Os Dorian Grays da música

Por Luiz Schwarcz

Um livro que marcou minha juventude foi O retrato de Dorian Gray. Esse, de fato, sem nenhuma ironia, eu gostaria de reler. Uma nova tradução que sai em breve pela Penguin-Companhia aguçou ainda mais minha vontade. Mas quando ler? Trouxe para Nova York um programa de leituras para os momentos em que não estivesse ocupado no escritório da Penguin, decifrando os novos sócios, ou não estivesse online, com os colegas da Companhia no Brasil, acompanhando os preparativos do lançamento das obras de Carlos Drummond de Andrade, ou os últimos detalhes das edições de Pedro Nava.

Já fugi dos planos três vezes: quando comecei as memórias de Paul Auster que mencionei no post da semana passada, quando tive de ler projetos de livros que alguns agentes literários me apresentaram por aqui, e agora para ler um romance de uma grande amigo de um editor, que, por seu lado, é também grande amigo meu. A impossibilidade de continuar numa só leitura, ou nas leituras que fazemos por puro prazer, já está se tornando tema recorrente e monótono destes meus posts. Neste exato momento eu gostaria mesmo é de ler os contos que ainda não li do novo livro de Nathan Englander, What we talk about when we talk about Anne Frank, a grande sensação do momento por estas bandas. Compramos o livro com base na minha leitura de quatro contos e no parecer do Leandro Sarmatz sobre o restante. Nunca pude me entreter com o resto dele.

Mas por enquanto, já que não posso nem terminar o livro de Englander nem voltar a Oscar Wilde, aproveito para comentar sobre duas noites com diferentes Dorian Grays contemporâneos, que tivemos o prazer de assistir por aqui. Peço licença ao Tony, pois para fazê-lo vou entrar na área em que ele é o grande mestre. Vocês logo vão entender.

Semana passada tivemos a chance de ver no palco verdadeiras encarnações atuais de Dorian Gray, dois monstros sagrados que se mantêm (quase) imunes ao tempo, graças menos à vaidade e mais à convivência com a arte, no caso, com a música. Em dois dias seguidos assistimos, no Jazz at the Lincoln Center e no legendário palco do (quase) cafona Radio City Hall, respectivamente, John Mayall e Aretha Franklin.

O primeiro, um mostro sagrado do blues, teve seu espetáculo aberto pelo guitarrista de blues acústico John Hammond — salvo engano o primeiro patrão de Jimi Hendrix. Depois dessa abertura de luxo, John Mayall subiu ao palco com seus 79 anos, de calça jeans justa, tênis e uma vasta cabeleira que acabava num solene rabo de cavalo. Tocou seu piano elétrico, colocado bem ao centro do palco, de costas para um enorme vidro que permitia a visão noturna do Central Park. Cantou e tocou harmônica,  brindando o público com alguns de seus clássicos como “All those heroes”, “Blues for the lost days”, “All your love”, além de faixas de seu novo CD. Sim, um novo CD, um show agitado em curta temporada, no clube mais badalado de jazz em Nova York, com a cenografia monumental do Central Park bem nas suas costas, dançando e cantando com a voz apenas levemente afetada pelo tempo. Alguma semelhança com Dorian Gray?

No dia seguinte fomos, Lili e eu, desta vez com Matinas e Angélica, no Radio City Hall — palco de shows tradicionais — para um show de Aretha Frankin, chamada por todos, com razão, de a “rainha do soul”. Aretha, com seus (oficias) 64 anos, parece uma garota na casa dos vinte cantando “I never loved a man (The way I love you)”,  “(You make me feel like a) Natural woman”, ou improvisando um vocal gospel ao piano, enquanto o coro cantava “Bridge over troubled water”.

O que Dorian Gray procurava encantado por sua beleza e imagem, Aretha e John Mayall encontram na fonte inesgotável do blues e do soul. O tal elixir da juventude se acha na música que sempre pode ser cantada de uma nova maneira, e em tantas novas canções que há para se compor e cantar.

E quem disse que Aretha e Mayall não sentem a mesma vaidade de Dorian Gray ao subirem no palco, ao olharem para o público de braços erguidos, gritando e pedindo mais um bis? Não há nada de errado nisso. Nossos músicos, porém, levam vantagem sobre o contemplativo e solitário Dorian Gray. Vaidosos e imbuídos — como todos nós — do desejo de alcançar a juventude eterna, Mayall e Aretha já sabem proteger seus olhos do brilho excessivo dos refletores, e têm com quem compartilhar fraquezas universais, enquanto cantamos com eles: Never let me go, never let me go…

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

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7 Comentários

  1. E nem é só na música que isso acontece: trazendo a questão de volta aos livros, quantos escritores por aí não se mantêm jovens por causa de sua profissão? É o poder da arte!

  2. Já no campo cinematográfico, incrível mesmo como a melhor versão de Dorian Grey está no filme “A liga extraordinária”, com Sean Connery, não? O livro, em si, é maravilhoso. Abraços.

  3. Beleza! Sua vida é invejável, eu sei, apesar dos pesares:)
    Para ver e curtir:
    http://facesdelaura.blogspot.com/2012/03/morte-e-vida-severina-em-desenho.html
    Um vídeo lindo com o poema Vida e morte Severino.
    Abraços, Elianne
    PS: mudei o nome do blog, agora é Voo Noturno, o nome anterior me incomedava, pensava que não poderia mudar…
    http://facesdelaura.blogspot.com/

  4. Cara, esses textos sobre música e literatura matam a pau! Avisa para o Tony que o lance é esse, e que ele tá sabendo. kkkk!

    Abraços!

  5. Na boa. Estou babando aqui ainda.
    Fiquei arrepiada ao ler o texto, aaah como eu queria conhecer pessoas que gostam de Jazz e Blues e ainda, ter algum lugar decente aqui no Rio de Janeiro para shows.
    Quem sabe um dia, eu dê uma sorte dessas! =)
    Beijão!
    Camila Leite

    @sonhospontinhos
    http://www.sonhosentrepontinhos.com

  6. INVEJA! é, feio eu sei, mas na boa, é o que senti ao ver essa foto, amaria ver um show desse, acho John Mayall simplesmente magnifico, tive o prazer de ver apenas 1 show dele e amei do inicio ao fim, agora ele + Aretha, caramba, é para poucos

    obrigada por compartilhar :) e parabens pelo gosto musical
    bjs

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