Por Luiz Schwarcz

Amanheci com um sentimento estranho hoje. Tinha que fazer um exame , dormi mal, e, ao chegar no laboratório, a atendente cometeu um erro, invalidando as horas de jejum e a minha correria para estar no local a tempo de fazer tudo corretamente. Voltei para casa e, em vez de praticar esporte, acabei indo para o escritório terminar o livro de Hector Abad, A ausência que seremos, ouvindo uma nova gravação da Sinfonia número 2 de Mahler, a sinfonia da Ressurreição. O desconforto que sentia era grande, sem saber a razão. Entre bufos, eu chacoalhava a cabeça e desabafava comigo: merda de dia!
Cheguei à editora cedo, e aí veio a notícia. Minha amiga Luciana de Moraes foi encontrada morta, estatelada no chão em frente ao prédio onde morava.
Ontem à noite, exatamente às 22h41, ela havia me enviado um email respondendo a minha sugestão de reunião para tratarmos de uma conquista importante: finalmente, nesta Feira de Londres, após anos de insistência sem sucesso, eu consegui convencer um agente literário importante a representar a obra de Vinicius de Moraes no exterior. Além disso, queria discutir desde já as atividades relativas ao centenário do poeta. Luciana me escreveu confirmando o encontro para a próxima quinta-feira. Era uma mensagem curta, mas carinhosa, com o “Querido” de sempre no começo e com o beijo de sempre ao final.
Ainda não posso acreditar no que aconteceu. Lembro de quando a encontrei pela primeira vez, quando eu ainda trabalhava na Brasiliense. Foi na Pizzaria Guanabara, em uma grande mesa comandada por Caetano Veloso e Wally Salomão ― ou melhor, só por este último, Wally não dividia o comando ―, e a voz rouca da Luciana disputava com a do Wally, quase no mesmo tom, a atenção dos presentes.
Depois disto tivemos muito contato, por conta da obra de seu pai, que veio para Companhia das Letras em 1991.
Somos muito diferentes, Luciana e eu, mas nos entendíamos bem. Ela era brava, mas bem humorada. E o humor nos unia. Ela me chamava muitas vezes pelo meu nome completo. E Schwarcz com sotaque do Rio soa como se fosse um nome tipicamente carioca, particularmente quando falado por ela. Alguns anos atrás, senti que Luciana e sua irmã Suzana não estavam satisfeitas com o trabalho que fazíamos, e tinham razão. Convoquei uma dessas reuniões, como seria a de quinta-feira, e levei um novo plano, feito em conjunto com Eucanãa Ferraz, para a edição completa da poesia e prosa de Vinicius de Moraes.
No final da reunião, Luciana exclamou: “Valeu, Luiz Schwarcz, nosso casamento estava precisando de Viagra, de Viagra, e você sacou” e Suzana completou, “Haja Viagra então!” e todos comemoramos.
Não tenho mais o que dizer. Homenagear Luciana, todas as irmãs, e quem vivia e trabalhava com ela é tão pouco. Mandar beijos para ela, sentir tanto, pensar em abraçar logo a família, e ouvir a Sinfonia número 2. É o que estou fazendo, neste momento.
Luiz









Voce foi em um ponto importante “Brava,mas bem-humorada”.
Quem conviveu com ela sabe o quanto de alegria Luciana tinha em seu coração.
seremos uma ausência?
fisicamente com certeza,mas o poetinha já dizia “eu sei que vou te amar,por toda minha vida vou te amar…………………….”
Luiz, você entendeu a Luciana. Lindo texto. Bj. Maria Lucia
Luiz, ficou bonito o trailer do livro do Contardo:
http://youtu.be/v3ke-HZKxuA?hd=1
Tomara que o livro seja bom, vou ler.
Abraços, Elianne
Estar e permanecer vivo implica em perdas de todos os tipos, né, Luiz? Alguns perdem tudo de uma vez; basta imaginarmos a realidade daqueles que sofreram com as chuvas na região fluminense há pouco mais de quatro meses, vendo suas casas e familiares arrastados sabe-se lá para onde. Alegra-me ver-te mostrando força para todas essas perdas, muitas vezes, certamente, tiradas de algum lugar sem nome. Mas que sabemos que existe em algum lugar em ti. Gosto da tua delicadeza, da tua verdade e de imaginar que você não está de semblante triste, Luiz (ainda que esteja). Saudade não tem remédio, disse um certo Luiz Schwarcz. Tem mesmo não, nem precisa, porque é o que sobra quando o corpo se vai. E que bom que não tem, né, Luiz? É como todos esses nossos que se foram recentemente, de Saramago pra cá (putz!, menos de um ano já dá pra fazer uma lista que termina no Sabato, espero!), permanecem vivos. Que sua sensibilidade (e o corpo e a mente) continue a nos embevecer sempre, Luiz. Força, por onde quer que vás.
Bacana, Luiz.
oi luiz, me lembro dessa noite, havíamos marcado um papo sobre um livro meu no guanabara. te apresentei a luciana dizendo q era danada e arriscava uns versos, também. me veio tudo à lembrança… o bineco, o waly, dois que já partiram tb.
muita tristeza, um aperto no peito me acompanha desde q soube da morte da nossa lulu.
um beijo
Intuicao…voce tem. Sinto muito que voce tenha perdido uma amiga e imagino o sentimento que fica, principalmente por ter sido do jeito que foi. Meus pesames a voce e a familia.
Juliette
Luiz, que triste… lamento por todos que a conheciam, e penso, ainda bem que Vinícius não está mais aqui. Que pena!
Neuzinha também morreu… era amiga do meu ex.
Comentei com meu filho as duas mortes agora e disse:
“A morte por perto.” Sabe o que ele disse?
“Uma procurou pela janela, mãe, e a outra usou muitas drogas”.
Tive que concordar. A gente não pode falar em morte perto dos filhos desta forma, assusta-os- faz mal, eles são muito jovens- 20 e 22 anos.
Sei o que você sente, de uns anos para cá tenho sentido esta dor da perda presente- os amigos desaparecendo. Dói.
A vida fica cinza, mesmo quendo há alegrias,lamentamos aquele que se foi e não pode compartir.
Pense na sua família nuclear- tem uma bela família. É o que eu faço- tenho dois filhos lindos e queridos.
E, espero, amanhã um dia de sol para você caminhar e esquecer o dia de chumbo de hoje.
Um forte abraço, Elianne
Luiz, a morte de Luciana, de como se deu deixa um sentimento de perplexidade diante da vida ou da morte. Conforto, creio, é tentar entender, mas não há entendimento dessa coisa que hoje não existe e, subitamente, vira realidade.
Nesse momento só um poeta consegue dar alguma resposta:
“Pode a morte ser um sono, quando a vida é apenas um sonho,
E cenas de bem-aventurança passam como um fantasma?
Os prazeres transientes parecem como visão,
E ainda pensamos que a maior dor é morrer.”
(John Keats)
Meus sinceros sentimentos a família da Luciana.