Por Vanessa Barbara
Desde janeiro de 2002, sou a feliz editora de um almanaque eletrônico de periodicidade aleatória, A Hortaliça (www.hortifruti.org), que depende da ativa colaboração de leitores desocupados e da anuência de autores mortos — não os psicografados, entenda-se — para compor um periódico só de citações despropositadas, textos alheios tirados do contexto e textos próprios sem razão de ser.
Vivendo sobretudo à custa de citações, tenho que lidar pacientemente com os paradoxos da marcação livresca, essa grave ciência que trata do realce de trechos para posterior análise e transcrição, a fim de que não se percam para sempre num oceano de páginas intocadas pela experiência humana. Ou num canto escuro da memória onde jazem as senhas do ICQ, o sobrenome daquele japonesinho da quinta série, a área do triângulo-retângulo e o enredo do último filme do 007.
O que nos leva a uma questão absolutamente anterior a essa: marcar os livros, sublinhar parágrafos, fazer orelhas nas páginas, realçá-las com marca-texto, ceder a anotações ininteligíveis nas bordas — vandalismo ou apropriação lícita do texto escrito? Sou da segunda opinião, embora às vezes hesite em macular um volume especialmente novo e cheiroso, sendo meu fervor pró-marcação diretamente proporcional ao matiz amarelado das páginas, às onipresentes mordidas de traça, à mancha primordial de café na página 33 e ao carimbo do sebo de procedência, onde teria custado a bagatela de vinte cruzados novos.
De início, adquiri o hábito de anotar as partes mais pitorescas assim que elas surgiam. Além de impraticável em livros como Tristram Shandy ou Alice no país das maravilhas, que demandariam a transcrição completa no meu caderno espiral, esse método provou-se exaustivo e desanimador: a cada trecho promissor, lá ia a pobre alma que vos escreve apanhar o lápis e o papel, levantando-se pesadamente da cama só para registrar o texto. Interrompia-se a leitura e torcia-se para que o resto do livro fosse uma droga, só para não ter que se esforçar mais vezes. Em nenhum momento cogitou-se usar um bom e velho marcador de livros, que se destina tão exclusivamente a demarcar o andamento da leitura, ou sua utilização seria conspurcada para todo o sempre.
Mais à frente, resolvi anotar apenas o número das páginas que continham o trecho desejado, a ser copiado mais tarde. O sistema durou um bom tempo, até que passei a confundir irremediavelmente as notas, registradas em pedaços de papel na minha cabeceira — a página 116 anotada seria de Alex no país dos números, Sobre a morte e o morrer ou A conspiração franciscana, que estive lendo ao mesmo tempo? E mais: às vezes a tal página continha duas citações interessantes, de modo que uma delas passaria lamentavelmente despercebida, a menos que eu lesse de novo a folha inteira. Embora algumas passagens fossem de identificação gritante — a tal página 116 pertencia a Ensaios de amor, de Alain de Botton, e falava de um homem que pensava ser um ovo frito —, muitas eram tão obscuras ou circunstanciais que era preciso ler a página inteira várias vezes só para concluir que o número havia sido anotado em um momento de grande confusão mental e não correspondia a nada de lógico neste mundo.
Da notação numérica passei, portanto, ao método de grifar a lápis no próprio livro, apontando a localização e extensão do trecho por meio de pequenos colchetes. Às vezes também circulava o número da página só para facilitar a varredura posterior, folha a folha, quando então as marcas seriam apagadas. Esse método não prevê a costumeira ausência de material esferográfico nas redondezas e a preguiça de folhear mais tarde o livro à cata dos trechos.
Seguiu-se a adoção de um método mais limpinho e socialmente invejável — os “post-it flags”, que são aquelas tirinhas estreitas e coloridas que você pode colar e descolar facilmente das páginas, e até preencher com anotações classificatórias. De minha parte, hesito em aderir de corpo e alma ao procedimento pelos mesmos motivos da marcação a lápis, ou seja, ignora-se o dispêndio de energia necessário para apanhar o material e a possível falta deste à mão. Também acho as etiquetas demasiadamente jeitosas e acabo racionando a quantidade de trechos só para não gastá-las demais.
Outra alternativa infeliz foi fazer um vinco com a unha ao lado do trecho desejado, na esperança de que os olhos pudessem depois identificar as marcas, o que só ocorreria em casos de visão biônica. Sem falar no inconveniente de haver edições naturalmente vincadas, o que pode levar um editor à loucura em poucos dias.
A alternativa que por enquanto me parece a mais simples, mais honesta e menos trabalhosa é dobrar a ponta das páginas e entregar a vida ao Altíssimo. A marcação leva menos de cinco segundos (com o necessário calcamento e recalcamento digital, a fim de que a dobra não se desfaça) e pode ser facilmente rastreada olhando-se a borda do livro fechado. O ruim é que aqui em casa acabei ocupando uma gaveta inteira só de livros “a legumar”, o que dá aquela sensação ruim de trabalho infinito e acaba desestimulando a copista. Além disso, pode-se entrar em crise quando há necessidade de marcar um trecho na frente da folha e outro no verso.
A questão da marcação necessária ainda carece de resolução, e nem me venham falar em Kindle, que é leve e prático demais para causar transtorno. Esta coluna se baseia no corolário básico de que livro que é livro tem mesmo é de causar transtorno.
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Há alguns anos, comprei num sebo virtual Traçando Paris, de Luis Fernando Verissimo e Joaquim da Fonseca. A foto que ilustra este post dá uma ideia do tamanho da loucura com que me deparei. Em quase todas as linhas de absolutamente todas as páginas, uma certa Maria Solange Corrêa de Barros Oliveira, residente à rua Mostardeiro, n° 1035, Porto Alegre, se pôs a sublinhar, rasurar, realçar, rabiscar e escrever sandices como: “Eu estou com 56 anos et tenho dito. Assim seja. Amém”. Havia ilustrações esparsas de um certo Solar das Amigas, que não tem nenhuma relação com o livro, e alguns devaneios com a língua francesa, como quando ela anota, no sumário, que “quem pegar este cahier (caderno) vai receber um pito”. Escreve que “demi” é “chopinho” e garante que “genre” é “genro” em francês. Afirma, em letra de mão rebuscada: “Cannes fica no Canadá”.
Ela não sublinha apenas os trechos, mas também os créditos autorais, a ficha bibliográfica, a legenda das fotos, a minibiografia da orelha e algumas ruas do mapa de Paris. Há menções religiosas por toda parte e a palavra “diabo” é tachada em vermelho com tanta fúria que sai do outro lado.
O melhor comentário ao livro está bastante apagado e foi feito em lápis cor de laranja: “Marie Solange Olivier Corrêa: vá para a direita e volte para a esquerda. Assim seja. Amém”.
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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.










Querida Vanessa, novamente, como você sabe traduzir os dilemas dos fieis leitores! Agora, cabe aqui, uma pergunta que é constante; quando é que você vai decidir postar seus textos semanalmente?! Faço aqui um chamado a todos que já admiram suas letras: comecemos a pedir em uma só voz, uma só campanha, Vanessa e seus posts semanalmente!
Abraços!!!
Hm, vou aproveitar que eu moro em Porto Alegre e tocar em todos os apartamentos do 1035 da Mostardeiro, atrás da tia. Quem sabe ela ainda tá viva e mora lá. Torçamos.
Delícia de postagem! Amei…
Vanessa, você é maravilhosa. (-:
E permanece a incógnita: quando você publicará novo romance, Vanessa? Responde, vai. Se manifesta de alguma forma, mas não deixa de dizer algo, mulher! Adoraria ler outra coisa para adulto para além dos que já existem.
Sempre muito bom, depois de um dia cansativo-chato-mesmo no trabalho, chegar em casa e conferir um novo texto teu, Vanessa. Tem como não se identificar?
O lance de anotar as páginas não funciona mesmo: sempre faço isso quando os volumes são de bibliotecas e eu tenho de devolver sem ter anotado tudo que achei muito legal (às vezes torço para que o livro seja bem ruim a partir de certo ponto, para não ter que fazer novas marcações — ou, quando estou copiando os trechos, mudo de ideia sobre determinado trecho, só porque ele é longo demais).
Uma coisa boa de trabalhar como preparador de texto (sim, afirmei ter lido o seu texto pro blog da Cia na minha entrevista de emprego — só não disse que a coluna era tão divertida, ia tirar um pouco do falso verniz de cara sério) é a abundância de post-its. As post-it-flags são lindas, mas eu viciei nos post-its cortados em cinco tirinhas, sempre uso algum como marcador da página em que parei, durante o almoço. Daí, ao encontrar uma passagem interessante, dobro cuidadosamente e rasgo o post-it na dobradura para deixar na página respectiva. A técnica foi bastante útil enquando eu lia Associação Judaica de Polícia, sempre tinha que voltar ao glossário no final do livro, daí os post-its indicavam quais verbetes estavam naquelas páginas…
Acho que me empolguei. Teus textos fazem isso com as pessoas, então você deve estar acostumada.
[...] mais: Levanta-te e grifa « Blog da Companhia das Letras Esta entrada foi publicada em Sem categoria e marcada com a tag companhia, grifa, letras, [...]
Que delícia de texto, Vanessa! Morri de rir, sobretudo com a história da tal “Marie Solange”. Eu sou adepta de sublinhar trechos a lápis. De vez em quando, dou aquela folheadinha em algum livro e releio apenas os meus trechos favoritos. Acho bem prático e comigo funciona, só não gosto de emprestar os livros em que fiz marcações.
Não consigo usar canetas para fazer as minhas marcações. Tento ser discreta, grifando apenas com lápis. Não sei exatamente o motivo. Também tenho o hábito de copiar as citações. Por causa disso, gasto vários bloquinhos e cadernos ao longo do ano. Se é para estudo, ainda passo as anotações para o computador. Mesmo assim, não sou nem um pouco organizada com meus fichamentos.
O problema com as anotações só é pior quando os livros são da biblioteca da faculdade. Sempre penso que alguém vai ficar incomodado com os rastros que deixei no caminho da leitura. Algo que sempre me intriga é o grifo dos outros. Fico pensado por que alguém sublinhou determinada frase e não outra. Porém, nunca encontrei um caso tão peculiar quanto o da dona original de “Traçando Paris”.
Também marco os livros sem dó. Uso as canetas de 4 cores da Bic. Vermelho nas idéias interessantes (teses), verde nas frases lapidares (que formariam um cânone), azul para meus comentários. Uso preto para fazer pequenos resumos em cadernos ou folhas soltas que arquivo em um fichário – isso me auxilia a relembrar a história depois de anos.
Como se não bastasse, “quebro” os livros (só os que são costurados) para que fiquem abertos na mesa ou na mão. Infelizmente, livro no Brasil parece que foi feito pra ficar fechado, tamanha a resistência que eles oferecem no ato da leitura. Quem pega os famosos livrinhos de bolso da editora “folio” (francesa?) sabe do que eu estou falando: os livros praticamente “derretem” deliciosamente na nossa mão.
Perdi ainda mais o medo em grifar meus livros depois da catastrófica previsão de que eles vão desaparecer daqui a alguns anos.