Os meus bunkers prediletos

Por Joca Reiners Terron


(Foto por Liza Lemsatef Cunningham)

A leitura é um ato que por si só nos transporta da realidade comum a outros planos metafísicos. Contudo, como o jovem Tarzan ao descobrir na floresta a antiga casa de seus pais humanos falecidos e as maravilhas impressas que lá estavam, aproveitando para esconder-se todas as manhãs de sua família gorila, há coisas que é sempre melhor fazer às escondidas. Ler é uma delas.

Desde pequeno tive vários bunkers para leitura. O primeiro deles foi o porão de uma casa numa cidade do Paraná no século passado. Medianeira era um lugar barrento e gelado. Lá, no inverno de 1975 em que meus amigos e eu esculpimos um boneco de neve meio esquisito (pois era metade feito de lama), e o meu tio Tininho, vindo de Cuiabá (45°C à sombra), quase congelou, o porão foi um local de descobertas. Debaixo da casa, com a desculpa de imitar a pose desta capa de Flash Gordon no Planeta Mongo (para uma fotografia feita com sua Tekinha pelo meu irmão), eu roubei meu primeiro beijo da Simone, uma vizinha precoce (então tínhamos 7 anos). Depois roubaria outros, virando praticamente um assaltante.

Nesse tempo eu adorava os gibis da Ebal e da RGE, em sua maioria clássicos da Era de Ouro dos quadrinhos, como Tarzan, Príncipe Valente, Fantasma, Agente X-9, Tim e Tom, Mandrake etc, e o porão, largo e escuro, com um piso úmido e lotado de quinquilharias e ratos, tornava-se o terreno ideal para se adaptar as fantasias das HQs às brincadeiras com a molecada, que cabia inteirinha lá dentro. As aventuras se estendiam para toda a ramificação subterrânea dos porões de todas as casas do bairro, fazendo com que a gente se sentisse uns verdadeiros Spirits explorando o cemitério Wildwood de Central City.

Um pouco mais tarde mudei de cidade e de bunker, acomodando-me num beliche enorme. Como eu era o mais velho, tinha a prerrogativa de dormir na cama superior (meu irmão Nando, 41 anos nas costas, até hoje reclama). As leituras mudaram, e incrivelmente o beliche ia se conformando a elas. Quando lia o clássico de Robert Louis Stevenson, A Ilha do Tesouro, por exemplo, o beliche se transformava na gávea da escuna Hispaniola e eu virava um Jim Hawkins que observava atento a movimentação suspeita do pirata Long John Silver e de seus asseclas.

Em Ben-Hur, de Lew Wallace, eu era Judá, e dava para remar lá de cima do beliche como se estivesse mesmo nas galés; a madeira desconjuntada gemia até altas horas, e o Nando lá embaixo dormia feito pedra no fundo do oceano, enquanto seu ronco imitava o rugido das ondas. O beliche também se adequava muito bem aos gibis de faroeste que eu continuava a ler, como Ken Parker, e até que se virava no papel de forte apache, de onde dava para se disparar uns balaços certeiros contra ataques de índios rebeldes.

Naquele beliche eu tive catapora, caxumba e operei de fimose, o que me garantiu a maior e mais dedicada temporada leitora de minha vida. Pensando bem, foi uma época meio dolorosa, aquela. Mas a outra vida, a “real”, logo passou a clamar por minha presença, e a zoeira dos hormônios da puberdade começou a ficar demasiado alta, a ponto de ensurdecer a fala dos personagens que desistiam de falar comigo. Depois disso veio a faculdade, e aí meu bunker começou aos poucos a adquirir a aparência de um bar tranquilo no final da tarde. Às vezes, porém, também era uma tempestade noturna.

Com os anos, a necessidade da existência dos bunkers não mudou. De acordo com a época, essas trincheiras fantásticas tiveram a forma de ônibus lotados no rumo do emprego, de madrugadas nas quais todos dormiam (menos eu), de surdez circunstancial (aquela, que os pais e maridos inventam detrás das páginas de livros e jornais), que, conforme o tempo passa, tem evoluído para uma surdez clínica, e atualmente tem seu lugar no banheiro aqui de casa.

O banheiro, esse quartel-general impoluto no qual se localiza a privada, popularmente conhecida como “trono”, que sem dúvida nenhuma se trata do trono privado do velho rei leitor.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

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9 Comentários

  1. [...] – e, pós-Bienal, vai ter muita gente querendo arrumar um bunker para ler em paz… a Companhia das Letras dá umas dicas. [...]

  2. Na infância, não tinha livros em casa. Mas na casa do meu avô, um alfaiate que tocava sete instrumentos (como eu sofri por não conseguir aprender pelo menos um) havia uma estante com centenas de livros. Mas ela ficava no seu quarto, proibida para todos, exceto para dois filhos (ele tinha oito). Como levei muito “apito”, puxão de orelha e cascudo por estar naquele recinto “sagrado” sem autorização, aprendi a profaná-lo. Olhava pela janela, quando meu avô estava tirando as medidas de um cliente e minha avô torrando café. Corria até a estante, catava um livro, corria para o quarto das minhas tias (solteiras na época), escondia-me debaixo da cama e ali passava a tarde lendo o livro. Muitas vezes acontecia que perdia a hora e minhas tias chegavam para tomar banho, e eu moleque de oito anos, ficava sem respirar debaixo da cama até elas tomarem banho e saírem do quarto. Depois eu saía, sem ninguém ver e recolocava o livro na estante proibida. Eram duas aventuras ler um livro.

  3. [...] Blog da Companhia, Joca Reiners Terron fala sobre seus bunkers prediletos de leitura. No site da Revista Cult, Jorge Grespan fez uma [...]

  4. Muita gente me tem confessado, que com a chegada dos filhos, o “trono” se torna cadeira de leitura!

    Gostei muito o modo como os “bunkers de leitura” evoluiram com a idade, assim como os títulos que a acompanham!

    :)

  5. Terron, adorei o seu texto. Gostei da descrição de alguns dos meus bunkers prediletos, como o trono e o ônibus lotado no caminho do trabalho, gosto de me enclausurar também na leitura caminhando pelas ruas de sampa e durante o silêncio da noite e da madrugada. Abraços. Vôgaluz

  6. Amei!!!

  7. Eu não consigo ler no banheiro, ou eu me concentro pra cag@$# ou me concentro pra ler…hahahaha =D

  8. Meu lugar de ler sempre foi o banheiro. Culpa da minha mãe, que sem paciência de me esperar, me dava uma revistinha para eu ficar folhando – pois nem sabia ler. Mais tarde, foi lendo Tio patinhas e turma da monica, sentada no vaso que tomei o gosto pela leitura. Hábito tão comum, que as revistas eram guardadas no banheiro. Me lembro de minha irmã com 2 aninhos, sentada no vaso, segurando uma revistinha de cabeça para baixo, olhando ela como se tivesse lendo. Parei, virei o gibi, ela olhou pra mim e continuou “fazendo de conta” que estava lendo com uma cara de ” não gosto de ser interrompida”. Boas lembranças

  9. Pois é, hoje em dia, com filho pequeno requerendo atenção por quase 24 por 7, o banheiro é o único lugar onde consigo ler. E o menino vai aos poucos adquirindo o mesmo hábito.
    Uma delícia esse artigo.

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