Como nascem os nomes

Por Joca Reiners Terron

Dar nomes a personagens nem sempre é fácil. Às vezes eles nascem, comem, chegam a dormir em nossa imaginação, e até começam a fazer besteiras sem ao menos terem um nome. Nomear personagens é só um pouquinho mais fácil do que nomear bebês. Claro, a não ser que se esteja escrevendo um livro a quatro mãos (ou a três, no caso de um dos autores ser maneta como Blaise Cendrars, por exemplo, ou Mario Bellatin), o autor escolhe uma bobagem qualquer que dará nome ao seu personagem (já leram Thomas Pynchon?) sozinho, enquanto na vida criativa real a palavra (ou nome) final sempre é dada pela mãe. E dá-lhe José Ronaldo Jr, Isabel Maria e Francisco Reginaldo.

Tive um professor (que curiosamente não era professor de literatura) que afirmava que não se devia dar nome ao personagem, afinal o mundo literário já está hiperlotado de personagens e não precisa de mais outro. De acordo com esse professor, o ideal era nem mesmo inventar personagens, mas reciclá-los. Não, esse professor não se chamava professor Enrique e muito menos professor Vila-Matas, mas professor José Luiz Valero Figueiredo. Essa convicção meio esquisita do professor Valero (que deu aulas na faculdade de Desenho Industrial onde me formei) sempre me intrigou, a ponto de obedecê-la em meu primeiro romance, Não há nada lá. No livro, a ser reeditado pela Companhia das Letras, os protagonistas são Raimundo Roussel, Jaime Hendrix, Fernando Pessoa, Alistério Crowley e Gui-O-Guri (também conhecido por Billy-The-Kid). Lamento, mas para saber o motivo da grafia estrambótica dos prenomes, vocês terão de ler o livro.

O fato é que o Valero tem razão ao menos num ponto: optar pela reciclagem significa não enfrentar o maior problema de todos, que é justamente nomear o personagem. E, felizmente ou infelizmente, pertenço àquela categoria de escritores (a da escola de Pynchon, talvez) que não concordam que personagens devam se chamar José Ronaldo Jr, Isabel Maria ou Francisco Reginaldo. Por exemplo, estou escrevendo uma graphic novel com Gabriel Góes e precisava de um nome bacana para a heroína, que se chamava, sei lá, acho que Lurdes Maria (não me lembro mais). Um dia, viajando pela Argentina, passei diante da companhia elétrica estatal dos hermanos, que se chama LUZ Y FUERZA. Na hora caiu a ficha, e minha heroína passou a se chamar, diga-se, mui adequadamente, por seu caráter bravio e muito terno, LUZY FUERZA. E tchau tchau, Lurdes Maria, welcome Luzy Fuerza!

Infelizmente (ou felizmente), existem outros autores que concordam com a premissa legisladora de meu saudoso professor Valero. Um deles é o ótimo Jonathan Lethem, autor de A fortaleza da solidão. O Lethem publicou isoladamente uns contos bem engraçados se utilizando do nome da não menos engraçada atriz Drew Barrymore para batizar seu personagem. A escolha de Lethem, além de acertada, pela graça e empatia da figura de Drew, parece igualmente ideal para que o autor não seja processado. Afinal, Drew Barrymore é uma atriz, e o argumento de defesa seria que seu nome está ali nos contos apenas interpretando o nome do personagem de Lethem. Então só resta ao autor torcer para que Drew não cobre seu cachê costumeiro.

Outro escritor que ganhou notoriedade recentemente por reciclar personagens ou nomes de personagens é o norte-americano Tao Lin, cujo derradeiro romance se chama Richard Yates. Ou seja, Tao Lin levou a técnica do professor Valero ao paroxismo, nomeando O LIVRO com o nome de um personagem pre-existente, no caso o do grande romancista homônimo Richard Yates, autor de Revolution Road e The Easter parade. Que danado, esse Tao Lin. Para completar o desplante, os protagonistas da “história” (grafo entre aspas porque dizem que a trama do livro não é muito loucona e agitada) se chamam Dakota Fanning e Haley Joel Osment.

É, esse Tao Lin passou dos limites. Meu professor Valero ia gostar dele.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

9 Comentários

  1. [...] comigo, começou com um texto no blog da Companhia das Letras, do Joca Terron, em que ele conta de um professor que recomendava não criar novos nomes para romances, aproveitar [...]

  2. Lucas disse:

    Olha só, uma graphic novel com o Gabriel Goes!
    Que delícia saber que há brasilienses trabalhando com grandes nomes da literatura.
    Especialmente o Joquinha. Sou fanzão.

  3. [...] Schwarcz homenageia seu amigo Moacyr Scliar, no Blog da Companhia. No mesmo blog, Joca Reiners Terron fala sobre como nascem os nomes dos personagens. No Ambrosia, Allan Sieber em sua coluna Fortuna [...]

  4. Adriana de Godoy disse:

    Vcs não vão acreditar, mas tem mãe que também recicla o nome que vai dar ao filho.
    Conheci um aluno que se chamava Letisgo. Intrigada, perguntei a ele qual o significado do seu nome.
    E ele, todo prosa:
    “Professora, vc pronuncia meu nome errado. É let’s go!”
    Juro.
    Tenho provas de que não inventei isso.
    As mães às vezes superam a ficção.

  5. Arthur disse:

    Fiquei interessado no Richard Yates. Na Luzy Fuerza.

    Mas genial mesmo foi Gui-o-Guri.

    O bom é que em breve a gente não terá que clicar em menos de 5 segundos no link que você manda pelo twitter quando aparece um exemplar raro da primeira edição de “Não há nada lá” na Estante Virtual. Uma vez cheguei a clicar um minuto depois do seu tweet, e já tinham comprado. Enfim, boa a iniciativa da Cia.

    Uma coisa que sempre me aflige é o tal nome do personagem. Nome brasileiro, nome estrangeiro, nome muito comum, nome que não parece nome: qual que se encaixa melhor?

    Muito boa a coluna, Joca.

  6. [...] This post was mentioned on Twitter by Biajoni, Felippe Etcetera, Dija Mia, Fábio C. Martins, Companhia das Letras and others. Companhia das Letras said: Como nascem os nomes dos personagens, por @jocaterron: http://bit.ly/edW9oE [...]

  7. Lucas Scaliza disse:

    Encontrei-me com Valero duas vezes. Na primeira, eu ainda não era estudante da universidade onde ele lecionava, mas minha irmã estava se formando em DI e Valero era seu orientador. Homem distinto e me pareceu respeitado pelos alunos. No trabalho, encontrei um designer de mão cheia que, certa vez, não me lembro como chegamos ao assunto, disse que Valero era um dos professores que mais lhe tinha agradado em Bauru.
    No meu segundo ano de jornalismo da Unesp, se não me engano, encontrei-me pela segunda vez com o professor. Dessa vez nas páginas do jornal, havia se atirado de seu apartamento. A comoção foi grande naquele mês na universidade. Logo ele que não gostava de personagens com nome acabara tornando-se um personagem que ninguém ignorava, protagonista de uma história que ninguém entendia.

  8. Danni disse:

    “Luzy Fuerza” ,hahaha. Ótimo assunto!
    Adorei a postagem e agora estou passeando pelos outros assuntos do blog, parabéns, muitas matérias bacanas aqui!

  9. Agora fiquei curioso em saber o porquê dos prenomes! Aliás, não só dos prenomes, mas do autor também, pois se realmente ele dá uma visão da vida contemporânea, não é nada mal ver essa visão também.

    Abraços

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