Garoto e garota sentados lado a lado, assistindo a chuva cair

Por Érico Assis

Fazendo pesquisa para uma tradução, dei de cara com um trecho de Seduction of the innocent — aquele livrinho polêmico do Fredric Wertham, ponto alto do pânico com os quadrinhos nos EUA dos anos 50 — que nunca tinha lido e que, pasmem, tem o Wertham definindo para todos nós o que é literatura. E, por conseguinte, o que os quadrinhos não são. É de uma meiguice ímpar.

Para advertir uma criança contra as revistas em quadrinhos, é preciso que você explique seus motivos. Por exemplo, uma garota de dez anos vinda de lar culto e letrado me perguntou porque eu considerava nocivo ler Mulher-Maravilha (um gibi que descobrimos ser dos mais prejudiciais). Em casa ela convivia com vários livros, e me apoiei neste fato para explicar o que são boas histórias e bons livros. “Suponhamos”, eu disse a ela, “que você se acostume a comer sanduíches com temperos muito fortes: cebolas, pimentas e mostarda muito picante. Você vai perder o apetite tanto pelo simples pão com manteiga quanto pela comida mais refinada. O mesmo pode-se dizer de ler revistas em quadrinhos de conteúdo forte. Depois você vai querer ler um bom livro, e ele descreve um garoto e uma garota sentados lado a lado, assistindo a chuva cair. Eles falam sobre si e as páginas do livro descrevem seus pensamentos mais íntimos. Isto é o que chamamos de literatura. Mas você nunca vai ter gosto pela literatura se ficar na expectativa de que, à moda dos quadrinhos, surja alguém que empurre eles pela janela.” Neste caso, a garotinha compreendeu e meu aconselhamento teve êxito.

Em homenagem levemente atrasada aos 30 anos da morte de Dr. Wertham, eu apresento: literatura.

* * * * *

Garoto observa as poças formando-se no pátio. Lembram os buracos de bala no milionário, o caso que o Batman resolveu. Garoto gostaria de ver os buracos na cabeça calva do pai, cuja vida resume-se a café, escritório de contabilidade, noticiário, cama, repetir. Garoto quer um novo papaizinho: rico, atlético, de uniforme colante e colorido. Garoto também teria seu uniforme. Cueca verde, pernas à mostra. Juntos os dois explorariam cavernas, mandariam as vilãs para a cadeia e sairiam pela noite em supercarros, superlanchas, super-helicópteros.

— Chuvão — diz ele.

— É — diz Garota, contando mentalmente com quantos nós ele ficaria bem amarrado. Entre Elizabeth Bennet e Mulher-Maravilha, Garota fica com a segunda. A corda está no armário.

— Sabe o que que é legal? — diz Garoto. — Eu saio assim, vuuuuum, aí eu voo em cima das nuvens, aí a chuva não me pega. Fssshhhh — perdigota ele, com os braços esticados diante do corpo.

Menina revira os olhos. Considera que não pode esquecer a mordaça. Mas lembra que, amordaçado, ele não terá como dizer a verdade que só um laço bem apertado provê. Boas amazonas não precisam de mordaça, só de laço bem apertado. Ou teias, se ela fosse uma Mulher-Aranha. Teias nem iam precisar de nós.

— Prefiro você bem quietinho, aqui embaixo — diz ela.

Doze anos depois, Garoto entenderia resposta de Garota. Vinte anos depois, estariam casados, ele contador, ela médica. Ele ergueria o filho no ar, toalha presa nas costas, os dois voando pelo pátio. Ela faria questão de sempre dar o nó nas gravatas dele e, nos aniversários de casamento, sempre pensaria que Garoto nunca aprendeu a amarrá-la direito. Mas tudo bem, porque a cuequinha verde vale a noite. Cebolas, pimentas e mostardas picantes temperariam vidas um pouco menos ordinárias.

Temperariam. Não chegaram lá. No dia da chuva, Fredric Wertham surge por trás e empurra-os da janela.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
SiteTwitter

  • Facebook
  • Twitter
  • del.icio.us
  • Tumblr
  • Digg
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • MySpace
  • Netvibes
  • Reddit
  • StumbleUpon
  • Technorati
  • RSS

4 Comentários

  1. Neila disse:

    Magnífico!
    Super!

  2. Noah Mera disse:

    Adorei o tratamento do bondage :)

  3. Arthur disse:

    Uma história de amor entre Robin e Mulher Maravilha… Bom, hein?

  4. Lucas disse:

    Érico, me emocionei com a sua coluna. Adoro quadrinhos e os considero também como literatura. Seu texto é sensível, mas firme.

    Adorei mesmo.

    obrigado por tê-lo escrito.

Deixe seu comentário...