O primeiro autógrafo a gente nunca esquece

Por Luiz Schwarcz


José Saramago e Jorge Amado na casa de Caetano Veloso (ao fundo).

Pedi meu primeiro autógrafo quando tinha entre sete e oito anos. Eu ainda cursava o primário, que é como chamávamos o que hoje se conhece por ensino fundamental 1, e o autógrafo não era para mim, e sim para a minha mãe. Na ocasião, meu melhor amigo se chamava Roberto Amado e era sobrinho do escritor que hoje, com grande orgulho, publico. Costumava passar muitas tardes da semana no apartamento do Roberto, na rua Itacolomy, ou numa linda casa no Pacaembu, jogando futebol com ele e seus primos: Pedro, João e Kiko Farkas. No prédio do Roberto costumávamos distribuir trotes: bilhetes escritos rudimentarmente à mão, ou com colagens de letras tiradas das revistas Manchete e Cruzeiro, como se fôssemos ladrões avisando que os apartamentos em questão viriam a ser assaltados.

Essas foram nossas primeiras ficções – Roberto se transformaria em escritor, mas hoje não tenho notícia se continua escrevendo — epístolas, de gênero policial — talvez com a grande “originalidade” (sic) de avisar as vítimas previamente, tirando todo o suspense. Inacreditavelmente, um dos condôminos se assustou, ou apenas reclamou e levamos uma bela bronca da Fanny, mãe do Roberto, e interrompemos nossas promissoras carreiras literárias.

Pois um belo dia, minha mãe soube que Jorge Amado estaria em São Paulo e me pediu que levasse um livro da sua predileção para que o grande escritor baiano o autografasse. Lembro bem desse dia, minha mãe me falando da importância de Jorge Amado e escolhendo um dos seus livros encadernados em couro marmorizado – todo livro que ela lia e gostava era encapado em lindas  encadernações, que eu gostava de tocar e cheirar. Saí de casa com as devidas e repetidas recomendações: “cuidado, meu filho, isso é muito importante para mim”. Lembro também da figura do escritor, de camisa florida e peito meio aberto, num terraço de inverno, assinando o livro para minha mãe e dando um tapinha no meu cocuruto. Pode ser que construí essa imagem a partir das fotos de Jorge Amado que vi ao longo de muitos anos, misturadas à minha imaginação. Mas não importa, aprendi com a antropóloga que habita o meu coração que memórias também se constroem individual e socialmente e, se eu construí essa, sorte a minha, uai! (Infelizmente minha mãe perdeu o tal livro, ou emprestou-o a alguém que nunca o devolveu. Queria ter lido o autógrafo em público, no meu discurso, na festa de comemoração da publicação da obra de Jorge Amado pela Companhia das Letras).

Muitos, muitos anos depois do meu breve encontro infantil com Jorge Amado, já maduro e editor, quando Saramago ganhou o Prêmio Camões e veio recebê-lo no Brasil, fomos, Lili e eu, como penetras privilegiados, para Salvador, na semana de recepção que Jorge Amado e Zélia Gattai propiciaram para o futuro Prêmio Nobel da literatura. Por pouco não ficamos, os dois casais, hospedados na famosa casa do escritor, no bairro do Rio Vermelho. Um ataque de cupim nos surrupiou esse enorme privilégio. No entanto, o infortúnio trouxe uma pequena vantagem. Pelas regras da hospitalidade baiana, e ainda mais da amadiana, Jorge e Zélia encomendaram um almoço a cada dia, na casa de seus grandes amigos, ou melhor, na casa dos amigos que tinham as melhores cozinheiras, e cozinheiros, de Salvador. O primeiro almoço foi na casa de Caetano Veloso – seu irmão Rodrigo é grande chefe e preparou uma deliciosa feijoada baiana, muito diferente da que conhecemos no Sul. Além do mais, por coincidência, estávamos no dia da festa da entrega e a varanda da casa do compositor é o melhor ponto da cidade para acompanhar a linda procissão de barcos que zarpam, cheios de presentes à Yemanjá, em direção ao alto mar.

O almoço começou por volta de quatro da tarde e acabou quase às quatro da manhã. Durante grande parte da noite, Saramago e Lili ficaram dividindo o arquivo do que viria a ser o livro de memórias de Caetano, o Verdade Tropical, em várias partes. Caetano era neófito em computadores e livros e registrava suas memórias em um só arquivo.

Foi praticamente neste almoço que conheci Jorge e sua família, e com ele conversei boa parte do tempo, enquanto a Lili e o José fatiavam o texto do anfitrião. Eu havia contado a historinha do autógrafo para José antes de irmos à Bahia, quando ele me perguntou por que eu não editava a obra de Amado na Companhia. Respondi a José que adoraria que isso viesse a acontecer um dia, mas que também não nutria grandes esperanças.

Pois então, bem no meio do almoço, quando Jorge Amado e Zélia apenas começavam a me conhecer rudimentarmente, José performou a primeira e descarada aproximação entre nós, deixando a ambos, especialmente a mim, ruborizados.

“Jorge, você com certeza conhece a editora do Luiz, e ele me confessou que o seu grande sonho seria um dia publicá-lo, mas é tímido, nunca iria dizê-lo diretamente. Pois estou eu aqui a fazê-lo. Você deveria publicar seus livros na Companhia das Letras”.

Acho que Saramago fez uma graça mencionando o autógrafo que pedi em nome da minha mãe, falou que minha vocação se originara desde então, o que só me deixou ainda mais vermelho. Jorge Amado agradeceu, fez gentilmente algum elogio à Companhia das Letras, mas com as sobrancelhas apontadas para cima e suas mãos abertas para os lados deixou, simpaticamente, claro que isso não viria acontecer tão cedo.

O tapinha no cocuruto e aquele gesto com os olhos e com as mãos talvez tenham sido uma espécie de promessas dos deuses, um ato de sincretismo judaico baiano, prenúncio do grande presente que acabei recebendo dos orixás, principalmente de Oxóssi, o orixá de Jorge Amado, doze anos mais tarde. Foi ele, tenho certeza, que um dia me transformou em editor de Tenda dos Milagres e de tantos livros memoráveis. Obrigado, Oxóssi, Todá Rabá! Na semana que vem eu conto o resto.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

9 Comentários

  1. José Carlos Correia Marques disse:

    Um dia, numa Bienal do Livro no Rio, trabalhando pela Editora Globo, fui à Record ver o Jorge Amado mas, fila imensa, não pude esperar pelo autógrafo, mas tirei uma foto. Hoje, no Mercado Livre vejo um livro autografado à venda e, melhor ainda, de seus discursos (só conheço parte das obras). Arrematei-o, e digitei “autógrafo J Amado” no Google para confirmar a veracidade, e de lá parei nesse blog: bela história, Luiz !!!

    Inté !

    Zeca Rocêro

  2. […] O primeiro autógrafo a gente nunca esquece […]

  3. Nina Vieira disse:

    Luiz, sempre venho aqui ler as suas crônicas com um prazer imenso. Mas hoje, especialmente hoje, esse prazer tornou-se grandioso, com essa foto do Caetano, do Jorge e do Saramago, ilustrando seu relato. Digo isso porque os três são meus favoritos e amo especificamente o Saramago, que foi “o meu mestre literário”, como tenho o hábito de dizer, e que me deixou imensamente abandonada quando veio a falecer.
    Esse ano tem Bienal aqui em Salvador (eu sou baiana) e Jorge Amado será homenageado, justa homenagem, aliás! Já sei que vou passar horas ali na Companhia das Letras escolhendo as obras que pretendo levar. Estou ansiosa.
    Conheci Moacyr Scliar um ano antes de sua morte. Infelizmente, não guardo outra lembrança dele, além da que tenho na memória.
    Obrigada, obrigada mesmo por esse texto. Abraços!

  4. Denis Akel disse:

    Muito bom, um texto sincero e carregado de memórias saudosas. Faz pensar bastante.

  5. Hille Puonto disse:

    emocionei aqui, de verdade. pedi meu primeiro autógrafo a um escritor quando ainda era menina, devia ter uns sete anos, no máximo, mas agora não me recordo o nome do autor nem do livro. no entanto, foi o primeiro de muitos outros. gosto de ter meus pequenos com dedicatória, saber que a mão do seu criador passou por ali, mesmo que por um breve instante.

  6. Rogério disse:

    Seu texto é sempre bom, porisso, aguardado.
    Jorge tem uma história invejável, talvez, incoparável como escritor brasileiro. Creio, não lembro outro, foi o único que em 1937 num Auto de Fé Lavrado na Bahia de Todos os Santos e Pecadores Amém queimaram 2.000 livros, segundo o José Olímpio.
    Falar que Jorge é bom, é chover no mar.
    Luiz, as pessoas na foto foram colocadas segundo a importância da literatura ou foi por idade? Se foi a primeira opção, acho que José e Jorge deviam vir lado a lado, os músicos, de praxe sempre ficam nos fundos mesmo.(Calma, brincadeira).
    Ps.: Oi Adriana, beijo.

  7. Gostei desse texto, acho que prefiro quando vc conta as aventuras que as desventuras da editora (rs)!
    Há tempos conversei com o Sergio Machado, filho de Alfredo Machado, e ele tem uma história bastante interessante sobre a passagem de Jorge Amado da editora Martins para a Record. A mudança de Amado para a Record originou a criação de um clássico dele, o “Tieta do Agreste”, uma delícia de romance. Incrível como Amado conseguia criar um livro numa circunstância, e que se tornava um clássico (como Dostoieviski) Por ser ligado intimamente à família Machado, Jorge Amado, me parece, ia continuar sendo publicado por eles, como vc mesmo conta.
    Eu também conheci Amado numa sessão de autógrafos, mas foi na Bienal do Livro – naturalmente não tive essa sorte de conhecer a família quando criança – mas, poxa, a coisa que mais chamava atenção era o sorriso dele. A alegria dele e de Zelia era uma coisa muito tocante. É um escritor fabuloso.
    As edições cujas capas se baseiam na literatura de cordel, como as da Record, até hoje fazem parte do memorial dedicado a esse grande escritor. Especialmente no NE, como ouvi de professores de lá.
    Tudo isso é um ganho a mais pros leitores. Conheço gente que ainda adora as edições antigas, da Record, e os que adoram as da Companhia, e acho que é por que Amado é um escritor muito ligado ao povo, à essa coisa gostosa do gingado, do sonho, da luta. Mesmo nos romances iniciais, que muitas vezes são minimizados como somente ideológicos, já está patente o grande autor que ele é! Nosso querido baiano, nosso Amado Jorge!
    Até semana que vem!
    Obrigada!

  8. Erica Lobo disse:

    Ola Luiz, ler esse post me fez voltar ao passado….
    Eu devia ter uns 13 anos quando meu pai, devorador de livros, soube que haveria uma sessão de autografos com a Zelia Gattai. Meu pai era fascinado por ela,chegando a trocar cartas.
    Pois nessa sessão ele ficou tão emocionado em ve-la que nao teve sequer coragem de entrar na sala, deixando essa função para mim e minha irma mais nova.
    Ao entrarmos percebemos que a familia Amado estava reunida, Zelia, Jorge, Paloma e outra sobrinha,
    E não é que fomos recebidas com carinho e afeto por todos eles conversamos por alguns minutos e ainda despertamos um interesse especial em Jorge que ficou curioso por ver duas meninas tão jovens sabendo demais de suas escritas…..
    Que bela tarde foi aquela! E sim nós ainad temos o livro!

  9. Glauco Santos disse:

    Meu primeiro autógrafo de um escritor foi a simpática e atenciosa Lilia Schwarcz, na FLIP do ano passado (2010). Levei meu livro predileto (As barbas do Imperador) para ela autografar e pude ter um dedinho de prosa sobre minhas ideias de pesquisa sobre o reinado de d. Pedro II. abraços

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