Por Joca Reiners Terron

Desde que as trapalhadas das vanguardas morreram, a literatura anda muito chata, convenhamos. E arte provida só de retaguarda (não confundir com glúteos) é uma arte muito da sem graça. Nunca, nem mesmo no tempo de Dickens, o mundo literário foi tão dickensiano. Há muito que as ficções literárias vêm sendo regidas pela causalidade, nenhuma novidade nisso, mas sempre me pareceu estranho que todos paguem sem maiores reclamações para se comover, para rir e chorar, mas não façam o mesmo para terem suas certezas colocadas em cheque. Aquele humor pregado por Oswald de Andrade virou bolor, e a refrega Augusto de Campos X Ferreira Gullar tem despertado umas saudades danadas do que não vivi.
Fato é que ninguém tem arriscado bulhufas, ultimamente, e editores, escritores e outros horrores andam adquirindo uns ares de responsabilidade que cairiam melhor em burocratas. Vide a defesa cada vez mais insistente de uma literatura “média” ou de gênero (pobre José Paulo Paes, cujo ensaio “Por uma literatura brasileira de entretenimento” geralmente lastreia o debate). Por tais e outras é que valorizo os paraísos bem bacanas do André Sant’Anna, essa variação brasileira de Daniil Kharms (ou Harms, dependendo da fonética) que cabulou as aulas dedicadas a ensinar o realismo na escola. O André é o melhor dentre todos nós, é claro, mas hoje vou falar de Kharms.
Daniil Kharms (São Petersburgo, 1905-1942), compreensivelmente inédito no Brasil, nascido Danill Yuvachev (o pseudônimo vem das palavras inglesas charm e harm, usadas conforme o humor do cidadão), surgiu no caldeirão efervescente da cultura russa de início do século 20. Pertencente a um coletivo chamado OBERIU (palavra sem sentido à qual alguns atribuíam o significado de “União da Arte Verdadeira”), admirador dos futuristas que o antecederam (era fã de Alexander Blok e do poeta zaúm Velimir Khébnikov (cujo “Ka”, na tradução de Aurora Bernardini, plantou um verdadeiro minhocário em minha cabeça), Kharms praticou uma visão peculiar do absurdo em seus microcontos e pequenas peças de teatro, além de uns diários para lá de esquisitos.
Kharms afirmou o seguinte numa entrada de 1937 de seu diário: “Estou interessado apenas em nonsense; só naquilo que não tem sentido prático. A vida me interessa somente em suas manifestações mais absurdas”. Geralmente adotada como estatuto, a frase permite entrever o metódo absurdista do russo, normalmente considerado um antecipador de Beckett, Ionesco e Camus, e que pode ser resumido à ideia de um leve deslocamento de certos elementos da realidade, atribuindo-lhe novo sentido. Num de seus contos, um homem é espancado até a morte com um pepino. Não é difícil relacionar essa literatura livre de âncoras com aquilo feito em campo por um craque de futebol. Neymar, por exemplo, quando dribla sobrenaturalmente, está sendo absurdista feito Kharms.
Vejamos o que o malucão escreveu à amiga, a atriz Klavdia Vasilyevna: “Minha tarefa agora é estabelecer a ordem correta (…) Quando escrevo poemas, o que me parece mais importante não é a ideia, nem o conteúdo, e nem um nebuloso conceito de “qualidade”, mas algo ainda mais nebuloso e incompreensível para a mente racional, porém compreensível para mim e, espero, também para você, Klavdia Vasilyevna. É a ideia de limpeza da ordem”. De acordo com Matvei Yankelevich, seu tradutor para o inglês, para Kharms “o poema deve — através de sua “limpeza” ou da ordem correta de suas palavras — transformar-se num objeto no mundo que seja capaz de realizar algo que mude o mundo”. Como o próprio Kharms afirmou: “Parece que esses versos se transformaram em coisa, e alguém pode arrancá-los da página e jogá-los na vidraça, e a vidraça vai se quebrar. É isso o que as palavras podem fazer!”
Perseguido por suas palavras, Daniil Kharms foi condenado à prisão por Stalin em 1941, e morreu de fome numa prisão psiquiátrica durante o cerco de Stalingrado.
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Abaixo, três amostras da razão louca de Daniil Kharms.
PETROV E MOSKITOV
PETROV:
Ei, Moskitov!
Vamos pegar uns mosquitos!
MOSKITOV:
Necas, num tô preparado pra isso;
Melhor pegar uns ouriços.
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As árvores todas todinhas vão pif.
as rochas todas todinhas vão paf.
a natureza toda todinha puf.
Os carinhas todos todinhos vão pif.
as minas todas todinhas vão paf.
o casamento todo todinho puf.
Os eslavos todos todinhos vão pif.
os judeus todos todinhos vão paf.
a Rússia toda todinha puf.
(início de outubro de 1929)
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QUATRO EXEMPLOS DE COMO UMA NOVA IDEIA CONFUNDE PESSOAS DESPREPARADAS
I.
ESCRITOR: Eu sou um escritor.
LEITOR: Pois pra mim você é uma m****a!
(O escritor fica paradão por uns minutos, chocado pela nova ideia, e cai mortinho da silva.)
II.
ARTISTA: Eu sou um artista.
OPERÁRIO: Mas pra mim você é uma m****a!
(Então o artista fica branco como cera,
E sacode feito uma folha de grama,
E, inesperadamente, vai desta pra melhor.
É carregado pra fora.)
III.
COMPOSITOR: Eu sou um compositor.
VANYA RUBLEV: Pra mim você é uma ______.
(Respirando fundo, o compositor cai ali mesmo.
Inesperadamente, é carregado pra fora.)
IV.
QUÍMICO: Eu sou um químico.
FÍSICO: Pois pra mim você é ______.
(O químico não diz nenhuma palavra mais e despenca pesadamente no chão.)
PS: As traduções são minhas, feitas a partir da versão em inglês de Matvei Yankelevich. Mas existe uma edição portuguesa, homônima deste post (“Crónicas da razão louca”, Daniil Harms, Hiena, 1994).
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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujo e Sonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.









10 textos infantis de Harms acabam de ser publicados em Portugal pela editora Bruaá. Podem espreitar aqui: http://www.bruaa.pt/esquecime.html
Muito obrigado pelo texto, Joca.
Joca, que bacana ver Kharms por aqui! Que alegria!
A velha é a única novela dele que está traduzida para o português mesmo, como o Zani disse. No curso de russo, além de poemas em russo mesmo, usamos a tradução de A Velha. E há poemas do Kharms – salvo engano – que estão na coletânea de poemas russos modernos traduzidos pelos irmãos Campos e o Boris Schnaiderman.
Bem, arrasou em lembrar do Daniil, Joca =) ótimo texto!