Semana sessenta e seis

Os lançamentos da semana são:

Amores & Arte de amar, de Ovídio (Tradução de Carlos Ascenso André)
Para o poeta latino Ovídio, o amor é uma técnica que, como toda técnica, pode ser ensinada e aprendida. Isso, porém, não é simples: “São variados os corações das mulheres; mil corações, tens de apanhá-los de mil maneiras”, ele diz. Essas “mil maneiras” são ensinadas em sua Arte de amar, uma espécie de manual do ofício da sedução, da infidelidade, do engano e da obtenção do máximo prazer sexual, elaborado a partir das experiências vividas pelo poeta e descritas em Amores. Seus poemas quase didáticos renderam-lhe fama nos salões de um Império Romano então voltado aos prazeres sensoriais e, ainda hoje, têm notável atualidade. Rica em detalhes históricos e com todas as polêmicas que cercam a vida do autor, como a sua expulsão de Roma, os escritos perdidos e sua vida pessoal, a introdução de Peter Green, que demorou doze anos para ser escrita, é uma espécie de biografia do poeta, que ajuda o leitor a entender a atualidade destes poemas escritos há cerca de dois mil anos.

Alvo noturno, de Ricardo Piglia (Tradução de Heloisa Jahn)
Como que saído de um filme noir, o forasteiro Tony Durán mal tem tempo de descer do trem num lugarejo da província de Buenos Aires e reencontrar as ricas irmãs Belladona: logo se torna protagonista de um caso policial e, com isso, epicentro deste novo romance do escritor argentino Ricardo Piglia. Conduzida pelo comissário Croce, a investigação avança trabalhosamente, na contramão do silêncio e do poder, produzindo breves clarões aqui e ali. Mesmo assim, examinado com paciência pelo comissário e pelo romancista, o affair Durán vai exibindo suas conexões veladas e nos leva de um camareiro homossexual a um potentado da província, de um esquema de lavagem de dinheiro ao projeto utópico de uma fábrica — e, nesse movimento, Alvo noturno vai se aventurando além das convenções do romance detetivesco para chegar às raízes mais profundas, aos males de origem da história argentina.

Os últimos soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais
Organizações criminosas internacionais, aventuras mirabolantes, disfarces perfeitos, conquistas amorosas, agentes secretos em ações temerárias: este livro traz todos os elementos de suspense de um romance de espionagem — mas não contém uma só gota de ficção. É tudo verdade, nos mínimos e, eventualmente, aterradores detalhes. Durante 5 anos, organizações anticastristas da Flórida realizaram 127 ataques terroristas em solo cubano, que incluíam atentados a bomba nos melhores hotéis e até rajadas de metralhadoras disparadas contra turistas. Para combater essas ações, Cuba criou a Rede Vespa, um seleto grupo composto de 12 homens e 2 mulheres que se infiltraram nesses grupos radicais, com o objetivo de colher informações e antecipar-se aos ataques. Fernando Morais entrevistou mais de 40 pessoas para chegar ao fundo dessa história, que agora ele narra com objetividade rigososa. Um livro para ler de um fôlego. Veja o trailer abaixo:

O autor fará turnê de lançamento por São Paulo (23/08), Santos (27/08), Rio de Janeiro (30/08), Belo Horizonte (05/09), Mariana (06/09), Recife (13/09), Brasília (15/09), Curitiba (28/09), Porto Alegre (29/09), Caxias do Sul (01/10) e Salvador (10/10).

Ao anoitecer, de Michael Cunningham (Tradução de José Rubens Siqueira)
A presença da beleza encarnada pode abalar a vida de um homem que tem no próprio ideal de beleza o seu ganha-pão. Ainda mais se essa encarnação surgir na forma de um jovem toxicômano e irresponsável cujo apelido é Mizzy, abreviação de The Mistake, o engano. Peter Harris, um nova-iorquinho em plena crise dos 40 anos, é dono de uma galeria de arte, mas só encontra o valor estético que procura em seu trabalho quando recebe em casa o cunhado 23 anos mais jovem. O garoto é sensual, inteligente e perdido na vida. Não tem diploma nem trabalho, mas quer “fazer alguma coisa nas artes”. Isso basta para que ele subverta o funcionamento da casa. O encontro inesperado leva o galerista a duvidar de todos os elementos que compõem sua existência, até então aparentemente estável e bem encaminhada: o trabalho, o casamento, a família, as relações sociais. Depois de As horas, romance ganhador do prêmio Pulitzer, sobre a vida e a obra da autora britânica Virginia Woolf, Michael Cunningham volta ao mundo das artes para investigar o universo dos desejos secretos e das frustrações que acompanham a maturidade.

O metro nenhum, de Francisco Alvim
Ao longo de um ano e pouco o poeta organizou, escreveu e reescreveu os 87 poemas agora publicados, gastando “a sola dessas sapatilhas que me calçam quando percorro a corda bamba deste metro nenhum”. Em 13 de abril de 2011, o livro foi enviado à editora. “Até hoje mexi nele: hesitação quanto à posição de um ou dois poemas; mudança de um ou dois títulos… E vem um sentimento muito bom, muito doce: de amor pelo livro. O mesmo sentimento que provei em relação a cada um de meus livros anteriores e que só agora, vejo, reconheço com clareza. O que nada tem a ver com os apertos por que passei para botá-los de pé e a consciência dos inúmeros poemas frustros ou simplesmente ruins que contêm.” É, sem dúvida, um livro extraordinário, de um grande poeta brasileiro. Nele, “a poesia/ quando ocorre/ tem mesmo a perfeição/ do metro/ — nem o mais/ nem o menos —/ só que de um metro nenhum/ um metro ninguém/ um metro de nadas”.

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3 Comentários

  1. Wagner disse:

    Eu concordo com você, Magno, que as obras publicadas pela Companhia das Letras são superiores às de outras editoras… não apenas – para mim – as dedicadas a Machado de Assis; há, aliás, um volume deste grande autor, “50 Contos”, cuja escolha ficou por conta de John Gledson, que também fez uma introdução para o livro!

  2. Estou lendo o ebook “Papéis Avulsos”, de Machado de Assis, com maravilhoso ensaio de John Gledson que agrega valor inestimável a obra.

    Amigos, considerando a profusão de publicações de baixo nível das obras em domínio público, gostaria de deixar consignado aqui minha opinião pessoal e um alerta aos leitores neófitos de Machado de Assis: procurem obras como as publicadas pela Companhia das Letras ao escolher entre as várias edições disponíveis. Além de praticamente não haver diferença de preço, os ensaios, por exemplo, que as publicações do selo Penguin-Companhia trazem valem a opção. Além disso, destaco também a criteriosa revisão e atualização ortográfica da obra machadiana.

    Mudando um pouco de assunto e entrando no tópico, já coloquei Ovídio e Fernando Morais na lista para leitura. E, para minha grata surpresa, Fernando Morais sai simultaneamente em formato eletrônico! Obrigado, Companhia!

  3. Arthur disse:

    Yey! Um dos mais aguardados meus foi lançado! Tá que eu ainda falto ler o Dias exemplares do Cunningham, mas esse Ao anoitecer vai ser comprado AMANHÃ!

    Pena que não manteve o estilinho dos outros livros =/

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