É bom não ser uma árvore?

por Joca Reiners Terron

(Reprodução)

Existem poucos locais mais adequados para se refletir sobre a vida do que salas de espera de clínicas médicas. Nesses cubículos onde quadros de gosto discutível substituíram as janelas, como nas encruzilhadas, encontramos o desconhecido. Desconhecidos, no plural, na verdade, pois embora cada um de nós tenha sua própria miséria única e indivisível, a desgraça humana galopa em bando.

E assim, enquanto aguardávamos a vez, nos distraíamos com o que estava à mão: o celular incessante do rapaz incomensuravelmente popular que acompanhava a mãe; a mãe, que comentava com apuro cada telefonema recebido pelo filho; a senhora que não desgrudava olhos da tevê; o telejornal e seus repórteres que traziam notícias nada reconfortantes da realidade além da sala de espera justo na hora do almoço.

Enquanto eu conjecturava que é sempre mais satisfatório gastar a hora do almoço almoçando, em vez de perder o apetite na fila do médico, surgiu mais uma personagem: a representante da indústria farmacêutica e sua mala repleta de amostras grátis. Simpática, ela anunciou que furaria a fila, mas não nos roubaria “mais do que dois minutinhos”. Pensei em sondar a possibilidade de um ressarcimento por meio de fármacos experimentais, mas deixei quieto.

Foi então que veio a má notícia: um garoto que aguardava a perua da escola ao lado do pai recebera uma bala perdida de assaltantes em fuga. Não é necessário ressaltar a dimensão horrenda do fato, mas faço isto mesmo assim. Também foi o que fizeram todos os que ali aguardavam, cessando de imediato com suas ligações e divagações urgentes para constatar em uníssono 1) o quão terrível era a notícia; 2) o quão terrível era a pauta única dos telejornais, baseada exclusivamente na transmissão de infortúnios cotidianos da grande cidade.

A senhora disse ao filho: “Esses jornais de hoje em dia despejam sangue”, ao que o filho respondeu: “Tem razão, mãe.” Agarrada à sua mala lotada de amostras, a representante da indústria farmacêutica, alheia ao fato de que poderia abrandar a depressão resultante da notícia que dominava a sala de espera apenas distribuindo alguns comprimidos antidepressivos, afirmou: “É por isso que eu não assisto esses telejornais: pra não ficar deprimida.”

Ao analisar a expressão lívida e o plácido tom de voz da representante, pensei com meus botões que ela não ficaria deprimida nem mesmo se para isto muito se esforçasse. Igualmente pensei que ali naquela salinha apertada havia um resumo do ciclo de existência contemporâneo, uma roda-viva na qual a morte e seu arauto, o telejornal, cumprem papel fundamental.

Em primeiro lugar estávamos nós, as pessoas, pacientes do presente ou do futuro, mas inevitavelmente pacientes. Depois, a sombra fugidia do médico, representada apenas por fiapos de sua voz que nos chegavam entre um conselho e outro fornecido ao felizardo que em muito breve almoçaria (se algum apetite lhe restasse). O médico ausente, a presença da representante comercial da indústria de fármacos e o telejornal trabalham em conjunto para nos relembrar o tempo todo, dia após dia, aquilo que não pode ser esquecido: nós vamos morrer.

“É mais fácil suportar a morte sem pensar nela do que suportar o pensamento da morte sem morrer”, falou e disse Pascal, sem imaginar que a propaganda da inevitabilidade do além atingiria níveis paroxísticos no século 21. Tudo nos lembra o tempo todo de nossa finitude, e me surpreendo pelos intervalos comerciais dos telejornais não serem preenchidos exclusivamente por anúncios de clonazepam. Então o paciente que era atendido saiu, e o médico convocou a sorridente representante que entrou, arrastando sua mala de remédios.

Muito consciente de minha miséria, ao sair dali não perdi o apetite, e devorei um hambúrguer bem gorduroso acompanhado de batatas fritas.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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5 Comentários

  1. Alencar disse:

    Antes de ler o texto havia lido a sinopse de um livro do mesmo autor, que um amigo disse que estava lendo e ocasionalmente lembrava de mim. Dai fui ver os vídeos. O segundo, de pouco mais de vinte minutos, vi depois, no horário de almoço (há pouco tempo) e me prendeu bastante, a visão e o contanto que você, Joca, se permitiu ter e sentir. Então depois disso me interessei em ler esse texto. Gosto da forma que tu apresenta essas perspectivas. Enfim, era isso. =]

  2. Catarina disse:

    Cheguei aqui nem sei como, vi a foto do barbudo ao lado com um título que me interessou e “clique” quando vi já estava terminando e lamentando o fim do texto.
    Gostei muito :)
    Obrigada.

  3. joca terron disse:

    Valeu, Angélica. Obrigado, Marco.

  4. Marco Severo disse:

    Não consigo vir aqui pra ficar “amando tudo”, “adorando tudo”, soltando purpurina pra tudo que é colunista do blog. Mas confesso que, dessa vez, você conseguiu realmente chamar a minha atenção de uma forma ímpar, Joca. Excelente reflexão, pra lá de contemporânea e até mesmo atemporal. Parabéns!

  5. Angélica disse:

    muito bom, joca.

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