O escritor anônimo

Por Joca Reiners Terron

A recente polêmica entre Paul Auster e o premiê turco Recep Tayyip Erdogan requentou uma questão que nunca sai de pauta totalmente, a desimportância crescente — ao menos desde o funeral de Victor Hugo em maio de 1885 — da dimensão social do escritor. De fato, o corpo de Hugo exposto no Arco do Triunfo atraiu um milhão de pessoas para homenageá-lo. Antes disso, no dia de sua morte, as putas de Paris entraram em greve. A partir dessas demonstrações de amor inabalável e irrestrito, a moral dos escritores deslizou tobogã abaixo.

Ao mesmo tempo que findou uma era, porém, o enterro de Victor Hugo marcou o início de outra tão importante quanto: o da metamorfose do intelectual público em astro do rock. Tá bem, não precisa me alertar aí na caixa de comentários que o rock nasceria somente em meados do século seguinte, pois já sei disso. Isto posto, e desprezando a cronologia dos feitos, penso que é isso mesmo, o rock and roll deu nova forma ao homem público, seja ele escritor ou não, e até políticos — Obama cantando “Sweet home Chicago”, Bill Clinton e seu sax erótico, Nicolas Sarkozy e sua primeira dama pop — tiveram de se adaptar.

Os beats contribuíram muito para a mudança de paradigma, e a carreira de Allen Ginsberg e William Burroughs esteve, desde as leituras concorridas da Six Gallery na São Francisco de 1955 (um ano depois de Elvis gravar “That’s all right, mama”), ligada a esse universo de representação. Então, quando um garoto pega um exemplar de On the road e diz “vou ser um escritor como Jack Kerouac”, ele, na verdade, está dizendo: “vou ser um escritor com aura de astro do rock feito o Kerouac.” A transformação pública dos intelectuais evoluiu de tal maneira a ponto de vermos o oposto suceder, e ídolos pop feito Sting e Bono vestirem o cocar indígena de políticos em permanente campanha.

Contudo, a conclamação geral promovida por mercado e público para que cada vez mais escritores contribuam socialmente com performances em lugar de livros, como já avaliei aqui, tem sua contrapartida no isolamento de J.D. Salinger, Thomas Pynchon, Raduan Nassar e Dalton Trevisan. O comportamento ermitão desses escritores é uma contribuição sui generis do meio literário e de nenhum outro, tenho impressão, não fazendo escola nos demais setores: é de duvidar, por exemplo, que estrelas da música ou políticos queiram desaparecer intencionalmente por décadas do escrutínio público, muitíssimo pelo contrário.

J.P. Zooey, um escritor argentino de 39 anos, preferiu seguir a trilha salingeriana a partir do pseudônimo que escolheu para assinar seus dois livros publicados, Sol artificial, de 2009, e Los electrocutados, de 2011, e até o momento tem conseguido preservar o anonimato, o que é, por si só — nos tempos que correm —, admirável. Além disso tem os livros. O primeiro, uma coletânea de narrativas curtas que se apoiam em formatos incomuns à ficção, como a publicação acadêmico-científica, entrevistas, ensaios etc, foi festejado por Beatriz Sarlo no semanário Perfil. No artigo, Sarlo afirma que “o nome do autor à frente de um livro novo tranquiliza ao menos uma incógnita. Quando um livro é assinado com pseudônimo, o terreno incerto do ‘novo’ se torna ainda mais incerto. Por outro lado, o pseudônimo desestabiliza os demais dados que o livro ofereça, as notícias biográficas, por exemplo. Quem escolheu o pseudônimo também pode ter inventado uma ‘vida’ e resumi-la em algumas linhas falsas.”

E isso Zooey fez: Sol artificial inicia com uma carta recebida pelo narrador J.P. Zooey e enviada por um tal “J.P. Zooey” cinco anos atrás. No envelope há uma coletânea de textos, que são publicados a seguir. A missiva tem a função de lembrar o “destinatário” futuro de suas crenças e compromissos do passado como se ele fosse uma criança recém saída de um coma. É divertidíssima, então eis um trecho:

Tenho algumas coisas a te ensinar, a carta continuava:

1) Você é uma coisa viva.

1.1) Você está num planeta chamado Terra junto com outras coisas vivas.

1.2) O Universo que está em cima da tua cabeça funciona com as leis mecânicas de um relógio, e não tem mais vida que um monte de pesos, contrapesos e polias.

1.3) Até onde sabemos o Universo é uma imensa máquina sem vida.

1.4) A existência viva, em meio a um Universo carente de vida, é um desafio à imensidão muito difícil de suportar.

1.5) Existir nessas condições cansa e angustia.

1.6) Respire.

1.7) Expire.

E assim vai, num misto de literatura de ideias em tom apocalíptico de revista científica e humor lírico digno de Kurt Vonnegut. Como Los electrocutados, o segundo livro recém lançado na Espanha (a conquista mundial começou) é ainda melhor, exige um texto só para ele, então paro por aqui e relato como os livros e o anonimato de Zooey incendiaram minha imaginação nos últimos meses: depois de lê-los, conjecturei quem seria o verdadeiro autor. Considerei que, graças à verve vonnegutiana, podia ser Rodrigo Fresán tirando um sarro da cara dos compatriotas (depois de fazer sucesso na Espanha, Fresán adquiriu popularidade inversa em sua terra natal). A ideia não era má, entretanto terminei cruzando informações que obtive — e um bom detetive não revela métodos e fontes — e descobrindo, meio sem querer, a identidade do escritor. Informado por um amigo argentino a respeito da lealdade com que o segredo era tratado no meio literário portenho, sosseguei o facho e apaguei o tuíte no qual cometia a indiscrição. A dignidade do anonimato — ainda que se desdobre em publicidade viral ou astroturfing — obrigou a nobreza. Longa vida a J.P. Zooey!

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

7 Comentários

  1. joca terron disse:

    Oi, Françoso

    Discordar é positivo, claro, mas não vale distorcer o que afirmei para justificar sua discordância, ok? Eu não afirmei que On The Road é um livro “rock”, releia o texto. Por falar nisso, adoro o livro. Outra: no enterro de Havel havia gente assim como no de Victor Hugo, mas não esqueçamos que os dois (além de escritores) eram políticos profissionais. E não tem nada demais em gostar de Michael Jackson, que era um gênio da música popular, porém quanto à desimportância atual do escritor na vida contemporânea, bem, meu amigo, aí sou quem discordo de você.

    Saudações

  2. André Françoso disse:

    O Havel se não me engano escreveu até 2007 e no enterro do cara até que tinha umas pessoas, viu. Se brasileiro gosta do Michael Jackson é problema nosso, mas dizer que a literatura está ficando socialmente desimportante não pode estar correto. E essa coisa de dizer que o On the Road é um livro “rock’n’roll” não faz jus à amplitude da obra e priva diversos leitores do contato com um dos mais belos tratados sobre a amizade já escritos. Quanto ao anonimato, teve também o B.Traven, que escreveu algumas coisas interessantes.

  3. Arthur disse:

    Apenas hoje que consegui ler o texto. Massa, Joca.

    Interessantes os paralelos encontrados por d.

    Acho que já houve um tempo em que eu me interessaria pelo ‘scoop’ de saber quem é o anônimo. Hoje, no entanto, respeito mais e mais essa postura.

    Abraço!

  4. joca terron disse:

    “d”, juro que os livros do Zooey são muito interessantes, arriscados, repletos de idéias inovadoras e de um lirismo meio torto. Senão eu nem citaria.

    Rody, talvez o texto não seja tão bacana assim. Mas obrigado pela leitura (e pelo comentário).

    Aliás, tá faltando um “coisas” ali em cima, na citação do Zooey (depois de “Tenho algumas” e antes de “a te ensinar”.

    No mais, vamoQvamo!

  5. d disse:

    A inspiração em JD Salinger está em:
    – Reclusão (se for o caso).
    – O sobrenome do pseudônimo(Zooey).
    – O nome do pseudônimo (J.P., como um J.D.)
    – O envio de cartas com orientações sobre a vida.

    Ou seja, me parece uma brincadeira modelada dentro de um arquétipo conhecido. Mas se for bom…

  6. Rody Cáceres disse:

    Olá Joca! Vou comentar só por que vi que ninguém comentou: baita texto cara, gosto muito do teu estilo. Li “Não há nada lá” nestas férias e entrou direto para minha lista de livros “chapantes”. Parabéns pelo trabalho!

    Sinceramente, não entendi o motivo da falta de comentários neste ótimo texto.

    “Existir nessas condições cansa e angustia.”

Deixe seu comentário...





*