Entre amigos

Por Luiz Schwarcz

Siri Hustvedt, Salman Rushdie, and Paul Auster
Siri Hustvedt, Salman Rushdie, and Paul Auster em 2009 (Foto por Beowulf Sheehan)

Enquanto lia as novas memórias de Salman Rushdie, ainda na Bahia, vi que, entre os amigos que tanto o ajudaram nas horas mais difíceis da perseguição que sofreu, estiveram Paul Auster e Siri Hustvedt. Recordando-me, com saudades, que não via o casal havia muito tempo, me ocorreu convidar Salman, Paul e Siri para jantar durante minha estadia em Nova York. E assim foi, no segundo dia da nossa longa temporada novaiorquina, cá estavam nossos amigos, reunidos tomando um aperitivo conosco, seguido de um longo jantar em um de nossos restaurantes preferidos.

Foi bom encontrar com Salman, com quem mantenho contato frequente, e ver que ele não estava abalado pelos recentes acontecimentos na Índia, onde sofreu inesperadas ameaças, e teve que cancelar sua ida ao Festival Literário de Jaipur. Segundo ele, as ameaças eram, afinal, todas falsas e plantadas para que, de fato, ele não fosse ao evento. Salman, que ficou furioso na ocasião, já conseguia brincar com o fato, mesmo se tratando de um evento tão recente e tão desagradável. Sua batalha por uma vida normal, que parecia encerrada vitoriosamente ― ainda mais depois dele ter colocado um ponto final, ao falar pela primeira vez sobre o assunto em seu novo livro ― se parece com esses pesadelos cíclicos, que voltam quando menos se espera. Escreverei mais sobre o livro de Salman perto da sua publicação.

Siri e Paul não mudaram nada. Os anos que ficamos sem nos ver parecem ter deixado no casal apenas mais marcas de beleza e jovialidade. Paul, que acaba de escrever também um lindo livro de memórias, The winter jounals, não perde a oportunidade de se declarar à esposa e de elogiar o trabalho dela. Siri, além de participar de maneira influente na vida do marido, hoje é escritora muito reconhecida nos meios literários, além de intelectual convidada a simpósios de neurociência e psicanálise. Seu útlimo livro, A mulher trêmula, abriu para ela um novo mundo. Além disso em sua voz e postura, Lili e eu sentimos a firmeza do sucesso finalmente reconhecido. Ela não é mais apenas a mulher por trás do marido genial. Fala de seu trabalho com orgulho, com olhos brilhantes, que a deixam ainda mais bonita.

Foi divertido estar com os três juntos.  Fofocas sobre outros escritores, tão comuns nesses encontros, contadas por Salman e Paul com tanta desenvoltura, abriram a noite de maneira hilária. Divórcios, traições… ― disputas nem sempre muito intelectuais ― fazem parte de nosso mundo, tanto quanto de qualquer outro, e são às vezes até mais divertidas, por causa do (aparente) contraste com a nossa profissão.

Também apareceram algumas divergências na mesa do restaurante ― a mais significativa a respeito da obra de Coetzee, muito mais próximo de Auster do que de Rushdie.

Saímos do jantar, Lili e eu, felizes com o começo tão agradável de nossa vida social em Nova York. A temporada muito mais voltada para o trabalho terá poucos momentos como este. No entanto, a noite, comemorada por todos no passeio final, e nos e-mails que continuamos trocando desde então, já vale a viagem. É bom sentir que os encontros que a literatura promove deixam marcas sinceras entre autores e editores, e que amizades como as que construímos com Salman, Siri e Paul ficam guardadas em nossa memória, bem vivas. Como os bons livros.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

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14 Comentários

  1. Hélia Previatti Ardito

    Boa noite, Luiz. Perdoe-me se o comentário aqui não corresponde a esta matéria,porém não consegui contatá-lo antes. Meu nome é Hélia Previatti Ardito, 52 anos, sou estudante do curso de Pós Graduação em Design Editorial no Senac Lapa Scipião. O tema de meu TCC é o trabalho de Moema Cavalcanti, a quem vou entrevistar esta semana e sobre quem estou colhendo informações, tanto em publicações como também depoimentos de profissionais com quem ela trabalhou. O objetivo de minha pesquisa é analisar o processo criativo de Moema e sua contribuição para o universo editorial contemporâneo. Se vc puder colaborar com minha pesquisa serei muito grata, e naturalmente seu nome será creditado em minha pesquisa.Desde já, agradeço pela sua atenção.Bom fim de semana. Hélia

  2. Quem me dera ter essa oportunidade de conversar com alguns dos melhores escritores de nossa época. Te invejo de maneira benigna daqui, Luiz. Abraços.

  3. Vila-Matas que, sem querer criar polêmica, NÃO está prestando atenção ao discurso do Luiz ( ou se importando com o tamanho da fila que se formou em frente à minha mesa…)

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