Cotidiano do colunista sem assunto

Por Joca Reiners Terron

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Desperto de uma noite difícil. Não sei se a angústia por não ter assunto para a coluna a ser escrita na manhã seguinte atrapalhou meu sono ou se foi o talharim ao sugo puxado no alho que preparei no jantar passado. Cada vez mais meu aparelho digestivo rejeita o alho, o que é uma droga, pois eu o adoro. Como disse o Raduan Nassar numa entrevista antiga, “muito da literatura não vale um dente de alho.”

Enquanto me aproximo meio alquebrado da mesa da cozinha, sinto o cheiro do café que minha mulher deposita na garrafa térmica. Dou a ela meu oi sofrido, de insone de cara recém lavada. Ela reconhece meus olhos de sonhos desandados. Em nossa casa o café da manhã é parada incontornável do início do dia: o pavio de uma verdadeira revolução pode ser aceso em meio segundo se não houver a pausa do pão com manteiga. É um hábito adorável, esse de minha mulher. Lemos o jornal. Conversamos. Aprendo com ela.

Penso que não fosse o café e eu amanheceria ligando o computador todo santo dia (coisa que faço entre um sorvo e outro). Depois, ao sentar diante da tela, lamento a perda de tempo do café da manhã. “Eu já poderia ter escrito a coluna”, minto para mim mesmo. As duas mãos pousam na escrivaninha e ali ficam, batucando um sambinha fora de ritmo. Penso que é um desperdício de dedos, assassinar o samba em vez de percutir o teclado. Ao reconhecer o absurdo dessa ideia, culpo mais uma vez a noite mal dormida.

O sol da manhã bate na janela. Não resisto, e encosto para dar uma olhada no gramado novo que o jardineiro do condomínio plantou não faz muito. Pegou, está verdejante. As últimas poças d’água da chuva noturna secam na quadra de futebol. Encho outra vez a caneca de café e sinto uma leve taquicardia que não demarca o surgimento de um assunto, mas a hora de pegar leve com o café. Namoro o reflexo do sol na grama com inveja de tamanha fertilidade.

Repasso na memória uns dois ou três temas de emergência que eu gostaria de abordar alguma vez. Literatura, literatura. Que preguiça, quem lê tanta linha? Melhor seria pescar, daí lembro que nunca gostei de pescar. Ao conferir o relógio pela primeira vez, penso na lição de crítica literária recebida de um livreiro na semana passada. Eu tinha separado uns 250 livros, e chamei alguém para avaliá-los. A maioria dos títulos era de autores contemporâneos. Livros muito bons, que iriam embora para que eu possa respirar enquanto trabalho. Depois de um muxoxo que antecipou a facada, o livreiro disse “Não leve a mal, mas estes autores aqui terão de envelhecer uns 20 anos para valer alguma coisa.”

Literatura, literatura. Eu a adoro, mas meu aparelho digestivo não é mais o mesmo. Resolvo colocar umas roupas na máquina de lavar. Pela janela, acompanho o jardineiro em seu trabalho. Naquela mesma entrevista, Raduan Nassar elogiava a agricultura pela qual abandonara os livros ainda nos anos 70, em detrimento da “meleca da especulação intelectual.” Ele fazia uma divertida defesa da integridade existente no ato de preparar a terra e plantar e colher feijão, um valor que não reconhecia na discussão literária. “Olha, eu acho que você precisa apostar no seu projeto para realmente fazer, achar que ele serve para alguma coisa, e eu cheguei à conclusão que não serve para nada. (…) Daí que eu enfatizo a importância da literatura no âmbito pessoal. As melhores recompensas você obtém ali na mesa de trabalho”, ele disse. Observo o jardineiro regar as plantas. Encho a caneca de café. Retorno à pausa.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

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16 Comentários

  1. joca terron disse:

    Pessoal, valeuzão pelos comentários.

    Maria Carolina, conheço o tio Celerino; o Rulfo também usava a seguinte variação da história: quem tinha morrido era o barbeiro dele, responsável por lhe contar as histórias que escrevia. E eu, que raspo a própria cabeça com gilette: como fico?

    Abrazos a todos!

  2. [...] Joca Reiners Terron publicou sua coluna no Blog da Companhia: Cotidiano do colunista sem assunto. Link. Trecho: Eu tinha separado uns 250 livros, e chamei alguém para avaliá-los. A maioria dos [...]

  3. Denise Stucchi disse:

    joca, meu caro…

    invejável a sua ansiedade improdutiva… deu numa escrita alentadora, abrindo imagens sobre a impossibilidade de escrever…ao final, tantos ‘nãos’a si mesmo, revelam-se em permissões a muitos ‘outros’ – a grama, a companheira, os cafés, o livreiro, a pescaria… raduan e o alho, inclusive. parabéns…

  4. Maira Neves disse:

    Passei bons minutos pensando nessas palavras: “Literatura, literatura. Eu a adoro, mas meu aparelho digestivo não é mais o mesmo.”

  5. Maria Carolina-Liv.Cultura. disse:

    estaria você Joca entrando para a seleta turma dos escritores do Não? Tomara que não, de verdade. Mas você deve conhecer a história do Tio Celerino do Juan Rulfo, não conhece?
    Bem, como essa coluna ficou legal, você acabou acertando os que pouco acertam:que escrever que não se tem o que escrever também é escrever..
    Em tempo: eu li o se primeiro livro conforme ‘prometi’ e gostei bastante, e achei de um bom humor que me surpreendeu. Parabéns, 10 anos depois! Um abraço!

  6. Alexandra disse:

    Adorei! Tão pessoal, tão concreto, mostrando mais uma vez que é preciso escrever e assim compartilhar experiências… Abraços,

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