Blank 2

Por Tony Bellotto

Marta Garcia, minha prestimosa editora, me convida a escrever o texto da quarta capa de O invasor, de Marçal Aquino. Marçal é um amigo de muito tempo e papo, o escritor mais gente boa do pedaço, capaz de harmonizar e apaziguar as mais discrepantes e furiosas correntes e desavenças literárias com sua conversa mansa de matuto guimarãesroseano. Já rabisquei há alguns anos a orelha de outro livro dele, Faroestes, publicado por outra editora. O motivo pelo qual fui convidado a escrever a orelha de Faroestes é interessante: logo que li O amor e outros objetos pontiagudos (o primeiro Marçal a gente nunca esquece), fiquei impressionado com o talento e a força de sua escrita. Comentando o fato com uma amiga comum, marcou-se um jantar para que nos conhecêssemos.

Com o Marçal você vira um velho amigo em 15 minutos — se tiver uma cachacinha na mesa, talvez em 10 minutos. O que justifica que antes mesmo de pedirmos os pratos no tal jantar, já estivéssemos trocando confidências sobre nossos novos trabalhos, os livros que cada um escrevia na época. “Qual o título do livro novo?”, eu perguntei. “Faroestes“, ele disse. “Caralho! O meu também!”. Na época eu escrevia o romance que viria a ser imortalizado (ui!) como BR 163, mas que foi escrito como Faroeste. Antes que a amizade nascesse, eu e Marçal nos deparamos com um impasse: nossos livros, que estavam prestes a ser lançados, tinham o mesmo título! Corríamos o risco de ver uma recém nascida amizade acabar num duelo.

Antes que eu sugerisse um prosaico par ou ímpar para resolver a questão, Marçal, com sua sabedoria de rei Salomão de botequim, desenvolvida em anos e anos de jornalismo policial e outras profissões pontiagudas (como dizia Hemingway, “excelentes, desde que abandonadas a tempo”), disse: “Quem publicar primeiro, leva o título”. Nada mais justo. Com a rapidez de um Billy The Kid, logo que saiu do jantar Marçal sacou sua caneta (sim, ele escreve a mão) e terminou o livro antes que eu pronunciasse Pindamonhangaba. E assim levou o título. Como consolação, ganhei o privilégio de escrever orelhas e quartas capas de excelentes livros, além de poder compartilhar cachacinhas com o autor sempre que os eventos literários em que nos encontramos se tornam literários demais.

* * * * *

Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro.

  • Facebook
  • Twitter
  • del.icio.us
  • Tumblr
  • Digg
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • MySpace
  • Netvibes
  • Reddit
  • StumbleUpon
  • Technorati
  • RSS

9 Comentários

  1. Roney Damásio Villalonga disse:

    Quando li, dias atrás,na “Folha de S. Paulo”, o artigo do Marçal Aquino sobre sua saga até ter em mãos “A crônica dos Wapshot”, me veio logo à memória um ex-professor meu e desde então um prezado amigo. Esse professor, sabendo de minha paixão pela literatura americana, em especial a do século 20, me presenteou com um exemplar do livro de John Cheever(um dos dois de que ele dispunha), objeto do texto de Aquino. Esse amigo trabalhou, como revisor, me parece, na Edinova, que publicou “A crônica dos Wapshot”. Interessante é que essa editora publicou no Brasil, mais de 40 anos atrás, autores que só bem depois seriam mundialmente consagrados. Falo, por exemplo, de Issac bashevis Singer, Carlus Fuentes e Youkio Mishima. A Edinova, conforme eu constatei na casa desse amigo e ex-professor, teve, em sua breve existência, uma belíssima linha editorial.

    Roney Damásio

  2. João Baptista Reimão disse:

    Caro Marçal Aquino estou curioso para ler “O Invasor”. Eu já me considerava morto quando você me chamou de preciosidade da contra cultura o meu livro. Abençoada invasão! A força da palavra impressa da matéria do Daniel Benevides me acordou. No mesmo dia fui visitar o fundo do baú onde guardo manuscritos. Fervilhou em mim a idéia de ser um escritor de dois livros só. Um da juventude, outro da velhice.É apetitoso imaginar vários sebos guardando escritos, como os antigos guardavam em barris de banha, carne ainda própria para consumo humano.Obrigado. Você me devolveu a fome necessária para devorar palavras.
    João Baptista Reimão.

  3. [...] blog da editora, o escritor e músico Tony Bellotto conta como conheceu Marçal Aquino. Abaixo, Aquino lê um trecho do novo romance para a revista [...]

  4. Severino disse:

    Para quem leu O amor e outros objetos pontiagudos, recomendo a leitura do livro As fomes de setembro. Eu adoraria ler Faroestes, nunca encontrei em nenhum sebo. O Marçal é o cara !

    abraços

    Severino

  5. Ernani Ssó disse:

    Conheço um punhado de gente que não esquece O amor e outros objetos pontiagudos, começando aqui em casa, meu filho e eu. Quanto ao Faroeste, disse pro Marçal: esse título era meu! Assim mesmo, com exclamação. Hoje já superei a coisa, mas é sempre um consolo ver que não fui o único a ficar chupando o dedo.

  6. Rogério Moraes disse:

    Nossa, Adriana. Obrigado pelo elogio e gentileza. Também gosto muito dos seus comentários. E acredito não ser o único no blog que pensa isso. Abraços.

  7. Adriana de Godoy disse:

    Oi Rogério Moraes,
    Vc é o leitor mais equilibrado que eu conheço. Gosto muito dos seus comentários. Eles sempre me ajudam em algo.
    Abraços.

  8. [...] This post was mentioned on Twitter by Marianna Lahr, Christiane Riera, Marianna Lahr, Agencia Riff, Companhia das Letras and others. Companhia das Letras said: Tony Bellotto e Marçal Aquino disputam um título de livro na coluna desta semana: http://bit.ly/hnFfxj [...]

  9. Rogério Moraes disse:

    Muito legal o relato, Tony. Estou lendo o Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios e adorando. Fiquei feliz em saber que a Cia irá relançar O Invasor. Espero que faça isso com os demais livros dele, fora de catálogo. Faroestes não é encontrado nem em sebos online. Pedi o seu No Buraco, estou esperando chegar. Abraço.

Deixe seu comentário...