Por Joca Reiners Terron
Quando escrevi meu primeiro romance, Não há nada lá (que será relançado amanhã, 28/9, pelo selo Má Companhia), eu era outra pessoa. Tinha por volta de trinta anos (passei dois anos escrevendo-o), minha filha ainda era uma bolota risonha e babona de cabelos encaracolados e não mais que 60cm de altura; eu ia então de carro todo dia ao trabalho. Era o feliz beneficiário de um plano de saúde graças àquele emprego, duas vantagens que não duraram muito logo que comecei a escrever o livro.
Meu primeiro romance causou minha demissão. Por algum tempo, enquanto o texto não engrenava, eu conseguia disfarçar que escrevia durante o expediente. Mas depois, quando não era mais possível pensar em outro assunto, a bandeira tremulou, altaneira. Um dia meu chefe sugeriu que fosse terminar o livro em casa. Não tive alternativa senão aceitar. Assim, a ficção terminou por afetar gravemente minha realidade.
Usei parte da multa rescisória para pagar a impressão do livro. Publiquei-o através de minha própria editora mambembe, a Ciência do Acidente. No dia da entrega da gráfica, o produtor me explicou que a quebra da tiragem havia sido um pouco acima dos 3% usuais, e os quinhentos exemplares da 1ª edição viraram 413. Assim mesmo, eu nunca tinha sido tão feliz. Admirava aquelas 413 capas azuis esparramadas na sala de casa e não sabia se ria ou chorava.
O lançamento foi em março de 2001 num Bar Balcão repleto de ex-colegas da antiga firma. Até o chefe que me demitiu estava lá: levara junto o Ignácio de Loyola Brandão, que era seu amigo. Muita coisa aconteceu comigo e ao Não há nada lá depois daquela noite. Eu, por exemplo, participei de uma associação de pequenos editores. Em nossas feiras brincava que aquilo parecia reunião dos Alcoólicos Anônimos: “Oi, meu nome é Fulano de Tal, sou editor e não vendo um livro há dois anos, cinco meses e três dias”. Não que hoje eu seja um Paulo Coelho, claro. Mas muito longe disso.
O romance recebeu boas críticas de uns caras bacanas que nem eram meus amigos e praticamente esgotou tempos depois; “praticamente” significa que sobraram 50 exemplares devidamente guardados debaixo de minha cama, pois imaginava que o livro nunca mais seria impresso. Conforme os exemplares minguavam, meus cabelos caíam. Engordei. Fui feliz, fui triste, fui feliz de novo: ainda sou, mais ou menos (minha filha, agora adolescente, já não me dá a menor pelota). Depois, umas três ou quatro teses citaram o Não há nada lá, que continuou sem muita perspectiva de voltar a existir. E o tempo passou.
Dez anos se passaram. Publiquei outros livros no período e eis que agora, numa inexplicável manobra da literatura, essa ciência do mais puro acaso, o Não há nada lá está de volta. Quem poderia dizer que a redenção viria por meio de Más Companhias? Já não nos tratamos mais por “você”, eu e o livro, pois nossa intimidade diminuiu com o passar dos dias. Também não sei mais quem foi que o escreveu, quais eram seus interesses etc. Lembro vagamente, porém, que aquela foi uma época cheia de incertezas, e que muito do espírito de fin de siècle impregna suas páginas fugidias: o fim do mundo, o fim do livro, o fim do emprego.
Hoje é possível verificar que eu estava certo ao menos em relação ao fim do emprego: nunca mais tive carteira assinada. É engraçado: conforme a gente envelhece vai percebendo que pode aprender a fazer de tudo, e a fazer bem: se eu chegar aos 90 anos poderei até mesmo ser um campeão internacional de sinuca ou, quem sabe, de bocha. Só uma coisa não dá pra recuperar: o fervor da juventude, e a crença absoluta naquilo que está sendo feito. E às vezes, quando se acredita de verdade, acabamos nos tornando meio geniais. Nem que seja um pouquinho.
[Joca Terron participa amanhã de bate-papo com o editor André Conti. A partir das 19h, na Livraria da Vila - Rua Fradique Coutinho, 915. Após a conversa, ele autografa Não há nada lá.]
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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujo e Sonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.










Comprado, lido, orgasmado.
Mas, é f**a, sempre que leio algo tão bem feito, fico triste por não conseguir chegar a tanto. Quem sabe?
Estou numa fase parecida… saí do trabalho e estou tentando fazer algo decente nessa vida. Cansei cansei cansei!
=)
Pois e, as voltas que a vida da…olha seu sonho voltando. Quando eu era mais nova escrevi uma historia, me inscrevi em um concurso de contos, fiquei entre uma das premiadas e ate arrisquei mandar para algumas editoras (na verdade era mais uma historia infantil)…foram tantas cartas dizendo que a programacao para os proximos 2 anos ja esta completa que acabei achando que no Brasil tinha mais gente escrevendo do que lendo e desisti do sonho…por isso admiro quem persiste nele. Voce escreve de um jeito leve, gostoso, que prende…continua escrevendo que eu sei que vem coisa boa por ai.
abraco
Estou chegando à mesma conclusão, Joca! A vida toda minha cabeça vem fervilhando de ideias. E estou tentando engrenar vários livros diferentes: livros infantis, contos diversos e peças de teatro (e nada concluído). Ano que vem chego aos 30 e espero ter acabado meu primeiro livrinho. “O escrever nunca acaba!”, já dizia Fedro. Mas será que valerá a pena? Qual o sentido em escrever? Tantos livros há sendo feitos todos os dias!
Preciso deixar meu empreguinho e chegar a alguma conclusão!!!
Agora fiquei com vontade de ler seu livro. E vou ler! Parabéns.
É, não faz mal que a vida nos dê o empurrãozinho pra largar o que estávamos fazendo e começarmos a fazer algo que realmente nos deixa contentes. Fico pensando nisso sempre. Um dia chega. Abraços!
belíssimo texto… inspirador!
felicidades e muita inspiração sempre, joca!
p.s. é por essas e outras q esse blog é o máximo!
Queridos
Quem espera sempre alcança!
Obrigado pelos comentários e elogios. Fico feliz que tenham gostado do texto.
Mas ficarei ainda mais feliz se aparecerem hoje à noite no lançamento.
Abrazos & beijos!
oba, texto bonito, Joca.
Joca, tua determinação foi recompensada, parabéns pelo relançamento….tem previsão de lançamento aqui no Rio de Janeiro?