O Brasil em inglês

Por Luiz Schwarcz

Dona Flor e seus dois maridos - 1968 - AlemanhaGabriela, Cravo e Canela - 1988 - EUA

Uma das tarefas mais difíceis da minha profissão é divulgar a literatura brasileira fora do nosso país. A maioria dos editores  nacionais nem considera esta uma de suas obrigações. Há poucos, quase ínfimos, leitores que entendem português trabalhando em editoras de outros países. As decisões pela publicação ou não de um título em português se baseiam em pareceres de leitores externos, em geral tradutores, candidatos a novos trabalhos (e que por isso às vezes são vistos com certa suspeita até por quem os contratou para uma opinião referente ao livro a ser analisado).

Comecei a me envolver diligentemente nesta batalha desde o início da Companhia das Letras.

Por vários motivos. Vamos lá: em primeiro lugar, o editor que normalmente viaja em busca de autores estrangeiros,  e leva consigo seus conterrâneos, demonstra que toma parte da vida literária de seu país. Não é visto apenas como um comprador em busca de oportunidades comerciais. Segundo: ao fazê-lo, o editor fortalece sua ligação com o autor de maneira significativa. O respeito por um editor disposto a falar de livros — mesmo que para colegas que mal querem ouvir sobre a literatura de um outro país — é desta forma sutilmente diferenciado. Até nossa posição como candidatos a comprar determinados livros em outras línguas se fortalece.

Por outro lado, autores que conseguem viver de literatura no Brasil contam-se nos dedos. Nesse sentido, a participação no mercado internacional pode, ainda, contribuir para que nossos escritores tenham mais tempo dedicado exclusivamente à literatura. Eles provavelmente demorarão menos para terminar seus livros, que possivelmente serão melhores, pela dedicação mais concentrada do autor.

Na Companhia das Letras já ajudamos a vender para o mercado externo — em geral em parceria com agentes internacionais — dezenas, ou melhor, talvez uma boa centena de obras. Em muitos casos nossa remuneração direta é nula.

Vale a pena contar que em vários países  um festival de obras de Jorge Amado será lançado ou relançado graças à ação eficiente do mega agente literário Andrew Wylie, que representa junto conosco, e com a família, as obras do autor. Por exemplo: Gabriela, cravo e canela será pela primeira vez publicado na Croácia, na Bulgária e na Sérvia. A Suécia em breve terá O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá (os livros de Jorge Amado estão fora de catálogo no país desde os anos 80). Duas editoras chinesas serão responsáveis pela publicação de seis obras do autor baiano. A descoberta da América sairá na França, e Bahia de Todos os Santos na Espanha.

Milton Hatoum, Bernardo Carvalho, Chico Buarque, Jô Soares, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Paulo Lins, Ana Miranda e, mais recentemente, Daniel Galera, Marçal Aquino, Michel Laub, Carola Saavedra são alguns dos ex-sem teto da literatura brasileira no lado de lá do Atlântico.

Assim, eu não poderia me sentir mais realizado do que hoje, ao encerrar a primeira parte da minha viagem a Londres e Nova York, com algumas ótimas notícias.

Duas propostas da Penguin Press inglesa a historiadores brasileiros, sobre as quais ainda não posso falar, se concretizaram na terra da rainha Elizabeth. Mais alguns passos e provavelmente o sinal verde final será dado, de maneira que os ingleses em três a quatro anos, quem sabe, saberão um pouco mais sobre nossa história.

Jorge Amado, que terá três livros lançados em seu centenário pela Penguin US, sairá também pelo mesmo selo na Inglaterra. Carlos Drummond de Andrade, a depender apenas de detalhes contratuais com a família, será o primeiro poeta brasileiro a ser publicado pela Penguin Classics na Inglaterra, juntamente com a edição americana na prestigiosa Farrar, Straus and Giroux. Novas traduções a cargo de Richard Zenith — o grande tradutor de Fernando Pessoa para o inglês — serão somadas às feitas por Elisabeth Bishop, já clássicas.

Além disso, saio com a promessa, ou melhor, intenção do editor de um dos selos literários mais importantes da Penguin de selecionar um livro brasileiro por ano, entre vários indicados por nós, para publicação em seu catálogo. Falta ainda percorrer um certo caminho para que tudo isso se concretize, mas para quem deixa o reino inglês com essas novidades no bolso, uma expressão antiquada vem bem a calhar: o começo foi alvissareiro! O Brasil está prestes a acontecer na área literária, como está estourando em tantas outras. Há muito interesse pelo nosso país, e os editores e agentes precisam acordar. Falta levar nossos autores conosco, em nossas viagens que antigamente serviam só para comprar.

Termino este texto no avião, não mais na sala de embarque. Em algumas horas aterriso em Nova York. Lá a batalha será bem mais difícil.

P.S.: O trabalho de venda dos direitos brasileiros é comandado na editora pela Ana Paula Hisayama, que conta com a ajuda da Camila, Sofia e Rita, um grupo de moças simpáticas e super eficientes. Ana e suas pupilas já fazem por merecer um “quem é quem” em uma mais que justa homenagem.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

12 Comentários

  1. Boa sorte!
    Tenho lembrado de você e estou na torcida pela recuperação do Rui Castro.
    Um forte abraço, Elianne(sumida, mas nem tanto, viu?)

  2. Bucker disse:

    trabalho nobre feito com paixão… emocionante.

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