As bibliotecas municipais de Paris

Por Carol Bensimon


Faz exatamente um ano e dois dias que voltei ao Brasil. Antes disso, eu estava em Paris, morando neste lugar. Como você pode ver, era uma coisinha apertada, muito simpática, mas com alguns elementos estranhos, como dois vasos de flores secas, duas latas propositadamente enferrujadas, e um grande e pesado busto feminino esculpido em pedra branca. Havia também um número assustador de velas e taças de champanhe. A vida cotidiana não precisa de tantas velas, é claro, mas o fato é que aquele apartamento, antes de nos mudarmos para lá, era alugado em curtas temporadas por turistas americanos. E eles sem dúvida ansiavam por champanhe e camembert todos os dias.

Tudo isso tirava o espaço dos hipotéticos muitos livros que eu poderia possuir, de modo que eu tentava ser comedida nas compras. Além da dificuldade de armazenamento, havia o problema futuro de transportá-los até o Brasil. Tal questão me levou às bibliotecas de Paris, o que foi muito melhor do que eu podia imaginar.

Antes, eu não tinha nenhuma afinidade com bibliotecas, apesar de ter cruzado com duas ou três em minha vida de porto-alegrense. “Biblioteca” para mim era aquilo que aparece na cena (em geral irrelevante) de um filme americano universitário, na qual as pessoas sussurram umas com as outras e tudo é muito bonito e amadeirado.

Há certamente esse tipo de biblioteca beirando a irrealidade em Paris, como a Bibliothèque Sainte-Geneviève, com a beleza sufocante de sua sala de leitura. Mas a cidade também posssui uma extensa rede de bibliotecas municipais, espalhadas pelos 20 arrondissements, isto é, as unidades precisas que se assemelham aos confusos bairros das cidades brasileiras. E essas bibliotecas municipais, seis dezenas delas, se parecem mais com locadoras de vídeo que com mosteiros.

Fazer uma ficha na que ficava mais perto de minha casa foi uma moleza. Era uma biblioteca pequeninha e limitada, no interior do prédio da prefeitura do meu arrondissement, o 4ème. Havia uma máquina de café lá embaixo funcionando com preços de custo. Às vezes eu precisava pedir passagem para um grupo de adolescentes jogados nas escadas. A chegada na biblioteca fazia o chão ranger muito, e isso sempre me deixava meio apreensiva, pensando em que medida as pessoas estavam o escutando lá dentro. Muita gente lia histórias em quadrinhos e revistas semanais nas mesas daquela biblioteca. Um dia, colocaram livros da literatura brasileira em destaque (Jorge Amado, Bernardo Carvalho e outros que não lembro). Alguns velhinhos e velhinhas passavam a tarde na biblioteca para escapar do frio, economizando assim o aquecimento de suas casas.

Uma vez cadastrado em uma das bibliotecas municipais, era possível frequentar as sessenta e tantas da rede. Essa era a parte mais divertida: consultar o site em busca de um livro, e então se propor a pegá-lo em um bairro distante. Cada unidade era mesmo única. Tamanhos diferentes, cheiros diferentes, ênfases distintas em seus vários catálogos. O interessante é que não eram bibliotecas ligadas a uma escola ou a uma universidade, e que, portanto, a frequentação era completamente heterogênea. Pessoas pegando um livro policial para ler no fim de semana. Um querendo aprender sobre cinema, outro querendo aprender ponto cruz.

No fim das contas, esse era justamente o aspecto mais fascinante dessas bibliotecas: eram despretensiosas, cotidianas, sem ornamentos, sem livros com capa de couro, quase sem história. Não havia ali gente sendo obrigada a ler, querendo estar em outro lugar, como pode haver em Yale ou na Bibliothèque Sainte-Geneviève, trocando bilhetinhos, trocando confidências em voz baixa, bufando, precisando de um cigarro. Todos estavam nas bibliotecas municipais pela fruição da leitura, fosse ela a da mais alta literatura francesa do período realista, fosse ela a da mais baixa e previsível trama de suspense. Como uma piscina pública, como uma quadra de tênis pública, um banco público em uma praça pública.

Um clube de bridge no primeiro andar, a graça de ler romancistas americanos em francês, o cheiro de hospital que era preciso ignorar. Saía de lá com a mochila carregada, no dia cinza de Paris.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

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16 Comentários

  1. [...] de ir a uma biblioteca francesa, li esse texto da Carol Bensimon sobre as bibliotecas parisienses. O texto (muito bom) fala que a biblioteca aqui não tem o [...]

  2. Adorei o texto e adorei o vídeo que fez em Paris. A vida é isso, poesia e risco!

    Sobre as bibliotecas, sempre gostei de me esconder nelas. Na da escola, da faculdade…

    Adorei!

  3. Por muitos anos eu frequentei as bibliotecas municipais da cidade do Rio de Janeiro. Na época eu não tinha dinheiro para comprar livro nenhum e,bem, elas me quebraram um galho enorme.Sei que o ideal aqui seria eu criticá-las, falar mal do acervo, dizer que ninguém as frequentava e “que bom que aqui fosse que nem Paris porque lá as *pessoas comuns* lêem”..e ,caramba, MUITA gente gente lê aqui também. Idosos, adolescentes, universitáris, aposentados, crianças fuçando numa imensidão de revistas em quadrinhos e por aí vai. O Brasil também surpreende de vez em quando e, veja só, com pessoas absolutamente comuns que você vê por aí a cada ponto de ônibus, a cada fila do mercado, a cada volta da escola pra casa.

  4. Raíssa: pois é, ela faz o maior sucesso. Hehehe. Na verdade, foi um amigo meu quem fez. Na época ele tava mandando ver na serigrafia, mas não sei se ele segue com esse projeto. Vou me informar.

  5. o bacana eh ver como a cultura eh tratada em Paris, independente se alta ou baixa. Eh um hábito, ponto. gostoso.

  6. Edson, infelizmente minha experiência com bibliotecas públicas no Brasil, por enquanto, se restringe a bibliotecas não muito boas, inclusive de universidades! Mas fico feliz de saber então que isso vem mudando :)

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