no caderno Ilustríssima, da Folha de S.Paulo) me convidou para trabalhar para a editora, resgatando-me de um deprimente cargo de revisora num site de fofocas, ele revelou a principal qualidade do preparador: a desconfiança. Duvidar de tudo, até da grafia de Shakespeare, Tolstói e Getulio Vargas. (Sobre essa última, a lendária preparadora Márcia Copola deu a palavra final: após pesquisar documentos da época, viu que o Pai dos Pobres não acentuava o nome ao assinar, e assim ficou estabelecido).

Em termos de mania, a inverossimilhança e a impossibilidade física fazem salivar qualquer preparador. Uma frase pronta para a intervenção: “Com os cotovelos apoiados no ombro, ele se sentou correndo sobre a panturrilha esquerda, movendo o cenho na direção oposta”. (A não ser que o livro tenha motivos circenses. Nesse caso, convém ter à mão o telefone do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Picadeiro para esclarecer eventuais dúvidas.)

Como último e derradeiro sintoma da moléstia, o preparador de texto deve sofrer de dupla personalidade, pois precisa se mostrar respeitoso e arrogante a um só tempo. Respeitoso com o estilo do autor e com as soluções do tradutor, mas arrogante o suficiente para passar a tesoura e reformular os trechos que julgue necessário.

Um bom preparador se constrói com muito tempo, experiência e calmantes. Embora eu já demonstrasse pendor para a atividade em meus tempos de revisora de fofocas — títulos de minha lavra: “Gatuno rouba peruca de Jennifer Lopez” e “Julio Iglesias tira o sapato em cadeia nacional” —, minha consagração na área de copy-editing veio mesmo na Companhia das Letras, onde exasperei editores com meus comentários longos, engraçadinhos e desnecessários, e causei poderosas enxaquecas em tradutores renomados com minhas dúvidas e anseios estilísticos.

Nas palavras de FERGUSON 2002, pp. 71-2: “Preparadores de texto, ah! Todos malucos. Malucos, estou te dizendo!”.

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Vanessa Barbara é jornalista e tradutora. Entre as suas preparações mais ilustres, destacam-se Os dentes falsos de George Washington (Robert Darnton), Anos do Condor (John Dinges), Nova York (Will Eisner), 71 contos (Primo Levi), Quebrando a banca (Ben Mezrich) e Histórias extraordinárias (Poe), além de livros de autores como Moacyr Scliar, Zé Miguel Wisnik e Shakespeare.

92 Comentários

  1. Walter disse:

    Eu quis dizer “me culpando”. Ops… não revisei antes de enviar… rs

  2. Walter disse:

    Achei minha alma gêmea! Sou revisor – passo boa parte do meu dia desconfiando de tudo e de todos, outra parte questionando tradutores e desafiando clientes e o resto do tempo me culpado por ser tão esnobe!

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