Ainda sobre escritores e crítica

Por Michel Laub


(Drawing hands, de M.C. Escher)

Martin Amis diz que um dos problemas da crítica literária é que seu instrumento de expressão, o texto, é o mesmo usado pelo objeto de análise, diferentemente do que acontece na música, no cinema, nas artes plásticas. A despeito de sua possível mágoa — compreensível num autor que há décadas apanha em resenhas —, a frase toca num ponto pouco lembrado da eterna guerra entre quem escreve e quem julga.

Na coluna passada, falei dos best sellers de crítica, livros que usam recursos específicos para adular certo leitor experimentado. É a velha piscada de olho, à qual a reação desse leitor se torna previsível. Dá para fazer um paralelo com quem ri de piadas anódinas numa transmissão de Oscar sem dublagem: um pouco para mostrar que conhece outra língua, um pouco por gratidão de estar entendendo. Quando James Joyce declarou que Ulysses tinha enigmas para “ocupar os professores por séculos”, já que essa era “a única forma de garantir a imortalidade”, talvez estivesse sendo mais calculista que irônico: porque o elogio a um livro pode ser, também, uma forma de celebrar a capacidade do crítico — de encontrar sentidos, de transmitir sua erudição, de confrontar visões diversas sobre um mesmo tema, de pensar e escrever bem no final das contas.

Seguindo esse raciocínio, imaginar um leitor ideal, que vai entender e/ou gostar disso ou daquilo, não deixa de ser uma concessão. Em alguns casos, uma variante de suborno estético. Por que escolhemos um nome alusivo para um personagem? Por que usar referências bíblicas, psicanalíticas, literárias e mitológicas em diálogos e cenas? Por que lançar mão de elementos que só contribuirão com o texto externamente, característica indissociável do best seller de crítica, se não for para alguém descobri-los e, sentindo-se orgulhoso de discorrer a respeito, confundir esse prazer narcisístico com a fruição autônoma da obra?

Em teoria, o verdadeiro artista faz sempre o contrário: diz o que precisa, e não o que vai agradar. Mas seria ingênuo tomar essa proposição de maneira pura. No nível mais básico e óbvio, produzimos para nós mesmos e somos nós — nosso crítico interno — que aprovamos a versão final de um texto. Que será enviada para um editor, a segunda instância julgadora, e dali para os leitores, a terceira. O resto são apenas graus maiores (ou mais vulgares) de negociação: quantas vezes não lemos entrevistas em que os autores, sem nenhuma cerimônia, explicam o próprio livro usando conceitos que tiraram de um artigo elogioso a ele? Ou será que, em vez de contar a história do Joãozinho que conhece a sua Maria no supermercado, ou do Zezinho que joga videogame e vê TV e come pizza fria todas as noites, alguém senta diante do computador querendo fazer um panorama-das-relações-amorosas-numa-sociedade-consumista, ou uma radiografia-da-solidão-do-indivíduo-entre-a-abundância-contemporânea-de-informação? O caminho inverso também é comum, e eu mesmo já fui tolo de responder a perguntas sobre meus defeitos — só para ver tais palavras aproveitadas, que surpresa, em resenhas negativas posteriores.

Voltando a Amis: quem sabe a linguagem, a base comum que serve a escritores e críticos, mesmo que em registros diversos, não seja mesmo um problema central nessa relação. O que se sente ao ouvir uma melodia, ou ao se ver uma imagem na tela, ou as cores de uma pintura, em boa medida independe do que outros tenham ou não dito a respeito. É uma emoção imediata, pré-verbal, impossível de ser reproduzida quando a essência do objeto de análise é, bem, verbal. No caso da leitura de um romance, as palavras externas muitas vezes se misturam com as internas, competindo para ver quem fala mais alto e melhor. Se o crítico usa uma metáfora boa para depreciar a metáfora ruim do escritor, automaticamente lhe damos razão. O mesmo vale em relação a outros atributos da obra, que são também atributos do texto que a avalia: prosa, inteligência, poder de observação, humor, carisma.

Por isso, embora seja sempre tentador rir e atirar pedras em quem dá vexame por causa de uma resenha implacável, convém não esquecer que esse também é um exercício crítico: na contramão do exemplo do parágrafo anterior, não é absurdo achar que alguém incapaz de escrever e pensar, em graus que vão do desinformado ao criminoso, não tem credenciais para avaliar a escrita e o pensamento de ninguém.

* * * * *

Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973. É autor de cinco romances, todos pela Companhia das Letras, entre eles o recém-lançado Diário da queda. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

8 Comentários

  1. Menires disse:

    Criei esse blog recentemente
    http://anamenires.blogspot.com/
    Peço ajuda a todos criticas, sugestões..
    Dê uma olhadinha vc não perde nada;;
    Parabens pelo blog muito bom

  2. [...] se esforçar para convencer os outros da objetividade do próprio gosto. Um pouco na linha da última coluna, feliz (ou infeliz) do escritor que conta com um advogado (ou promotor) capaz de enaltecer (ou [...]

  3. [...] se esforçar para convencer os outros da objetividade do próprio gosto. Um pouco na linha da última coluna, feliz (ou infeliz) do escritor que conta com um advogado (ou promotor) capaz de enaltecer (ou [...]

  4. Excelente o texto. Uma das questões interessantes é a da crítica como produtora indireta da obra, pela tendência do escritor a querer corresponder às expectativas da crítica em relação não apenas a um padrão esperado de qualidade, mas também ao uso de certos conteúdos, citações veladas, erudição, charadas à la Joyce, como o Laub menciona. Ao mesmo tempo, é um conforto para o escritor saber que a crítica usa as mesmas armas que as suas, no caso o texto. Há menos espaço para arbitrariedades do que em outras formas de criação, como as artes plásticas. Como diz Tom Wolfe no seu divertido “A palavra pintada”, três críticos norte-americanos praticamente determinaram os movimentos de arte do pós-Guerra, pelo enorme poder da palavra de definir o que é bom ou ruim no campo visual. Desse mal a literatura não sofre, já que ninguém ousa fazer a crítica de um texto pintando um quadro.

  5. Maurem Kayna disse:

    Por tudo isso que colocas, sempre prefiro ler uma obra o menos contaminada possível de outras opiniões / julgamentos. Mas essa questão da crítica literária utilizar a mesma ferramenta que o objeto da própria crítica talvez não tenha efeito muito diverso do que ocorre em outras áreas, pois o resultado de uma crítica (conforme o status de quem critica, claro) é similar… acaba funcionando como uma espécie de filtro sobre o que permanecerá ou não para apreciação dos demais.

  6. Rogério Moraes disse:

    O Amis viveu os dois extremos da crítica, muito elogiado no início e agora detonado. Acho que nos dois casos talvez há exagero. O que me incomoda um pouco na crítica é um certo prazer em destruir uma obra. Quando começo um livro, entre cheio de esperanças, querendo valorizar as qualidades. Parece-me que os crítica, de modo geral, pensam o contrário. Para eles uma boa resenha é aquela implacável, que ridiculariza a obra e a tentativa do autor. Vi uma entrevista do McEwan em que ele dizia que uma crítica, dependendo da maldade, poderia ficar com ele durante algumas semanas, e por isso se policia quando lança algo. No mais, outro excelente texto, Michel. Abraço.

  7. Não é a toa, quem faz o sucesso de um texto é o leitor, né?!… =D

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