Por Carol Bensimon

Casa projetada para que haja o maior número possível de estantes, design de Kazuya Morita Architecture Studio.
Fui à Casa Cor essa semana, programa que faço com minha tia desde que eu era criança. Eu gosto de interiores, ok?, embora não daqueles interiores — uma cama com dossel dourado e uma imagem do Empire State ao fundo é o que eu chamaria de brega. Talvez seja algo que corra na família. Meu pai, para você ter uma ideia, curte o setor de mobília do Musée d’Orsay. Mostre a ele uma cômoda de marchetaria e ele estará feliz. Quase ninguém frequenta essa parte do museu.
Eu gosto de móveis retrôs, eu gosto de plantas e eu cozinho.
Terça à noite, na Casa Cor, eu estava pensando que nenhum daqueles ambientes havia sido projetado para receber livros. Nenhum canto de nenhum ambiente. Você poderia argumentar que a Casa Cor se antecipa, vê adiante, e cria a suposta sala de um suposto sujeito que lê todos os seus livros no Kindle. Aham, tá bem. Você precisa corrigir esse seu otimismo.
Em contrapartida, havia uma quantidade absurda de televisões. Havia inúmeras televisões nos banheiros, de frente para o box, de frente para a privada, de frente para a cama, na cozinha, na adega e, por mais que eu tentasse me enganar com argumentos de que aquilo não era exatamente uma representação realista da casa de uma família da classe A ou B brasileira, bem, acho que de certo modo aquela era a casa que a família da classe A ou B gostaria de ter. Creepy. Cogitei propor um sistema de cotas: para cada tela que o arquiteto quisesse colocar em seu ambiente, ele seria obrigado a expôr duas dezenas de bons livros. Mas previ o fracasso retumbante da medida.
É verdade que vi alguns livros, não posso negar. Em certa peça, Dan Brown, A cabana, a série Crepúsculo. Noutras, uns poucos livros de arte, desses infelizmente usados para ocupar mesinhas de centro. Um quarto me surpreendeu com um Borges ao lado da cama. Será que isso ressignificava o quarto? Outro usou livros antigos — dos que se compra por metro (sim, isso existe) — para fazer uma pilha caótica ao lado da cama. Como se o imaginário dono do recinto tivesse adormecido de tanto tédio, deixando assim os livros caírem, um por um, durante duas semanas. Ou como se a pilha, em formato piramidal, fosse na verdade uma pré-fogueira à espera de combustível. Sutil.
Naquele mesmo dia, eu tinha ido a uma loja que só vende mobília assinada e tinha babado ao ver certas cadeiras, certos aparadores, certas mesas, quase tudo caro demais para o meu bolso. Mas a mera observação desses objetos já me dá um prazer estético semelhante, ou maior, do que uma pintura ou uma fotografia. São todas manifestações artísticas, não é mesmo? O que me leva à pergunta: se eu estou interessado no design da sua cadeira, por que você não está interessado no meu romance?
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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.









Ainda acho que vai chegar o tempo em que as crianças já não aprenderão a assinar o próprio nome, mas terão uma assinatura virtual, acesso às redes socias etc (como já acontece hoje). Alienação mundana…