Operação Cai Fora!

Por Tony Bellotto

Foujita
(Foto por Franck Mahon)

Há todas aquelas belas histórias sobra a solidão infinita do escritor, do homem que acorda ao amanhecer para escrever e depois se arrasta ao longo do dia ansioso por acordar no dia seguinte e recomeçar a escrever. Da mulher que abdica dos prazeres mundanos e se retira como monja a uma pequena e bucólica praia deserta para dedicar-se às obrigações da literatura. Do poeta louco que se embriaga de vinho a cada noite num bar diferente, fiel apenas aos seus versos e às ruas que o conduzirão até um outro bar na madrugada seguinte. E há os caras normais, os escritores que além de escrever querem levar uma vida normal, com emprego, mulher, filhos, cachorro, cic e rg a dividir sua atenção com a Literatura com éle maiúsculo, essa tirana com cara de Gertrude Stein.

Esses escritores, eu por exemplo, vivem em busca de frestas de solidão e fiapos de silêncio pela casa e quase sempre encontram apenas tv ligada, telefone tocando, esposa a fim de um cinema e amigos dos filhos jogando pingue-pongue no terraço. Se um desses escritores, eu por exemplo, tem a sorte de ser guitarrista de rock ou caixeiro viajante, ou qualquer outra profissão que o obrigue a viajar de vez em quando, ele aproveitará a viagem para finalmente ficar sozinho. Para um escritor não é necessário que escreva, mas que fique sozinho.

Dia desses, aproveitando uma viagem a trabalho para São Paulo, depois de uma tarde ruidosa e “coletiva” despendida num ensaio, aproveitei a noite para ficar sozinho. Botei meu Operação Shylock debaixo do braço e rumei para um japinha conhecido em que só preciso abrir a boca para comer o peixe, já que o sushiman é meu velho amigo e nos comunicamos por telepatia. Mas eis que surge o Chato. Sim, o Chato está à espreita, sempre pronto para demolir a solidão do escritor.

Ainda que no sushi bar houvesse outros lugares, o Chato sentou-se ao meu lado. E ainda que eu não desviasse os olhos das páginas de Philip Roth, ele encontrou espaço para me perguntar: “Que livro é esse?”. “Operação Shylock, do Philip Roth. Conhece?”. “Não. É sobre o quê?”. “É sobre ser judeu”. “Você é judeu?”. “Não. Mas isso não me impede de ler o livro”. Não, claro. O que me impediu de ler o livro foi o Chato, que não parou de falar até mesmo depois de eu me levantar e cair fora. Acho que ele ainda está lá, falando até agora. Da próxima vez vou tentar um iPod desligado, com fones acoplados aos ouvidos.

* * * * *

Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

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27 Comentários

  1. Chatos assim são até que fontes de inspiração, vai: Fala Renata, diga aqui, diga lá! Fala Renata, blábláblá-bláblá!

  2. Mário, o velhinho do Arizona é o meu herói. Que iPod desligado que nada. Um walkman desligado, eis o toque de gênio…

  3. Chatos ignoram respostas monossilábicas! E mesmo entre os letrados, pode crer, poucos se constrangem em interromper alguém que não esteja “fazendo nada” – apenas lendo!
    Sobre a solução dos fones de ouvido, ótimo. Muitos anos atrás, eu estava no Arizona, acho, era interiorzão dos EUA, e parei numa dessas lanchonetes de cinema, à beira da estrada. Apenas a balconista, um velhinho de walkman e eu, que pedi um hambúrguer com coca cola. No meio do lanche, o velhinho levanta, vai até a balconista, pergunta algo como “quanto é”, ela diz, ele paga e sai. E ela pra mim: “Trabalho há 10 anos aqui e todo dia é a mesma coisa. Ele toma uma soda, pergunta quanto é, o preço é o mesmo, ele paga e vai”. Eu ri e comentei algo de ele, ao menos, passar o tempo ouvindo música e ela disse que o walkman vivia desligado. “Ele é surdo e finge que usa o walkman pra ninguém puxar conversa”.

  4. Felizmente tenho a chance de nos fins de semana ficar sozinho em casa. Posso ler bastante. Quando não dá, caminho lendo, ponto de ônibus, rodoviária.

  5. O “Chato” ainda deve estar falando que trocou umas idéias com o Tony Belloto. Se fosse um desconhecido o chato permaneceria silente.

  6. Gustavo,
    Esse sushiman é um filósofo. Profundo o que disse.

  7. A leitura no ônibus, alguém olha para você do outro lado, ou ela pensa que você está mirando as pernas dela através da página ou aquilo por não ser a bíblia é uma perdição. Outra coisa que sempre ocorre são aqueles que vêem você lendo é sentem uma obrigação revolucionaria de ligar algum funk bem alto, afinal as classes altas são pedantes devem pensar!

    No outro extremo, ler em casa tem esses prognósticos datados por você, ainda mais se você é um estudante universitário, trancado no quarto significa vagabundeando “Ah filho já que não esta fazendo nada, que tal capinar o quintal, ou arrumar isso ou aquilo”. Isso eu penso que seja pela não cultura da leitura no Brasil, somos o país da ação não da reflexão [Se minto tente ir em uma biblioteca universitária ou pública de grande movimento e verá uma feira livre].

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