Insalubridade literária

Por Vanessa Barbara

Chega o momento em que é preciso sentar e dizer grandes verdades, e aqui vai uma delas: antes de trabalhar como preparadora de originais para a Companhia das Letras, nos longínquos idos de 2004, fui revisora de um site de fofocas de celebridades.

É dessas coisas que fazemos por necessidade — o salário era bom, eu não tinha outra alternativa, queria juntar dinheiro para viajar e, acima de tudo, podia trabalhar em casa e tirar cochilos durante o expediente. Também me era permitido lavar o cabelo na pia enquanto revisava uma notícia qualquer sobre uma atriz que tirou meleca do nariz em horário nobre.

Tudo isso me serviu para fortalecer o espírito diante das adversidades, além de ser um bom exercício de transcendência da concretude existencial — como fazem os prisioneiros de guerra que inventam um outro mundo para poder suportar o verdadeiro. O estômago e a boa-fé literária necessários para lidar com uma notícia absolutamente sem interesse, corrigindo toneladas de erros gramaticais e reescrevendo frases inteiras sem concordância em poucos minutos, “antes que o Gugu carregue a notícia para ler no ar”, tudo isso moldou o meu caráter e me preparou para o glamoroso mundo editorial.

São de minha lavra, é claro, manchetes como “Nicole Kidman é salva por garçom astuto”, “Covinha de Ricky Martin faz sucesso na Alemanha”, “Peças íntimas de Michael Jackson são usadas pela polícia” e “Gatuno rouba peruca de Jennifer Lopez”.

Sobre a polêmica manchete “Julio Iglesias tira o sapato em cadeia nacional”, confesso que devo ter enriquecido a narrativa com uma declaração do próprio assim traduzida: “Meus dedões, acho-os desproporcionais”. Na entrevista, o cantor revela toda a sua insegurança podal a uma apresentadora cada vez mais constrangida, numa cena que infelizmente só se passou na minha cabeça. Na sequência, Iglesias questiona a proporção áurea do corpo humano, conforme concepção difundida pelos gregos, indagando à plateia se os seus pés deveriam ter mesmo um terço do tamanho do antebraço menos dois.

Outras notícias não passavam daquilo a que se propunham nos títulos, como “Léo Áquilla faz alongamento nos cabelos”, e, portanto, eu apelava para os advérbios, mesóclises, sujeitos ocultos e adjuntos adnominais, na tênue esperança de que o leitor pudesse ao menos sair dali com a vaga impressão de ter lido alguma coisa escrita pelo Olavo Bilac.

Mas não aguentei muitos meses, pois precisaria de um bônus adicional de insalubridade, redução das horas semanais de labuta e férias trimestrais em praias desertas para poder resetar o cérebro depois de tamanha exposição ao maligno. No campo das sequelas de trabalho, além da chamada Lesão por Tortura Repetitiva, sofro até hoje de estresse pós-traumático de Páscoa, que foi quando as celebridades de todas as novelas, peças globais e reality shows deram entrevistas dizendo com quem iam passar o feriado, quantos chocolates iriam deglutir e o número exato de coelhinhos alvos que pretendiam oferecer para a imolação em um sacrifício pagão patrocinado pelo site.

Também me lembro de acompanhar toda a primeira infância da princesa Sasha, o surto filantrópico dos assessores de imprensa da Karina Bacchi e de acordar todos os dias com uma “pérola de otimismo” para revisar — pensando, evidentemente, em como são felizes os que não nasceram.

Pouco antes de pedir demissão por esgotamento mental, fiz questão de redigir minha própria notícia de despedida com base num release qualquer. Ficou assim:

* * * * *

Moscas gigantes roem celebridades em coquetel de lançamento

Na última sexta-feira, dia 19, personalidades globais reuniram-se para abrilhantar o coquetel de lançamento do longa-metragem Desta vez não será ridículo, estrelado por grandes artistas do cinema tupiniquim. Estiveram presentes os novos-ricos Fifi Guimarães, Otavinho “Dudu” Mascarenhas, Carol Ann Figueiredo e Posêidon (novo nome de Patti Vasconcellos, segundo aconselhamento do numerologista/quiroprata da família).

Na festa, famosos e emergentes divertiram-se a valer na maior piscina de bolinhas da América Latina e garantiram que, desta vez, não será ridículo. “Não será ridículo”, declarou Fifi, ofuscando os fotógrafos com seu mais recente branqueamento dental. O destaque do evento ficou para a pequena Apnéia, filha de Regininha Ula-Ula e Otavinho “Dudu” Mascarenhas (ou Juju Marcondes, ou ambos). A adocicada criança dançou ao som do hit “Intestino grosso” e lançou uma torta-merengue de limão na testa do autor da novela E eu com isso, para delírio dos fãs. Outro momento de comoção e espiritualidade ocorreu quando a modelo-atriz-jornalista-e-escritora Tata Lombardi engoliu uma bolinha e teve de ser socorrida às pressas pelo galã Neco Astolf III, que interpreta um paramédico na novela das oito.

Quando o final da festa já se aproximava e o sr. Palhares, da manutenção, começava a empilhar cadeiras e varrer o pé das celebridades, os atores tiveram uma grande ideia — decidiram se abraçar e cantar, em uníssono, o hino da Guiné-Bissau. Os jornalistas se alvoroçaram e choraram copiosamente, acotovelando-se com afeto. Na saída, todos ganharam lembrancinhas de marzipã confeccionadas pela estilista-top-produtora-atriz-e-acompanhante-de-idosos Alicinha Gomide, que vestia um modelito superdecotado nas cores verde, verde-musgo e verde-calção.

Só então as celebridades foram brutalmente atacadas por um enxame de moscas mutantes, pegajosas e autolimpantes — que só queriam a garantia de que não fosse, mais uma vez, ridículo.

* * * * *

Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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18 Comentários

  1. Fábio Ludwig disse:

    Ri, ri, ri e compartilhei.

  2. Assim eu espero do meu caminho… que ele me mostre a diferença na minha vida… =/

  3. [...] Blog da Companhia das Letras 18 de outubro de 2011, 11:00 am [...]

  4. Vanessa disse:

    É a minha versão mambembe para o discurso clássico do Steve Jobs (http://www.youtube.com/watch?v=JdmJEwO5qiE). Todas as coisas que a gente faz, lá na frente, acabam fazendo sentido de alguma forma, por mais que hoje pareçam insensatas ou inúteis. É o caso das aulas de caligrafia do nosso amigo Jobs (“se eu nunca tivesse largado a faculdade, nunca teria entrado nas aulas de caligrafia e os computadores portáteis não teriam esse design de fontes…”) e de alguns empregos pavorosos que a gente arruma nesta vida.

    O importante é extrair o que se pode desses desvios de rota – sempre tem um lado bom, ou no mínimo engraçado – e acreditar que os pontos se ligarão no futuro. E que, um dia, ter sido atropelada por um caminhão-pipa ou ter trabalhado 6 meses como revisora de fofocas vai fazer toda a diferença.

  5. Nerito disse:

    Puxa, então já consegui imaginar como se sentiria um personagem vivendo justamente na época em que Fahrenheit 451 acontece…

    Fico pensando que, com a onda das redes sociais, fica a cargo da fofoca viajar sozinha, sem filtros, sem poesia ou estilo. Basta alguém acessar a rede e o lixo quase desaba sobre ela, se não fosse a tela do computador para segurar. Sim, é uma parede de cristal que separa a realidade digital “desta” realidade…

  6. John Boy disse:

    Ai estou rindo sozinha aqui no trabalho. Obrigada por afastar, um pouquinho, o tédio.

  7. Nina Vieira disse:

    Esse seu texto é muito importante para quem está começando a escrever. É difícil mesmo conciliar prazer e trabalho, principalmente quando o prazer se torna um trabalho que nos remete ao ridículo. Mas a sua crônica tira também essa camada preconceituosa dos escritores de sites de fofoca. Muita gente pode escrever bem. E em qualquer lugar.
    Abraços!

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