Em busca do tempo perdido

Por Luiz Schwarcz


Sylvia Beach e James Joyce.

Os editores em geral se notabilizam por suas descobertas, ou por encontrar e apostar em novos talentos que com o tempo se transformam em clássicos. Max Perkins foi quem investiu em Fitzgerald, quando todos na Scribner queriam recusar This side of paradise. Sylvia Beach, a livreira da Shakespeare and Company de Paris, editou por sua conta e risco um livro que ninguém quis publicar: Ulysses de James Joyce. Bennett Cerf, editor da Random House, além de ter lançado William Faulkner e Truman Capote, entre tantos outros, contratou um advogado para defender Joyce na corte americana, e fez uma intensa campanha fora dos tribunais, quando o autor de Ulysses foi processado por “obscenidade”. Uma cena, principalmente, na qual Joyce descreve o herói de seu livro, Leopold Bloom, se masturbando, gerara indignação e originara reações moralistas, a ponto do caso chegar aos tribunais. O livro, depois de recusado por vários editores, vinha sendo publicado em partes, pela pequena (literalmente) The little review. O texto foi censurado, sua divulgação interrompida, até que Cerf entrou em ação (também literalmente); venceu a causa — The United States X a book called Ulysses —, e finalmente publicou o livro na íntegra, transformando-se no primeiro editor americano de um dos maiores escritores de todos os tempos.  No Brasil, para citar apenas alguns casos, José Olympio acreditou em Guimarães Rosa; Henrique Bertaso lançou Erico Verissimo; Augusto Frederico Schmidt publicou No país do carnaval, primeiro romance de Jorge Amado.

Porém, nem só de momentos heroicos como esses é feita a vida de um editor. André Gide notabilizou-se como escritor no início do século XX. No entanto, para os que conhecem os meandros da vida editorial, o fato do autor de O imoralista ter recusado, como editor da Gallimard , o primeiro volume de Em busca do tempo perdido deu-lhe notoriedade quase equivalente. Poucos se lembram que Gide ganhou o Nobel em 1947. Mas neste ano, nas celebrações do centenário da editora Gallimard, a recusa ao manuscrito de Proust, considerado por André Gide como um amontoado de futilidades, ainda frequentou as manchetes dos jornais.

Muitos desses erros, naturalmente, também fazem parte da história da Companhia das Letras. Se recusamos um Proust só o tempo dirá. Pelas cartas iradas que recebo semanalmente, assinadas por candidatos contemporâneos ao posto do grande escritor francês, esse fato deve ter ocorrido amiúde. É bem possível que alguma dessas cartas esteja coberta de razão.

O que posso confessar aqui são alguns erros, especialmente no caso de livros estrangeiros. O mais gritante, ao menos em termos comerciais, aconteceu com a saga de Harry Potter. Soube do sucesso inicial dos livros de J.K. Rowling através de Liz Calder, que na ocasião era editora da Bloomsbury. A informação era bastante precoce, as vendas fenomenais ainda não haviam ocorrido, mas o sucesso da série já era digno de nota. Lili, a responsável pelas escolhas na área infanto-juvenil, preparava-se na época para defender sua livre docência na USP. Não podendo examinar os livros, encaminhou-os para leitura e parecer de uma especialista. Com muito atraso, recebemos um texto bastante sucinto da leitora, que avaliava a trama dos livros como mediana, e seu potencial idêntico ou inferior a obras de autores brasileiros destinadas ao mesmo público. Confiando no parecer, cometemos um erro crasso. Quando quisemos voltar atrás já era tarde.

Da mesma forma, com dor no coração, lembro-me bem de não ter feito oferta a tempo para o monumental livro de Tony Judt sobre a Europa no pós-guerra. Há muitos livros além desses que poderíamos ter contratado, e principalmente alguns autores brasileiros que me arrependo de ter recusado — quando deveria ter apostado no amadurecimento natural de suas obras futuras, ou mesmo na nossa capacidade de aprimorar o original de um autor principiante. Nesses casos, eu gostaria que o tempo, literalmente perdido, voltasse, e que, tendo uma segunda chance, minha decisão fosse mais iluminada pela coragem e pelo bom senso do que foi na primeira ocasião.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

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20 Comentários

  1. Reflexão interessante e humilde, que não apenas mostra que o erro é privilégio de todos, como também abre esperanças naqueles que sonham com um livro publicado.
    E parabéns pelos belíssimos posts, estou ficando fã.

  2. Hoje é o dia do escritor, não é, Luiz?
    Parabéns a todos que escrevem.
    Quem escreve sabe que passamos a fazer narrativas mentais o dia todo. Algumas, a maioria, se perde- deve ser muita bobagem- outras ficam e uma hora vai para o papel ou telinha daqui.
    Estou com sono, escrevo sem pensar, não sejam exigentes com o que digo. Sono danado.
    E parabéns ao editor maravilhoso que você é, o escritor eu admiro muito pelas crônicas daqui- não li seus livros ainda- um dia eu chego lá- acho que terei que comprar online.
    Um forte abraço para o nosso maior editor e o mais querido- nosso aqui, né? :)
    Elianne
    PS: Fiz um post agora lembrando alguns dos escritores que li, faltam muitos, esqueci de Pirandello, Dino Buzzati, eu gostava muito. Vou colocar lá.
    É uma brincadeira, quem quiser siga.

  3. Ai Luiz, que reflexão promissora. Agora sei que tenho alguma chance, kkkkk.
    Adorei o texto!!!

  4. Uma correção grátis e não solicitada. Que ótimo!

  5. Luiz Schwarcz comentou um episódio interessante envolvendo Gore Vidal mas que, na minha opinião, poderia ter sido melhor redigido. “Em busca do tempo perdido”, porém, está excelente! Moacyr Scliar dizia que os judeus sempre apreciaram um texto bem escrito e o editor demonstra isso. Ao ilustre torcedor do Santos, muitos parabéns.

  6. Peguei o link do rapaz citado pelo Chico para vocês:
    http://youtu.be/ewnkZGR6YNk
    Canta ‘Esta pequena’.

  7. Luiz, você viu o Chico aqui
    http://www.chicobastidores.com.br/
    Coloco para quem não viu ainda. Foi gravado ao vivo esta semana.
    Ele e João Bosco, uma delícia. Cada vez que ouço gosto mais.
    :)
    Um abraço, Elianne

  8. Gabriela Cuzzuol Ribeiro

    Bom texto, Luiz. Digno de um editor consciente, que tem a humildade de autoavaliar o próprio trabalho.

    Abraço,

    Gabriela Cuzzuol

  9. [...] Joca Reiners Terron fala sobre os escritores e a grana (ou falta dela). Ainda no blog da editora de Luiz Schwarcz, o próprio fala sobre os autores e obras recusadas. E o editor da Penguin-Companhia, André Conti, [...]

  10. Luiz, ótimo texto. Assim como editor e autor, você nos deixa transparecer uma humildade singular em suas palavras.

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