Eu voltei

Por Luiz Schwarcz

(Fotografia de Cindy Sherman)

Recentemente me apropriei de uma música de Roberto Carlos para, num e-mail ao Chico Buarque, pedir desculpas por não ter estado presente na estreia de sua nova temporada paulista, e avisar que havia voltado. Pois é assim que eu me sinto hoje, e poderia estar cantando como o próprio Roberto: “Eu voltei, voltei para ficar…”.

Em muitas viagens, nos últimos anos, me senti cansado da editora, e meu retorno foi sofrido. Antes, o trabalho pesava nas minhas costas, eu me sentia só. Não é como me sinto hoje. A temporada em Londres e Nova York foi boa, aprendi muito. Pude ver como um grande grupo editorial pode se estruturar como uma junção de muitas pequenas editoras, mantendo o espírito livreiro e o amor por suas edições. Assisti a belos concertos e shows. Passeei com a Lili nos fins de semana, por galerias e museus — vimos uma linda exposição de retratos renascentistas no Metropolitan, fotos de Cindy Sherman no MoMA, esculturas pop de John Chamberlain no Gughenheim.

Mas o que eu desejava mesmo, já no fim da estadia, era voltar. As edições de Pedro Nava saíram do forno enquanto eu estava longe, Drummond também. Os festejos começaram esta semana e os preparativos faziam a editora ferver. O fato de poder me ausentar, e acompanhar de longe o que estava acontecendo, é prova da maturidade da Companhia das Letras. Assim, desta vez volto ansioso para compartilhar de perto tudo o que acontece, sem a tradicional preocupação pelo volume de trabalho que me espera. Quero estar aqui para anunciar mais novidades que estão por vir; para participar do lançamento de outras edições que marcarão nossa história, como o primeiro volume da biografia de Getúlio Vargas, escrita por Lira Neto, com publicação prevista para maio.

Ao me sentir tão envolvido, fico pensando se o meu cansaço de outros momentos não teria transparecido nas edições da Companhia. Sempre me faço essa pergunta, esperando que meu interlocutor imaginário me diga que não. De qualquer forma, acho que a alegria da volta agora se fará notar; o trabalho mais coletivo também.

Mas a temporada em Londres e Nova York também deixará saudades. Entre as boas lembranças desses quarenta dias, há duas histórias que gostaria de contar. A primeira parece continuação de um post que escrevi há tempos. Diz respeito a mais uma visita minha a Oliver Sacks. Como já contei, Oliver e eu ficamos amigos, e sempre que vou a Nova York tento visitá-lo. Assim como aconteceu na minha última visita, desta vez Oliver também estava terminando um livro. Estava na fase final da revisão. E, mais uma vez, ele queria muito falar de seu novo livro. Ele me recebeu em sua casa, no prédio vizinho ao do seu escritório, no West Village, bem próximo às instalações da Penguin, onde eu estava trabalhando, e me contou sobre Hallucinations, que será publicado no fim do ano pela Knopf e em novembro de 2012 ou março de 2013 pela Companhia.

Logo de cara me perguntou sobre o título em português. Lembrou que Musicophilia virou Alucinações musicais no Brasil, e imaginou que não repetiríamos a expressão. Pois acho que decidimos em conjunto, sentados perto de seu lindo piano de cauda, que seu novo livro se chamará por aqui A mente perseguida, ou A mente assombrada. É o nome de um dos capítulos e retrata bem o caráter literário das histórias, desse autor que mereceria um post na mesma série “Meus autores preferidos”, como os que dediquei a Borges e Calvino. Pois não é que, depois de discutir questões mais gerais e de me oferecer um café feito por ele mesmo, Sacks me perguntou, de repente, se eu gostaria de ouvi-lo ler um trecho do livro novo? Sem pestanejar, respondi com a cabeça, sem usar a voz, como muitos de seus pacientes.

E foi assim que vi Oliver — sempre muito tímido e um pouco gago ao conversar — se transformar em um brilhante leitor. Saí do pequeno prédio sabendo que aqueles dez minutos haviam valido muitas viagens, e com a sensação de ser um homem de sorte, pelas amizades que construí.

O outro episódio é mais breve e fugaz. Deu-se no evento de confraternização da Penguin US, que acontece todos os anos, em fevereiro, num teatro para mais de 1000 pessoas. Lá os presidentes da empresa — que são dois, um administrativo e uma editorial — apresentam aos funcionários os resultados do ano; comemoram o que deu certo e comentam as tendências e expectativas para o ano que começa. Segue-se um divertido concurso de vídeos feitos pelos funcionários, imitando com graça o Oscar, uma seção de perguntas e respostas, e um sorteio. São distribuídos três prêmios: dois mais estilo brinde, como camisetas e bonés, e o outro pra valer: um ticket aberto da American Airlines, com direito a uma viagem livre pelos Estados Unidos e Caribe. Todos os presentes têm o direito de concorrer, e ganham um papelucho na entrada, com um número que serve como identificação para a hora do sorteio. Como neste ano a sociedade com a Companhia das Letras seria apresentada para todos os funcionários, pediram que eu me sentasse na primeira fila e acenasse quando meu nome fosse citado; o que, confesso, fiz com certa timidez. Na hora do sorteio do grande prêmio, por reflexo, puxei o papelzinho cor de laranja do bolso, ciente do que meu avô certa vez me dissera:

— Nunca ninguém da família ganhou nada de graça, sem trabalhar. Meu neto, sorteio ou loteria não fazem parte do nosso DNA.

Pois desta vez , contrariando o velho Giuseppe, com quem tanto aprendi, o grande prêmio saiu para mim! Olhei para o número, incrédulo, mas de bate-pronto avisei a Susan Kennedy, a presidenta editorial, que sorteassem de novo.

Se um dos meus objetivos era fazer a Companhia conhecida de tantos editores e funcionários da Penguin, as três semanas de trabalho duro talvez tenham rendido menos do que aquele pequeno gesto na festa da empresa. A partir de então, todos me cumprimentavam e agradeciam a generosidade: “what a gentleman!”, diziam. Passaram a me chamar nos corredores do escritório, nos dias que se seguiram, pelo nome, codinome ou apelido, como se eu fosse íntimo de todos da casa desde que nasci.

Premiado no sorteio e contemplado com uma leitura particular do novo livro de um de meus ídolos, volto ao Brasil para compartilhar minha sorte com vocês, leitores deste blog.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

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15 Comentários

  1. Eliana Guerra disse:

    Oi Luiz
    Um ano de 2013 de muitas realizações para todos da companhia das letras!!
    Aprecio as obras de Oliver Sacks… havia lido a reportagem sobre seu próximo livro na Piauí e venho acompanhando as novas ediçoes no mercado brasileiro com certa ansiosidade… você teria notícias alvissareiras sobre este novo livro para nos alegrar no alvorecer deste novo ano?

  2. [...] meus diálogos musicais (ou seriam jam sessions literárias?) com o Luiz, ao ler aqui Eu Voltei, lembrei de uma história interessante a respeito da canção O Portão, de Roberto e Erasmo, de [...]

  3. Rogério disse:

    “Eu voltei, agora é prá ficar, porque aqui,
    aqui (Cachoeiro do Itapemirim) é o meu lugar.
    Eu voltei para as coisas que eu sei…”
    Inspirada em Cachoeiro, Roberto nunca mais voltou para Cachoeiro. Só para visitar.
    Acho que você não escolheu por acaso essa música.
    Abraço.

  4. Nina Vieira disse:

    Luiz,
    na livraria em que trabalho chegaram as obras de Pedro Nava e o Drummond (que eu coloquei juntinho, em uma mesa de autores nacionais, que ficou ótimo e super destacado). Parabéns pelo retorno. Até breve.

  5. Luiz Schwarcz disse:

    Obrigado Rosana e obrigado a tantos que como ela não tive o prazer de conhecer e que tem mandado mensagens tão simpáticas. Desejo ótima feira de Bologna a todos colegas. Espero um dia acompanhar minha filha neste evento tão tradicional.

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