Três Mazzucchelli

Por Érico Assis

Zê-zê, cê-cê, ele-ele. Não é difícil aprender a grafia correta do sobrenome do autor de Asterios Polyp, David Mazzucchelli, comparada à dificuldade que é entender sua carreira. De desenhista de super-herói com ascensão meteórica (e vamos falar mais sobre meteoros) a autor de graphic novel-arte, foram mais de duas décadas. É como se um ator sumido das novelas da Globo ressurgisse com glórias no teatro francês.

Mas muitos anos de poucas páginas, se comparado aos raros nomes nos quadrinhos que conseguiram fazer essa transição. E seu “sumiço” — nem uma página publicada durante nove anos — deixa a história ainda mais estranha. Três páginas mazzucchellianas talvez ajudem a contar essa trajetória.

Estudante de pintura apaixonado por quadrinhos, Mazzucchelli tentou a sorte nas poderosas editoras de quadrinhos dos EUA, Marvel e DC, aos 20 anos. Aos 24, trabalhava numa série mensal: do Demolidor, o herói cego com roupa de demônio conhecido pelas histórias com tom noir, principalmente as que Frank Miller escreveu e desenhou no início dos anos 80. Na segunda metade da década, Miller, no auge da fama, topou voltar à série só como roteirista, mantendo os desenhos com Mazzucchelli.
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A sequência de histórias conhecida no Brasil como “A queda de Murdock” — onde Matt Murdock, identidade secreta do Demolidor, perde casa, profissão, dinheiro e sanidade, mas dá a volta por cima — é um marco. O artista já tinha todas suas referências de história da arte e dos quadrinhos (Gould, Krigstein, Toth, Kurtzman, Eisner) e deu mais um salto ao entrar no círculo de artistas de Miller — pessoal que se reunia para estudar mangás e bande dessinées importadas sem entender uma palavra de japonês nem de francês. Queriam só entender o traço, a narrativa, como conseguiam contar uma história só nos desenhos.

Miller e Mazzucchelli fariam mais um trabalho juntos: Batman – Ano um, história de referência para todos os bat-quadrinhos, bat-filmes, bat-desenhos animados e bat-videogames que vieram depois. A partir daí, podia fazer o que quisesse. E, por um bom tempo, decidiu repensar se queria mesmo ser quadrinista.

A fama nos gibis de super-herói até atrapalhou. Experimentando novos traços, ele mandou histórias para a revista de vanguarda Raw e foi rejeitado pelo editor Art Spiegelman. Resolveu publicá-las por conta própria. Rubber blanket, a série que lançou em 1991, representava seu ímpeto de fazer qualquer HQ que quisesse, no traço que quisesse, e quando estivesse a fim.
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A primeira edição abria com “Near miss“, um conto de nove páginas sobre Steven Drizzle, homem que abre mão da família, do emprego e da casa ao descobrir que um asteroide passou raspando na Terra: 700 mil quilômetros de distância. “Não quero acabar como os dinossauros”, ele avisa à mãe antes de ir embora, refugiando-se num cânion onde monta sua luneta, aponta para as estrelas e espera.

Mazzucchelli teve reconhecimento internacional com Rubber blanket. Suas histórias eram republicadas na França e na Itália em formato de livro, coisa que nunca aconteceria (e ainda não aconteceu) nos EUA. Art Spiegelman arrependeu-se e convidou-o a participar de uma linha de adaptações de literatura contemporânea para quadrinhos. Mazzucchelli dividiu com Paul Karasik a adaptação de Cidade de vidro, parte da Trilogia de Nova York de Paul Auster. Aí, depois de três edições, parou com a Rubber blanket. E sumiu.

Bom, não exatamente “sumiu”. Ok, Mazzucchelli não é chegado a entrevistas nem a sessões de autógrafo, convenções etc. Mas estava à vista de todos seus alunos na School of Visual Arts, onde ainda leciona, em Nova York (no mesmo departamento de Mark Newgarden, Gary Panter, Peter Kuper, Matt Maden, Jessica Abel, Nick Bertozzi, Klaus Janson). Nos primeiros anos de docência, publicou um e outro conto, por convite, até 2001. Dali em diante, só os alunos o veriam rabiscar.
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Não se sabe quando ele começou Asterios Polyp. Há quem diga que seria a história de Rubber blanket #4, que deveria ter saído lá por 1993. Seja como for, há forte ironia na sucinta descrição de quarta capa em Asterios — ”David Mazzucchelli vem fazendo quadrinhos a vida inteira. Esta é sua primeira graphic novel”. Ele sempre fez HQs que mereciam a prateleira de livraria, querendo livrar-se dos limites de páginas das revistas. Mas nem ele nem o mercado sabiam.

Como já apontou o crítico Craig Fisher, tanto “A queda de Murdock” — o homem que perde quase tudo, mas renasce — quanto Steven Drizzle estão em Asterios Polyp. Steven aparece ainda no primeiro ato, ainda com medo dos asteroides, e Asterios(-des) tranquiliza-o: “um cometa desse tamanho [que extinguiu os dinossauros] só colide com a Terra uma vez a cada cem milhões de anos”. Mas sejam eles cometas, asteroides ou meteoros, ainda vão ter importância na narrativa.

Citando toda sua carreira, conscientemente ou não, Asterios Polyp é estas três décadas da evolução sui generis de Mazzucchelli, e mais. A única semelhança com suas outras obras é o fato de que precisa ser reencontrada na prateleira a cada ano e ser relida. A depender do autor, vai demorar muito até termos algo de novo para superá-la.

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De quarta-feira a domingo, participo do 7º Festival Internacional de Quadrinhos, em Belo Horizonte. Confira a programação aqui: http://fiqbh.com.br/

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/

4 Comentários

  1. [...] a pena ler os textos de Érico Assis e André [...]

  2. [...] de Quadrinho recomenda duas ótimas resenhas sobre o livro: a de Érico Assis, no blog da Companhia das Letras, e a do Delfin, no site Universo HQ. #gallery-1 { margin: auto; } #gallery-1 .gallery-item { [...]

  3. Luis disse:

    O André Conti não tinha prometido um texto sobre o Asterios Polyp quando o livro saísse?

    Ele ficou de explicar melhor os trocadilhos intraduzíveis etc. – lembro bem.

    Esqueceu-se? Lembrem-no disso…

  4. Arthur disse:

    Desde que li (e reli) Asterios Polyp, há mais de um ano, fico me lembrando toda hora para comprar o “Batman Ano Um” e o “Cidade de Vidro”. Depois de ler esse texto, não tem como não ficar morrendo de curiosidade sobre os dois.

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