Alegria em dobro

Por Luiz Schwarcz

Jorge Amado e José Saramago na Bahia. (Fotos por Zelia Gattai, Acervo de Casa de Jorge Amado)

Blog tem destas coisas. Eu terminei de postar o texto anterior e me lembrei que esqueci de alguns detalhes. O mais importante deles é o traje do José que aparece na foto em questão. Saramago foi despreparado para uma celebração baiana, em pleno mês de fevereiro. O calor era tremendo e o nosso futuro Nobel só tinha calças compridas na mala, acompanhadas de camisas sociais. Quando chegamos de Brasília, onde José recebera das mãos de Fernando Henrique Cardoso o Prêmio Camões, e descarregamos nossas malas no pequeno hotel, que ficava no Morro da Paciência, atual casa de Gal Costa, vi Saramago se preparar para a tal feijoada, com belos sapatos, camisa e calça sociais, e tudo pelo social, dali para cima.

Demos boas risadas, Lili e eu, ao vê-lo, suando em bicas, já antes da festa começar. Fui para o quarto, catei meu calção e uma camiseta branca e ofereci ao nosso escritor. E também um par de havaianas, as primeiras a calçar um Nobel, talvez. Na casa de Caetano chegavam os futuros anfitriões, escolhidos por Jorge Amado, para os próximos almoços, além de personagens da vida cultural/pop baiana, como Gilberto Gil, muito calado na festa (andava muito interessado em conversar sobre ciência, seu xodó na época), Carlinhos Brown e muitos outros. Se não me engano Arnaldo Antunes esteve lá também.

Calazans Neto, o grande gravurista baiano, membro honorário do clã de artistas que produzia maravilhosas xilos, muitas delas inspiradas na obra amadiana, estava presente, e encabeçava a lista de anfitriões das casas que visitaríamos nos dias que se seguiram. Sua cozinheira era também uma artista, e nunca vou me esquecer da cara de José lambendo os beiços com os quitutes baianos da casa de Calazans. Carybé, outro dos artistas do tal clã, foi presença constante em todas as festividades. Sua simpatia era contagiante. Afro-argentino-baiano, também filho de Oxossi, inspirava em Jorge piadas carinhosas, e vice-versa. Era comovente a amizade dos dois, escritor e artista, que iluminaram-se mutuamente durante tantos anos.

No dia que Dadá foi escalada por Jorge e Zélia para cozinhar para todo o grupo — e fez deliciosas moquecas cheias de frutas e peixes —, fomos ao ateliê de Carybé e, num determinado momento, resolvemos presentear José e Pilar com uma aquarela. Surpreendemo-nos ao notar que José e Pilar haviam feito o mesmo, comprando outra como presente para nós. A esposa de Carybé perguntou gentilmente se permitiríamos que as tais aquarelas fossem exibidas numa exposição que se daria em Sevilha ou Córdoba, com o que concordamos imediatamente, ainda mais devido às origens andaluzes de Pilar. As pinturas nos seriam enviadas logo após. Nunca as recebemos, e José perguntou por elas para mim, sempre que esteve no Brasil.

O almoço no Tempero de Dadá, então no Pelourinho, foi tão tipicamente baiano que até o escritor local se irritou com a demora. Depois de horas a comida chegou deliciosa, mas antes disso Jorge Amado já havia dito a Dadá:

— Menina, eu sou baiano, mas a demora está demais até para mim. Até para os padrões do Caymmi essa espera está longa demais.

Foi curiosa a conversa de José e Jorge sobre o Prêmio Nobel, até então nunca concedido a um escritor de língua portuguesa, enquanto esperavam uma das refeições, nos banquetes daquela semana. Jorge se declarou eleitor de Saramago, se fosse da Academia Sueca. Saramago retrucou dizendo que fazia questão de ser o primeiro convidado à festa quando o prêmio fosse concedido ao amigo brasileiro. Falou que receberia Jorge Amado em Lanzarote para uma semana de festividades, com comida Ibérica de primeira qualidade. Acho que disse que seria difícil superar Jorge Amado como anfitrião, o que atesto e assino embaixo. Mesmo assim, divirto-me imaginando os festejos ainda mais fartos, do Prêmio concedido à Saramago, na Bahia com Jorge vivo – o que, todos sabemos, infelizmente não aconteceu. E o troco, alguns anos depois, Amado Nobel, e nós nos empanturrando com bacalhaus, paellas, cabritos, acordas…

A alegria em dobro, ou muito mais.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

12 Comentários

  1. andréa disse:

    eu estava lendo esses posts com muito gosto até encontrar o comentário sobre a demora baiana. eu sou baiana e eu me pergunto por que sempre tem que haver comentários desse tipo. a demora é uma coisa típica da bahia?!
    isso é um preconceito sustentado pelo sudeste, pela comparação que o sudeste faz com seu próprio ritmo, o ritmo que considera o “certo”.
    sim, muitas vezes, os serviços na bahia não funcionam com tanto profissionalismo como no sudeste e isso explica, principalmente, a demora. mas o não-profissionalismo tb tem motivos de ser. motivos históricos, sociais, econômicos. no entanto, a tal demora está sempre associada, na visão de não-baianos, à preguiça. o que é outro preconceito.
    é cansativo ler e escutar esse tipo de comentário o tempo todo. acho que a gente tem que pensar sobre isso.

  2. Cesar Mendes disse:

    Gostaria de saber o que você quer dizer com “tipicamente baiano”. Eh escrevendo esse tipo de coisa que você acha que respeita o leitor?

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