Brás Cubas e o chip do amadurecimento precoce

Por Joca Reiners Terron

Round and Round
(Foto por Ryan Macon)

Tenho uma filha pré-adolescente bastante precoce. Estava para pedir a vocês que tentassem visualizar meu sofrimento, mas isso é impossível, a não ser que alguém aí fora se encontre em situação idêntica à minha.

Passo meus dias e noites torcendo para que esses cientistas que se dedicam à solução de problemas esdrúxulos da humanidade, em geral relacionados à decadência física masculina, criem uma espécie de chip que possa ser instalado no cérebro pré-adolescente, assim queimando etapas básicas do aprendizado, extirpando-lhes de vez a ingenuidade.

Não me tomem por um foragido das hostes do doutor Mengele. Com a criação desse chip eu gostaria apenas de evitar que minha filha sofresse, por exemplo, os dissabores do primeiro amor fracassado. Seria um modo (reconheço, nada sutil) de acelerar o andor da carruagem, adaptando a evolução humana a estes novos tempos expressos. Assim, expressamente, ela estaria protegida da ignorância dos sentimentos velozes e supérfluos.

Com a mudança hormonal, minha filha também mudou de hábitos. A principal mudança está relacionada ao uso do celular. Se antes ela atendia minhas ligações, agora não as atende mais. O diálogo secou, murchou, virou uma estática interrompida por interjeições monossilábicas pelas quais cobram 1 real o minuto. É um preço caro demais, esse.

Outros hábitos, entretanto, se mantêm. Um deles é a leitura de livros adiantados à sua faixa etária. O único culpado dessas leituras antecipadas sou eu, e acho justo que seja justamente eu a pagar o pato da incomunicabilidade atual.

Ao adiantar as leituras da Julia, eu me rebelava contra a chatice dos livros que lhe eram impostos na escola. Ao mesmo tempo, sem saber, inventava o chip que lhe extirparia a inocência. É claro que ler livros inadequados para uma determinada idade fornece apenas, digamos, o arcabouço teórico da existência, pois a dor prática sempre bate alguns palmos abaixo de onde fica o cérebro.

Perdoem estas ranzinices e chavões de um velho pai. Não tão velho assim, nem sei mais se é evidente ou não, mas agora, neste instante tão cruel, eu me sinto um Matusalém batucando estas linhas  no fundo de uma gruta sem luz. E a bateria de meu laptop está prestes a se acabar. Em breve submergirei no breu total.

Antes que isso aconteça, porém, gostaria de lhes dizer que a dor do abandono não arruinou totalmente o meu raciocínio. Seria tão imprudente (para não dizer estúpido) quanto impossível negar a alguém o crescimento, dia atrás dia, fracasso após fracasso, felicidade sobre felicidade. São essas pancadas na canela e cascudos na moleira que forjam nosso caráter. Nos fortalecem. Doem agora para que no futuro doam menos.

Desde que começou a caminhar, a Julia pisa torto. Não é nada grave, apenas um jeitinho gauche de caminhar, mas que me preocupou durante um tempão. Com a idade, e apesar dos ortopedistas, o problema não se corrigiu. Me conformei, e hoje tenho certeza que, em algum momento, aquele jeitinho único dela de ir pra direita dando a impressão de que está indo pra esquerda vai tirar completamente o norte de um carinha qualquer, que dará seu mundo pra entrar em sua dança torta.

Bem, talvez já tenha tirado. Talvez já estejam dançando.

O fato é que, enquanto testemunho com espanto o avançar do tempo, eu retorno ao passado, e leio Machado de Assis. Eu já havia feito isso na adolescência, na idade que a Julia tem agora, mas tinha reservado as Memórias póstumas de Brás Cubas para ler depois que fizesse quarenta anos. Essa foi uma decisão consciente que tomei, e o compromisso me foi lembrado por Woody Allen, que recentemente recomendou a obra-prima de Machado no Guardian.

Embotado pela tormenta hormonal de então ou não, foi uma decisão acertada, e não me canso de glorificar linha a linha, frase a frase, a conquista de Machado de Assis. Que livro, meus amigos, que livro. Os quiproquós pelos quais passa nosso bom Brás Cubas traduzem com um humor e uma sabedoria a natureza da vida que dá gosto de ler, a ponto de em vários momentos me bater um orgulho idiota de brasilidade e chegar a ouvir a musiquinha do Ayrton Senna vinda de não sei onde.

O livro de Machado de Assis é um chip de queimar etapas do crescimento, uma ferramenta de evolução abrupta. No célebre capítulo VII, “O delírio”, no qual Brás Cubas pede à Natureza que viva mais um pouco e depois desiste, após rever nas brumas o caos de que é feita a vida, a Natureza afirma: “Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem”.

Para o meu desespero, entretanto, Brás Cubas morreu jovem para os padrões de hoje, aos sessenta e quatro anos. Como pretendo viver um pouco mais  — não, muito mais —, preciso agora arranjar um update para o chip do amadurecimento que me permita antecipar o que vai acontecer nos anos subsequentes. Ou isso ou um carregamento do famoso emplastro anti-hipocondríaco de Brás Cubas.

PS. Não por acaso, este post é publicado no dia do encontro de aniversário do blogue. Parabéns a todos os envolvidos, principalmente a Juliana Vettore e Diana Passy. Feliz aniversário!

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

  • Facebook
  • Twitter
  • del.icio.us
  • Tumblr
  • Digg
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • MySpace
  • Netvibes
  • Reddit
  • StumbleUpon
  • Technorati
  • RSS

19 Comentários

  1. chegando orgulhosamente aos meus ogulhosos 24 anos, passei pela adolescencia a pouco tempo, quimica e emocialmente intacto felizmente, se serve de consolo, depois de velho passei a ser mais ‘amigão’ da minha mae – que foi paciente e me educou muito bem no passado.
    e quanto a literatura, agradeço ao dia que achei 1984, de george orwell numa prateleria na escola na qual estudei, aos 10-12 anos, não lembro, depois disso li kafka, allan poe, machado e outros e entendo oque vc sente quanto a ideia do chip, mas por hora, na falta de chip vamos exercitar nossa paciencia e temperança para aqueles que queremos bem.

  2. Acho que todos nos, pais de adolescentes, entendemos a sua angustia. Chega uma idade que da vontade de enfiar o filho na geladeira e falar: voce so sai dai com 25 anos :))

    abraco

  3. Texto tocante – afinal essa a ‘aventura’ humana: dói crescer, dói viver, dói amar, dói o fluir do tempo…(isso é budismo, não?). Parece que a vida é essa ferida que não estanca. Ora, a literatura é o abismo… que nos salva.
    Abraço

  4. Na minha modesta opinião a literatura suplanta toda a necessidade humana no que diz respeito ao conhecimento.O medo que isso dá é que toda a necessidade inclui por exemplo a própria vida. Todas as nossas sensações já foram sentidas e externadas pelos grandes escritores, como o Machadão.

  5. Amigos

    Meus agradecimentos cheios de alívio àqueles que gostaram e compreenderam minha triste situação; desculpas àqueles que não entenderam as hipérboles e ironias do texto.

    Felicidades a todos!

    PS. Maysa, chego a BSB domingo, 29, à tarde, assisto à peça a noite e volto correndo na segunda de manhã. Nos veremos?

  6. Ai Joca, tremo só de pensar no que me vem pela frente… A sorte é que Lívia sempre gostou de livros de aventura e ainda os prefere. E nunca leu Machado de Assis. Espero continuar nessa linha por um bom tempo. Adorei seu texto.

  7. Excelente. Dei altas risadas. De cumplicidade, e com ambos.

  8. Joca,

    a sensação, embora com uma filha em idade bem mais tenra que a Júlia, é a mesma. Percebi o tamanho do problema quando na semana passada a Marina, aos dois e meio, me olhou horrorizada quando viu um menino torturando um gato feio e indefeso, em plena luz do dia e na frente de uma enorme platéia que tomava cafés sofisticados e abusava da fleuma quanto ao ato do ogrinho. Figuei paralisada, não sabia o que dizer. Mas aí me lembre da saída lírica do Atirei o Pau no Gato e tentei explicar o começo dessa saga que não vai mais ter fim. Doeu. Imagino um pouco mais a frente.

    bjs e saudades

    PS: vc vem pra Brasilia para a peça?

Deixe seu comentário...