A literatura me deixou

por Luiz Schwarcz

Fico muito feliz quando meus leitores do blog veem alguma qualidade no que escrevo, ou no que escrevi, ainda mais quando acham que estas simples crônicas têm algum valor literário, ou melhor, flertam com a literatura. Agradeço a generosidade dizendo com franqueza: “são vossos bons olhos”. Muitos dos que entram neste blog já o fazem com a pré disposição de gostar. São leitores dos livros da Companhia das Letras, e atribuem os méritos dos autores desta casa a quem os acompanha. É claro que há qualidades importantes e necessárias para o ofício de editor, mas elas não são as mesmas do que aquelas consideradas fundamentais para escrever bem.

De qualquer forma, no meu caso, tenho que reconhecer uma alegria especial ao receber esse tipo de elogio, já que tentei, reincidentemente, virar também um escritor. Hoje sinto que a literatura me deixou, para usar uma expressão que ouvi algumas vezes de Chico Buarque, referindo-se alternadamente à musica ou à literatura, e que se explica pelo constante revezamento entre as formas de expressão artística, que conformam a sua vida.

No meu caso, não se trata de uma força de expressão relativa a um sentimento passageiro, mas um misto de conclusão madura com mania de grandeza — se é que essas duas coisas podem, de alguma forma, estar juntas.

Por um lado, creio que cheguei à conclusão de que sou muito melhor leitor do que escritor, e que não há demérito nisso. Acredito também, pensando agora, com serenidade, que nunca consegui dar o salto para a expressão artística, limitando minha expressão a uma enfadonha temática familiar e a narradores com entonação excessivamente juvenil. A solidão infantil do filho único e a relação com um pai triste marcam tediosamente tudo o que escrevi, ou o que pensei escrever, fazendo com que a simples apropriação da frase que ouvi do Chico seja fruto da mais absoluta mania de grandeza. Se a literatura nunca esteve em mim, como me deixaria?

De qualquer forma, o assunto é bom pretexto para pensar por que em todo o ato de escrever há um sentido de carência afetiva importante. Dos dois lados da mesa pude sentir como não há escritor que não queira, antes de mais nada, ser amado coletivamente. Publicar um livro é expor momentos de absoluta intimidade. É quebrar o silêncio. Nesse contexto, não há como não passar ao texto aspectos pessoais, mais ou menos conscientes, mais ou menos confidenciais. Assim, os romances, os contos e os poemas trazem sempre uma vontade de ser correspondido, por mais vanguardistas, pós modernos, ou herméticos que eles venham a ser. Já vi escritores que escrevem obras dificílimas angustiados por não serem lidos por um número significativo de leitores, como se a obra que realizaram não tivesse um outro tipo de valor e alcance. É comum a vanguarda olhar para a lista de best-sellers com um misto de desprezo e carência.

Não quero dizer que estão certos só os autores que escrevem em direta conexão com o público mais amplo. Pelo contrário, acredito que o diálogo do verdadeiro artista deve ser absolutamente solitário — se dá entre o escritor e sua arte. Só quis dizer que, por motivos obscuros, quando publicamos um livro nem sempre a razão predomina, e as contradições entre carência pessoal, desejo de ser correspondido e a necessidade de expressão artística podem gerar uma curiosa confusão.

Bem sucedidos são os autores que conseguem fazer de sua escrita uma confidência tão bem disfarçada que sua expressão se torna universal. É o que acontece quando lemos um livro e não percebemos o quão pessoal é tudo o que está no papel, ou, ainda, quando achamos que, na verdade, aquela história é mais nossa que do próprio escritor.

O texto que denota a necessidade de compaixão, que expõe incessantemente a solidão do autor — a tal carência que nos bons escritores gera criações fabulosas — tem mais validade como exercício de autoanálise ou de comiseração do que como peça literária. É isso que uma multidão de candidatos a escritor deveria entender. É o que, depois de alguns livros publicados — pela minha própria editora, diga-se de passagem —, eu compreendi.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

27 Comentários

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    Agradecemos.
    “Os autores”

  2. Natalina Jardim disse:

    Lí e apreciei o depoimento do colunista, porque, em muito menores proporções, viajo no mesmo barco. Acredito que nesse desabafo em forma de crônica, haja muito de verdade. Existe um caminho longo demais que aproxime um escritor normal da linguagem usada por um Fiódor Dostoiévski que, do princípio ao fim, atiça o gosto do bom leitor. Esses podem ser contados a dedo. Longe de querer me comparar a um Luiz Schwarcz, mas aproveito o momento para expor o reconhecimento de minha verdade:
    Nunca consegui alcançar qualquer expressão artistica, por simples que fosse, dígna de reparo, nos poucos livros que escreví. Sempre me coloquei, segundo a palavra do jornalista, nos limites da “temática familiar,” ingenuamente narrada. Nunca me soltei em minha maneira de escrever, vítima que sempre fui do preconceito. No entanto, não me entristeço com isso, pelo cont rário, consegui avaliar o ponto que consegui alcançar e me satisfaço plenamente.
    Notei que o cronista está se referindo ao presente, quando fala no passado: “A literatura me deixou.” Se é verdade, deve haver algum motivo para tal. Ou ele é um grande ficcionista que fez da ficção uma ótima crônica no estilo dramático. De qualquer forma, ficção ou não, há que se realçar a tranqüilidade com que declara haver leitores, que, a seu ver, só procuram ler livros que tenham o carimbo de uma grande editora.

  3. Penso que vc fala como editor, no sentido de se cobrar um livro notável. Claro que vc tem nível para ser publicado, mas está abrindo mão, porque não se acha à altura de escrever tal obra-prima. Mas, sendo assim, quantos escritores, brasileiros ou não, mereceriam ser publicados e tentar carreira? O clichê reza que os artistas criam porque precisam, o resto é consequência. Talvez vc não precise (com itálico). Ou melhor, nào queira pagar o preço de tanta exposição, abraço M

  4. Eduardo Castor disse:

    Parabéns Luiz! Seus textos aqui no blog são extremamente lúcidos, e me parece ser uma característica sua. Não será um excesso de lucidez que atrapalhe o Luiz escritor de romances? Mas você escreve muito bem, e a leitura de um texto bem escrito já é um prazer em si.

  5. Adriana de Godoy disse:

    Obrigada a você, Luiz, pelos textos e pela ansiedade gerada em nós até lê-los.
    E obrigada, Rody, pelo elogio e por ter me deixado encabulada. Depois a gente acerta sua comissão…rsrs.
    Abraços a todos.

  6. luiz schwarcz disse:

    Obrigado Tony, Adriana e a todos que escreveram mensagens tão simpáticas. mais uma vez peço desculpas por não agradecerem uma por uma, mas não consigo fazê-lo. Este post teria uma continuação, com uma historia de um conto que nunca escrevi. Não será nesta quinta, mas algum dia eu volto ao assunto, como pura diversão.

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