Escrever em quadrinhos

Por Érico Assis

Escrever é fácil. Você precisa conhecer o básico de um idioma, encaixar uma palavra depois da outra e torcer para que o leitor entenda o significado. Digite ou pegue uma folha de papel mais lápis, caneta, sangue, suco de limão, lágrimas de anões etc. Minimamente alfabetizado, qualquer um consegue fechar um parágrafo com sentido.

escrever em quadrinhos é uma coisa que me intriga. Quando digo escrever em quadrinhos, estou falando em criar algo que concatene texto e imagens em sequência, para minimamente ser lido e entendido por outro ser.  Tentei algumas vezes com meus bonecos-palito-tortos e vi que é mais complicado do que escrever só com palavrinhas. Você fica mais cabreiro com o tamanho (vai ser uma tira de 3 quadros ou uma graphic novel de 600 páginas?), com qual imagem combina com qual texto, com que lugares a imagem sozinha pode bastar, ou qual precisa de texto para ser entendida, e como começa e termina um quadro, e como é a virada de página, e como equilibrar a composição da página. E como fazer isso ficar legal.

Gosto desse termo “escrever em quadrinhos” porque tem algumas HQs, ou alguns quadrinistas, que fazem isto parecer tão simples quanto colocar uma palavra depois da outra.

Penso nisso quando vejo, por exemplo, esta HQ do Boulet (você pode ler em francês ou inglês). Talvez por saber que ele a concebeu, desenhou e finalizou em 26 horas (num desses desafios de fazer HQ em 24 horas — ele admite que roubou). Em 26 horas, Boulet pensou, estruturou, ritmou, desenhou, compôs cenas e páginas, fez luz e sombra só no traço, criou ícones visuais para explicar a amiga deslumbrante e o autorrebaixamento da amiga simplezinha… E a história é legal.

Com a mesma facilidade que nós escrevemos listas de compras, o Boulet faz pelo menos uma tira genial, direto no nanquim. Ainda nos franceses, há Lewis Trondheim, que gosta de cultivar a persona de quadrinista-que-nunca-para-de-desenhar — além de publicar uns 3 álbuns por ano, ele ainda faz um blog em quadrinhos sobre seu cotidiano (onde publicou recentemente a visita ao Brasil). Quase ultrapassa o nível de escrever em quadrinhos e chega ao de falar em quadrinhos.

Ward Sutton, dos EUA, faz resenhas em quadrinhos de literatura, principalmente não-ficção. Se você pega os cadernos de esboços do Chris Ware, do Art Spiegelman, do Tiago Elcerdo, vê que eles estão constantemente escrevendo em quadrinhos uma ideia, uma experiência, um dia. E tem, é claro, o Laerte, que poderia resumir livros de filosofia em quatro quadros.

Talvez seja aquela coisa das 10 mil horas do Malcolm Gladwell: dez mil horas de prática em uma coisa e o cara será muito bom nessa coisa pelo resto da vida. Como escrever em quadrinhos. Não deixa de ser impressionante. Mas mais impressionante e mais importante é ver que, independente se escrevam com letras, com imagens, com música, ou seja o que for, todos citados acima — e vários outros — têm algo a dizer. Isso é o mais difícil de aprender.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/

  • Facebook
  • Twitter
  • del.icio.us
  • Tumblr
  • Digg
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • MySpace
  • Netvibes
  • Reddit
  • StumbleUpon
  • Technorati
  • RSS

7 Comentários

  1. [...] – Escrever em quadrinhos – Érico Assis divaga sobre o desafio de escrever Histórias em Quadrinhos, no blog da Cia [...]

  2. Gostei da conclusão. Soou como o título de um dos filmes de que menos gosto do Woody Allen: “Igual a tudo na vida”.

    O título é bom ao menos.
    Abraço, seu Érico!
    (Acredita que ainda não tive coragem de tirar sequer o plástico do The Complete Calvin & Hobbes?)

  3. olha, escrever não é fácil não. Fazer quadrinho, então, é fazer cinema sozinho.
    http://garotadistraida.wordpress.com

  4. Com a primeira frase lida do seu texto já me questiono: para quem é fácil? Conhecer a ‘língua’ é um desafio e tanto… Mesmo para quem tem algo a dizer, seja com traços ou palavras, comunicar-se não é uma tarefa muito dificil na minha modesta opinião. Mas concordo que o exercício pode levar a quase perfeição. Gostei das suas palavras embora algumas delas me aflijam!

  5. Tambem me deixa bolado a naturalidade com a qual muitos quadrinista constroem sua linguagem. Faço algumas tiras e toda vez se trata de um parto doloroso. Também muita experiência com a linguagem, arriscando uma ou outra ideia para esperar ver se a mensagem chega…

  6. Concordo com tudo o que foi dito acima, admiro o trabalho dessas pessoas que possuem uma mente abrangente e consegue pensar num grau de 360. Pois pensam e elaboração não só o texto, mas também o desenho, e toda a parte trabalhosa do desenho.

    Fantástico!

  7. Que interessante! Na minha antiga época de quadrinista fazia essa atividade com piestria (uma palavra que acabei de inventar que é o contrário de maestria e deriva de pior). Apesar de não conhecer vários autores/desenhistas citados (minha origem é de comics, mangas e turma da mônica) entendo bem esse poder que algumas pessoas tem de unir desenhos e balões (com algumas variações, claro) e admiro muito.

Deixe seu comentário...