Cheirando livros

Por Vanessa Barbara


(Rachael Morrison em foto de Michael Schmelling)

Em 2010, a norte-americana Rachael Morrison arrumou um emprego como bibliotecária-assistente do MoMA (Museum of Modern Art), de Nova York. Tomada por um irrefreável ímpeto artístico, resolveu aproveitar seu horário de almoço para dedicar-se à performance “Smelling the Books” (Cheirando os livros), que consistia em cheirar todos os volumes da biblioteca.

A peripécia teve início com o primeiro livro da primeira prateleira, conforme a classificação oficial: o AC5.S4, Sermons by artists, e irá terminar com o número ZN3.R45, Bibliography of the history of art. Há 300 mil volumes ao todo e, até o presente momento, ela só cafungou 300. “É uma ideia corajosa”, declarou David Senior, bibliógrafo do MoMA, “pois alguns dos nossos livros cheiram muito mal.”

Rachael tem o cuidado de discriminar cada fragrância num caderno de registros, anotando o número, o título da obra e uma descrição de seu olor. O objetivo dessa exploração farejadora é suscitar uma discussão sobre o futuro da mídia impressa e a relação do olfato com a memória.

Em suas anotações, o livro Collected papers on museum preparation and installation, de 1927, foi imortalizado com uma só frase: “cheiro de sovaco”. Outro volume, de 1967, American folk art in the collection of the Newark Museum, possui “um cheiro nojento de cocô de cachorro”. The civic value of museums evoca o odor de fumaça de cigarro e de chá, e An experiment in museum instruction tem cheiro de chuva de verão e papel velho. Outros aromas catalogados são o de “abraçar a vovó com sua blusa de lã”, o de cola, urina, talco, sótão, fogueira, parte de baixo do sofá, móveis de madeira, cabelo, esmalte, fritura, cera de chão, protetor solar, meia suja e “nenhum”.

Procurada pela reportagem deste blog, Rachael diz que ainda não chegou a conclusões definitivas, mas que, curiosamente, entre os cheiros mais populares estariam o de flores, sovaco, barro e tomilho.

Diz-se que os livros mais antigos têm um peculiar aroma de baunilha devido a um polímero orgânico presente na madeira, a lignina – similar à vanilina. De acordo com o manual Perfumes: um guia de A a Z, de Luca Turin e Tania Sanchez (inédito no Brasil), a lignina é uma substância presente nas árvores, que serve para unir as fibras da celulose à parede vegetal e aumentar sua rigidez, impermeabilidade e resistência. Altamente volátil, o composto seria exalado pelo papel com o passar do tempo e, por ser muito ácido, também o acabaria amarelando e acelerando sua decomposição.

Essa hipótese se aplicaria somente aos papéis provenientes de pastas de madeira mecânica (“groundwood”), processo que emitiria fragrâncias de vanilina, anisol e benzaldeído. Por outro lado, os compostos resinosos derivados de terpeno (mais impermeáveis à tinta) resultariam em fedores mais canforados, gordurentos e amadeirados. Um cheiro de cogumelos estaria associado a álcoois alifáticos bem fortes, e não estou inventando. Os cientistas também consideram que a presença de 2-etil-hexanol pode gerar emulsões levemente florais e que a combinação de etilbenzeno e tolueno dá em aromas mais adocicados.

Do que se conclui, portanto, que o cheiro dos livros se deve aos compostos voláteis emitidos pelos diferentes materiais de que são fabricados, e que não existe um cheiro específico de “livro velho”. Mais de cem compostos diferentes já foram identificados no papel, entre ácidos, aldeídos, álcoois, cetonas, alcano e terpenos. Ainda assim, na busca de uma unanimidade, pesquisadores da Universidade de Londres publicaram um artigo na revista Analytical Chemistry na qual definem o cheiro de livro velho como sendo “uma combinação de notas campestres com um buquê de ácidos e um toque de baunilha sobre uma base de bolor”.

* * * * *

Segundo enquete no site da Folha de S. Paulo, 81% dos brasileiros gostam de cheirar livros. O hábito é compartilhado até pela presidenta Dilma Rousseff, que, em entrevista à apresentadora Ana Maria Braga, declarou que não basta ler – “tem de pegar o livro, dar uma cheiradinha… Aquele cheiro da página nova”.

O aroma dos livros recém-impressos é de ordem bastante diversa daquela dos antigos e abaunilhados – tem mais a ver com a tinta e a cola do que com o papel. Diante de um exemplar recém-saído da gráfica e trazido pra casa, a primeira coisa que meu pai faz tradicionalmente é abrir o volume, afastar os óculos de leitura e dar uma boa fungada. É esse seu primeiro passo para julgar a qualidade de uma determinada obra – quanto mais fresca, mais promissora. Meu pai é um defensor das vanguardas.

Gordurento ou abaunilhado, empoeirado ou levemente tóxico, há que se valorizar o chorume olfativo dos livros, mas sem protestar contra a ameaça inodora dos e-books. Para combatê-la, é fácil: basta adquirir uma lata de “Cheiro de Livro Novo”, um spray que custa 29 dólares e é compatível com todos os leitores no mercado (menos o Zune). Embora obviamente não exista, o produto vem em sabores variados, como “Mofo Clássico”, “Cheiro de Gato” e “Bacon Crocante”.

Para quem prefere algo mais leve, é possível adquirir uma vela perfumada com o cheiro do New York Times, desenvolvida pelo artista plástico Tobias Wong e vendida por 65 dólares. A vela tem toques de “madeira de guaiaco, cedro e almíscar”, trazendo à memória o aroma “empoeirado e aveludado” do jornal impresso.

* * * * *

Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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30 Comentários

  1. Sou uma cheiradora de livros assumida. Agora só não me peça pra cheirar aqueles que estão com as páginas carcomidas e/ou amareladas porque minha rinite vem à tona. Vanessa, obrigada por relatar essa mania engraçada e que muito me deixa feliz.

  2. [...] – Cheirando livros – A norte-americana Rachael Morrison começou o curioso projeto “Smelling the Books” [...]

  3. Jesus, Maria, José … me defendam dessa hora!!! respeito muito os comentários dos meus colegas e o post da Vanessa. + isso aqui já tá virando um confessionário de fetiches.

  4. Tenho ministrado workshops e palestras sobre fazer livros e capas-de-livro Brasil afora, além de dar aulas no curso de design da FACAMP, Campinas. Começo e termino cada aula ou palestra com o mesmo discurso: para trabalhar com livro é preciso estabelecer com ele uma relação sensorial e afetiva que consiste em acariciá-lo, apertá-lo contra o peito, segurá-lo com a mão esquerda e com o polegar da mão direita folheá-lo rapidamente bem perto do nariz. É nesse momento que o cheiro exala. Tente guardar esse cheiro na memória. Só então você pode começar a lê-lo.

  5. Estou lendo um livro de sebo com cheiro de pum. É sério. Não sei por quê, mas achei que valia compartilhar.

  6. A princípio pensei “que perda de tempo, cheirar bolor, porque todo livro acaba embolorando”… Mas pensando bem, eu sei o cheiro de vários dos meus livros. Devo cheirá-los sem saber. Não sei porque prefiro o cheiro do papel couchê. Embora respeite os amarelados, com disseram acima, acho que prefiro os novinhos e fresquinhos…
    Adorei os comentários do Raphael… aromas simplesmente nos transportam imediatamente para as imagens associadas a eles… um filme, várias sensações e sentimentos.
    A memória olfativa é muito mais intensa e instintiva do que podemos imaginar…

  7. Estou, por um lado, chorando de rir. Por outro, feliz de ver que 81% dos brasileiros cheiram livros, eu incluso. E não só cheiro, mas aliso a capa, aliso as páginas, primeira linha que leio é a linha de característica do papel. Ah…um papel pólen, 80 g/m²

  8. A matéria é bem interessante , quanto ao hábito não posso praticar , minha rinite não permite

  9. Um amigo sempre me repreendeu por cheirar os seus livros quando me emprestava, haha.
    Ele não sabia que cada cheiro que sentia era uma fotografia olfativa daquelas páginas, que anos depois, ainda poderiam ser completamente lembradas em seu clima e sutilezas simplesmente cheirando de novo.

  10. Será que a Rachel é taurina? Hahahaha! Dizem que taurinos é que gostam de prestar atenção nas sensações olfativas.

    Eu ainda não tenho um e-reader nem um tablet, mas quero ter um, e gosto do seu advento, pois acredito que quem lê pouco vai ler mais, e que quem não lê nada é capaz de começar a ler alguma coisa. Para quem é leitor voraz é que não faz diferença – ou faz, preferem os livros!

    Apesar disso, também adoro cheirar meus livros – novos ou não. E sentir a textura da capa e das páginas. Ah, livros com páginas amareladas impõem a mim mais respeito. Um mesmo título recém saído da gráfica não me impressiona tanto quanto um amarelado. Dá a impressão de que ele é mais experiente, já foi lido por outras pessoas, já emocionou, já foi abandonado na metade, já passou anos dividindo a estante com outros do mesmo porte (você não vai encontrar um Tolstoi solitário em meio a vários Zíbias Gasparettos…). É um livro vivido! É como a minha mãe dizendo “Respeite meus cabelos brancos”. Engraçada a relação da cor com o tempo…

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