Por Tony Bellotto
Já reparei que crônicas musicais não repercutem muito por aqui. Pelo menos não as minhas crônicas musicais, que versam em geral sobre rock e adjacências. Noto que as crônicas do Luiz sobre música clássica, ou erudita, despertam mais interesse. Mas não muito. Natural, suponho que os frequentadores do blog sejam na maioria gente das letras, e portanto não tão afeita às notas musicais, notadamente as de baixo calão musical, como as produzidas por roqueiros escritores, punk rockers em geral e outros adeptos da filosofia artística do do it yourself.
Mas é que assisti no carnaval ao documentário de Martin Scorsese sobre George Harrison e fiquei chapado. Living in the material world é imperdível por vários motivos, o principal, claro, George Harrison. O homem faz o mais empedernido e militante dos ateus, como eu, querer passar uma tarde no templo Hare Krishna do Itanhangá entoando mantras.
Não bastassem a aura mítica que acompanha qualquer um dos quatro que fizeram parte daquela banda que começa com B, e o específico talento descomunal e por tanto tempo parcialmente eclipsado, George Harrison ainda mostra uma personalidade conflituada e docemente humana, um homem capaz de equilibrar no mesmo semblante a placidez do guru e o esgar do cocainômano. Basta comparar as intros de “Norwegian Wood”, na cítara, e a de “Helter Skelter”, na guitarra, para entender do que falo.
Em sua fugaz passagem pelo mundo material o homem sulcou vinis, praticou jardinagem, frequentou corridas de fórmula 1, trocou de mulher com guitarristas tão bons ou melhores que ele, fumou milhões de cigarros e compôs algumas das melhores canções de todos os tempos, além de ter criado os mais belos solos de slide guitar de que se tem notícia.
Em seu árduo aprendizado espiritual teve de conviver com (e nem sempre tentar resistir a) todas as tentações passíveis de serem experimentadas por um ― não simplesmente “um”, mas “o” por excelência ― rock star rico, famoso e com um sorriso irresistível de menino tímido e desprotegido. Por outro lado, teve também de domar os egos titânicos (ops, olha o ato falho!) e piramidais de John Lennon e Paul McCartney, ao mesmo tempo o Pai, o Filho e o Espírito Santo Amém da música pop do planeta Terra. Haja cigarro.
Fica aqui a dica de que não percam o documentário de jeito nenhum. E para aqueles escritores que ainda encontram no rock alguma forma de consolo ou inspiração, recomendo vivamente como método de construção de texto que observem as pinturas de Jackson Pollock e escutem repetidas vezes alguns dos solos de George Harrison, como o de “Something”, por exemplo. E, claro, que passem uma tarde no templo Hare Krishna mais próximo.
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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.










Tony,
Tem dó:
“O homem faz o mais empedernido e militante dos ateus,”
Ateus emperdenidos e militantes e religiosos empedernidos e militantes, igualmente, gastam a mesma energia mental para manter as suas convicções, e, acabam incomodando, e muito, a si mesmos e os outros.
Um cara tão talentoso esperava que fosse mais leve.
…concordo contigo,Tony!!! Precisamos aproveitar esse rico espaço também com cronicas musicais!!! Afinal os sons assim como as letras nos transportam a caminhos da evolução cultural!!!Foi ótimo ve-lo por aqui!!!
Legal o post ! O rock and roll sempre foi um catalisador contraculturante para mim, como um totem na busca do diferente daquilo que está estabelecido. Infelizmente, ou sei lá, felizmente, o som do Beatles nunca me “bateu”. Talvez pelo fato de eu ter sido brutalmente socado pela fantástica letra Watersiana (‘of course mama’s gonna help build the wall’) seguida pelo imponente e sentimental solo Gilmouriano. Se eu tivesse escutado Beatles primeiro, quem sabe, mas o movimento jamais volta atrás, assim nunca saberemos… Uma banda nacional, e quem termos de rock possui, em minha humilde opinião, as melhores letras já escritas em português Brasileiro é fluminense El Efecto (http://www.elefecto.com.br/museu.htm). O CD de 2007 deles foi praticamente tão escutado por mim quanto o The Wall (e isto são muitas, mas muitas horas mesmo :O). Btw, curto muito a história dos Beatles como aquela do professor de música em comum que Paul e George tiveram e que acreditava que eles não possuíam nenhum talento musical.
Veleu pela aula, Tony. Sou louco por rock, principalmente antigo, mas confesso que da minha guitarra nunca saiu nada que prestava. Creio que eu prefiro mais o estilo do Duane e do Clapton, mas entendi o que você disse em termos de originalidade. Já que estamos falando de guitarras, documentário e Scorsese. Em No Direction Home, o Dylan diz que o Mike Bloomfield foi o grande revolucionário da guitarra elétrica. E poucos falam dele. O mesmo vale para Roy Buchanan, outro monstro pouco comentado, também resgatado pelo Scorsese no final de Os Infiltrados. Para mim não há instrumento mais fascinante que a guitarra elétrica. Abração.
Falando em Rock, os Titãs estão hj no Whiplash. Olha só http://whiplash.net/materias/cds/148987-titas.html.
Fico com o Brian May!