Minha primeira vez

Por Carol Bensimon

Todos os livros que, eu lembrava, tinham uma cena de sexo; eu os tirei da estante, fiz uma bonita pilha, depois comecei a folheá-los. Tive a paciência de percorrer páginas e páginas de trama assexuada para finalmente encontrar pessoas na cama. Separei as cenas com marca-páginas, e então li uma seguida da outra. Eram muito diferentes entre si, é claro. As garotas de Ali Smith tinham uma espécie de epifania sexual, e se transformavam em um pássaro, em música, em flechas, em todos os minerais. A cena em Siri Hustvedt era quase um anti-clímax, com direito à boba Lily Dahl dizendo “Estou naqueles dias. Tem importância?”. Havia constrangimento proposital no narrador de Michael Cunningham. Nabokov e Ian McEwan eram insuperáveis em ritmo e sedução nas suas cenas de sexo proibido (homem mais velho e adolescente no primeiro, incesto no segundo. Espero não estar estragando nenhuma surpresa).

Será que até agora eu evitei escrever cenas de sexo?, pensei comigo mesma, fechando o último livro da pilha. Hm. A verdade é que eu nunca precisei das cenas de sexo. Mas agora eu preciso de uma. Eu preciso de uma para a semana que vem.

Então eu continei postergando. Todo mundo sabe que o melhor jeito de postergar é ficar fazendo um pouco de “pesquisa”, até se ter a absoluta certeza de que outros viveram apuros semelhantes. Muito reconfortante. Querem ver? A conceituada UCLA já ofereceu um curso de extensão chamado Writing a sex scene that works. E a revista Literary Review, da Inglaterra, gosta de expôr autores ao ridículo promovendo o Bad Sex Award*. É engraçado, é claro, e muitos escritores têm bom humor suficiente para desejarem ganhar o prêmio, assim como o campeão do sexo ruim de 2011 não se importou em fazer a sua lista do bom sexo na literatura universal; ao mesmo tempo, o quão sacana pode ser tirar cenas de sexo do seu contexto? Parece ridículo que David Mitchell tenha escrito “E então a pele dele brilhou com um suor de leitão assado. E então ela fez um ruído como um Smurf torturado”. No entanto, pareceria tão ridículo se tivéssemos lido o que veio antes e o que veio depois, ou, em outras palavras, se estivéssemos completamente imersos no livro? Talvez.

Eu estou achando desculpas, ok. Além de postergar, agora eu estou achando desculpas para o caso de minha cena de sexo sair muito ruim. Será tão difícil? Respondo prontamente sim e tento enumerar os porquês. 1) É como sair nua em uma revista. 2) Se você usar palavras grosseiras parecerá inadequado, se você usar palavras polidas parecerá inadequado, se você usar palavras científicas parecerá mil vezes pior. 3) Se você usar metáforas, sobretudo para os órgãos sexuais, sobretudo para o orgasmo como ALGO LUMINOSO, será o fim. 4) “Estou dentro dela” é especialmente horrível. 5) Tentar evitar o sexo com uma elipse capenga será prova do seu fracasso como contador de histórias.

Há muito mais o que se falar sobre escrever uma cena de sexo, sobre ler uma cena de sexo, sobre o porquê disso parecer mais complicado que uma cena de morte, que uma cena de reencontro, que uma cena de separação, que uma epifania causada por um biscoito e um gole de chá. No entanto, talvez seja a hora de terminar com uma mensagem encorajadora. Sabe aquele time de futebol que descobre que vai jogar na altitude? Sabe aquele jornal que diz o quão difícil vai ser para esse time ganhar, ou sequer empatar, aquele jogo? Sabe como é de fato jogar na altitude, para além do medo, das desculpas, do sensacionalismo? Eu não sei. Mas dizem que não chega a 10% do horror que parece.

* Autores cultuados, consagrados, canônicos, premiados, queridinhos da mídia também já concorreram ao Bad Sex Award, tais como Philip Roth, Norman Mailer, Jonathan Franzen e Jonathan Littell (esse último foi o vencedor de 2010 com o seu As benevolentes).

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

19 Comentários

  1. Mariana disse:

    Acabei de ler “Todos nós adorávamos caubóis”. Página 133… é, passou no teste, Carol Bensimon. :p

  2. Felipe disse:

    A velha receita pra escrever bem numa história. Entrar nela. E nestes casos, é entrar sem pudores. Imaginar tudo, visualizar…gente, o negócio é prever a história de fato, e sentir ela. Nestes casos, após extensa pesquisa, acreditar em si mesmo e escrever desenfreadamente dá um tom carnal que é único do autor. Ou vocês acham que o autor, ao imaginar mil vezes e escrevê-la, não se excitou?

    O problema é que agora (ainda bem!) as pessoas fazem sexo, refazem, se lambuzam e adoram. Mas ainda as gerações passadas deixaram a braba herança de reter isso às quatro paredes. Falar sobre sexo ainda é tabu, creiam.

    Então é isso. Nestas horas, entre com tudo na história. Na leitura é permitido se apaixonar lendo um romance, ter medo lendo um terror, rir lendo uma comédia e se excitar lendo um erótico. É válido, esqueçam os tabus que ainda sustentam boa parte da arte.

    Depois de superar esta fase de escrita desenfreada, aí sim deve-se voltar à crítica racional e cuidar pra ver se não escreveu nada “luminoso”.

    No más era isso. (:

    FL

  3. Rogério disse:

    Carol,
    A dica fica só entre a gente, é: “Troca de Casais” de John Updike. Tem “thumaço”.

  4. Itanira Heineberg disse:

    Considero muito bem escritas, naturais, e nada chocantes, as cenas de sexo de Jean M. Auel em sua longa saga ” Earth’s Children “.

  5. A maioria das minhas leituras pode ser dividida em dois grupos: livros “para” jovens-adultos e livros “para” mulheres (as aspas são pra indicar a complicada simplicidade que essas categorias pensam dar).
    Então, sempre lido com dois tipos de cenas de sexo: um que quase não existe, quase sempre pontuada por um sentimento de novidade; e outro que existe e quer se mostrar e não tem vergonha de quase nada.
    Encontro palavras, frases e conclusões inadequadas nos dois tipos. Às vezes fico encantada com a singeleza do/a autor/a durante a cena, ao conseguir passar tantos sentimentos bons na leitura. E às vezes fico olhando pra página e me perguntando o que diabos levou o/a autor/a escrever aquilo daquele jeito.

    “Algo luminoso” é realmente o fim!
    E eu gostei da dica da revista inglesa, não conhecia e vou procurar mais informações agora =)

  6. Paulo disse:

    Gosto bastante da sutileza de Verão em Baden-Baden, obra-prima um escritor desconhecido, Leonid Tsípkin.

  7. Gosto muito das cenas de sexo dos livros da Tatiana Salem Levy. Aliás, fico impressionado com a capacidade dela descrever as cenas.

  8. Murilunk disse:

    Para mim, o mestre na narração desse tipo de cena é Rubem Fonseca. E, certeza, eu também já li “As benevolentes”, e o Jonathan Littel consegue, em muitos momentos, ser bizarro. Lembro-me de uma passagem em que o protagonista transa com um tronco de árvore. Coisa de louco.

  9. No Brasil, Caio Fernando Abreu (“Sargento Garcia”), Jorge Amando (sobretudo “Capitães da areia” e “Teresa Batista cansada de guerra”) Hilda Hilt (“O Caderno Rosa de Lori Lamby”) e alguns contos do Luiz Vilela (insinuações, sem cópula, “Suzy” e “Calor”, ambos do livro “A cabeça”).

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