Por Joca Reiners Terron

A criação literária em geral é comparada ao trabalho de Sísifo, que, condenado ao abismo do Tártaro, via deslizar ladeira abaixo a rocha que arrastava no mesmo instante em que o topo da montanha era atingido; essa analogia sempre me pareceu meio despropositada, afinal, tá certo, entendi o ponto (traduzido às novas gerações por aquela máxima do Hank Moody — “escrever é ser condenado a ter lição de casa por toda a eternidade” —, ou algo do gênero, pois cito de memória), porém o que eu gostaria de saber é: o Sísifo trabalha com o QUE pra sobreviver, hein? Por acaso ele escreve artigos pra imprensa? É professor? Inscreveu projeto no MinC? Ou tem coluna em blogue? Mistério dos mistérios.
A escritora italiana Daria Galatera publicou em 2007 Mestieri di scrittori, ensaio que investiga as atividades exercidas por grandes escritores do passado e do presente para subsistir enquanto empurravam a rocha até o cume da montanha. Tem de tudo, mas a maioria praticou ofícios contíguos à escritura, como os numerosos jornalistas, acadêmicos e professores de toda ordem. Parte considerável entre autores norte-americanos e europeus — exceto por surrealistas, dadaístas e beatniks — grassou por corredores universitários ou poltronas de redações; se somada à lista daqueles que labutaram no mercado editorial (como os editores Italo Calvino, Cesare Pavese e T.S. Eliot, que também foi bancário) ou foram tradutores (Haruki Murakami, César Aira, Sergio Pitol e Paul Auster, por exemplo), a coisa se torna impraticável.
Mais curiosos (porque somos curiosos, os leitores, e lubricamente sádicos) são os subempregos, de preferência perigosos e insalubres: George Orwell como policial na Birmânia e depois lavando pratos em Londres enquanto sofria de tuberculose; Roberto Bolaño vendendo bijuterias na barraquinha de camelô e vigiando campings na Catalunha; Dashiell Hammett investigando casos de adultério como detetive particular ou na agência Pinkerton; Boris Vian como trompetista cardíaco; Charles Bukowski entregando cartas completamente bêbado; Jacques Prévert vendendo bugigangas e utensílios na loja de departamentos Le Bon Marché durante a Primeira Guerra; Raymond Chandler como contador de companhia petroleira; Blaise Cendrars era ator e foi roomate de Carlitos; Bohumil Hrabal seguiu a tradição familiar como mestre cervejeiro, estudou Direito, mas depois trabalhou de ferroviário e de contra-regra teatral; e há os médicos, como Tchekov e Louis-Ferdinand Céline, ou industriais tabagistas feito Italo Svevo; a dona de salão de beleza Colette; ademais, existem as profissões malucas e invejáveis como as do piloto aéreo comercial Saint-Exupéry, do leiloeiro da Sotheby’s Bruce Chatwin e do soldado mercenário Lawrence da Arábia.
Contudo, tenho um interesse particular por profissões que interferiram na criação literária do “condenado”, casos do agente de seguros Franz Kafka (cuja notória linguagem cartorial certamente foi influenciada pelos relatórios de seu trabalho diurno) ou do pesquisador de mercado, arquivista médico e ludólogo Georges Perec: norteada pelas restrições típicas do universo dos jogos lógicos e matemáticos, a literatura do escritor francês também se debruçou sobre o consumo, tendo peso importante as listas de objetos que eram motivo de preocupação de uma de suas identidades secretas, a de publicitário. É surpreendente perceber como essas atividades burocráticas moldaram a ficção tanto de Kafka quanto de Perec, e de mesmo modo — para ficarmos com um exemplo diametralmente oposto, e que termina por se restringir ao tema, sem influir na forma —, quanto a caça de baleias influenciou os relatos de aventura de Jack London. Chega a ser um alerta, em tempos de crescente profissionalização do ofício de escritor. E agora me dêem licença que preciso voltar a empurrar a rocha.
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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujo e Sonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.









Realmente é um mito a idéia de que para ser escritor é preciso ter dedicação exclusiva. Há autores best sellers possuidores de um enorme acervo que mantinham um emprego fixo e conseguiam lançar quase que 1 livro por ano. Lembro de uma entrevista com Nicholas Sparks em que o mesmo disse que trabalhava como farmacêutico enquanto escrevia seus romances. Acredito ainda que o exercício de uma outra profissão ao lado do ofício de escrever traz muito material para os textos, vide o exemplo do advogado John Grisham que se tornou referência mundial em romances de tribunais, ou o ex-policial Rubem Fonseca, que se consagrou como autor de histórias policiais.
[...] exemplo, muitas vezes diz uma suposta verdade para no fundo mentir. E haveria muito a dizer sobre desdobramentos práticos do trabalho em determinadas obras: Drummond foi funcionário público numa época em que isso era (ainda) mais [...]
[...] termina por injetar sangue cotidiano na lenga-lenga dos debates literários. Como propus antes aqui, os escritores têm muito a perder ao aceitarem carteira literária assinada. Contudo, quem perde [...]
Amigos, obrigado pelos comentários. Fico feliz que tenham gostado do texto.
Arthur, não para breve. Mas quem sabe no futuro, quando eu tiver a gaveta, a carteira e a imaginação vazias?
Abrazos