Por Carol Bensimon

(Parte 1 de outras que poderão vir)
Estou escrevendo um novo romance. Não querendo entrar nesse ou naquele detalhe da trama, o que é apropriado dizer agora é que ele deve se parecer com um road movie. Notem que eu estou usando o termo road movie, não road novel, o que pode até parecer ofensivo para alguns, mas há razões para isso. Na história da literatura, há pelo menos um emblemático romance de estrada, e ele se chama On the road. Ironicamente, a obra de Jack Kerouac — para alguns que se debruçam sobre o assunto — parece ser a fundadora não de uma tendência literária, mas de um subgênero do cinema americano, que debutou com Bonnie e Clyde (1967) e Easy rider (1969) e já produziu centenas e centenas de filmes, dos que exalam energia hippie às mais detestáveis produções de apelo comercial. Sim, no meio do caminho há Thelma & Louise. Eu gosto. Muito.
Grosso modo, todos esses filmes parecem muito diferentes entre si, há pessoas pegando a estrada por razões distintas, um casal, um quarteto, um homem solitário, motocicleta, conversível, assassinato, romance, viagem interior, um que precisa entregar um carro no outro extremo dos Estados Unidos, outro que monta num trator para ver o irmão doente. Por outro lado, algumas coisas sempre estão ali, certo? Os motéis e as lanchonetes e os postos de gasolina decrépitos, uma certa inadequação do protagonista, que opta por afastar-se da sociedade (logo, pegar a estrada) e, bem, nenhum deles está tentando chegar no Massachusetts. Todos vão para o oeste.
Oeste. Hm. Isso faz com que alguns teóricos do assunto interpretem a vontade voraz de chegar à Califórnia como uma espécie de conquista do Oeste revisitada, de maneira que os road movies seriam os novos westerns. Com baixo orçamento.
Mas, deixando de lado essas questões específicas de história do cinema e da história americana, as características narrativas dos road movies me atraem totalmente. Como qualquer subgênero, há uma cartilha a ser seguida, mas não de uma forma limitadora; tanto é que autores como David Lynch e Wim Wenders não perderam o seu estilo ao entrar nesse território, e que, se os road movies do fim dos anos 60 transbordavam ideais, os dos anos 80 eram pura ironia e pós-modernismo.
Algumas coisas que a cartilha diz: o carro é o símbolo da liberdade almejada pelos protagonistas. Os protagonistas são desajustados, se colocam à margem da sociedade, cansaram de regras, estão em busca de um novo caminho e de um novo, por que não?, estilo de vida. Roubar e matar pode ser um deles (Bonnie e Clyde, Coração Selvagem), mas nem sempre. Há caminhos mais sutis, que priorizam uma busca “interior” — de certo modo, a transformação da paisagem sempre é acompanhada por uma transformação do protagonista. A viagem é sempre externa e interna (eu sei, slogans publicitários já disseram isso com outras palavras).
É claro que isso é um tanto ingênuo, a começar pelo papel do carro; se ele é a ferramenta para alcançar a liberdade, levando o protagonista para longe da sua vidinha perfeitamente adaptada às regras sociais, trata-se igualmente de uma peça indispensável na engrenagem que ele tanto despreza. A tentativa de escapar dessa vida pregressa também costuma falhar: a jornada um dia precisa chegar ao fim, e muitas vezes chega de forma trágica. Bonnie e Clyde morrem. O motociclista de Easy Rider morre. Thelma e Louise morrem. O recado foi dado: não há saída.
Tudo isso que acabo de resumir está em Driving Visions — exploring the road movie, de David Laderman.
Essa é a fôrma, além dos próprios filmes, de outras obras teóricas, e sobretudo das viagens que estou fazendo. O que vou colocar dentro da fôrma não cabe dizer agora. Basta informar que nenhuma das duas garotas morrerá no final.
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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.









[...] alguns capítulos do livro que estou escrevendo vão se passar por lá (falo um pouco sobre o livro nesse post). Não se pode, contudo, excluir a possibilidade contrária: a de que escrevo o livro justamente [...]
Acaba de me ocorrer um road movie brasileiro recente: “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, de Karim Aïnouz. O título evidentemente veio de uma frase de para-choque de caminhão. E há também, do mesmo diretor, uma espécie de pré-road movie, “O céu de Suely”, de uma imobilidade dolorida.
Não sei se você está pesquisando referências nacionais, mas talvez seja interessante assistir a esses dois, se é que você ainda não assistiu. De alguma maneira, acho que o nordeste de Aïnouz pode ter algumas semelhanças com o seu Rio Grande do Sul :)
Boas colocações.
Ana Maria, eu acrescentaria que o oeste também é a busca por um clima mais ameno.
Faz alguns anos que vi Little Miss Sunshine (na época que saiu), mas eu lembro de não ter gostado. Tive a impressão de que era um filme travestido de indie, mas que na verdade ele jogava com as mesmas fichas do cinemão americano. Ele é da época daquele filme da menina que fica grávida, né? putz, agora me esqueci o nome. Enfim. Estou citando ele porque também parece se encaixar nessa categoria do falso indie. :) Mas essa é a minha opinião, somente. De qualquer maneira, é sintomático que, como tu disse, ele termine com a família integrada, reforçando valores tradicionais, etc.
Eduardo: Enquanto Agonizo é incrível, acho que já falamos sobre isso. Quanto aos outros, vou anotar aqui e dar uma olhada. Obrigada pelas dicas.
Maira, também adoro Paris Texas. Conhece um outro road movie do Wenders chamado Don’t come knocking (Estrela Solitária)? É igualmente bom.
Carol, como muitos fiquei ansiosa para ler teu livro. Me interessei principalmente pela abordagem da situação sem saida. Me lembrou, incluisive, o Paris, Texas, do Win Wenders, que nem sei se é um Road Movie, mas tem a busca angustiada por fugir de uma sociedae sufocante, que te atormenta e destroi. A personagem não tem como voltar, ele está fora, é melhor pra todos que ele fique fora. Te desejo muitas noites escrevendo.
Já que se arrolam precursores do gênero, considero “Enquanto Agonizo”, do Faulkner uma “road novel”, o que, por si só, me parece revelar o quanto podem ser elásticas as possibilidades da literatura com um pé na estrada.
A literatura norte-americana da última década registrou um aparente aumento na incidência de “road novels”, sobretudo as que flertam com o “american gothic”, como “Speed Queen”, do Stewart O’nan, “Miss Corpus”, do Clay McLeod Chapman, e – ainda que apenas parcialmente – “Monstros Invisíveis”, do Chuck Palahniuk.
Adorei essa crônica!!! Minhas observações:
1) Já li em algum lugar (acho que era uma análise das letras do Jim Morrison, creio que em The End ele fala algo como “Go west”) que na cultura americana, isso – “go west” – significa “morra”. O oeste simboliza a morte, talvez por ser o lugar onde “morre” o sol, a luz, o dia, a esperança… E também por causa da história americana (o sol se põe nooeste em todo o mundo,afinal!), já que nessa corrida muitos americanos morreram. Eu acho que faz sentido e vai ao encontro da tua observação – ou do autor que mencionaste – sobre tantas personagens morrerem nas suas viagens para o oeste.
2) Por outro lado, o Little Miss Sunshine é um road movie que termina muuuuito bem (a família reintegrada, com valores e sentimentos nos lugares certos). E esse teu texto me fez acrescentar mais uma interpretação ao filme: se ir para o oeste significa libertação das convenções do leste burocrático, consumista, “confortável”, inglês (13 colônias etc), o filme em questão nega esse mito, já que o que se vê é um show de horrores – com aquelas menininhas travestidas de bonecas-putas – e de hipocrisia – já que o strip-tease de Olive foi reprovado pela plateia. Foi uma viagem para conferir que o lugar e a situação de origem são melhores que os de destino, e que é melhor retornar.
3)Essa coisa de querer fugir do “sistema” usando parte de sua engrenagem (o carro) só corrobora com a ideia de que não se pode romper com uma estrutura prescindindo dela (aquela coisa de não poder fazer ficção sem elementos de realidade etc). Para nossos novos destinos, novas maneiras de ser, novos estilos de vida, sempre teremos de levar algo da nossa etapa anterior. Mas isso também me faz pensar na social-democracia, que, nos moldes pensados por seus criadores, deu errado. Quer dizer, pelo menos em política, essa coisa de querer fazer um mundo de esquerda a partir das regras da direita deu em promiscuidade. Não sei se isso não pode ser levado para outras esferas da vida. Aquela coisa “Agora sou vegana, não uso nada de couro animal”, mas usa couro sintético, que é feito a base de petróleo, que etc etc etc.
4) Ninguém mencionou aqui, então faço-o eu: um dos meus road movies favoritos é Flores Partidas.
5) EU ADORO VIAJAR DE CARRO!!!!
Também gosto de road movies!
Adoro “Thelma e Louise” e também “Um beijo roubado”, do Kar-Wai.
Estou curiosa para ler o livro que está escrevendo e também os outros dois. Vou aproveitar as férias que se aproximam para ler.
“As minhas meninas, de toda a maneira, não vão passar as fronteiras do Rio Grande do Sul. Certamente serei xingada por isso.” >> hahahaha! De minha parte, certamente, não. Eu gosto daí.
É, Nina, eu podia ter citado o Lolita que, embora não seja examente uma road novel de cabo a rabo, é um dos meus livros favoritos de todos os tempos. :)
Sergio: gosto muito também de Na Natureza Selvagem. Fui atrás do livro depois de ver o filme.