Maggie e Ray

Por Érico Assis

Existe um elemento que faz parte da narrativa dos quadrinhos e que vai além da forma em texto-imagem. Não é um elemento comum a todas as HQs, nem indispensável, mas que devido a várias forças — de mercado, principalmente — acabou virando questão de forma, ou marca. Por ser algo que outras mídias nunca fizeram tão bem, talvez seja o que há de mais fantástico nesta: a continuidade.

Não conheço na literatura, nem na televisão, nem no teatro, nem em qualquer outro tipo de narrativa, um mesmo personagem cuja história seja contada — e continue ganhando novos capítulos — há 50, 60, 70 anos, ou mais.

Para os leitores de quadrinhos de super-herói, há uma coisa chamada Universo Marvel, que é justamente um acúmulo incontabilizável de histórias que começou mais ou menos há cinco décadas. E não só persiste e tem novos capítulos adicionados toda semana, mas também tenta — ênfase no “tenta” — evitar incoerências nestes cinquenta anos de histórias acumuladas.

“Continuidade”, para quem lê estes gibis, não tem apenas o significado de sequência, mas carrega junto o significado de respeito à coerência das décadas de narrativa contínua. Se naquela edição de 1987 o Tocha Humana dançou lambada, como pode estar dizendo, na edição deste mês, que sempre foi roqueiro? Os leitores reclamam, os autores dão entrevistas para se justificar, os editores cobram que as histórias seguintes revelem um plano vilanesco para apagar as memórias do Tocha, e todos respiram aliviados.

O “tenta” tem que ser enfatizado porque esta coerência é humanamente impossível. Justamente pelo fator humano: nestas décadas, são incontáveis também as pessoas que já se envolveram em criar histórias do universo de papel. Mas só o esforço, e a importância que se dá a estas discussões, é louvável. Quer-se lógica de um universo ficcional, que desafia todas outras leis físico-química-tempo-espaciais, e esta cobrança leva a sessões de cartas carregadas de interrogações, exclamações e dedos acusatórios. Que autor não fica feliz com este nível de envolvimento da audiência?

Não é uma questão exclusiva aos super-heróis e aos quadrinhos dos EUA. Tintim também foi publicado por cinquenta anos e Hergé tinha este compromisso de coerência quanto à longa narrativa contínua. É claro e óbvio que este compromisso efetivou-se muito mais na tentativa do que na coesão perfeita. Uma e outra imperfeição sempre acaba varrida para baixo do tapete.

Faz um tempo o André Conti me explicou que isto também se vê nas histórias de Sherlock Holmes — embora aí Arthur Conan Doyle não estivesse muito interessado em coerência. Ficou para os leitores juntar os pontos e até encontrar contos inteiros, tácitos, nas entrelinhas das cinquenta e poucas narrativas sherlockianas.

Também saindo dos quadrinhos, cita-se o exemplo das telenovelas dos EUA, que duram décadas — Guiding light, que começou no rádio, durou 72 anos. Mas ainda perdem para outros exemplos dos quadrinhos: Gasoline alley conta a história da família Wallet ininterruptamente desde 1918 (e os personagem envelhecem em tempo real), enquanto Os sobrinhos do capitão segue ininterrupta desde o final do século XIX.

* * * * *

Esta semana, na minha excursão pelos sites de notícias e crítica, não parei de encontrar declarações de amor lacrimoso à última edição de Love & Rockets. A série — que hoje sai anualmente — dos irmãos Hernandez é uma das criações mais importantes do quadrinho adulto dos EUA. Depois de ler esta última história, teve quarentão chorando, um e outro autor que precisou cancelar compromisso e outros que pensam em desistir da profissão por puro derrotismo. A síndrome de Stendhal coletiva tinha a ver com continuidade.

No universo das Locas, do irmão Jamie Hernandez, a personagem principal chama-se Maggie Chascarrillo. Os leitores conhecem-na desde 1981, quando era uma jovem mecânica metida com aventuras sci-fi e a cena punk-chicana de Los Angeles. Viram suas bebedeiras, sua falta de auto-confiança, seus amores e brigas com a punk Hopey, a morte do amor de sua vida, Speedy, os quilos e rugas que ganhou com a idade…

Os personagens de Jamie envelhecem em tempo real. De forma que, ainda lá na década de 80, a jovem Maggie conheceu o jovem Ray Dominguez e passaram os últimos 25 anos numa relação vai-não-vai. Na última (e na penúltima) Love &Rockets, Hernandez passa a história fazendo piscadelas conspiratórias e piadinhas internas para os leitores que acompanharam estas duas décadas e meia. Mas, para não ficar no velho casamento-no-fim-da-novela, destrói todas as expectativas dos leitores com uma resolução que é ao mesmo tempo trágica, cômica, romântica e adorável.

As dez páginas finais — as que ensejaram todo este louvor —  fazem uma viagem no tempo que só seria possível nos quadrinhos. Primeiro pela narrativa com texto e imagem, mas também devido ao investimento emocional que os leitores (e o próprio Jamie) têm por acompanhar Maggie e Ray desde a adolescência, e agora serem homens maduros com famílias e amores e decepções e alegrias. Sem estes vinte e cinco anos, as cenas não significariam nada. Não existe nenhum outro tipo de ficção, fora os quadrinhos, que consiga isto.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/

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3 Comentários

  1. [...] Depois de anos na pilha para ler, encarei Cages e GoGo Monster. El Arte, do Juanjo Saez. Aquela edição de Love & Rockets. Todos aqueles indies fantásticos que eu só encontrei porque fui no [...]

  2. Não sei de quem eu gostei mais, se do comentário de Arthur ou do seu texto, Érico Assis…hehe ^^

    Abraço aos dois! ;D

  3. Arthur disse:

    Como sempre, muito fã dos seus textos. Sempre bom poder vir numa segunda-feira — dia ingrato — e ler um texto seu.

    Fiquei curiosíssimo a respeito de Maggie e Ray e, ao chegar em casa, tentarei ler os textos linkados com as reações à última edição.

    Discordo, no entanto, da tua última frase. Ainda que perceba, sim, em que medida a relação de continuidade influencia na fruição dos quadrinhos, creio, sim, que haja outros tipos de ficção, fora os quadrinhos, que consiga isso. Acho que isso é uma característica geral das narrativas serializadas; e, quando falo isso, já dou uma dica importante de a qual tipo de ficção me refiro: seriados.

    Para quem acompanhou dez anos de “Friends”, frases como “How’ you doin’?”, “We were on a break!” e “I know!” não são meramente a reafirmação de uma gag. O contexto em que são ditas pode muito bem expressar coisas distintas de seus sentidos originais, coisas só perceptíveis por quem acompanha há algum tempo aquela série. Em “Lost”, por exemplo, cada gesto, cada fala de um personagem vêm imantados de significação para quem destrinchou cada episódio e analisou cada fotograma em alta resolução.

    Falo de seriados porque a sensação que você expressou é bastante parecida com a que tenho ao ver meus seriados favoritos. (Putz, já viu “Six feet under”? O final da série é excelente e… só faz um bom sentido para quem acompanhou os 6 anos da série). Não que 6 temporadas, 10, sejam diretamente comparáveis a 25 anos. Só não há como negar que a continuidade esteja presente.

    Parando para pensar, sensações parecidas me vêm em outras narrativas. Só porque comecei a falar de seriados, meu cérebro automaticamente pensa em alternativas para se contradizer. Não são só seriados e quadrinhos que têm isso. Calhamaços têm isso. Você não precisa necessariamente ler um romance tijolão em uma semana, assim como é provável que muitos leitores da história de Maggie e Ray pegaram todas as edições anteriores e leram numa sentada, em 3 dias. Você pode desfrutar dum “Liberdade”, de Jonathan Franzen, por exemplo, e ter essa questão da continuidade. Você convive com aqueles personagens por um período não pequeno: seja em 3 meses, com as pausas na leitura recomendadas pela Organização Mundial da Saúde, seja em uma semana, em que os personagens vão passar para você a colher pro sucrilhos do café da manhã, de tão palpáveis. E cada novo gesto, cada coisa inesperada, não será uma contradição: personagens esféricos e complexos estão sempre nos surpreendendo.

    Mas a questão é, e aqui percebo que esse comentário está longo demais, que sinto isso também num livro fininho, como o “Ao anoitecer”, de Michael Cunningham. Porque, para mim, aquilo não é só um livro fininho que demorei 1 dia para ler; aquilo é, sim, o último romance de um autor pelo qual sou obcecado e cuja obra admiro demais. Cada gesto de cada personagem, ainda que não esteja, em absoluto, ligado aos outros de outros romances, me remete à capacidade de construção poética da prosa do autor. Terminar esse livro e dizer, como fiz em minha resenha, que “Por fim, ressalto que considero o final – o finalzinho mesmo, a última frase – excelente, com toda sua carga dramática, ternura e vida. O tipo de frase que fecha o estojinho do romance com um clic!, meio difícil de se entender sem ter lido tudo o que veio anteriormente. E isso é o máximo que me atrevo a dizer para não estragar a experiência de leitura de alguém.” não remete só ao romance, mas a tudo que li do autor.

    Enfim, acho que vim dizer que acho que tudo seja continuidade. Mas, bá, posso ter viajado total. =P

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