A maior das transgressões

Por Carol Bensimon


A literatura é uma longa conversa telefônica. Formei essa frase e não tive certeza de ter entendido muito bem. Talvez ela faça sentido mais adiante, pensei, e eram uns dias nos quais os telefonemas compridos e sem propósito me faziam falta, eu pensava muito neles, naquelas horas passadas falando com um amigo da escola, porta do quarto fechada, é muito provável que isso nunca aconteça de novo. A gente sabia os telefones de cor. E hoje em dia eu consulto a agenda e ligo para dar um recado telegráfico. Se desvio do assunto, logo estou me policiando, querendo cortar a mim mesma, certa da minha chatice, porque a pessoa deve estar fazendo outra coisa e eu não quero atrapalhar.

E às vezes eu sento no bar com a pessoa e ela está teclando no blackberry.

(Você tem alguns amigos. Mas o incomoda saber que algumas das velhas amizades — e também as recém-estabelecidas — são de uma burocracia vergonhosa. Vocês perderam a espontaneidade, e não há mais tantas reviravoltas na vida para que se passe duas horas falando sobre elas. Além disso, o medo da exposição vem com a idade e a carreira, qualquer que seja ela.)

Há um cara que eu conheço que disse: não termino de ler um livro há quatro anos. Ele estava sorrindo. Porque o mundo ficou rápido pra cacete e ele adora isso. Ele adora saber 140 caracteres sobre as coisas. Ele adora aderir a uma causa de 5 minutos. E outro dia, em um programa de rádio sobre cinema, uma convidada confessava que não estava assistindo muitos filmes, apenas séries televisivas, pois ultimamente achava difícil se concentrar durante uma hora e meia. Uma hora e meia!

É nesses momentos que fico pensando que talvez a literatura seja a coisa mais transgressora do mundo contemporâneo (já que até o rock se limpou e se coloriu); você pega um livro para ler e essa atitude é um dedo médio levantado para a rapidez de tudo o que acontece à sua volta. Soma-se a isso o fato de que são apenas linhas e linhas de palavras, uma depois da outra. Em um mundo sobrecarregado de imagens, eu diria que sentar na sua poltrona e abrir um romance é algo semelhante a uma experiência psicodélica.

(Ele tem o projeto de ler Em busca do tempo perdido em 2012. Isso é coragem, o mal-estar necessário, a não-aceitação das regras, a desconfiança de que essa história de geração Y é uma meia mentira ou, no mínimo, um lugar horroroso aonde querer se enquadrar.)

Eu nunca disse para vocês, mas eu me formei em publicidade e propaganda. Sentada no cinema, antes de o filme começar, eu vejo um comercial qualquer e penso em que momento da minha trajetória fez sentido que eu trabalhasse na manutenção dos valores que estão aí, e não na crítica a esses valores (mesmo que ninguém me ouça, é uma satisfação). De modo que percebo: você faz literatura não só por amor à literatura, mas para salvar sua vida.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

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56 Comentários

  1. Assim como qualidade se relaciona, sim, com quantidade, teu texto se relaciona, sim, com reflexão sábia e inteligente
    sobre a vida além dos 140 caracteres. Gracias, guria.

  2. Carol,
    INCRÍVEL!!!!!
    Eu simplesmente AMEI o texto e concordo com tudo!
    Hoje, provavelmente, metade das pessoas que entraram aqui não conseguiram se concentrar para ler TODO o texto detalhadamente!
    Como existem pessoas que não conseguem ficar 1hora e Meia, sentadas para assistir um filme! Impressionante!
    DEVEMOS dar uma pausa na correria da vida…ler um livro, terminá-lo rs, assistir a um bom filme ou um desenho animado, e conversar com pessoas bacanas, ao vivo rs ou pelo telefone! Cartas, eu ainda conservo isso, ainda escrevo cartas! rs

    Parabéns

    beijãozão*

  3. Carol,
    Adoro os teus textos e, esse então… maravilhoso.

  4. , muito, muito bom demais mesmo todas estas suas palavras

    , fico cá a pensar um bocado e acabei achando que…

    , bem, bem, deixa para lá, não quero atrapalhar… (rs)

    , parabéns! inté!

  5. Adorei o texto! É exatamente isso!! As coisas estão muito rápidas… e são poucas as pessoas q conseguem enxergar isso de fora… Eu tenho 18 anos e amo ler,leio muito. Para muitos,isso é loucura!

  6. Olha, como vou dizer? Esse seu texto traduz exatamente o que eu sinto. Tá tudo meio estranho, deprimente, rápido demais. Essa metáfora do dedo médio é genial. O pior que quando uma pessoa que é adepta a esse processo tecnológico que atropela as nossas vidas me vê com um livro na mão, ela quer saber se eu sou louco. Quer cutucar minha barba e saber se sou roqueiro. Enfim. O dia não tem mais vinte e quatro horas.

    Abraço.

    P.S.: puta que pariu, que texto genial.

  7. Sei que é uma associação meio livre, mas o “post” me lembra uma frase do Groucho Marx, que diz algo como “a TV é realmente educativa. Toda vez que alguém a liga, vou para o outro cômodo e leio um bom livro”.

  8. Quando criança gostava de ficar sozinho em meu quarto lendo… um dia peguei minha mae conversando com meu pai “este menino deve ter problemas”… Sinto que se eu ficasse trancado em meu quarto jogando videogame como toda criança “normal”, eles não ficariam tão preocupados

  9. Acho que um livro coletando suas crônicas aqui no blog seria uma ótima companhia para uma tarde chuvosa de transgressão.

    Parabéns pelo texto, é muito bom quando alguém consegue colocar em palavras aquilo que sentimos e não conseguimos expressar.

  10. [...] Texto escrito por Carol Bensimon no Blog da Companhia [...]

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