Por Tony Bellotto

Rubem Fonseca fez com que ele uivasse feito um lobo no conto “Romance negro”. No conto, ao se encontrar com outros escritores num festival europeu de literatura noir, James Ellroy declara: “somos os continuadores da tragédia grega”. Depois de proferir a frase, Ellroy — nas palavras de Rubem Fonseca — “curva a cabeça para trás e uiva como se fosse um lobo”.
James Ellroy é de fato considerado por muitos o cachorro louco da literatura policial norte-americana. Ele próprio um personagem trágico (teve a mãe assassinada brutalmente quando menino num caso nunca esclarecido e passou na adolescência por várias instituições criminais acusado de roubo e uso de drogas), Ellroy acabou por encontrar na literatura uma forma de exorcizar muitos de seus infinitos demônios. Não todos, porém. O homem ainda tem muito inferno interior pra queimar, podem ficar tranquilos.
Além de seus temas, sempre pesados e sombrios, Ellroy desenvolveu uma linguagem única, que o coloca num patamar de excelência literária muitos e muitos inches acima de contemporâneos da mesma seara literária, como Lawrence Block , Denis Lehane e George Pelecanos, só para citar alguns dos mais cotados dos últimos tempos. A brutalidade de sua escrita pode ser saboreada em clássicos como A dália negra (insuperável, na minha opinião), Los Angeles — cidade proibida e Tablóide americano, só para citar os que me ocorrem de memória, e também no autobiográfico e arrepiante Meus lugares sombrios, em que tenta, muitos anos depois, esclarecer o assassinato da mãe, sem sucesso.
Soube que a participação de Ellroy na FLIP foi confirmada. Fico imaginando se a placidez das águas de Paraty e a irregularidade das pedras que calçam suas ruas serão suficientes para conter a fúria do lobo trágico. Úúúúúúúúúúúúúúúú…
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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro.









[...] com medo da ciência e filósofos inflados de melancolia. Vi um cachorro na fila dos autógrafos de James Ellroy, letras minúsculas passeando com a desenvoltura de maiúsculas e o fantasma de um escritor [...]
Descobri James Ellroy através de uma coleção de livros noir lançada pela Editora Record chamada Coleção Negra, que procurei acompanhar durante vários anos de minha vida, e na qual também descobri outras preciosidades, como Sarah Dunant.
Sempre achei que o Ellroy gosta muito de dar uma de “eu sou o melhor” – e não tenho leituras de grande porte dentro da literatura policial (li muito Agatha Christie, vários outros como Chandler e Hammett, mas não me “especializei” nessa área como leitor pra falar com propriedade, e também vejo muito desse jeitão dele como marketing, embora, por entrevistas, é perceptível que o cara é loucão meio, à là Bukowski, em seu próprio terreno.
Fiquei feliz quando soube que ele estará na FLIP. Sua tenda certamente será um sucesso.
E também me passou pela cabeça: como será que o Tony Bellotto vê Ellroy? Como leitor e/ou tiete, ou como um colega de ofício, já que também escreve romances policiais?
O que quer que seja, é sempre uma oportunidade para aprender, e ouvir o que o auto-intitulado cachorro louco da literatura policial tem a dizer em terras tupiniquins.
Tony,
“O homem ainda tem muito inferno pra queimar” é antológico.
Pra ler Ellroy tem que estar mesmo com o estômago em dia e sem antidepressivo. Senão, já vai pro banheiro com a gilete.
O cara é decisivo. Ele até desdenhou Hammett, o que achei de uma audácia quase que perigosa. Mas é herdeiro de tudo que o noir já fez.
Concordo com o Rogério: Lehane e Pelecanos são insuperáveis, obrigatórios. Mas encarar Ellroy exige um leitor mais durão. Com a vida que ele teve, dá pra entender.
Ótima notícia. Recentemente baixei duas entrevistas do Ellroy no iPad. Ótimas. Acredito que o que ele fez no Quarteto de L.A. e na Underworld U.S.A. Trilogy dificilmente será superado no gênero. Para mim o Dennis Lehane e o George Pelecanos partem para um policial mais social, que é excelente também. Romances como Sobre Meninos e Lobos e Revolução Difícil para mim dificilmente poderiam ser catalogados simplesmente como literatura policial. O crime e sua eventual solução é praticamente uma nota de rodapé nessas obras. Já o Ellroy propõe uma releitura da história americana, uma maneira sem precedentes de trabalhar a tal da metaficção historiográfica. Uma vez li uma crítica, na Bravo!, se não me engano, dizendo que ele escrevia como se não houvesse literatura antes dele, como se estivesse inventando uma linguagem e uma literatura própria. E ele foi rabudo de ter na adaptação do L.A. Confidential um dos melhores filmes da década de 1990. Depois fez uma pontinha no filme seguinte do Curtis Hanson, Garotos Incríveis. Muito boa a lembrança do conto do Rubem Fonseca, que é sensacional. HUSH HUSH HUSH…
Tony,
Essa é a alma da literatura (americana)com excessão do leste: gente inquieta, feroz, sem escrúpulos socio-literários, leveza é bom, mas também precisamos de escritores que façam as pedras rolarem.
Que venha o lobo.