Por Luiz Schwarcz
[Este post é uma continuação de "O vexame"]
O nome da cidade é Puerto Varas. Pelas manhãs, um enorme lago me convidava para correr à sua volta. O esporte é fundamental para quem tem alguns dos problemas que me afligem. Libera endorfina, ajuda no combate à pressão alta e faz nossos dias começarem mais próximos do tom correto, sem exaltação. Do lago seria possível se ver um vulcão enorme, de cume branco, o Osorno. No entanto, as nuvens são tão constantes no local que são poucos, pouquíssimos, os dias em que o símbolo da cidade pode ser contemplado. Eu chegara a Puerto Varas havia dois dias e vira o Osorno por trinta minutos, em meio a um passeio por rios próximos ao lago. Mas naquela manhã o vulcão aparecia integralmente. A noite havia sido ruim, e eu me esforçava para correr. Enquanto circundava o lago, eu não conseguia desgrudar os olhos daquela montanha enorme, sentia a natureza demonstrando, quando bem entendesse, sua superioridade sobre os homens. Num momento de distração, entre os pensamentos negativos que eu tentava esquecer e a presença do vulcão, passou por mim uma senhora muito pequena, curvada, que carregava um pesado cesto coberto por uma toalha.
Um ou dois anos depois, em outras férias de verão, desta vez em Cozumel, para onde (infelizmente) fui com toda a minha família, hospedados num hotel que nada tinha a ver conosco, cheio de turistas americanos loucos pelo boca-livre incluso no pacote, foi a vez de uma camareira chamar minha atenção. Ao voltar ao quarto, na primeira noite, já conscientes da roubada em que havíamos caído, fomos surpreendidos com um cisne esculpido nas toalhas de banho, em cima de nossa cama. Ao lado da escultura de pano, um bilhete com o nome da camareira, desejando bons sonhos. No dia seguinte, o cisne virou uma flor, e o bilhete era mais romântico e insinuante.
O olhar triste da moça que caminhava em volta do vulcão, seu contraste com a paisagem exuberante, ficou em minha mente sem que eu notasse. Quando lembrei dela, tanto tempo depois, pensei que essa mulher não podia escolher os dias em que caminhava em volta do lago, ao contrário do vulcão, presente dia sim, dois dias não. O mesmo aconteceu com a camareira interessada em promover cenas de amor entre os hóspedes do hotel. Ao ver esculturas me lembrei imediatamente que havia escrito (e deletado) há anos um conto sobre um garçom que fazia esculturas com os guardanapos, e era apelidado de Canova pelo dono do estabelecimento. Todos esses personagens estranhos que conheci ou imaginei conhecer ficaram guardados em minha memória, cozinhando em fogo brando a minha ficção.
Essas pequenas lembranças, assim como algumas outras — o encanador que auscultou o caminho do esgoto e virou meu jardim de ponta-cabeça —, acabaram indo para o papel, com vida própria, no meu primeiro livro de contos, Discurso sobre o capim. Foram para lá junto com a história que encerra o livro, de um homem bem sucedido, que no momento em que deveria receber um prêmio, provavelmente comprado por seus executivos para promover suas empresas, ou apenas para agradar o chefe, esquece de todos os feitos que deveria relatar, e pensa que sua biografia é feita de pequenos momentos nos quais falhou, quando não desceu do ônibus no ponto da escola, ou quando deitou-se sobre uma prostituta sem saber o que fazer. Os que leram o meu post da semana passada saberão entender onde foram parar as 11 linhas que salvei do romance escrito durante a minha depressão. Foram resgatadas para encerrar meu primeiro livro, amarrar as histórias que contei, tentando dar um sentido geral a elas.
Além de lembrar de cenas pouco edificantes, o empresário recorda-se de um quadro, o primeiro importante de sua coleção, em que uma restinga, um capim, aparece no meio da areia, fora do lugar. Ainda mais fora de hora e lugar é sua reflexão sobre o acaso na vida, durante aquela cerimônia, quando deveria estar falando de si próprio, enaltecendo seu passado. Até hoje me pergunto se o capim na areia é minha metáfora para a literatura, uma explicação para meu mundo literário, além de ser a forma que encontrei para dizer que minha biografia e minha escrita são constituídas mais pelo olhar da singela mulher andando em volta do vulcão, ou da camareira e do garçom escultores, do que por cenas edificantes. Assim, no meu conto, os organizadores do prêmio cassam a palavra do homenageado, tiram o microfone de suas mãos, e enumeram seus feitos, procurando justificar o prêmio comprado, à sua revelia, a preço de ouro.
Pois algo muito semelhante aconteceu comigo naquela manhã no Museu da Casa Brasileira. Ainda deprimido, mal percebi que não havia no evento sinal de qualquer jornalista ou de pessoas ligadas à área cultural. A pequena plateia que, sentada, esperava que eu falasse algumas palavras, era composta por revendedores de canetas ou distribuidores da Montblanc. Durante o coquetel eu estava bastante inseguro. Estranhando o ambiente, eu segurava na mão da Lili e suava. Normalmente sou calmo e, apesar de não gostar de falar em público, falo de improviso.
Comecei meu discurso e em minutos me lembrei do lançamento da editora, quinze anos antes, na mesma sala do Museu. Minha voz falhou. Era possível notar que eu tentava controlar o choro, quando o diretor da Montblanc deu um salto na minha direção e tirou o microfone das minhas mãos, antes que soluços e um choro franco tomassem a cena. Em seguida, pôs-se a falar sobre a nova caneta que trazia uma cobra com uma pequena esmeralda incrustada sobre a tampa, batizada com o nome da escritora Agatha Christie.
Fui para casa arrasado, por não ter percebido em tempo que não ganhara prêmio algum, e pelo vexame do discurso chorado, fora de lugar.
Michel Laub falou aqui neste blog, com maestria, sobre o sofrimento que pode estar na origem da literatura. Embora minha carreira literária seja quase um acaso em minha vida, deixo aqui o meu depoimento, para os que tiveram paciência de aguardar, e de ler, desta vez, um texto talvez um pouco longo demais.
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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.










Luiz, preciso ler seus contos. Só li em revistas- qual? não lembro, mas juro que gostei, por isso não esqueci.:)
Você me toca profundamente, li o que a Adriana diz e tendo a pensar o mesmo. Há um despojamento, uma exposição do humano que comove. Com certeza a imagem da pequena mulher no lago diante do esplendor da natureza, não sairá mais de mim.
Outro dia estava na rede, na minha varanda, vendo o pôr-do-sol- efêmero e mágico- e senti vontade de chorar. É preciso, nestes momentos únicos, abrir o coração, respirar fundo, e deixar que a beleza se transforme em doce alegria de viver.
Um forte abraço, Elianne
Caro Luiz,
Após ler seu último texto no blog da Cia. das Letras fiquei comovido e mudo. Recorro ao poeta Sebastião da Gama por não encontrar melhor definição de como me senti. Aconteceu ali, entre suas palavras e este leitor, uma rara confluência, na qual a empatia se fez exata e o reconhecimento imediato. Já tem algum tempo que vem crescendo minha admiração por você, indo além da que sempre existiu previamente. Acho sua franqueza, desapego e desarme algo extraordinário, digno de pessoas cuja imensa humildade se equipara à imensa grandeza.
Ao ler seu texto, percebi uma proximidade que já deveria conhecer de muito tempo, leitor costumaz que sou. Uma simbiose de experiência, um amálgama entre a sua experiência vivida e a minha lida. Quando falou do olhar triste da mulher, das esculturas de toalhas no hotel, percebi que aquelas visões, lembranças e sensações não eram só suas, eram minhas também. Diferentes, traduzidas, filtradas ou reformuladas pela literatura, não importa. A essência sempre permanece.
Já lhe falei disso antes, mas vou reforçar. Há alguns anos atrás, quando me deparei com seu livro, “Discurso Sobre o Capim”, na estante da livraria, duvidei. Pensei comigo – desdém e inveja – que para o dono era fácil, bastava mandar. Comprei para comprovar e paguei minha maledicência e aleivosia íntimas. Gostei demais e fiquei rendido. Li duas vezes e guardei comigo alguns daqueles personagens com o mesmo carinho e afeto com que trago em mim a família Buendía, o desvario de Bentinho, o amor de Maria de Magdala, o desacerto de Raskolnikov, o pecado de André e Ana, as aventuras de Xisto.
Bastaria isso para lhe ser grato. Pela experiência de histórias tão simples quanto delicadas. Agora, com o que escreveu no blog, a gratidão se expande. Entender como alguns desses personagens surgiram e, principalmente, perceber sua desafetação no trato consigo mesmo, essa franqueza desarmada de confessar sem ter pejo coisas tão íntimas, dividi-las com seu leitores, é algo que me comove e emudece. É algo que aproxima e humaniza.
Melhor assim. Que o que era totem, de admiração e respeito, seja hoje humano como eu. Não diminui em nada a grandeza com que ainda admiro alguém que fez tanto pelo que mais amo na vida, os livros e a literatura. Ao contrário, engrandece, dignifica e irmana-se comigo aquele que ama como eu amo: ler o que seja bom de se ler. E agora, também como eu, escreve o que é bom que se escreva. Sem ressalvas.
No dia da abertura da exposição “A Consistência do Sonho”, eu, intruso, vi-me a seu lado. Pensei em brincar, tocar em seu ombro, muito acima do meu, e dizer: guarde meu rosto, um dia me publicará. Achei que seria inconveniente e desisti da brincadeira. Melhor que siga com meus contos em segredo e um dia os lance à sorte de editores. Mas se naquele dia o que estava a meu lado era um ícone inalcançável e insondável, hoje é também um amigo. Não pelos laços corriqueiros da amizade convivida, mas pela irmanação que a literatura e o sentimento comum podem criar. Diferente do usual, recíproco no sentimento, esta é unilateral, certamente. Mas, ao menos para mim, de um conforto e carinho imensos.
Obrigado, amigo.
Rogério de Moraes
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Luiz,
Tempos atrás encasquetei com a vida de Leonardo DaVinci depois que vi uma exposição das suas invenções. Lí umas três biografias. Numa delas confessa que queria ser escritor (os seus muitos escritos nos famosos cadernos provam isso). Diz que há dois tipos de escritores: os habilidosos e os íntegros. Habilidosos seriam aqueles que possuem a engenhosidade e usam a pena para “agradar” – talvez os nobres da sua época. E os íntegros, os que escrevem com sua verdade, que não utilizam artifícios, nem recorrem ao agrado.
Seus textos possuem uma integridade crua, que é difícil acreditar que não sejam verdadeiros.
E para encerrar, entre os dois escritores, Leonardo preferia os íntegros.
Eu também.
Luiz,
Os seus textos todos, esse em especial, são emocionantes. A cada palavra, confirmam o grande escritor que é. Deixo aqui a minha profunda admiração.
Ana
Olá, Luiz
Gosto muito de seus textos, mas esse ficou, talvez, um pouco pesado, enfadonho.
Um abraço com afeição,
Ulisses (de Ribeirão Preto)
Ótimo texto, Luiz.
Luiz, que belo texto. Aguardarei esse texto longo, e todos os que vier a escrever. Além do mais importante editor do país, um senhor escritor. Fico muito feliz de estar entre os leitores assíduos dos seus textos do blog. Abraço.
Luiz,
Esse post foi um dos melhores. Amei. Especialmente por saber de onde saiu a delícia que é o seu conto “Vulcão”, uma obra-prima, sinceramente.
Pela segunda vez utilizei esse conto com alunos problemáticos em sala de aula, e pra eles, Luiz, é a reinvenção da dignidade que em algum momento lhes foi negada. Se sua biografia sente-se contemplada pelo olhar da mulher que anda pelo vulcão, não se sinta sozinho nisso.
Mas o que é lindo nos seus contos, é que ocorre uma maravilha: apesar dos pesares, esses personagens extraem dignidade e magia de coisas simples, e esse é o tesão de viver, não é dinheiro, não são as drogas – no caso dos jovens –, não é uma vida cheia de conquistas e vazia de sentido. O tesão é ver o maravilhoso, e, Luiz, meu caro, você é um grande escritor pois até agora só conheço um outro poeta, Carlos Drummond, que consegue espelhar esse maravilhoso com tanta delicadeza e comoção. Sua literatura me fez um bem, tanto quanto me fez Drummond durante quase toda minha vida. Senti muito quando acabei de ler seus livros – quando gosto de um autor já quero obra completa em 30 tomos, sou uma leitora precavida! –, pois cada vez que lia, sentia que recuperava essa magia da vida, essa mágica de ver a vida com encantamento, e isso me fazia um bem indizível. Eu comecei a olhar as coisas, e pensar, como não vi que aqui tinha um sentido pra vida? Lembrava-me sempre do que Baudelaire escreveu: “O maravilhoso nos cerca e nós não nos damos conta”. E você, como escritor, captou melhor que ninguém isso tudo. As pessoas, nos seus contos, delicadamente nos mostram que há um prazer indizível em viver, mesmo que estejam numa situação controversa, já que o capim tem tanta importância quanto o mar.
Além disso, há um escritor em você que vicia as pessoas, e elas aguardam ansiosas pelos textos. Não sei explicar isso. E se a literatura nos chama quando sofremos, chama os escritores e os leitores, bom, ela também nos diz: a vida é muito melhor comigo por perto. Então é dialético, não? Há dor mas o prazer se impõe. Sei lá.
Quando estou lendo, me sinto em casa, há um reconforto absoluto. Autores que me dizem coisas, que me acrescentam, são fundamentais pra mim. Admiro sua obra. Ela tem feito um bem danado onde eu não conseguia jogar dignidade, jogar esperança.
Agradeço de coração, Luiz. Obrigada. E desculpe por escrever demais…!Um grande abraço.